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Junta-se a este jornal Henrique Brunet, especialista em assuntos europeus. Henrique, muito boa noite. O que eu pergunto é se é fácil de adivinhar a escolha de Emmanuel Macron.
Boa noite. Não, não é. Não é porque o tempo que passou não alterou nada em termos de impasse que foi o resultado das eleições francesas. O que aconteceu no fim das eleições francesas é que a União Nacional de Marine Le Pen acabou por não ficar em primeiro lugar como a certa altura parecia e acabou por haver uma vitória que resultou de duas coisas. Por um lado, do fato de haver uma maioria que não era pró-Marine Le Pen, mas por outro lado, de ter havido um grande jogo de voto tático para apoiar a Nova Frente Popular. O resultado disso é que é um parlamento onde é praticamente impossível construir uma maioria minimamente coerente. Se a Nova Frente Popular ela própria já é uma coisa pouco coerente, porque vai da França Insubmissa aos socialistas moderados, não sendo suficiente para fazer uma maioria com este grupo, qualquer solução que apareça vai ser muito difícil de negociar. Aquilo que parece é que Macron está a tentar tirar partido dessa situação. Vamos ver se a Nova Frente Popular e os seus vários elementos vão permitir isso.
Henrique, apesar da dificuldade da decisão e deste jogo de cadeiras que estava aqui a explicar, é já uma sentença que o próximo primeiro-ministro ou primeira-ministra francês seja um cargo ocupado durante muito pouco tempo?
É muito possível que aconteça isso. Aquilo que me parece que está a acontecer é que Macron e a ala de Macron estão a tentar algumas coisas. Recuando um pouco, desde o dia a seguir às eleições que me parece que tem havido tentativas de duas coisas: à esquerda, de conseguir agregar e manter a Nova Frente Popular e ir buscando alguns votos à ala esquerda do Macron e ao centro, junto dos macronistas, uma tentativa de conseguir dividir a tal Nova Frente Popular, separando os mais radicais da França Insubmissa dos outros. A expectativa, e acho que era isso que Macron tem andado a tentar fazer, era com isso conseguir recriar uma maioria decente, não apenas com o seu partido, mas que fosse da direita republicana que sobrou, a que não se aliou à Le Pen, e que fosse até metade da Nova Frente Popular, portanto, metendo socialistas, verdes, eventualmente os comunistas, que nesta organização entram quase como fazendo parte dos moderados da França Insubmissa. Aquilo que havia de expectativa, e eu acho que continua a haver alguma expectativa do lado de Macron e dos seus apoiantes, é conseguir que a Nova Frente Popular se parta mais ou menos ao meio e reeditar uma maioria centrista mais complexa. Isso não tem acontecido. E agora, para surpresa de Macron, dificultando aqui um pouco o jogo, o líder da França Insubmissa veio dizer não só que aceitavam não ter o primeiro-ministro, isso já tinha sido dito quando propuseram a candidata à primeira-ministra, que não é sequer da França Insubmissa, mas mais, agora vieram dizer que até aceitam não fazer parte do governo. Como é que é? Agora o Macron o que é que diz? Isso de fato complica a vida a Macron, porque começa a ser difícil dizer que quer uma maioria que não inclua a França Insubmissa, quando a própria Nova Frente Popular admite um governo que não inclua a França Insubmissa. Vai ser difícil.
E assim sendo, Henrique, Emmanuel Macron pode estar obrigado a indigitar um primeiro-ministro da coligação da Nova Frente Popular que cumpra esses requisitos de não ter presença do governo da França Insubmissa?
Pode ficar numa situação em que-
Não tem como dizer que não
...é difícil explicar por que não aceita nomear um candidato indicado pelo partido ou pelo agrupamento vencedor que, além do mais, não inclui aquele partido que tem sido identificado como o mais problemático. Agora, isso não resolve muita coisa, porque no dia seguinte, se houver uma moção no Parlamento, dificilmente há maioria. Primeiro, os republicanos, o partido de direita que não se aliou à Le Pen, já disseram que não apoiam e vários à volta do partido de Macron têm dito também que não aceitam esta solução, isto é, não acreditam num governo liderado pela Nova Frente Popular, mesmo sem ter a França Insubmissa, não acreditam que seja um governo não radical. E pode ser que seja nomeada a primeira-ministra e que sumbe logo rapidamente. Macron parece estar aqui a tentar encontrar uma solução em que o primeiro-ministro fosse um nome que ficasse sob a sua tutela, mas está a ter dificuldade. Acho que há aqui um outro aspecto que devemos ter em conta. Eu estou convencido que para Mélenchon é muito mais importante jogar para as presidenciais do que outra coisa qualquer. E estas últimas legislativas deram-lhe um sinal: pela primeira vez o partido, o agrupamento, a coligação de que ele fazia parte e que liderava ganhou. Eu acredito que na cabeça de Mélenchon há uma esperança de chegar às próximas presidenciais e se numa segunda volta voltar a ser entre a extrema-direita e a extrema-esquerda, ele poder voltar a ganhar. Mélenchon está disponível para ceder tudo o que seja preciso ceder para poder chegar às presidenciais como sendo um moderado. E parece-me que é tudo o que Macron não quer que aconteça.
São vários jogos de equilibrismo, Henrique. Esta segunda-feira Emmanuel Macron recebe a Frente Nacional de Marine Le Pen. Aí não são esperadas novidades desse diálogo.
Não, daí não se espera que venha nenhum acordo, nenhum apoio. Esse foi o ponto que ficou assente. Está absolutamente claro, foi isso que deu o resultado que deu na segunda volta, que não há nenhuma espécie de acordo, conversa com a extrema-direita. A solução tem que ser encontrada da extrema-direita para a esquerda. Agora, até onde? Até que sítio da extrema-esquerda, ou ao contrário, a começar na extrema-esquerda e a chegar até onde? O problema é que todas as contas que se fazem são só com coligações absolutamente incoerentes é que se consegue uma maioria. Não há nenhuma conta que se consiga fazer que dê maioria no Parlamento que não seja uma coisa completamente inconsistente.