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Martim Ayer, gostava de começar por perguntar se, olhando para os estatutos do Benfica e para aquilo que foi apresentado ontem, esta reformulação de infraestruturas na envolvente do estádio, o Benfica District, na sua opinião, este projecto tem de ser aprovado pelos sócios do Benfica? Isto porque Rui Costa ontem deixou a garantia de que iria convocar uma assembleia geral para apresentar o projeto. A minha questão é: trata-se apenas de uma mera apresentação ou este projeto tem de ser mesmo aprovado pelos sócios do Benfica, na sua opinião?
Olá, muito boa tarde e muito boa tarde a todos os ouvintes. Eu penso que, ainda antes disso, este tipo de situações devia ser feito exatamente ao contrário. Ou seja, nós tivemos há relativamente pouco tempo uma assembleia geral do clube para a aprovação do orçamento, que por acaso foi chumbado. Um investimento desta grandeza e com este impacto nas contas do clube, obviamente, independentemente do que os estatutos dizem, quando existe boa-fé e quando se conta efetivamente com os sócios, isto tem que ser levado à assembleia e tem que ser discutido e conversado e não guardado como se fosse algo que é da direção, porque não é da direção. Isto é um tema do clube, da vida do clube, e o clube é dos sócios. Portanto, independentemente do que dizem os estatutos, quando se trata de um projeto como este, obviamente numa assembleia geral em que se discute o orçamento, isto deveria, desde logo, ser trazido e discutido. Por outro lado, eu gostava de dizer o seguinte: nós sabemos que este projeto não é de ontem, já existe há muito tempo, há vários mandatos. Aquilo que faltava ao projeto é detalhe. E na realidade, a única coisa que foi feita foi tirar o projeto da gaveta e falar sobre ele a três meses das eleições, sem detalhe e com muitas imprecisões. Porque, por exemplo, já vi em alguns meios de comunicação social afirmarem que há certas entidades financeiras envolvidas. Como sabe, eu venho da área financeira e tenho bastante facilidade de comunicação com grandes fundos e grandes bancos e, na realidade, as entidades que dizem estar envolvidas, não estão envolvidas. Ou seja, é pouco rigoroso o projeto apresentado. A única coisa que foi feita foi tirá-lo da gaveta para fazer dele um argumento eleitoral. Não está financeiramente estruturado.
Martim, já esperava, nesse sentido, que ontem já tivessem sido anunciados, por exemplo, os tais parceiros e financiadores externos e internacionais, que ontem foi anunciado, que o Benfica fará um project finance a 15 anos, mais coisa menos coisa. Já esperava que fossem anunciados esses parceiros que vão ser investidores?
Com certeza que sim. Como lhe digo, se existe este projeto há 10 anos, então quando se traz o projeto outra vez para o dia a dia do clube, não se traz isso tudo devidamente fechado? Obviamente que teria que ser apresentado assim. Além disso, repare, porque eu falei de que era prioritário aumentar o estádio em 21 mil lugares, este projeto, tal qual como estava na gaveta, nem sequer previa o aumento da capacidade do estádio, portanto, passa completamente ao lado dos interesses dos sócios. E não é que eu não ache que seja muito interessante fazê-lo. As coisas têm é uma prioridade e têm também que ser apresentadas com rigor. O projeto que eu estou a desenvolver para o aumento do Estádio da Luz, permite-me dizer que aumentar o Estádio da Luz em 15 mil lugares custa à roda de 75 a 80 milhões de euros. Como é que é possível que este projeto custe 220 milhões de euros e também inclua o aumento da capacidade do estádio para 80 mil lugares? Isso não é possível. Automaticamente.
Duvida do custo que ontem foi apresentado por Rui Costa?
Eu não duvido, eu tenho a certeza que não é esse. Tenho a certeza que as entidades financeiras que foram referidas por alguns meios de comunicação não estão envolvidas, e eu sei isso de fonte segura. Portanto, acho que é de uma enorme irresponsabilidade e de facto isto deveria ter sido discutido em assembleia geral de sócios e só depois, com todo o detalhe já bem definido e com todo o financiamento muito bem organizado, então apresentado publicamente e eu tenho muita pena que isso não tenha acontecido.
Martim Ayer, por uma questão de transparência, que entidades são essas que têm sido divulgadas e que garante que não estão envolvidas no projeto e que foram noticiadas?
Eu aconselho a ir ver o que foi noticiado. Prefiro não me referir a elas, mas está escrito. São mencionadas várias entidades, entidades internacionais, fundos americanos, entidades de peso no mundo financeiro e que são referidas, mas que inclusivamente em alguns meios de comunicação 100% especializados nos mercados financeiros, como é o caso da Bloomberg, já desmentiram o seu envolvimento. Portanto, é uma questão de ir ver. Na realidade, eles já desmentiram e a única coisa que é preciso é estar atento às notícias que vão saindo e eu convido as pessoas a ir consultar.
Um dos nomes que foi noticiado foi a Fortitude Capital, nas últimas horas. Dizia que o Benfica estava em negociações com este fundo de investimento, que é liderado por um banqueiro português, inclusivamente. Sendo que aquilo que lhe pergunto também é: tendo em conta que as negociações estão a decorrer agora, faz sentido haver essas negociações em período eleitoral?
Mais uma vez, mais do que o período eleitoral, estes projetos não se podem apresentar de uma forma empírica. Eles deveriam ter sido apresentados aos sócios e debatido em assembleia geral. Posteriormente, e se for da vontade dos sócios que avance, então deveria ser todo estruturado e deveria se fazer um trabalho de fundo e de muito detalhe até trazer isto para uma apresentação pública, porque assim entra em causa descrédito. Os sócios não percebem, as coisas não são claras, os números não batem e as entidades que se põem associadas ao financiamento do projeto, em 24 horas desmentem e dizem que não estão envolvidas. Portanto, repare, mais uma vez, isto descredibiliza o nome do Benfica, é uma coisa que me desgosta profundamente e é uma coisa que eu acho que tem que, de uma vez por todas, deixar de acontecer.
Martim Ayer, gostava de lhe perguntar sobre a Cidade Benfica, porque ontem foi mencionado também por Rui Costa que está nos planos manter essa ideia da Cidade Benfica, ou seja, um espaço que reúne todas as modalidades, vários pavilhões, para dar condições a que o Benfica consiga congregar todas essas modalidades, em vez de ter vários pavilhões alugados a várias autarquias, ter um espaço que concentrasse tudo isso. A minha questão é: espera que Rui Costa ainda apresente esse plano da Cidade de Benfica também antes das eleições? Porque o presidente do Benfica e candidato ontem disse que muito em breve haveria novidades sobre a Cidade de Benfica. É isso que espera também, que antes das eleições haja novidades quanto a esse tema?
A minha opinião é que é tudo à pressa. Portanto, definitivamente não é a altura para trazer projetos que fazem sentido para o clube e que têm que ser bem estruturados a meses das eleições. Não há dúvida nenhuma que o tempo não é para isso. Além disso, por exemplo, no meu caso, eu já apresentei esta proposta. A minha proposta para o clube passa por poder criar centros de competência de diferentes modalidades noutras zonas do país, porque o Benfica é um clube nacional e, portanto, temos que benfiquizar o país. Se, por exemplo, em Espinho existe uma grande apetência pelo vôlei, ou se, por exemplo, Aveiro tem uma grande apetência pelo basquete, nós podemos perfeitamente retirar a pressão que existe posta pelas modalidades em Lisboa, criando centros de competência complementares noutras zonas do país. É bom para o Benfica, é bom para os benfiquistas de outras zonas do país e é bom porque resolve uma parte dos problemas que estão na origem de se pensar numa Cidade do Benfica. Portanto, a questão é que essa Cidade do Benfica pode ter diferentes configurações, dependendo de quem seja o próximo presidente do Benfica. E estar a tomar decisões dessas, que comprometem o futuro, numa altura em que o atual presidente não sabe se continuará em funções nos próximos quatro anos, eu diria que é no mínimo deselegante. Se fosse eu, definitivamente não o faria. Não é tempo para isso, é tempo para outras coisas.
Martim Ayer, para fecharmos a nossa conversa, gostava de lhe perguntar também como candidato, ainda que ontem o projeto tenha sido apresentado como Benfica, como direção do Benfica e não Rui Costa como candidato, mas como candidato à presidência do Benfica, gostava de lhe perguntar se se sente desconfortável por ter visto nomes como o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, também a ministra da Juventude, Desporto e Cultura, Margarida Balseiro Lopes, e até o próprio presidente da FIFA, que numa mensagem em vídeo disse: "Ao meu amigo Rui Costa, desejo-lhe o melhor". Sente-se desconfortável como candidato em ver estas demonstrações de apoio, ainda que não seja ontem uma apresentação feita como candidato Rui Costa, mas estas demonstrações de apoio a este projeto, sente-se desconfortável quanto a isso?
Eu acho que mais do que tudo, aquilo de que se trata é um tema institucional e das relações institucionais do Benfica, porque repare, este projeto ao ser apresentado, é apresentado como sendo um projeto do Benfica, não é do presidente A ou do presidente B. Portanto, nas relações institucionais do clube, obviamente com a Câmara de Lisboa e com a FIFA e o governo em geral, o clube tem relações permanentes e nesse enquadramento eu compreendo a sua presença. O erro está em não ter levado este assunto à discussão interna do clube antes de ter convidado essas entidades a estarem presentes. E aí sim, é um erro da atual direção.