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Estamos a 25 minutos das 17h, a altura em que começa a tarde em direto. Também às 17h vamos atualizar toda a informação, a essa hora já com o João Alexandre. Mas para já, vamos olhar os representantes do Conselho Português das Igrejas Cristãs. Estão preocupados com a falta de orientações e enviaram na semana passada uma carta ao governo a pedir esclarecimentos sobre a reabertura das igrejas. Acusam o executivo de ter definido as recomendações sem escutar as minorias religiosas e por isso mesmo é nosso convidado esta tarde, Jorge Pina Cabral, bispo da Igreja Anglicana, presidente do Conselho Português das Igrejas Cristãs. Muito boa tarde e obrigado por estar com a Rádio Observador.
Obrigado. Boa tarde.
Junta-se também a esta entrevista o jornalista do Observador, João Francisco Gomes, e também o Miguel Videra, que está aqui em estúdio conosco. Mas começamos com o bispo Jorge Pina Cabral. Afinal, o que pediram ao governo nesta carta?
Olha, o que pedimos foi tão simples: a indicação de orientações para a reabertura dos templos das igrejas, na medida em que, ao nível das igrejas do COPIC, são mais de uma centena os templos que existem de norte a sul do país. Soubemos, em termos públicos, que as igrejas iriam reabrir e queríamos tão só ter orientações e também poder contribuir para a definição dessas orientações, dado que tudo aquilo que ouvimos vem apenas através dos órgãos de comunicação social. E por isso, com o aproximar do tempo, começa-se a sentir uma certa inquietação, dado que a própria Direção-Geral de Saúde, a quem dirigimos a carta, realmente ainda não nos respondeu.
Estava a dizer que são mais de 100 templos por todo o país. Estamos a falar de quantas pessoas que são fiéis dessas várias igrejas do protestantismo histórico que são representadas pelo COPIC?
Sim, o COPIC representa a Igreja Lusitana, a Igreja Metodista, a Igreja Presbiteriana e ainda a Igreja Evangélica Alemã do Porto. Estamos a falar de vários milhares de pessoas que se reúnem em templos, é certo na sua grande maioria templos históricos situados em diversas cidades, mas em muitos casos também templos, por exemplo, em salas, em rés-do-chão de prédios, enfim, espaços que trazem por si algum tipo também de preocupação relativamente à própria reabertura. E por isso estamos a falar de uma realidade que não pode ser ignorada e de uma realidade que tem que ser tida em conta. Aliás, ficamos muito admirados porque a Igreja Católica Romana já tornou público um conjunto de procedimentos para a reabertura dos seus templos e nós questionamo-nos como é que o fez. Se o fez em diálogo com a Direção-Geral de Saúde, naturalmente deve ter feito, mas se o fez, por que a Direção-Geral de Saúde também não abriu esse diálogo a outras confissões religiosas?
Estas regras já anunciadas pela Igreja Católica podem ser de aplicação universal ou há necessidade de atender as especificidades de algumas confissões?
Naturalmente, tem que se atender à especificidade, porque os ritos de culto são diferentes de igreja para igreja. Por exemplo, no contexto da Igreja Católica Romana, um elemento que mereceu muito cuidado foi, por exemplo, o elemento da distribuição da comunhão. Ora, no caso da Igreja Lusitana, também procedemos semanalmente à distribuição da comunhão e esse ato só por si levanta realmente um conjunto de cuidados. Mas há outras igrejas que o fazem uma vez por mês e naturalmente têm também um outro tipo de procedimentos nos seus ritos religiosos. Portanto, esta especificidade ritual de cada igreja, e eu até diria de cada religião, porque a questão aqui não está só relativamente às igrejas cristãs, mas também às próprias religiões, esta especificidade tem que ser tida em conta. Ora, para ser tida em conta, a quem de direito tem que ouvir, tem que perceber. E por isso nós estamos um pouco perplexos perante aquilo que vamos ouvindo, aquilo que do lado da Igreja Católica Romana vai sendo dito. E por outro lado, o senhor Primeiro-Ministro também disse que iria receber e ouvir as outras confissões religiosas, o que é certo é que até à data nada aconteceu, pelo menos da nossa parte. Nós não tivemos conhecimento e penso que também com outras confissões tal também não aconteceu.
Parece-lhe que a forma como o governo está a lidar com esta situação concreta relativamente ao Covid-19 é sintoma também de uma forma mais genérica, como há uma discriminação entre a religião majoritária e as confissões minoritárias e outras religiões em Portugal. Portanto, isto é um problema recorrente ou está-se a notar mais particularmente nesta situação?
Ora bem, eu diria que não é uma discriminação, mas eu diria que é um tratamento desigual. E o tratamento desigual numa sociedade laica, em que a Lei da Liberdade Religiosa reconhece a existência de uma pluralidade de religiões e de igrejas em Portugal, esse tratamento preferencial, e nomeadamente num contexto tão sensível Como estamos a dizer, pode e é mal interpretado, porque as outras igrejas e as outras religiões representam já em Portugal uma larga margem da população. Portanto, uma margem significativa de cidadãos, de comunidades que, tal como as restantes, estão também empenhadas em seguir as observações do governo e em cumprir e em colaborar para o controle e o fim desta pandemia. Ora bem, se começa-se a perceber que há um tratamento preferencial em relação a uma determinada igreja, que naturalmente tem que ser tida em conta a sua dimensão relativamente às demais, mas esse tratamento preferencial não pode obliterar o tratamento com as outras confissões e com os seus responsáveis. Ora, as minorias religiosas não é o número, poderemos dizer assim, que expressa o seu valor e a sua importância na sociedade. É aquilo que elas representam e que significam. E nesse sentido, um Estado laico tem que atender naturalmente a esta diversidade. E estranhamos também que a Comissão da Liberdade Religiosa ainda não se tenha pronunciado sobre este facto e que não haja aqui realmente um tratamento por igual. Por igual, respeitando, naturalmente, as realidades diversas de cada situação. É tão só isso. Eu acho que não há uma discriminação, acho é que está a haver um tratamento diferencial que está a criar naturalmente sensibilidades diferentes e está-nos a preocupar.
Já disse que a Direção-Geral de Saúde ainda não deu resposta a esta e outras preocupações expressas na carta enviada a semana passada. Até quando é que precisam de receber essas orientações, de forma que os vossos templos possam abrir portas no final do mês?
Pois, exatamente. Repare, naturalmente que a Direção-Geral de Saúde irá dar indicações gerais que são importantes. Mas depois nós teremos que as complementar, tendo em conta a realidade de cada igreja, de cada rito religioso, de cada prática. Ora, isso depois tem que, naturalmente, ser dado a conhecer àqueles que são os responsáveis das igrejas e nomeadamente aos ministros de culto. E depois, naturalmente, tem que ser dado a conhecer ao próprio povo e às comunidades das igrejas. E portanto, há aqui várias fases de tratamento, de análise e de reflexão conjunta que não se compadecem, que requerem tempo e que requerem reflexão e que implicam que tudo isto já deveria estar naturalmente no terreno.
E até aqui as vossas igrejas têm estado abertas ou têm arranjado formas alternativas para promover o culto?
Exatamente. Têm estado fechadas e até é importante dizer: as igrejas do COPIC e algumas igrejas do COPIC até foram das primeiras a tomar a decisão de fechar os seus templos, mesmo antes da Igreja Católica Romana e mesmo antes das diretivas do governo, precisamente tendo em conta o seu sentido de responsabilidade. Quando nós fechamos os templos, naturalmente que cada igreja teve que reinventar-se. E reinventou-se através do estabelecimento de outros canais de comunicação, celebrações online, celebrações em vídeo, celebrações diretas, plataformas digitais. E, portanto, a Igreja reinventou-se na sua comunhão e na sua espiritualidade, mas respeitando sempre este princípio, que é o princípio dos templos que estão fechados. Naturalmente que realizamos já funerais, seguimos as indicações, e agora até também viemos a saber este aspecto, que há igrejas que já estão abertas. E que já se abrem para os fiéis poderem ir orar e poderem estar em comunhão com Deus no contexto dos templos. Ora bem, mas nada disto é dito. O que eu queria dizer era que o Estado e o governo já deveriam ter percebido que, tal como para diversos setores da sociedade, sejam eles a indústria, o ensino, outras áreas, há grupos de trabalho e atende a essa especificidade. A questão da religião também já deveria ter merecido um grupo de trabalho próprio. E a questão da religião em Portugal não se confina apenas à Igreja Católica Romana, por muito respeito que todos temos por ela, mas há já uma diversidade grande. E esse grupo de trabalho, essa preocupação, que nós até percebemos que há noutros países. Por exemplo, eu devo-lhes dizer que a primeira vez que eu comecei a analisar esta questão foi através da Igreja Anglicana na Irlanda e, importante, por diretrizes que o governo irlandês decidiu estabelecer para as religiões e portanto, teve em conta este setor da sociedade. Ora, este setor da sociedade, que tem sido fundamental, este aspecto é que eu considero importante. A questão espiritual ao longo deste mês e meio de emergência, em que as pessoas estão confinadas, estão isoladas, muitas se sentem vulneráveis. A religião tem sido uma rede de sustento para as pessoas e estas igrejas e estas religiões têm um efeito imenso pelo equilíbrio e pelo bem-estar das pessoas e das comunidades, através das orações, através dos seus ritos, através do atendimento pastoral O governo tem que reconhecer isto. Um governo que não percebe isto ou um Estado que ainda não percebeu esta realidade tem que evoluir no modo como vê a religião e o importante papel que a religião tem no estabelecer do equilíbrio das próprias pessoas. O Estado laico é aquele que percebe que a religião é uma dimensão integral da vida das pessoas e da vida das comunidades. E as religiões provaram-no neste estado de pandemia. E têm-no provado porque têm sido o sustento de muitos milhares de pessoas, através das orientações espirituais e através do acompanhamento espiritual que têm dado.
Se eventualmente não receberem as indicações até o dia 30 de maio, que é o dia que está previsto no plano de desconfinamento o regresso das cerimônias religiosas, planeiam abrir as portas das igrejas novamente?
Naturalmente que nós temos já os nossos planos. Os planos estão a ser elaborados para efetivamente reabrirmos os templos. A questão não é essa, a questão é que estes planos de contingência e este cuidado será tanto mais válido e eficaz se for feito em diálogo e em colaboração entre todos. Naturalmente que as igrejas têm já os seus planos, obedecendo àquilo que se vai percebendo que são medidas gerais: o distanciamento entre as pessoas, o cuidado no lavar das mãos, o perceber que há determinados ritos que não podem ser vistos como até aqui. Tudo isso está a ser considerado e vai ser considerado. E naturalmente que iremos abrir, mas gostaríamos de abrir com o diálogo e também com a chancela da Direção-Geral de Saúde, a quem o COPIC realmente escreveu uma carta na semana passada. E escreveu-a no seguimento de uma carta que a própria Aliança Evangélica também enviou à senhora diretora da Direção-Geral de Saúde. Estamos a ver o tempo a aproximar-se e estamos realmente a tratar de vida, poderemos dizer assim.
Já fez referência nesta entrevista ao papel importante das diferentes confissões religiosas no apoio às pessoas durante este período da pandemia. Tem sido notícia o pedido de apoio alimentar, ajuda alimentar e outra, junto de várias igrejas. O mesmo tem acontecido junto à Igreja Lusitana?
Exatamente. Ora aí está uma outra dimensão, porque a religião contempla esta dupla vertente, que é uma espiritualidade encarnada. Quando nós dizemos que as religiões estão a providenciar o alimento espiritual, é não só através do sentido da oração, do aconselhamento, mas também do cuidado. Enquanto cristãos, nós sustentamo-nos no grande mandamento que Jesus nos deu, que é amar Deus e providencia e cuida do teu irmão. A Igreja Lusitana tem já providenciado muito apoio concreto, nomeadamente através de cabazes alimentares, que tem dado não só aos seus fiéis que estão em necessidade, como também a outras pessoas que acorrem. E também, tem que se referir em abono com o Alto Comissariado para as Migrações, do qual a Igreja Lusitana faz parte, também já referenciou largas dezenas de famílias migrantes que estão a passar por necessidade. Porque essa é uma outra dimensão, que é aqueles que estão a sofrer o grande embate desta pandemia são os migrantes. São aqueles brasileiros e pessoas de outras nacionalidades que ficaram logo sem trabalho, e que se viram também sem o seu sustento. A Igreja Lusitana está a providenciar esse apoio através dos seus meios, paroquialmente, comunidade a comunidade, e naturalmente que já percebeu que essa tem que ser também uma dimensão cada vez mais aprimorada. E através também das suas IPSS. A Igreja Lusitana tem IPSS, que através de programas operacionais, distribuição já estruturada de cabazes alimentares, está a chegar também a várias centenas de pessoas necessitadas e famílias.
É curioso que no âmbito do diálogo entre as diferentes religiões em Portugal, um dos projetos com mais expressão é precisamente o grupo de trabalho em matéria de saúde. E estamos precisamente perante uma emergência de saúde. Como é que tem sido este diálogo, agora se calhar brevemente para terminarmos, com as outras confissões religiosas e com as outras religiões, também na partilha de experiências sobre como reabrir os templos por exemplo, das religiões?
Sim, o diálogo tem sido importante, mas realmente neste atual contexto não tem havido diálogo. Reconheço que as pessoas estão ocupadas e preocupadas com outros aspectos, mas o diálogo nesse grupo de trabalho inter-religioso tem sido também muito importante, precisamente para que tudo possa decorrer nas diversas áreas. Esse grupo de trabalho tem tido um papel importante, por exemplo, na assistência espiritual ao nível dos hospitais, também ao nível das próprias prisões. Recentemente, houve uma reflexão também profunda sobre a questão da lei da eutanásia. Houve uma discussão, mas que me conste, durante este período de pandemia, o grupo de trabalho não se pôde reunir. Compreende-se, porque é um grupo de trabalho e eventualmente haveria outro tipo de preocupações. Mas naturalmente que todo este contexto também abre aqui uma nova área de missão e de reflexão para este grupo de trabalho inter-religioso na área da saúde.
Muito bem, Jorge Pina Cabral, bispo da Igreja Anglicana, presidente do Conselho Português das Igrejas Cristãs. Muito obrigado por estes esclarecimentos aqui na Rádio Observador. Obrigado também ao João Francisco Gomes e ao Miguel Vieira. Estamos quase no final desta tarde informativa.