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Bruno Martins esteve envolvido na produção do documentário "Implantação da Rapública". Bruno, falamos aqui sobre o relatório que foi publicado nesta semana sobre o aumento da criminalidade em Portugal no ano passado. É um aumento que, de acordo com este relatório, estará de certa forma associado a gêneros musicais, nomeadamente o hip-hop e o drill. Estes não são os únicos gêneros musicais, mas são aqueles que são especificados neste relatório de segurança interna. Bruno, antes de nos centrarmos no hip-hop e no drill, começo por perguntar se faz sequer sentido que o gênero musical seja um fator que leva à criminalidade.

Na minha opinião, parece-me que não. O gosto musical de alguém pode levar alguém a cometer algum crime. Isso é como aquela questão que se colocava há alguns anos, se o metal ou a música gótica levavam alguém a cometer crimes de homicídio, etc., ou levava alguém a ser violento. Não me lembro se chegou alguma vez a ser feita alguma associação a isso nos relatórios de segurança interna, se havia mais homicídios e se esses homicídios estavam relacionados com a escuta de metal, de música gótica ou de rock mais pesado, mais industrial. Não sei se isso alguma vez foi feito. Sinceramente, talvez alguém queira fazer essa pesquisa. A meu ver, não tem cabimento nenhum. Mas quem sou eu?

Centrando agora na questão do hip-hop, como estávamos a dizer no início, estiveste envolvido nesta produção do documentário "Implantação da Rapública", que não tratava só a questão do-

Desculpa, deixamos a correr a implantação da Rapública.

Da Rapública. Eu por acaso estava com dúvidas sobre a forma como se lia, vou admitir.

Era Rapública.

Era Rapública, ok. Obrigado por essa chamada de atenção. Então, estiveste envolvido nesta produção da implantação da Rapública e não se centrava só no hip-hop, era uma das subculturas analisadas, digamos assim. Daquilo que tu foste encontrando nesta experiência, realmente nota-se que as pessoas que ouvem hip-hop vão demonstrando uma maior tendência para atividades criminosas ou pelo menos para atividades mais violentas, alguma coisa que nos possa fazer ativar os sinais de alerta?

Não, de todo mesmo. E acho que até mesmo ao contrário. É óbvio que a cultura do hip-hop, em todas as suas vertentes, tanto no b-boy, tanto no grafite, como no DJ, como no MC, obviamente que tem origens muitas vezes em bairros de poucas oportunidades, porque quem faz o hip-hop e a história do hip-hop tem essa gênese, vir de zonas que não tinham tantas oportunidades. E então as manifestações culturais eram feitas através de formas em que cada um se safava como podia, por assim dizer. E não havia dinheiro para comprar uma guitarra, então fazia-se beatbox e cantava-se por cima. Basicamente era assim, agarravam-se em discos e cantavas por cima. Então esta é a gênese do hip-hop. Do hip-hop, obviamente, neste lado mais musical, do rap, por assim dizer. Então é natural que haja aqui alguma associação a menos oportunidades. Mas também é importante dizer que o rap, o hip-hop, acabou por salvar muita gente, se calhar, de vidas criminosas, de vidas mais difíceis, por assim dizer. E isso é uma coisa que eu tenho vindo a notar e é uma das coisas que eu já sabia, que tenho vindo a testemunhar com este trabalho da Antena 3, da implantação da Rapública, estes três documentários que já saíram. Irá sair em breve o quarto e último capítulo dedicado aos MCs. E é isso que noto. Vejo muita gente a dizer que de facto o hip-hop, a música, porque acaba por ser sempre música, como é o rock, como é também o metal, como é também a música clássica, acaba por ser uma forma de expressão. Esta cultura acabou por salvar a vida a muita gente, porque não deixa de ser uma forma de expressão, acaba por ser uma forma de expressar os medos, as angústias, as desigualdades, acaba por ser também essa manifestação de desigualdade e acabou, nos últimos anos, por criar oportunidade de trabalho a muita gente. Agora, se acaba por espelhar também as dificuldades que muitos destes artistas viveram? Se calhar, espelhou um pouco, mas isso é a mesma coisa que dizer que toda a arte é literal. Se calhar muitas destas canções ou muitos desses videoclipes De que fala o Relatório de Segurança Interna, que faz essa apologia dos tráficos, das manifestações criminosas, se calhar são apenas frutos de vivências de bairro e não necessariamente vivências pessoais. Isso acaba por ser quase tão imaginativo como, por exemplo, o cinema. Ou seja, o que me parece perverso da parte deste Relatório de Segurança Interna é fazer essa associação a um estilo de música, associá-lo a atividades criminosas. Como estava a dizer há pouco, acho eu, também posso estar enganado, essa associação nunca foi feita a outros estilos de música, nunca foi feita ao consumo de droga. Talvez já tenha sido feita, não sei. Ao consumo de droga, à violência, aos fenómenos de violência já terá sido feita a outros estilos de música. Não sei, é uma questão que mais uma vez deixo no ar. Agora, eu não encontro essa relação direta entre o aumento de criminalidade e os fenómenos ligados ao hip-hop. Inclusive existem até alguns projetos associados a grupos de hip-hop que acabam por até ser, de certa forma, projetos sociais de ajuda e de intervenção social, precisamente para poder ser dada alguma ajuda a mais crianças, a mais jovens que vivem em bairros problemáticos, por exemplo, que não têm tantas oportunidades como existem noutros sítios, noutras zonas. E que esse tipo de projetos, por exemplo, se calhar acaba por ser o que vai salvar e vai ajudar mais jovens a não praticarem atos de criminalidade.

Portanto, há casos positivos, da mesma forma que há negativos, claro, mas também existem os casos positivos em que o hip-hop tem quase uma função de integração.

Sem dúvida. Como existem escolas em Paredes de Coura, por exemplo, existe um projeto de escola do rock. Estamos apenas a falar de uma manifestação cultural, estamos apenas a falar de música. Daí eu não entender e achar até, volto a dizer, muito perverso, muito preocupante, na minha opinião, obviamente, que seja feito este tipo de associação a um género musical. Associar um género musical à criminalidade, acho isto perverso e perigoso até. É a minha opinião.

E já agora, Bruno, até que ponto é que esta ligação, porque o relatório frisa que este não é o único fator, claro, diz que é um dos fatores que levam à agregação depois de grupos violentos, que depois conduzem à criminalidade. Mas até que ponto é que especificar que esses géneros musicais passam muitas vezes pelo hip-hop e pelo drill não vem depois contribuir para o estigma da sociedade contra as pessoas que ouvem esses géneros?

Tu usaste precisamente o termo que eu há pouco, entre não querer usar e estar-me a faltar o termo mais apropriado, usaste mesmo esse termo, o estigma. Acho que é tudo uma questão, mais uma vez, de estigma. Acho que este relatório acaba por fazer muito isso. Acho que acaba por passar muito por aí. E lá está, daí ser perverso, daí ser perigoso estar a fazer este tipo de associações a um género musical que hoje em dia, curiosamente, é provavelmente o género mais popular, que não é só ouvido, digamos, entre aspas, pelas pessoas dos bairros, é ouvido das vivendas de Cascais até aos bairros do Cerco no Porto, por exemplo. Deixa-me só acrescentar uma coisa. Nos bairros do Porto, por exemplo, existem projetos, como estava a dizer há pouco, de integração social feito por rappers do Porto, o projeto OPA, por exemplo, feito por rappers e artistas deste género musical, que trabalham com comunidades de bairros, etc, que ajudam a fazer integrações precisamente para tentar evitar isso mesmo, que haja aumentos de criminalidade para que jovens que não têm oportunidades, sabemos por culpa de quem é que não há oportunidades, neste caso. Devia haver, se calhar, até um pouquinho mais de intervenção do Estado para poder, junto das comunidades, prestar um pouquinho talvez mais de apoio para que elas fossem mais seguras, para que os jovens tivessem se calhar um pouquinho mais de apoio escolar, de apoio no trabalho, por exemplo, porque aqui não estamos a falar só de jovens, estamos a falar de condições de trabalho, estamos a falar de jovens que são abandonados, entre aspas, de pais e de mães que têm de trabalhar das 05:00 às 22:00. Ou seja, é fácil nós estarmos aqui a falar da realidade ou daquilo que acontece, mas depois é preciso se calhar ver o que acontece a nascente e depois a poente. Acaba por ser um pouco isso, Manuel, de facto.

Queria te perguntar há pouco, porque estavas a dizer que o hip-hop é ouvido um pouco mais por várias camadas da população. Queria te perguntar se este estigma, então, como estávamos aqui a falar, se poderá eventualmente dissolver-se com o passar do tempo, à medida que o hip-hop também se vai tornando cada vez mais pop, entre aspas.

Eu espero que sim, mas realmente relatórios como estes não ajudam. Há uma conversa que aparece neste documentário, não sei se esta parte em particular aparece no documentário, na "Implantação da República", que o Sam the Kid sublinha isso mesmo. Normalmente, quando há umas festas, acontece uma festa qualquer, pode ser uma festa de reggae, mas em que está alguém ligado ao hip-hop ou que pode ter uma batida um pouquinho mais de hip-hop, acontece algum problema, alguém que se zanga ou há uma altercação qualquer no bar por uma bebida que foi tirada inadvertidamente, ou por alguém que se mete com a namorada de um amigo ou qualquer coisa assim, e aparecem logo as manchetes a dizer que problemas ou zargata numa festa de hip-hop. Parece que o estigma acaba por vir sempre bater à porta do hip-hop. Agora, quais é que são os motivos? É o que fica sempre no ar. Parece que se anda há 20 e tal anos a lutar contra isso. Parece que ainda não é suficiente, parece que relatórios como este acabam por trazer de volta sempre o estigma, como estavas a dizer, Manuel.