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José Eduardo Agualusa desembarcou ontem em Lisboa, chegado de Maputo. Quando chegou ao aeroporto, deparou-se com um cenário de caos. José Eduardo está aqui conosco. Bom dia, descreva-nos o que aconteceu.
O que aconteceu é que depois de um voo de 10 horas e meia, com toda a gente já naturalmente muito cansada, à saída tínhamos a triagem para fazer o teste compulsivo, o teste obrigatório, outra vez, de Covid, PCR, que também se faz em Londres, por exemplo. Em Londres é sempre feito. Só que em Londres está tudo muito bem organizado, as pessoas sentam-se confortavelmente, cumprindo o distanciamento social, etc. Em Lisboa, não, em Lisboa foi o caos absoluto. Havia muito poucos funcionários, creio que é uma empresa contratada para nesse serviço, a fazer triagem. Funcionários não sabiam nada, estavam mal-informados, mal formados. E portanto, foi o caos, gente, deu-se o caos. Eu estava nas primeiras filas, pra você ter uma ideia, saí logo, estava nas primeiras filas. Eu estava à frente, tinha uma fila imensa atrás e mesmo assim demorei três horas até conseguir sair do aeroporto. Havia gritaria, gente a tentar fugir, que depois foram apanhados mais à frente pela Polícia de Fronteiras, porque nos colocaram pulseras depois de fazer o teste. Enfim, eu nunca vi nada assim. Já tenho visto muito caos em aeroportos, muita confusão, já passei por muita coisa, nunca vi nada assim. Com doentes, com velhos, crianças, toda a gente amontoada. Se alguém ali estava doente, ficamos todos doentes.
Qual é a sua opinião sobre as medidas de restrição aplicadas, em particular, ao continente africano actualmente?
Eu já disse isto várias vezes. Não me parece que faça sentido, por todas as razões, mas sobretudo porque no caso de Moçambique, não sei agora, mas até há pouco tempo nem havia esta variante ainda. E no geral, Moçambique tem muito poucos casos de Covid, está há meses quase sem mortes. Portanto, não parece fazer sentido, nada disto parece fazer sentido, é tudo um absurdo. Porque uma amiga minha viajou antes num destes voos também de repatriamento, como eles chamam. Embora sejam voos comerciais, eu tinha uma reserva na TAP que foi cancelada para dia dois e depois consegui este voo dia quatro pagando oitocentos e tantos euros. Então são voos comerciais mais caros que os outros, um voo só de ida, é outra coisa que não se compreende. Mas essa minha amiga que viajou no primeiro dos voos, não pagou nada pra fazer o teste. Então como é que uns pagam, outros não pagam? Enfim, é tudo errado.
Em termos económicos, na sua percepção, a situação destes países africanos que vivem muito do turismo, agrava-se com estas condicionantes, com estas restrições às viagens?
Claro, nem todos vivem do turismo, Angola não vive, mas Moçambique vive muito do turismo, a África do Sul acho que perdeu milhões com estes cancelamentos, porque estava tudo preparado pro Natal, hotéis, tudo, tinham recebido reservas que foram canceladas. No caso de Moçambique, eu vivo na Ilha Moçambique e desde o início desta pandemia, tenho visto como as pessoas empobreceram e como as pessoas estão desesperadas. E claro, isto afeta totalmente a economia de Moçambique, desestabiliza completamente a economia do país. São ações graves este tipo de atitudes, que não são atitudes fundamentadas na ciência. Porque os cientistas não foram consultados. Ainda se sabe muito pouco sobre essa nova variante, não se sabe sequer se é realmente perigosa. Sabe-se que é muito contagiosa, mas se é perigosa ou não, não se sabe. Que eu saiba, até agora não morreu ninguém com esta variante. Então, em vez de esperar, de consultar cientistas, etc, tomam-se este tipo de medidas sem pensar nas consequências para os países em causa.