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João Soares esteve 12 dias no Sudão, 10 em pleno conflito. Regressou esta terça-feira, dia 25 de abril, a Portugal. E eu começo precisamente por lhe perguntar como é que estão a ser estas primeiras 24 horas de regresso.

São umas horas muito boas. O regresso foi bastante intenso, o reencontro com a minha família. Eu quando cheguei ao aeroporto não informei ninguém da hora da minha chegada, porque sinceramente não queria que estivesse ninguém à minha espera, mas foi muito bom regressar a Portugal e junto à minha família.

Portanto, chegou a Portugal, não avisou ninguém, não tinha ninguém no aeroporto, foi pra casa. Como é que foi esse momento de reencontro, neste caso, com a sua namorada?

Primeiro fui a casa, estive com a minha namorada, entretanto fui visitar a minha irmã. Quem me foi buscar ao aeroporto foi o meu cunhado, fui visitar a minha irmã, juntámo-nos todos e fomos à casa dos meus pais. Aí foi um momento mais forte, a minha mãe sofreu bastante com a minha presença no Sudão. Então estávamos todos reunidos para tentarmos atenuar aquele primeiro impacto.

E foi um momento difícil porque esteve também em contacto com a família durante todo o tempo que esteve no Sudão. Como é que esse contacto era feito?

Nos primeiros dias, sim, estive sempre em contacto, porque apesar de termos ficado sem eletricidade, nós tínhamos um gerador a diesel e conseguíamos durante duas, três horas por dia usar o gerador, principalmente para carregarmos telemóveis, para manter as comunicações. A comunicação com a minha família era sempre feita por WhatsApp, videochamada quando possível ou muitas mensagens. A partir do quinto dia, se não estou em erro, as comunicações por dados foram todas desligadas. A partir desse momento fiquei sem poder falar com a minha família. Deixei de ter a peito daquilo que se estava a passar ou daquilo que era comunicado fora do país. Esse foi um dos momentos mais difíceis que eu tive, quando de um momento para o outro deixei de contactar e eu gostava que a minha família soubesse que eu estava bem e isso não era possível.

Portanto, neste momento de regresso foi quando voltou a conseguir ter esse contacto com a família e hoje acredito ter uma primeira noite de descanso depois de todos esses dias.

Sim, porque eu quando fui transportado acabei por ficar a dormir em Itália, mas também só dormi três horas porque regressei ao hotel por volta da 01:00. Apanhei o voo para Lisboa, saí do hotel às 04:00, por isso pouco descansei. Hoje quando acordei, o silêncio, acordei e pensei: "Está tudo calmo". Foi uma sensação boa, foi uma sensação de alívio.

O que quis fazer hoje, neste primeiro dia de regresso depois de toda essa situação?

A primeira coisa que eu fiz, dei um beijo de bom dia à minha senhora, tomei um banho e fui tomar o pequeno-almoço com os meus pais. Foi aquilo que eu fiz hoje.

Tentar fazer esse regresso à normalidade. Queria perceber o que é que o levou para o Sudão. Foi trabalhar como técnico de comunicações, certo?

Sim, eu tinha um projeto, eu trabalho com comunicações, mais concretamente com cabos fibra ótica submarinos. Tinha uma operação a ser feita no porto de Sudão. Então entrei no Sudão por Cartum e estava à espera das formalidades para me poder dirigir para o porto de Sudão. Entretanto, enquanto esperava pelas formalidades, rebentou a guerra.

Chegou no dia 12.

Sim, cheguei no dia 12 e a guerra começou no dia 12, penso que tinha sido terça-feira, e os conflitos começaram no sábado.

Sim, portanto chegou dia 12, dia 12 foi quarta-feira, deve ter feito esta viagem no decorrer desse período. E nestes primeiros dias que esteve, já sentia alguma tensão?

Já. Quando cheguei foram-me buscar ao aeroporto, deixaram-me no primeiro hotel onde eu passei a primeira noite. Não tinha autorização para me deslocar, tinha que ficar a aguardar que as formalidades ficassem prontas para viajar para o porto de Sudão. Após a primeira noite, recebi um relatório para a possibilidade de conflito e blackout nas comunicações. Eu tomei a decisão de mudar de hotel para um hotel onde estavam mais cinco colegas que também pertenciam antes ao projeto. Consegui arranjar, com a ajuda do hotel onde eu estava, um táxi, dentro de alguma segurança, que me levou para o outro hotel e foi onde eu fiquei até conseguir ser extraído do país.

Mas nessa altura, já com o país com essa tensão nestes primeiros dias, não houve nunca em cima da mesa a possibilidade de abandonar o país?

Não, porque a nossa intenção também era ter as formalidades prontas para irmos para o Porto de Fusão. Havia a possibilidade, mas as informações que nós tínhamos era que não iria escalar da maneira que escalou. Ou seja, poderá haver algum conflito, não queriam que nós saíssemos do hotel e que estivéssemos relativamente prontos para ser evacuados em caso de emergência, e nós mantivemos sempre um estado de alerta.

Sim. Nesses primeiros dias, em que sentia essa tensão, em que sentia já essas movimentações, já havia esses problemas de consonância, já havia esses relatórios, já estava em contacto com a sua família nesse sentido de que estava numa cidade em que podia estar num conflito ou não estava a revelar isso?

Estava em contacto com a minha família, sim. Não estava a revelar a possibilidade de... Isso não, por norma não falo muito do meu trabalho com a minha família. Eu viajo com alguma regularidade para países africanos. Mantenho-me sempre em segurança, tento tomar as precauções devidas, mas não quis alarmar de forma alguma a minha família, também porque não sabia bem o que iria acontecer.

Quanto tempo é que ia ficar no Sudão?

Seria um projeto para se calhar três semanas, quatro semanas no máximo, terminar o trabalho e vir embora para Portugal.

Praticamente até ao início de maio.

Sim, eu tinha ideia de se calhar viajar por volta do dia sete, dia oito. Penso que seria a data no plano de trabalho.

Muito bem. O conflito começa de forma mais intensa a 14, 15, essencialmente a 15. O que aconteceu nesse dia? O que aconteceu também do seu lado para perceber que se estava de facto a passar alguma coisa com muito mais gravidade do que nos dias anteriores?

Sim, nós apercebemo-nos do início dos conflitos, terá sido por volta das 20h30 de sábado, com explosões, tiroteio, o barulho das metralhadoras. Começou de uma forma bastante abrupta. A partir desse momento, nós conseguimos perceber que estávamos efetivamente numa situação de perigo, porque tudo aquilo que foi descrito como uma possibilidade estava realmente a acontecer.

E o que fez?

Mantivemo-nos sempre dentro do hotel. O hotel onde nós estávamos era um hotel que estava a aproximadamente dois quilómetros das zonas de maior conflito. Estávamos a ver os conflitos um pouco ao longe. Ouvia-se tudo, conseguia-se ver explosões, conseguia-se ver o fumo. Mantivemo-nos dentro do hotel, sempre em segurança, uma segurança relativa, de modo a também não chamarmos muita atenção. O nosso hotel era um hotel que passava despercebido, por isso estávamos relativamente seguros.

Mas havia algum tipo de segurança dentro do hotel? As portas foram fechadas?

Sim, o normal, fechámos as portas. Toda a gente para dentro. Eu estava num grupo, estava eu mais cinco gregos, tínhamos praticamente o hotel por nossa conta, não estava mais ninguém. Neste momento, fechou-se o hotel, verificámos mantimentos. Tínhamos a expectativa: "Ok, isto vai ser dois, três dias e vai acalmar". Entretanto, também estávamos à espera, falava-se que no final do Ramadão provavelmente as coisas iriam acalmar, e não acalmaram.

E portanto, estava esse grupo com o João, este grupo de gregos, havia funcionários do hotel também?

Sim, porque havia se calhar cinco ou seis funcionários do hotel que não eram de Cartum. O que aconteceu foi, eles também não se podiam deslocar. Acabaram por ficar todos, dormia toda a gente no hotel, comia toda a gente no hotel e ficámos uns aos outros. Continuámos, felizmente, eu tive sempre mantimentos, tivemos sempre de comer, tivemos sempre de beber. A pior parte foi quando ficámos sem eletricidade e perdemos as comunicações, mas tivemos sempre, comi frango de todas as formas e feitios durante seis dias, e sou muito agradecido por ter tido frango para comer.

Estamos a falar então de, entre hóspedes e funcionários, cerca de 10, 12 pessoas.

Sim, 10, 12 pessoas, aproximadamente.

Metade funcionários, metade hóspedes. Era o único português neste hotel.

Era sim.

Estava-me a dizer que tiveram sempre água, mas a luz começou a desaparecer e as comunicações também. Quando é que isso aconteceu?

A eletricidade foi cortada no hotel, penso que no segundo dia ou no final do primeiro dia. Foi de sábado para domingo. As nossas zonas foram das primeiras a serem cortadas. Entretanto, cortaram a eletricidade em toda a Cartum.

E tinham apenas esse gerador que trabalhava poucas horas por dia.

Sim, a nossa preocupação também era referente ao diesel para o gerador Fomo-nos aguentando. Com a ajuda dos locais conseguimos comprar mais diesel no mercado negro. Pagámos $18 por um galão, ou seja, aproximadamente litros. E fomo-nos gerindo. Ligávamos só duas horas, tínhamos a preocupação de desligar o gerador. Normalmente ligávamos das 15h00 às 17h00, desligávamos o gerador antes de anoitecer, também para não chamar a atenção.

Sim. Já vou querer saber mais detalhes sobre essa viagem, mas quando é que comunicou com a sua família durante este período? Comunicou logo no primeiro dia? Porque isto também começou a surgir nas notícias, a nível internacional e em Portugal.

Sim, não dava para esconder porque surgiu nas notícias. A minha família sabia que eu estava no Sudão. Surge na comunicação que há guerra no Sudão, mas que não há portugueses no Sudão. Esse momento também foi um bocado complicado, porque entretanto a minha família ligou-me e disse: "Atenção, que não há informação". Eu tentei e consegui entrar em contacto com o gabinete de emergência consular, através de uma mensagem do WhatsApp. Eles responderam, reencaminharam para o cônsul de Portugal no Sudão e entretanto recebi também um contacto da parte da Embaixada de Portugal no Egito.

Isto foi tudo no primeiro dia?

Não. Eu falei com a minha família logo no primeiro dia, isto trazia se calhar no terceiro dia.

Ok. Falou com a sua família no primeiro dia, mas foi a sua família que o contactou a dizer: "Está toda a gente a falar de uma guerra no Sudão, tu estás no Sudão, está tudo bem." Foi isto?

Basicamente foi isso. Apesar de mais tarde, não quis de forma alguma preocupar a minha família, porque era uma força desnecessária. Eu não queria, de forma alguma. Eu estava bem e só queria que a minha família soubesse que eu estava bem.

E comunicavam todos os dias?

Sim, todos os dias. Eu tenho ideia que foi no terceiro dia, que a partir do terceiro dia eu dou uma entrevista para a RTP. A partir desse momento, os contactos com Portugal intensificaram-se. Muitas mensagens de WhatsApp, muitas chamadas, muitas mensagens de Instagram. E a partir desse momento começa a aparecer mais informação da guerra no Sudão cá em Portugal. Ou seja, as pessoas começam-se a aperceber: "Ok, existe guerra no Sudão", por norma, se calhar as pessoas nem sequer sabem onde será o Sudão. É um país fora da Comunidade Europeia. "Ok, tem alguns portugueses no Sudão." Mas foi fundamental. Essa comunicação com os media foi fundamental.

Fundamental para si.

Para mim foi, porque entretanto o próprio cônsul mandou uma mensagem, mandou uma fotografia de uma entrevista que eu dei cá em Portugal, e foi um contacto dele que disse: "Olha, atenção, já está nos media." Eu fui sempre apoiado pelo cônsul e também pela Embaixada de Portugal no Egito.

Nesse primeiro contacto que teve com a equipa consular, com representantes, com diplomatas portugueses, disse-me que foi logo nos primeiros dias. Acredito que a sua intenção fosse: "Quero sair, como é que podemos fazer isto?" O que é que lhe foi transmitido?

A partir do momento que eu estabeleci contacto, eu mantive sempre contacto. Aliás, foi criado um grupo no WhatsApp comigo, com outros expatriados, o cônsul e o gabinete da Embaixada de Portugal no Egito.

Tudo por texto.

Sim, só com os portugueses. E então eles iam-me dando um update, sempre bastante comunicativos. O que aconteceu foi que apesar da comunicação, a informação não era clara. Era: "Olha, vamos aguardar, estamos a aguardar, mantenham-se em segurança". E neste ponto, nós ainda conseguíamos ter acesso às notícias que tinham sido lançadas e falava-se no cessar-fogo, que as coisas estão a acalmar, mas quem estava a viver a situação no local sabia que isso não correspondia à verdade. O prédio onde eu estava foi alvejado muitas vezes. Nós sentíamos explosões muito próximas, algumas entre os 50 e 100 metros, ou seja, o prédio abanava todo, sentia-se perfeitamente tudo a abanar. E era importante nós comunicarmos que aquilo que está a ser difundido não corresponde à realidade. Por isso, apesar de haver sempre contacto com as entidades, ainda não estava a ser apresentado nenhum plano. E dada a situação em que nós estávamos a viver As pessoas notavam-se alguma ansiedade no sair do grupo.

Sim, estavam em Cartum, falava-se em cessar-fogo e o João, que estava no local, sabia que isso não estava a ser cumprido.

Sim, exactamente.

Falava-me há pouco dessa situação de terem que ir buscar gasolina, tiveram que sair do hotel em que estavam.

Nós nunca saímos do hotel. O grupo nunca saiu. Saiam sempre os locais, as pessoas que estavam a trabalhar no hotel, que conseguiam ter mais acesso e de uma forma mais segura a todos os recursos necessários.

Portanto, o João nunca saiu, o grupo de gregos também nunca saiu?

Nunca ninguém saiu do hotel.

Muito bem. Mas iam recebendo informações, vídeos, fotografias do que se estava a passar ao vosso redor?

Sim, a partir do grupo do WhatsApp que nós tínhamos, as pessoas iam partilhando as suas experiências. Muitas das imagens difundidas também foram realizadas por mim, porque nós estávamos ali e estávamos a ver aquilo em directo. Eu estava numa zona dominada pelos paramilitares. Então via-se com regularidade as movimentações das tropas.

O que fazia durante o dia, para além de assistir ao que estava a acontecer cá fora, para além de comunicar com a família, como é que ocupou estes dias em que acredito que dormir tenha sido pouco?

Sim, tive bastante privação de sono, porque à noite acabávamos por estar também muito alertas. Primeiro, por todo o barulho gerado pelos disparos e as explosões. Depois, havia a informação que os paramilitares estavam a invadir alguns edifícios, o que também acabava por nos deixar sempre numa posição de alerta para percebermos se estaríamos nalguma situação de perigo ou não. Durante o dia, como estávamos uns com os outros, às vezes íamos para o terraço escondidos para tentar perceber aquilo que estava a acontecer. Enquanto tive internet, pedi a um amigo para me enviar uns PDFs, uns livros, para me entreter. Basicamente foi isso, falar muito, comunicar sempre principalmente com os meus familiares, os meus amigos, saber o que está a acontecer. Tive muito apoio, de todas as formas e feitios, de muita gente. Era assim.

E sobre comida, disse-me que comeu essencialmente frango, era só o que havia para comer?

Era o que havia. Era frango com arroz e comemos massa com frango também. Mas era dentro disso. Não havia outra coisa. Está tudo fechado, não tínhamos acesso a fruta, era água, Coca-Cola e sumo de laranja.

E quem é que cozinhava?

Eram os funcionários do hotel. Nós às vezes íamos só lá para dar algumas indicações dentro do possível, porque a comunicação também não era simples. Mas às vezes só fazíamos alguma personalização no menu para não ser sempre igual. Mas fomos sempre apoiados pelo pessoal do hotel.

E comiam todos juntos? Esse momento da refeição era todos em conjunto?

Não, por norma não. Eles faziam sempre a nossa refeição à parte. Eu falei com eles, propus várias vezes para comermos todos juntos, mas os próprios costumes deles são diferentes e eles preferiam fazer as refeições entre eles.

Muito bem.

Tivemos uma relação boa, tivemos muito apoio. Eu gostava sempre de perguntar como é que estava a família deles, se estava a correr tudo bem, se a família deles estava segura. E acabamos por criar ali uma certa relação, nós passávamos as horas todos juntos.

Os funcionários do hotel continuaram no Sudão?

Sim. Um dos funcionários do hotel era do Sudão do Sul. Eu consegui trocar umas mensagens com ele hoje de manhã. E ele disse-me que tinha sido contactado também pela embaixada dele para ser removido para o país de origem.

Os restantes continuaram no hotel.

Sim, ainda ficaram. De resto, aquilo são cidadãos sudaneses. Por já não sei bem qual é o ponto de situação ou se há planos, mas eles deveriam sair de lá o mais rápido possível.

O João e este grupo de gregos deixaram todos o hotel ao mesmo tempo? Começando por quando é que teve essa informação de que poderiam ser retirados, que iam dar início a esse processo?

É assim, a primeira tentativa de evacuação surge no domingo de manhã Surge no domingo de manhã. Havia uma rede móvel que não estava bloqueada, por acaso, que era a qual nós tínhamos cartões, mas nesse momento já não tínhamos data. Eu recebo uma chamada às 10:30 da manhã, a dizer que tínhamos que ir para a Embaixada Francesa até ao meio-dia. Nós neste momento já estávamos preparados, ou seja, tínhamos uma mochila cada um, estávamos preparados para ser mobilizados. Tentamos de várias maneiras e feitios arranjar quem nos levasse para a Embaixada Francesa. Não conseguimos qualquer tipo de transporte, ninguém nos queria levar, porque a Embaixada Francesa ficava numa zona, numa área que era Amarat, que era uma zona muito perigosa. Não conseguimos arranjar forma de nos mobilizarmos até lá. Perdemos essa janela. Entretanto, em contacto com o cônsul, foi criada mais uma janela ao final do dia. Nós entretanto já tínhamos arranjado uma pessoa que nos poderia levar. Como essa informação já chegou ao anoitecer, entretanto, o motorista disse que não sai do hotel sem luz do dia, por causa da insegurança, ou seja, voltamos a perder essa janela. Nessa noite, ou seja, de domingo para segunda, o cônsul liga-me e manda-me estar preparado com os restantes colegas às 4:00, que ele vai enviar um carro com um motorista. O que aconteceu foi, às 4:00 estávamos todos prontos, chegou um carro diplomático com o motorista do cônsul e ele teve o cuidado, ligou-me quase o caminho todo. O que aconteceu foi: os sacos ficaram para trás, fomos nós e as mochilas com o motorista. Fomos parados aproximadamente 30 vezes. Se não foram 30, foram 28 ou foram 32, mas aproximadamente 30 vezes, checkpoints. Eu hoje de manhã estive a confirmar a distância exata até ao local onde nós fomos evacuados. Nós demoramos duas horas a fazer 34 km.

Por causa de todos esses checkpoints?

Tudo. Nós íamos com o carro a baixa velocidade, as janelas todas abertas.

Quantas pessoas iam no carro?

Um total de sete. Eu, cinco gregos e o motorista.

Foram parados, o que aconteceu nesses checkpoints?

Nós estávamos numa zona paramilitar. A primeira paragem correu bem: "Expatriados, pode continuar". A segunda paragem foi parecida. A terceira paragem foi mais complicada. Estávamos a falar de milícias desarmadas. Na terceira paragem, fomos mandados parar com armas apontadas, mandaram-nos desligar o carro. Esta comunicação toda feita em árabe. Deram uma instrução ao nosso motorista para sair do carro, e ele foi levado para uns 50 m de distância do carro. Nós continuamos, porque estava lá um indivíduo com uma arma apontada para nós. Nós mantivemos a calma, só por gestos, demos indicação para ele baixar a arma, que não havia necessidade de estarmos com armas apontadas, ao qual ele ignorou. Entretanto, mais tarde, um dos meus colegas disse-me que o nosso motorista foi agredido. Entretanto, regressa ao carro, abriu o porta-bagagens, viram as nossas mochilas. Não abriram as mochilas, só para perceber o que nós tínhamos, o que estávamos a transportar, mandaram-nos seguir caminho. Fomos parados mais não sei o número de vezes pelos paramilitares e conseguimos entrar na zona dos militares em segurança. No caminho, aquilo parecia um bairro de lata de grandes dimensões, muito lixo a ser queimado, cheiro horrível, casas destruídas, carros destruídos. Um cenário de guerra, aquilo basicamente era um cenário de guerra. Ao aproximarmo-nos da zona dos militares, fazemos o primeiro checkpoint, aqueles primeiros dois, três checkpoints com grande tensão da parte dos militares. Conforme fomos entrando mais para a zona militar, já se notava uma abordagem completamente diferente dos militares. Já nos saudavam, já sorriam para nós. Nós neste momento víamos tanques, artilharia pesada. Continuamos o nosso caminho até uma base aérea. Quando chegamos à base aérea, fomos identificados. A partir daí, entendemos perfeitamente que estávamos seguros Confortáveis e vamos voltar para casa.

Esta viagem foi o momento mais tenso de toda esta situação?

Foi um dos momentos mais tensos, sim, sem dúvida alguma, porque apesar das explosões e tiros, nós mantínhamos numa posição relativamente protegida. Quando fazemos esta viagem, a exposição era completamente diferente, éramos muito mais vulneráveis. Foi um momento de bastante tensão. Tentámos manter a calma dentro do possível. Antes de entrarmos para o carro, eu falei com os meus colegas e pedi para tirarem relógios, esconderem os telemóveis, tudo que pudesse chamar a atenção, para esconder, para não criar nenhum tipo de oportunidade mais indesejada.

Mas o João estava em contacto com o cônsul ao longo desta viagem, escondia o telefone quando paravam?

Sim, mas houve uma altura que ele ligava constantemente. Houve uma altura que quando nós nos aproximávamos, às vezes, dos checkpoints, o que eu fazia era colocar o telemóvel em alta-voz, mas colocava o telemóvel de forma a que ninguém pudesse ver, principalmente a luz do telemóvel. Passávamos o checkpoint: "Ok, está tudo bem. Continuem, podem andar". Porque o motorista também tinha um telemóvel, daqueles rudimentares, muito básicos, que ninguém vai roubar. E volta e meia o cônsul ligava para: "Está tudo bem? Como é que está a correr tudo? Está tudo bem? Ok, estão em segurança?" Sim, fomos sempre acompanhados. O cônsul foi a peça fundamental para a nossa retirada.

Da parte do grupo de gregos também estavam em contacto com diplomatas do lado grego, não estavam? Como é que isto funcionou?

Sim, estavam. Depois mais tarde, nós conseguimos ter a perceção daquilo que estava realmente a acontecer. As três embaixadas mais fortes nos planos de evacuação era a embaixada francesa, a italiana e a espanhola, por onde estava a passar o corredor de evacuação. Para nós, era uma solução complicada, porque nós não nos conseguíamos deslocar até às embaixadas. Quando eu falo com o cônsul, já no final do dia, ele preocupado, disse-me: "Vocês já falharam todos os planos de evacuação que poderiam ter conseguido. Eu vou ver o que consigo fazer. Mantenham a calma. Eu volto a entrar em contacto". E depois, o cônsul faz este plano. Da parte dos gregos, eles estavam também em contacto com a embaixada grega, e a indicação que tinham era também para se deslocarem para a embaixada francesa, mas uma das vezes eles disseram: "Fiquem onde estão, se estiverem em segurança, porque não há lugar para vocês de momento". Entendi perfeitamente todo o esforço neste plano personalizado que o cônsul foi capaz de criar para nós.

Sim. Quando deixam o hotel, estiveram quase 12 dias neste hotel fechados, sem ninguém entrar, sem ninguém sair. Em algum momento houve alguma situação de maior preocupação em que alguém tentasse entrar dentro do hotel ou que houvesse explosões muito mais próximas? Falou-me há pouco que tinha explosões a cerca de 50 metros.

Sim, porque depois do segundo anúncio de cessar-fogo, porque nenhum cessar-fogo foi cumprido, o que aconteceu foi que as forças paramilitares recuaram ou mobilizaram-se também para a nossa zona. E tinham também a artilharia, tinham as antiaéreas relativamente perto de nós, o que era a nossa preocupação, porque nós conseguíamos ver os ataques dos caças do Sudão às zonas de conflito e de cada vez que eles faziam um raide, aquilo era uma limpeza numa área relativamente grande. E nós tínhamos esta preocupação, ou seja, nós tínhamos a esperança de estar fora dessa área de alvo. Quando eles começam a recuar, já ficamos em zona de fogo cruzado. Tivemos, sim, algumas situações onde as caravanas paramilitares pararam mesmo à nossa frente. Nós estávamos sempre ali à espreita nesses momentos. Eram os momentos de tensão. Vamos ver o que se vai passar, se vão entrar, se não vão entrar, o que vamos fazer. Esses momentos foram de grande nervosismo, por razões óbvias.

Claro. A saída aconteceu então no domingo, estava-me a dizer, ou segunda-feira de manhã.

Foi exatamente segunda-feira de manhã.

De domingo para segunda, nessa madrugada, falou com a sua família antes desse momento da retirada, antes de entrar nesse carro que demorou quase duas horas a fazer 35 km?

Não, porque não conseguia. Nós conseguimos uma pequena ligação por hotspot durante 30 minutos no dia anterior. A minha preocupação era dizer: "Ok, olha, estamos todos bem, já estou a ser contactado, já existem esforços para a nossa evacuação. Logo que possível eu digo alguma coisa". Foi a mensagem transmitida por mim e pelos restantes colegas.

Quando é que foi esse logo que possível? Quando é que voltou a falar com a família?

Quando eu falei com a minha família, já estava em Djibouti.

Muito bem. Portanto, este veículo que os transportou fez a viagem do centro de Cartum para o aeroporto, cerca de 35 quilómetros, foi o que me disse.

Sim.

O que encontraram no aeroporto e quanto tempo é que estiveram lá à espera de apanhar esse voo para Djibouti?

Quando chegámos ao aeroporto, estavam lá as forças internacionais. Deu bastante alegria ver o contingente ali encontrado, sem dúvida alguma. Aquilo estava com muita artilharia pesada, forças especiais. Nós naquele momento éramos os únicos civis naquela área. A informação que eu tinha é que o nosso voo seria um voo que iria sair para Djibouti às 7h00. Entretanto, chega um avião militar, as forças italianas entram todas no avião e eu fui falar com o militar e disse: "Olha, eu tenho a informação que eu vou ser evacuado para Djibouti, tenho que ser transportado para Djibouti". E ele: "Ok, quantos são?" "Seis pessoas." Perguntaram se estávamos armados, revistaram-nos as coisas, normal, fizeram uma revista. Fomos autorizados a entrar no avião. Era um avião militar, no meio do avião tinham três veículos de ataque. Os bancos eram daqueles bancos de rede nas laterais do avião. Nós viemos lá os seis em conjunto com as forças especiais.

Quanto tempo foi a viagem?

Até ao Djibouti penso que tenha sido aproximadamente duas horas, duas horas e meia.

Portanto vieram esse grupo de seis com tudo militares dentro do avião, certo?

Sim.

O motorista do veículo que os transportou para o aeroporto era sudanês?

Esse senhor foi o verdadeiro herói, porque ele tinha noção do perigo que iria correr e mesmo assim aceitou nos ir levar. Entretanto, quando cheguei à base, veio um senhor da embaixada francesa falar comigo, perguntou-me de onde é que nós viemos e como viemos. Eu quando lhe disse a área onde nós estávamos e a maneira como nós fomos deslocados, ele ficou bastante surpreendido. Ele perguntou-me: "Quem é que vos ajudou?" Eu disse: "Foi o cônsul de Portugal". Sim, senhor. Entrou em contacto naquele momento com ele e disse que ficou bastante admirado com o esforço e que tinha também uma pessoa barricada da RSF, numa posição intermédia, e precisava também de ser evacuado. Sei que o cônsul também se disponibilizou para ajudar, foi buscar mais esse membro e ainda conseguiu colaborar com o resgate de mais duas pessoas, um francês e um senegalês, que estavam também inseridos no mesmo projeto que nós.

Tudo o mesmo motorista?

Sim, tudo o mesmo motorista.

Que continua no Sudão?

Que continua no Sudão.

Ainda mantém contacto com ele?

Não, não consigo. Não, porque o meu contacto é sempre com o cônsul. Era muito difícil contactar seja com quem fosse, porque a língua era um entrave.

Claro. Do Djibouti foi para onde?

Do Djibouti foram-me colocadas duas opções, que era ficar no Djibouti até quinta-feira, esperar pelo voo da Air France para Paris, acho eu, ou senão iria ser transportado para a Etiópia, para Adis Abeba, logo que possível. Eu fui recebido também pelo representante de Portugal em Djibouti, que me colocou essas opções. Entretanto, vai a passar um dos militares italianos que me trouxe, eles tinham-me dito que iriam para Roma de imediato e eu chamei, pedi autorização para realizar a viagem com eles para Roma, ao qual eles aceitaram sem problema nenhum. Acabei por fazer essa viagem num avião de resgate também militar, em conjunto com os cidadãos italianos presentes no Sudão.

E o grupo de gregos também fez essa viagem para Roma ou ficou?

Não. Eles foram apoiados pelo representante da embaixada grega Não lhe sei dizer qual foi o itinerário que eles fizeram. Sei que neste momento já está tudo em casa. Eu cheguei ao Porto por volta das 10:00 e eles chegaram à Grécia por volta das 19:00.

Como é que foi esse momento de despedida, vamos dizer assim, quando estavam no Djibouti, separaram-se o João para Roma e eles para outro destino.

Foi um momento bastante simples, porque eram colegas com quem eu já tinha uma relação, já trabalhei com eles em vários projetos. Foi: "Ok, olha, da próxima vez que estivermos juntos vai correr bem, mas sem aventuras." Aconteceu assim de género, neste momento o sentido de humor já abundava, a alegria já estava nuns níveis completamente diferentes, por isso foi uma despedida feliz.

E comunicou com a sua família em Djibouti?

Sim, logo de imediato. Quando chegámos a Djibouti, tínhamos acesso à internet por um canal militar. Mal aterrámos, os próprios militares começaram a comunicar com a família. Nós utilizámos o mesmo canal. Liguei para a minha família a dizer: "Já está tudo bem, estou em segurança. Não se preocupem, eu vou ter a casa."

E do outro lado, o que é que ouviu? A surpresa. Foi a primeira vez que eles souberam que estava livre de perigo.

Sim, porque toda a gente ficou mais aliviada, porque um dos momentos mais perigosos que nós iríamos passar seria exactamente a nossa extração do local onde nós estávamos, do hotel. Naturalmente, a minha família ficou bastante contente. Eu também fiquei mais aliviado por poder partilhar essa notícia com a minha família.

Essa chamada foi segunda-feira, dia 24 de manhã, já o final da manhã.

Exatamente, dia 24, já foi de manhã, por volta de 11:00, aproximadamente.

Para quem é que ligou primeiro?

Para a minha mãe.

Muito bem. Fez a viagem para Roma e ainda passou um dia na capital italiana.

Sim, porque à hora que eu cheguei já não conseguia ter voos de regresso, por isso fui recebido também pelo representante da embaixada no aeroporto. Ajudou-me com tudo: hotel, voo. Foi-me levar ao hotel, conversámos um pouco. Dormi, se calhar era 01:00 quando eu adormeci. Às 04:00 levantei-me, fui para o aeroporto, uma realidade completamente diferente. As pessoas não tinham ideia daquilo que eu tinha acabado de passar. Já não se falava na guerra do Sudão, não existia. Já estava tudo bem, estava tudo sossegado. De Roma fui para Lisboa, de Lisboa vim para o Porto.

E durante esse tempo que esteve em Roma, foi mantendo também contacto com a sua família?

Sim, logo liguei para a minha família. Expliquei que estava já no hotel. Apesar de estar cansado, porque na noite anterior não dormi, porque era impossível dormir. O cônsul ligou-me à 00:30, ligou-me à 01:30, ligou-me às 03:00, ligou-me às 04:00 para garantir que estávamos todos no carro. Naturalmente que ninguém conseguiu dormir naquelas duas horas. Chegámos ao avião, chegámos à base, já ninguém queria dormir. Só consegui dormir se calhar ali 01:30, 02:00 durante essa noite. Dormir bem, dormi hoje, de ontem para hoje.

Foi o dia em que chegou, não é? Chegou ontem de manhã.

Cheguei ontem às 10:00. Cheguei ontem às 10:00, passei o dia com a minha família. Agora as coisas já estão a voltar à normalidade, felizmente.

Tem notícias dos outros portugueses, desse grupo de WhatsApp que tinha sido criado?

No final, apurou-se um total de 22 portugueses. Neste número, tem um bom número de pessoas com dupla nacionalidade, que também têm nacionalidade portuguesa. Todos eles já saíram, não todos eles chegaram a casa, mas todos eles saíram do Sudão. Por acaso ainda recebi umas mensagens, ainda estão lá no grupo e recebi umas mensagens ainda há pouco tempo. Ainda há muita gente em trânsito. Há um português que não saiu do Sudão, que se manteve no Sudão.

Ajuda em trabalho humanitário, certo?

Exatamente. Está lá em trabalho humanitário e disse que se havia momento em que iria poder ajudar as pessoas, era este, por isso não queria sair do Sudão e que se iria manter no Sudão.

João, começou a viagem no domingo, começou esse período de retirada no domingo, chegou ontem, dia 25 de abril, no Dia da Liberdade, mas durante todo este período, e já contando também o dia de hoje Quando é que se sentiu finalmente seguro?

Quando entrámos, durante o trajeto para a base, quando passámos a zona dos paramilitares, das milícias, e entrámos na zona militar, a partir do segundo, terceiro checkpoint, já toda a gente fazia piada, já respirávamos melhor, estávamos mais aliviados, sem dúvida. Esse foi o momento, a saída da área dos paramilitares para os militares, foi aquele ponto de inflexão, sem dúvida alguma.

E agora que está em casa, em segurança, com a família, o que é que vai fazer nos próximos dias?

Olhe, amanhã vou cortar o cabelo, fazer a barba, que não estava efectivamente com bom aspecto. Estou a aproveitar para passar mais tempo com a minha família. E vou descansar. Para já vou descansar e depois logo se vê.

Tirou umas férias? A sua empresa deu-lhe uns dias?

Sim, eu trabalho como freelancer. Já estive em contacto com a minha empresa, mandaram-me descansar. Se eu precisar de algum tipo de apoio, está tudo disponível. Para já é descanso.

E portanto vai ficar fora por uns dias.

Sim, vou ficar em estágio.

Ainda assim, disse-me que trabalha várias vezes no estrangeiro, fora, também incluindo em África, não só em países que estão em situação de conflito. Esta foi a situação mais tensa que viveu em toda a sua vida?

Sim, sem dúvida. Não tenho nada assim comparado. Já estive em locais difíceis, em locais muito difíceis.

Como por exemplo?

Já estive no Congo, já estive na Nigéria. Nigéria é complicado, o Congo também não é fácil. Agora, cenário de guerra, gostava de não repetir.

Vai continuar a fazer trabalho no estrangeiro?

Sim, sem dúvida. Isso não tenho qualquer tipo de dúvida.