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Neste jornal temos a oportunidade de conversar com o padre João Basto. Bom dia, bem-vindo, boa Páscoa. Esta é a primeira Páscoa do Papa Leão XIV e esta mensagem que estamos aqui a destacar é direcionada principalmente aos líderes mundiais. O líder da Igreja Católica diz mesmo que aqueles que têm o poder de iniciar guerras devem escolher a paz. Pareceu-lhe ser uma mensagem mais direcionada precisamente aos líderes mundiais do que tem acontecido, por exemplo, em anos anteriores?
Olá, bom dia. Para si, Miguel, que dirige a emissão, para todos que trabalham no "Observador" e para todos aqueles que nos ouvem, uma boa Páscoa, uma santa Páscoa para todos. É como disse, a mensagem do Papa na Páscoa, como no Natal, é chamada a mensagem "Urbi et Orbi", é a mensagem à cidade e a todos, e a todo o mundo. E por isso, geralmente, o Papa aproveita sempre, o Papa Leão XIV aproveitou hoje, mas o Papa Francisco, como os seus antecessores também tinham aproveitado, para aproveitar a mensagem teológica e religiosa, quer de Natal, quer hoje da Páscoa, para aplicá-la à vida concreta e muitas vezes à vida política atual. E é por isso que o Papa Leão XIV pegando na ideia de que o Cristo ressuscitado é o Cristo da paz, hoje retoma essa imagem para que num mundo cheio de violência, ele seja capaz de dizer que Cristo ressuscita por uma força que não é violenta e que infelizmente nos estamos a habituar à violência, que é preciso um novo ritmo de paz no mundo em que vivemos. Aliás, para mostrar que isto não é uma novidade propriamente dita, ele várias vezes cita o Papa Francisco naquela expressão que ainda há bocadinho ouvimos e que se tornou famosa, da globalização da indiferença. E por isso há aqui um contínuo na ideia de que a mensagem de Natal e da Páscoa do Papa tem sempre este repto para todo o mundo.
Eu ia pegar precisamente por essa questão de Leão XIV falar da cultura da indiferença em relação aos conflitos atuais. Isto é um problema crescente que a Igreja tem identificado e tem feito menção em várias missas e também noutras bênçãos "Urbi et Orbi". Pareceu-lhe que Leão XIV quis insistir nessa mensagem para tentar novamente recentrar a preocupação da Igreja Católica?
É uma preocupação deste Papa, como tinha sido dos anteriores, mas focando-nos neste, desde o início do seu pontificado. Aliás, a primeira palavra que o Papa Leão XIV diz quando é eleito é: "A paz esteja convosco", que é as palavras que Jesus dirige aos discípulos depois da ressurreição. Os discípulos estavam cheios de medo, estavam muito confundos, muito perdidos, e Jesus a primeira coisa que lhes diz é: "A paz esteja convosco". É óbvio que a Igreja, como tem também, a partir do Evangelho, uma incidência na vida prática, nós podemos traduzir isso da incidência na vida política, na vida do bem comum. Aliás, o Papa Leão diz que a ressurreição e a paz não pode visar o próprio interesse, mas o bem comum, e que não impõe os próprios planos, mas colabora com outros para procurar um plano maior. Creio que é claramente a mensagem que a Igreja tem tentado aprofundar ao longo dos vários pontificados, mas neste em particular, que tem visto o iniciar de muitas guerras, em que a Santa Sé tem tentado ser a voz de charneira e de consenso, mas que nem sempre consegue precisamente por isto, porque quando a voz da paz e do amor é ouvida, a voz da verdade é ouvida, muitas vezes não tem consequências práticas naqueles que a ouvem. E o Papa claramente nota isto, principalmente nos líderes com quem conversa. A Santa Sé tem uma vasta rede diplomática e por isso é muito avisada e é um bom sinal, como um canário da mina, daquilo que se passa no interior do nosso mundo.
Ia pegar precisamente nessa influência que pode ter a Igreja Católica, porque ao contrário do que já aconteceu em anos anteriores ou em outras celebrações, como por exemplo no Natal, não há propriamente uma trégua pascal, não há na Ucrânia, não há no conflito no Médio Oriente. Isto mostra que os líderes mundiais estão mais afastados dos apelos da Igreja?
Eu não sei se são os líderes mundiais que estão afastados dos apelos da Igreja. A Igreja, como outras religiões, quando vividas com responsabilidade e de forma autêntica, são religiões que procuram o bem comum, a paz, a convivência fraternal entre os povos e o reconhecimento dos excluídos. É óbvio que quando nós temos líderes mundiais que não dão atenção e não priorizam nenhum destes elementos, a voz da Igreja e de outra qualquer comunidade que procura o bem comum, seja menos escutada. Acho que não é uma questão da Igreja, é uma questão que claramente as pessoas que muitas vezes comandam os destinos da humanidade estão um pouco dessintonizadas deste objetivo da paz.