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É nosso convidado neste jornal do meio-dia, Luís Vidigal, o antigo internacional português que jogou no Nápoles de 2000 a 2004. Luís, bem-vindo ao "Observador". Da passagem pelo Nápoles, ficou algum sentimento de pertença? Também celebrou ontem à noite esta conquista?
Olá, boa tarde. Com certeza, impossível estar alheado daquilo que se vive neste momento em Nápoles. Considerar que naquilo que diz respeito a uma parte muito importante da minha vida, nomeadamente a família, foi lá que construí a família forte que hoje tenho, filhos que cresceram em Itália, quatro anos no Nápoles importantíssimos e, portanto, viver com intensidade todos estes momentos. A relação próxima com as gentes da cidade mantém-se. Há quase uma relação familiar, diria mesmo. Somos padrinhos de dois casamentos, imaginem. E portanto, é uma alegria imensa os filhos a festejar como se o pai ainda hoje jogasse no Nápoles.
Luís, quando se fala de Nápoles, fala-se também de Maradona e o que representaram aqueles dois títulos na década de 80, a vitória de um clube do sul do país, mais pobre, em comparação com os todo-poderosos emblemas do industrializado e rico norte de Itália. Essa é uma ideia que ainda hoje prevalece?
Com certeza. É impossível não olhar para esta conquista e não relacionar com a Itália de norte a sul, porque mesmo no norte existem alguns clubes que não têm a dimensão dos de Milão e de Turim e, portanto, a luta será uma luta sempre desigual. De vez em quando, de 30 em 30 anos, esperando, naturalmente, que este percurso seja invertido e que se vá alterando relativamente a quem conquista o Scudetto em Itália, quando acontece, evidentemente, e com uma cidade que vive, respira futebol como Nápoles, a festa é como se fosse uma festa do país inteiro. Vivem com intensidade. Não é apenas ganhar o título de campeão italiano, é ganhar contra o poder instalado no norte do país e por isso a alegria dos napolitanos.
Luís, eu não sei se acredita nos deuses do futebol, em questões metafísicas, mas há pouco havia aí uma coisa que andava a correr nas redes sociais, designada pelo ano Maradona, com a conquista do título pelo Boca Juniors, onde jogou Maradona, o título do Barça, que este ano aparentemente não vai fugir ao clube da Catalunha, o título de campeão do mundo da Argentina e agora também o título do Nápoles, tudo emblemas que Diego Armando Maradona representou. Uma simbologia no mínimo estranha.
Sim, é estranha, mas estamos a falar do melhor do mundo, senão um dos melhores do mundo, e que jogou sempre a um nível altíssimo. Portanto, é muito mais fácil os clubes por onde passou conquistarem o título do que propriamente alguém que não tenha o estatuto de Maradona.
Há aqui mãozinha de Maradona.
Podemos olhar, podemos considerar. Eu não olho dessa forma, agora é uma realidade.