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Partimos para a análise. Junta-se a nós o investigador e especialista em incêndios florestais, em direto, Domingos Xavier Viegas, a quem agradeço desde já a disponibilidade para estar aqui conosco. Bem-vindo, Xavier Viegas. Gostava de lhe perguntar, em primeiro lugar, a que se deve este ano menos crítico.
Muito bom dia. Antes de mais, muito obrigado pelo vosso convite e, se me permitem, eu gostaria de aproveitar esta intervenção para me solidarizar com as vítimas do acidente que ocorreu na semana passada, que vitimou os cinco militares da UEPP e, naturalmente, com as suas famílias, amigos e camaradas. Indo à questão que me está a colocar, por que este ano está a ser um ano relativamente benigno no tocante aos incêndios. Realmente, há várias condições. Antes de mais, eu queria dizer também que o ano não terminou, a época de incêndios não terminou, portanto, ainda pode ser um pouco cedo para fazer um balanço, mas naquilo que levamos de meses e de semanas do período de incêndios, este ano, diria talvez três fatores. Primeiro, as condições meteorológicas, que têm estado a ser, de um modo geral, favoráveis. Não digo em todo o país, mas em quase todo o país temos tido temperaturas não muito altas. Tivemos períodos até de chuva e períodos com elevada humidade, que têm mantido o perigo de incêndio devido a fatores meteorológicos, relativamente baixo. Não tivemos dias de ondas de calor ou dias de vento forte, como aconteceu nalguns anos, dos últimos que registamos. Por outro lado, temos tido o outro fator que é a maior consciência da população, que tem vindo a contribuir para que haja menos ocorrências, menos inícios de incêndio, quer pelo melhor uso do fogo, quer por talvez mais cautela, mais consideração, digamos, por aquilo que o incêndio pode causar.
Domingos Xavier Viegas, deixe-me perguntar-lhe uma última questão. Já vimos também nos últimos anos que setembro e outubro têm sido meses muito críticos, com calor até excessivo, tendo em conta aquilo que estávamos habituados. O que é que podemos esperar também destas próximas semanas? Ou seja, estes números são ótimos, claro, mas podemos já cantar vitória em relação a 2024?
De forma alguma. Porque realmente, como disse há pouco, o período de incêndios não terminou e aquilo que temos observado em anos anteriores é que ele está a estender-se cada vez mais no tempo, começa mais cedo e estende-se mais. Temos anos em que há incêndios graves, não só em setembro, como até outubro e por vezes até mais tarde. Por isso, como diz, não é altura ainda de cantar vitória, mas é altura de continuar a manter esta atenção por aquilo que está a acontecer. Já agora, se me permite, também gostaria de ter uma palavra relacionada com este acidente mortal que vitimou estes cinco militares. Eu não tenho dados, mas eles certamente saíram pra uma missão para ir combater um incêndio. Não sei que trabalho é que fizeram nesse incêndio, mas se houve esse alerta, se houve esse alarme, é porque alguém causou o incêndio. E eu gostaria de aproveitar pra fazer esta chamada de atenção. Por vezes, quem causa o incêndio não mede as consequências que esse incêndio pode ter. E, neste caso, causou cinco mortes. Portanto, quem quer que seja, que tenha causado esse incêndio que motivou este alarme, em minha opinião, é pelo menos moralmente responsável pela morte destas cinco pessoas. Eu julgo que qualquer pessoa que tenha a intenção de causar um incêndio deve pensar nisso. Já tive outras situações atrás que investiguei de incêndios que causam vítimas mortais, cujos autores, depois ao serem encontrados, confessam realmente que queriam pôr o fogo, mas que não esperavam causar aquelas mortes. O problema é que ao pôr o fogo, as pessoas não sabem o que é que vai resultar. E nesse caso, pelo menos moralmente, o autor desse incêndio é responsável por estas mortes, se não também noutras instâncias.