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Passaram 34 anos desde o desastre aéreo da ilha de Santa Maria, nos Açores.

Foi o maior acidente aéreo a acontecer em Portugal. Morreram todas as 144 pessoas que seguiam a bordo deste Boeing 707, que se despenhou quando se preparava para aterrar em Santa Maria para reabastecer. Não sei se és fã, Nelson, mas este acidente foi, entretanto, protagonista do primeiro episódio da nova temporada da série "Mayday: Desastres Aéreos".

E é uma série que conta já com 22 temporadas, detalha ao pormenor alguns dos mais relevantes acidentes que envolveram aviões.

E este acidente de Santa Maria é reconstituído neste episódio com a ajuda de Francisco Cunha, antigo jornalista do jornal "Açoriano Oriental". Francisco Cunha, bem-vindo à Rádio Observador. Que acidente foi este?

Isto era uma companhia charter americana que estava a realizar um voo transportando turistas italianos desde a Itália até à República Dominicana. O acidente ocorre quando o avião prepara-se para parar em Santa Maria. Iria fazer uma escala técnica, iria reabastecer e depois é que seguia rumo à República Dominicana. A maioria das vítimas eram turistas italianos. Eram 137 passageiros. A tripulação era americana. O acidente ocorreu quando eles se preparavam para fazer a tal escala técnica. O avião abateu no Pico Alto, que é o ponto mais alto da ilha de Santa Maria.

Quais foram as causas para isso ter acontecido?

Como é normal num acidente de aviação, no caso, são várias causas que todas juntas levam ao acidente. A investigação indica que a causa principal foi a tripulação. Quando se aproximaram da pista de Santa Maria, eles desceram a 2.000 pés, ao invés de 3.000 pés. O valor de 3.000 pés é importante reter, porque esse valor é a altitude mínima de segurança naquela zona.

O avião aproximou-se da pista a uma altitude mais baixa do que era suposto.

Correto, exatamente. Há outros fatores também certas como contribuem para o acidente. Por exemplo, há um dado incorreto na transmissão dada pelo controle de tráfego aéreo. Há uma sobreposição de comunicações entre o controle de tráfego aéreo e o avião, que há uma mensagem que fica cortada, que um ouve, que o outro não ouve. Eles pensam que ouviram, o outro pensa que não ouviu. A mensagem ficou cortada. Um dos tripulantes também era muito inexperiente. Estava a trabalhar para a Independent Air há pouco mais de duas semanas. Era alguém que voava um avião pequeno, um avião com 12 lugares, num voo regional nos Estados Unidos, e depois passa a voar para uma companhia aérea que faz voos intercontinentais num jato muito maior. Ou seja, é um pelogrão, digamos assim, um tipo de operação muito diferente. Também a própria rota que eles fizeram não era a rota mais indicada, que também aqueles que ficam por cima do pico. E o pico também, por azar, estava um dia com sol. A visibilidade estava praticamente ilimitada, mas tinha nuvens por cima do pico. Ou seja, eles não viram o acidente.

Na aviação, costuma dizer-se sempre que o essencial é aprender-se com os erros. Tem informações sobre que alterações é que este acidente pode ter dado origem na aviação? Foram tomadas medidas diferentes depois daqui em diante?

Na altura, nos Estados Unidos, a Independent Air, que era uma companhia charter, tinha os padrões de treino, os mínimos treinos, eram mais reduzidos do que as companhias aéreas ditas de bandeira, a American Airlines, a TWA, etc. Em meados dos anos 90, todas as companhias passam a ter o mesmo padrão, passam a exigir o mesmo nível de horas de voo. Outro exemplo, também muito simples, é o GPWS, um alerta de proximidade de terreno. Para ter uma ideia, os pilotos do voo 1850 tinham um GPWS que deu um alerta sete segundos antes do impacto. Atualmente, temos um sistema que é o EGPWS, que usa também mapeação por GPS, e que dá um alerta num avanço de 30 segundos, que dá uma margem de manobra muito superior para a tripulação. Teve a revisão das cartas de aproximação a Santa Maria, que estavam bastante desatualizadas. Não eram atualizadas há quase 20 anos e, por exemplo, tinham deixado por fora coisas tão pequenas como o Pico Alto tinha uma antena de UHF que tinha sido lá instalada e isso obrigava a ter uma altitude mínima até acima de 3.000 pés. Isso não estava nas cartas e depois foram posteriormente todas elas atualizadas.

Muito obrigado, Francisco, pela disponibilidade para esta pequena conversa.

É uma grande honra, Diogo.

O desastre aéreo da ilha de Santa Maria foi há 38 anos