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Bom dia. De facto, a situação que tivemos hoje aparentemente não tem nenhuma ligação com o que aconteceu na madrugada de sexta-feira. Hoje a ocorrência foi entre 1:30 e 2:30 da manhã, com um indivíduo apeado, com uma mochila carregada de líquido incendiário e que foi andando aqui nos arruamentos contíguos, portanto Estrada de Benfica, depois Rua Doutor João Couto, aqui nesta zona que é a zona envolvente da Agência Lusa, penso que assim seja mais fácil para os ouvintes identificarem. Foi andando aqui apeado e pegando fogo de forma pouco sofisticada a várias viaturas, incendiando os pneus com este líquido incendiário, pegando fogo e depois passando para a viatura seguinte. Felizmente, a rápida atuação da polícia e dos bombeiros, até porque a Junta de Freguesia fez reuniões esta semana com a Polícia Municipal, com a Polícia de Segurança Pública, que reforçaram os meios de vigilância e de presença policial, agiram rapidamente. Aliás, grande parte das viaturas acidentadas não são felizmente perdas totais, ao contrário do que aconteceu na sexta-feira. Não temos danos a reportar em nenhum edifício, porque a rápida atuação da polícia, com os carros-patrulha chegou e conseguiu com os extintores, os seus agentes, extinguir os focos de incêndio, mas também com o Regimento de Sapadores Bombeiros, que concentrou a sua ação aqui numa zona que é exatamente aqui na Rua Doutor João Couto, que foi onde havia o maior foco de incêndio, porque eram três viaturas, conseguiu rapidamente extinguir e não deixar alastrar o incêndio. Ninguém vai poder estar satisfeito com mais uma noite de vandalismo, mas aquilo que vimos da forma como agiram as entidades policiais, as forças da autoridade e também os serviços de emergência por parte do Regimento de Sapadores Bombeiros, acho que deve ser algo que transmite serenidade e transmite aquilo que é uma mensagem muito importante. Lisboa é uma cidade segura, Benfica é uma freguesia segura. O senhor que hoje foi detido aqui em flagrante delito é um senhor que já tinha histórico de provocar incêndios noutras zonas do país e não era um caso isolado. E daí eu também dizer que aparentemente não há relação com aquilo que aconteceu na sexta-feira, que era um grupo com vários indivíduos, organizado, que utilizou umas garrafas de CO2, aquelas que se usa para pintar, as pistolas de pintura, para lançar para baixo das viaturas, com efeito explosivo muito superior a este indivíduo isolado hoje, já com histórico, e que foi utilizando líquido incendiário para pegar fogo aos pneus das viaturas. Portanto, quer no modus operandi, quer no que parece não haver nenhuma ligação. É claro que para nós é sempre muito ingrato. A primeira vez que cheguei ao terreno já eram 6:00 da manhã. As equipas da Junta vieram logo aqui acudir, até as de higiene urbana. E o que temos é, de facto, uma consternação enorme por parte dos nossos moradores. É uma preocupação e um alarme social que devemos todos, enquanto decisores públicos, combater. De facto, a cidade é uma cidade segura. Benfica é claramente uma freguesia segura e estes bairros em causa que estamos a falar são bairros eminentemente residenciais, supercalmos, serenos, superfamiliares. Hoje, só a título de curiosidade, foram dois jovens que estavam aqui em Emenda Cavaqueira, moradores que ao verem o que se estava a passar, conseguiram afugentar o indivíduo e identificá-lo à polícia. Portanto, também uma palavra para estes jovens, pela sua diligência enquanto cidadãos e pela sua coragem. Estas são as freguesias que queremos construir, freguesias seguras, de proximidade, de boa vivência.
Quando estas viaturas foram incendiadas por volta de 1:30, como estava a dizer.
Sim, entre 1:30 e 2:30 da manhã.
Conseguiram logo depois agir?
Conseguiram logo agir. Aliás, como lhe disse, só uma delas é que é uma perda total, aparentemente uma perda total. As outras ficaram com danos, mas são danos que aparentemente são reparáveis. E isso deveu-se, de facto, e volto a dizer, a uma excelente atuação da Polícia de Segurança Pública e do Regimento de Sapadores Bombeiros, que agiram bem. Agora, há coisas que nós não compreendemos. Vou-lhe dar um exemplo. Nós requeremos à senhora Ministra da Administração Interna uma reunião na segunda-feira. Pedimos para reunirmos com urgência com as freguesias de onde têm acontecido estes atos. Até hoje não temos resposta. O senhor presidente de Câmara ligou-me no domingo e ainda hoje me ligou o seu chefe de gabinete também a disponibilizar ajuda por parte da Câmara, mas há um conjunto de meios, que é o Governo que os tem, inclusive outras forças de autoridade, como é, por exemplo, a Guarda Nacional Republicana, que tem um grande efetivo em Lisboa e que poderia eventualmente estar nesta altura a colmatar, e mais não seja, a ter a sua presença para transmitir segurança aos cidadãos. Há a questão das indemnizações, que sabemos que o Governo noutras zonas do país, com incêndios e com danos causados por fogo posto, criou medidas para apoio aos moradores. Estes moradores estão muito consternados por sentir que o Governo não está a ligar minimamente por isto ser uma zona urbana. E há, de facto, aqui um conjunto de démarches que podiam estar a ser feitas e que por parte do Governo não temos nada, nem sequer a resposta a um pedido de reunião urgente que enviámos na segunda-feira. Isso a nós não nos parece natural.
Aproveitava, como está a dizer, para lhe perguntar também diretamente a si, enquanto Junta de Freguesia, enquanto representante daqui da Junta de Freguesia de Benfica, se também sente que o Governo lhe está a falhar.
É impossível não sentir o contrário. Veja, nós falámos com o presidente de Câmara e o senhor presidente de Câmara cedeu-nos os meios que tinha de reboques para tirar os carros do espaço público na sexta-feira e hoje voltou a ligar-me o senhor chefe de gabinete a demonstrar o mesmo apoio. A PSP e a PM reuniram connosco urgentemente e o regimento, e adaptámos os meios e as zonas e o resultado foi já o que vimos hoje à noite, foi uma atuação muito rápida e muito eficaz das forças de autoridade. E a única entidade que não respondeu a uma freguesia como Benfica, que sofreu uma situação destas, é de facto o Governo, neste caso, na pessoa da senhora Ministra da Administração Interna, demonstrando, tenho de dizer, uma enorme desconsideração para com as freguesias. Quer dizer, o Governo reuniu com associações, reuniu com municípios, e mais uma vez as freguesias, que têm um papel fundamental no país e que são as entidades com maior índice de confiança dos portugueses, ficam esquecidas quando são elas que têm, como se costuma dizer, the boots on the ground, são elas que têm os homens no terreno, são elas que têm as higienes urbanas na cidade de Lisboa, são elas que, na prática, são os mais rápidos a acudir e mais uma vez ficam de fora daquilo que é a preocupação do Governo e, portanto, sim, tenho que considerar uma desconsideração por parte da senhora Ministra.
Falávamos há pouco que Lisboa é uma cidade segura e que Benfica, neste caso, também é uma freguesia segura. A freguesia não costumava ter indícios de violência, começou agora este tipo de vandalismo e este tipo de situações.
A freguesia de Benfica é a segunda freguesia na cidade de Lisboa com menos crime reportado. É uma freguesia supersegura. Obviamente, num contexto urbano com 37 mil moradores, há criminalidade Baixa criminalidade. Sofremos um fenómeno no ano passado que nos deixou muito preocupados, que foi um conjunto de assaltos pouco sofisticados. Estamos a falar de garagens, de terraços de moradias, com o roubo de ferro, escolas em que roubavam as portas de ferro. Portanto, um crime aparentemente muito ligado ao consumo e ao tráfico de droga, mas no sentido de quem rouba para depois vender para consumir. Não temos uns roubos por esticão aqui ao pé do Colégio Militar, na zona da Quinta da Granja, ao pé da entrada do metro ou ao pé do comboio. Estamos a falar de coisas muito pouco sofisticadas, muito pouco monta daquilo que é a preocupação. Não temos esse reporte aqui. Este cenário que temos desde há três dias, de noites com incêndios a viaturas, é um cenário novo e é um cenário atípico, e que eu, como lhe digo, acho que há uma diferença profunda entre o que se passou na sexta-feira e o que se passou hoje. Sexta-feira, estamos a falar na véspera das duas manifestações, na véspera do funeral do senhor Odair, claramente houve um grupo de pessoas que quiseram criar um alarme social.
Não acredita que este episódio esteja relacionado com esse caso?
Tendo em conta o método que usaram, que traziam preparadas garrafinhas de CO₂ que têm um custo grande de aquisição e as largas dezenas de garrafinhas dessas que apanhámos debaixo dos carros que foram incendiados e das motorizadas. Considerando que foram vistos em grupo e encapuçados, comparado com o que é hoje, um indivíduo, uma mochila às costas, a pegar fogo a viaturas com os materiais incendiários na mochila. Quer dizer, há uma diferença profunda com um senhor já com histórico de fogo posto. Há aqui, de facto, uma diferença profunda naquilo que é o modo de atuação e até a dimensão dos meios. Eu diria que, em primeira instância, a Polícia Judiciária está a investigar, temos de deixar a investigação decorrer, mas em primeira instância parecem-nos dois fenómenos diferentes, em que o alarme social, eu acho que aqui também é muito importante termos o papel deste. Nós tivemos uma semana em que toda a gente fez uma clivagem social, quase a dividir a cidade ao meio e bairros ao meio. Isto é algo que temos que combater. A cidade é uma cidade segura, não há bairros melhores e bairros piores, não há comunidades. Nós temos que estigmatizar esta vista sobre a cidade, porque isso só vai aumentar a clivagem social e, de facto, só agrava episódios destes. Portanto, eu, como digo, sinto-me presidente de uma freguesia muito segura. Acho que somos todos uma cidade e não é por acaso que a cidade de Lisboa continua a estar nos rankings como das cidades mais seguras do mundo. E este episódio, o episódio de hoje, claramente vem do aproveitamento de um indivíduo, daquilo que é um estado de alarme social, e que já tem reportado este problema que ele tem. Aliás, ele já tinha cadastro nesta área.
Ricardo Marques, para terminar, gostava de lhe perguntar se o preocupa que isto continue durante estas próximas madrugadas e próximos dias e se está a ser feita alguma coisa para este reforço de segurança nesta zona, nesta freguesia, e se está a ser feita alguma coisa em termos de relação ao reforço da segurança.
Eu, como lhe disse, tive logo toda a prontidão de meios por parte da Polícia Municipal e da Polícia de Segurança Pública. Tivemos reuniões, articulámos. Houve um aumento por parte da Polícia de Segurança Pública, naquilo que se costuma chamar mais o policiamento de visibilidade, ou seja, os meios auto e a pé a passar mais nas zonas que foram usadas para transmitir confiança às populações que foram mais afetadas. A Polícia Municipal, que tem conosco um projeto-piloto de policiamento comunitário, ou seja, dois agentes na freguesia, encaminhou esses agentes também para estas zonas, também para durante o período do dia transmitir esta calma e serenidade à população. Hoje sentimos aquilo que foi o resultado de ter mais meios na rua e, portanto, a polícia foi muito rápida a agir. Como lhe disse, até grande parte das viaturas foi a própria PSP, com os extintores que têm nos carros-patrulha, que conseguiu debelar os inícios de focos de incêndio, que é um excelente exemplo de uma atuação concertada da polícia com o Regimento de Sapadores Bombeiros e sentimos isso. Mas em última instância, nós, por exemplo, aqui em Benfica, não deixamos de estar a defender há mais de um ano a instalação da videoproteção em 27 lugares, concertados com a Polícia de Segurança Pública, que dotaria, por exemplo, num caso destes, a Polícia Judiciária e a PSP de imagens que permitiriam rapidamente detetar quem são os indivíduos e, obviamente, agir criminalmente contra eles, e que tem outro efeito. Todos nós sabemos, aqui na Amadora, ao nosso lado, a Câmara Municipal da Amadora há uns anos, na prática, colocou videoproteção em vários sítios do município e há uma diminuição na casa dos 60% de crime reportado nas zonas em que entrou a videoproteção. Eu não sou um securitário, nem é a minha linha de atuação, mas considero que em zonas urbanas destas, em zonas de ligação intermunicipais. Por exemplo, nós temos aqui uma zona muito difícil que é a Quinta da Granja, que é um jardim à frente do Colombo, que faz um vale. A polícia não consegue fazer patrulhamento automóvel, tem que fazer patrulhamento a pé. Portanto, é uma zona que estará sempre mais exposta para se algum grupo de delinquentes quiser passar a correr e assaltar umas malas. Nestes sítios é muito importante termos a videoproteção, porque tem uma dupla função dissuasora do crime, mas também que permite e dota mais meios à polícia para depois agir. É um dos temas com a senhora ministra da Administração Interna, porque a tutela sobre a colocação da videoproteção é a Ministra da Administração Interna, cabe a responsabilidade ao governo. É verdade que muitos municípios, depois por verem que o governo não age, fazem-no eles próprios, mas a verdade é que caberia ao governo fazer a instalação ou então à Câmara Municipal de Lisboa. Aliás, há uma petição de Benfica com largas centenas de assinaturas, que está a ser analisada na Assembleia Municipal de Lisboa, exatamente a pedir a colocação de videoproteção nestes 27 locais que a PSP ou com a freguesia.