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Já foi publicado o relatório de análise de registo de interrupção da gravidez com os dados relativos a 2022. O número de interrupções aumentou 15%. Sara, o que pode explicar este aumento?

Nós não nos podemos esquecer que estamos a vir de um período de pandemia, bastante instabilidade socioeconómica, obviamente, e portanto, pode ser um reflexo dos tempos que vivemos e da necessidade que as mulheres e pessoas grávidas têm de aceder a este que é um direito seu.

Há aqui também uma percentagem que se destaca, que é o facto de nos hospitais públicos o procedimento mais utilizado ser através de medicamentos, enquanto no privado a maioria das interrupções são feitas através de cirurgia. O que pode explicar esta diferença? Existem diferenças significativas na forma do procedimento, o que pode optar por um ou por outro?

Sim, o procedimento, a interrupção medicamentosa, à partida, estando tudo estável com a mulher, ela pode tomar o medicamento e ir para casa. Fica em contacto obviamente com os serviços e depois tem as suas consultas de follow-up para ver como as coisas correm. O facto de ser mais em bloco cirúrgico no privado, mais uma vez é esta continuação de maior intervenção no privado. Nós também temos mais cesarianas no privado, portanto acaba por envolver mais a instituição em situações que se calhar não seriam necessárias. Geralmente, a interrupção voluntária da gravidez em bloco é quando, por alguma razão, é preciso esvaziar o útero, porque nem tudo saiu. É um procedimento que se faz a posteriori, se o primeiro não tiver funcionado. Isto demonstra o maior envolvimento do privado, como sempre, nas intervenções que propõe e nos cuidados que presta.

Recordo-me que há cerca de um mês o ministro da Saúde defendeu a realização de consultas de interrupção voluntária da gravidez nos centros de saúde. Isto parece-lhe uma opção viável?

Sim, certamente que sim. Parece-nos uma opção viável se os centros de saúde puderem dar resposta, porque estas propostas, nós temos que compreender que os serviços de saúde primários também estão extremamente sobrecarregados. Conseguir uma consulta no centro de saúde é cada vez mais difícil, consultas de saúde materna, consultas do que for. E portanto, é preciso olhar de forma realista para estas propostas e perceber que as pessoas têm um tempo muito curto e muito específico do tempo para tomar estas decisões em consciência, para serem vistas e para terem o apoio médico, clínico e emocional que precisam e merecem.

Acho que precisamos aqui também de falar do tempo de espera para as consultas. Foram 767 pessoas que tiveram consulta prévia fora do prazo previsto de cinco dias, por isso foram ultrapassados, chegaram até aos 11 dias. Nestes casos, as mulheres que devido à espera pela consulta ultrapassem as 10 semanas de gravidez continuam a poder abortar?

Continuam a poder fazê-lo se se provar que de facto foi por causa do atraso nas consultas. Mas o que é importante perceber também é que isso diminui depois o tempo que ela tem para reflexão. Tudo se precipita. E mais uma vez, uma das propostas que poderia potencialmente ajudar esta questão é, na grande maioria dos casos, as senhoras estão a ir aos hospitais de residência fazer isto, são referidas para os seus hospitais de residência. E se pudéssemos fazer como acontece durante o parto, por exemplo, em que qualquer mulher pode ter o seu bebê no seu hospital de escolha em todo o país, isto poderia potencialmente ajudar esta situação, não só relativamente ao anonimato e conforto da própria mulher, por exemplo, como notoriamente, sabe-se, como em tudo, que este tipo de serviço é bastante heterogêneo, que há hospitais bastante mais eficientes e a providenciar este serviço com muito mais humanidade. E essa liberdade de escolha poderia ser uma forma de colmatar essa espera, que é inadmissível. Nós tivemos a promessa de que esta situação ia ser resolvida e oito meses depois não aconteceu nada, nem um grupo de trabalho se formou, não se olhou mais para esta questão.

Considera que há profissionais suficientes para fazer face ao aumento de interrupções de gravidez?

Nós não temos profissionais suficientes para nada neste momento e, portanto, não. Isto é apenas mais uma face da falta de cuidados reprodutivos e reprodutivos que as mulheres em Portugal têm ou não têm neste momento.

E acha que isso de alguma forma pode influenciar as mulheres na decisão de interromper a gravidez, o facto de poderem não ser acompanhadas ou não ter acesso à consulta? Aqui vemos um aumento, mas acha que isto de alguma forma, os pedidos que vos chegam na associação, podem indicar algum destes fatores?

Não nos parece que a dificuldade de acesso aos serviços possa demover seja quem for da sua decisão. O que está a acontecer no terreno e que já vem acontecendo há alguns anos, é que as pessoas que podem, sinceramente vão à Espanha e tratam disso, onde não só os prazos são mais alargados como também lhes confere aquele anonimato que lhes é importante nestas questões. Mais uma vez vemos o aumentar do fosso entre as que podem e as que não podem. Quem pode, desloca-se, resolve o seu problema de outra forma. E quem não pode, pode potencialmente ou ter que tomar uma decisão fora do prazo Sem tempo de reflexão e bastante precipitada. De facto, aí começa também este desamparo, numa situação que já de si é tão sensível. É lamentável o que se está a passar, mas já faz parte do roteiro e do procedimento de as mulheres tentarem encontrar cuidados nestas situações, de irem ao estrangeiro, como sempre aconteceu antes de ser legal, o que é triste.

Na associação, por exemplo, têm contacto com esses casos de pessoas que tiveram de recorrer ao estrangeiro?

Sim, conhecemos um caso ou outro. Não só pela questão dos prazos, como a falta de humanidade e humanização, com muitas vezes perguntas que lhes são feitas sobre as circunstâncias, sobre o porquê, apesar de terem dito que não queriam, por exemplo, colocarem-nas a ouvir o coração do bebê a bater, coisas desse gênero. E muitas vezes as pessoas não estão para isto e recorrem ao estrangeiro. Não nos chegou nenhum caso de nenhum aborto ilegal, mas as mulheres vão arranjar uma maneira. E é muito importante acolher e conseguir dar resposta às utentes que estão a exercer um direito seu no seu país.

Sara, eu gostava de perguntar também, sendo que houve este aumento de 15% entre 2021 e 2022, podemos esperar que o aumento continue?

É difícil de prever, é difícil de compreender. Estas razões são muito pessoais, são muito particulares. Por trás de cada mulher está uma história, mas eventualmente sim. Nós sabemos que em tempos de maior instabilidade socioeconómica, como sabemos, o SNS não é um lugar muito feliz para se nascer. Há falta de previsibilidade, há falta de cuidados e isso pode, sim, levar muitas pessoas a mudarem seu projeto de vida ou a simplesmente tomarem a decisão de que esse não é o momento para trazer uma criança ao mundo.

Há falta de apoios à natalidade em Portugal?

Sim, há bastante falta de apoio, não só a nível das famílias, laborais, a conciliação trabalho-família. Temos muito a fazer relativamente ao apoio à natalidade e infelizmente é um problema que se vai empurrando com a barriga e que não se resolve. E daqui a pouco temos uma pirâmide invertida.