A surpresa deixou de ser surpresa dez minutos antes de o mundo ficar a conhecer a surpresa. Pouco depois das 10h desta quinta-feira, entre jornalistas, assessores e todos aqueles envolvidos no fenómeno do futebol nacional, começou a circular a ideia de que iria explodir “uma bomba” na Federação Portuguesa de Futebol. Ninguém sabia exatamente o que era, mas tendo em conta os últimos meses o protagonista só poderia mesmo ser um: Cristiano Ronaldo.

O vídeo, o longo vídeo, é mais nostálgico do que explicativo, mais romântico do que noticioso, e acaba por não detalhar praticamente nada sobre o que levou Cristiano Ronaldo a tomar a decisão de deixar a Seleção Nacional. O timing, porém, acaba por obrigar a um exercício óbvio de lógica. Jorge Jesus iria convocar Cristiano Ronaldo esta sexta-feira, colocando nas mãos do jogador a decisão de comparecer ou não na Cidade do Futebol para os jogos contra Dinamarca e País de Gales a contar para a Liga das Nações — e Cristiano Ronaldo optou por não recusar a convocatória, colocando-se desde logo de fora das opções.

“A maior vitória foi ter merecido representar o melhor país do mundo”: Cristiano Ronaldo deixa a Seleção Nacional

Na verdade, o jogador do Al Nassr foi surpreendido pela celeridade com que foi confrontado com a decisão. No início de outubro, quando divulgou a longa carta depois de abandonar o estágio da Seleção Nacional em rota de colisão com Jorge Jesus, não deixou grandes dúvidas sobre as suas intenções: “Se estiver bem fisicamente, a jogar no meu clube, com golos espero, a seguir ao cumprimento da suspensão que me for aplicada, estarei disponível, como sempre estive até hoje, para competir e ganhar pela nossa Seleção”.

A chave está ali no meio, no “a seguir ao cumprimento da suspensão que me for aplicada”. Para Cristiano Ronaldo, a suspensão consequente do abandono do estágio iria sempre deixá-lo de fora da convocatória desta sexta-feira — ou seja, adiaria para março, a próxima data FIFA, a decisão de Jorge Jesus de o convocar e a sua própria decisão sobre aceitar ou não a convocatória ou colocar-se desde logo de fora das opções. O Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, contudo, trocou-lhe as voltas. 

Descontados os dias em que Cristiano Ronaldo já estava suspenso preventivamente, o castigo de um mês terminou no passado dia 30 de outubro, na semana passada. Ou seja, esta sexta-feira, Jorge Jesus poderia convocar o jogador do Al Nassr sem qualquer problema ou inibição. Ora, defendendo que passou pouco tempo desde o desencontro de ideias no último estágio e demonstrando-se incapaz de regressar aos trabalhos da Seleção com a atual equipa técnica — até porque o selecionador nacional nunca chegou a reagir ou responder à tal longa carta, que incluía acusações de “quebra de palavra” –, Ronaldo acabou por optar pelo abandono, evitando a situação ainda mais desconfortável de recusar a convocatória.

“Estarei disponível como sempre para competir por Portugal”: o longo comunicado de Ronaldo a quebrar o silêncio

Do lado da Federação Portuguesa de Futebol, o plano sempre foi contar com Cristiano Ronaldo no próximo estágio. O jogador do Al Nassr não queria voltar desde já à Cidade do Futebol, algo que comunicou de forma clara a Pedro Proença e que o presidente do organismo transmitiu a Jorge Jesus, mas o selecionador nacional recusou o cenário de não o incluir na convocatória e garantiu que, reunidas as condições físicas necessárias, iria sempre chamar o capitão. O plano para esta quinta-feira, véspera da convocatória, incluía até uma chamada telefónica entre Ronaldo e Jesus, sempre mediada por Proença, que acabou por não acontecer — sendo que o jogador nem sequer pretende falar com o treinador.

Antes de publicar o vídeo nas redes sociais, Cristiano Ronaldo informou Pedro Proença de que tinha tomado a decisão de deixar a Seleção Nacional. A Federação Portuguesa de Futebol mantém a intenção de fazer um derradeiro tributo ao capitão, algo que também fica claro no comunicado publicado no site oficial do organismo, mas os contornos dessa homenagem ainda estão por delinear. Até porque, por agora, Cristiano Ronaldo não quer mesmo fazer um último jogo de despedida.

Ronaldo foi suspenso por um mês, vai estar disponível para próxima convocatória mas (ainda) não há certezas de que seja chamado em novembro