Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

É nossa convidada nesta edição das 18h, Lia Fernandes, psiquiatra do Hospital de São João, no Porto, é também professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Bem-vinda.

Muito boa tarde.

Professora, por que motivo se prevê este aumento tão significativo de casos de demência em todo o mundo?

Efetivamente, nós temos um aumento bastante pronunciado da população idosa em todo o mundo, porque vive-se mais anos, dado os avanços da medicina, as condições de vida, as condições sociais, as condições gerais e portanto, há claramente aqui um aumento e, por outro lado, não se vê o crescimento da natalidade. Temos aqui um desequilíbrio muito grande da população. E na medida em que se vive mais tempo, é evidente que se vive tempo suficiente para se desenvolverem esses processos neurodegenerativos, que de fato são as demências, e que afetam a capacidade cognitiva das pessoas, afetam os comportamentos, afetam a autonomia e a independência dessas pessoas.

Portanto, terá mais que ver com a longevidade e menos com os hábitos de vida das sociedades e particularmente as sociedades ocidentais.

Não, também tem a ver.

Também.

Efetivamente. Nós sabemos hoje que em 40% dos casos, poderíamos dizer que as demências seriam preveníveis. E desde logo, no início de vida, é muitíssimo importante o fator da escolaridade, o fato de nós lermos bastante, de termos uma vida bastante ativa do ponto de vista intelectual, é extremamente importante. Mas depois, na idade adulta, há outros fatores que são muito importantes e que devem ser prevenidos, como é o caso da obesidade, a hipertensão arterial, que estão muito associados aos fatores cardiovasculares, e recentemente adicionam-se a esses fatores também a redução da audição precoce, pode ser de fato um fator que contribui bastante para este aumento, assim como também traumatismos cranianos e o abuso de álcool. Na idade mais avançada, curiosamente, interferem mais outros fatores, como sejam as depressões, sobretudo as depressões que estão mal contratadas e quando não há uma intervenção atempada, o isolamento social, o uso e abuso do tabaco, o não tratamento da diabetes, depois também a ausência de exercício físico e também, por último, a poluição. Parecem ser, de fato, os fatores que estão aqui elencados, nomeadamente no artigo recente que saiu da Lancet Commission para a demência, prevention, intervention and care, que foi publicado e que estão muito bem desenvolvidos todos estes conceitos e em que medida nós podemos melhorar de fato estes fatores. Portanto, seria extremamente importante também. A idade é, sem dúvida, o envelhecimento é, sem dúvida, o fator número um.

Professora, ia perguntar como é que podemos travar esta tendência. Há alguma coisa que possa ser feita para prevenir o aparecimento de doenças associadas à demência?

Eu penso que intervir em todos estes fatores de risco é extremamente importante. Prende-se, evidentemente, nos hábitos de vida saudáveis que temos ao longo da vida, como é evidente, prende-se com a tal escolaridade que eu falei muito importante no início de vida, e depois o tratamento de uma série de doenças, como sejam a questão da diabetes, como eu falei, também a própria questão da audição, a hipertensão, a obesidade, a própria depressão e o isolamento social, e o próprio sentimento de solidão. Eu, por exemplo, agora durante o período da Covid, verifiquei que muitas situações de pessoas que ficaram isoladas e sentiram uma enorme solidão, ficaram muito prejudicadas e tiveram um aumento substancial, mesmo situações que tinham défices cognitivos ligeiros, evoluíram muito mais rapidamente do que seria previsível, sem que essa situação farsa tivesse sido atravessada pelas pessoas jovens, quanto mais pelos mais velhos.