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Ficámos a saber que há esta medida excepcional, ou seja, a Ordem dos Médicos acaba por autorizar os médicos ucranianos a trabalharem cá, mesmo sem falarem a nossa língua. É uma decisão inédita. E precisamente com a Ordem dos Enfermeiros, eu gostava de lhe perguntar, Ana Rita: qual é que vai ser a abordagem? Se vai haver aqui um facilitar, não vai? O que a Ana Rita nos pode contar?
Sim. Nós falámos já várias vezes com o doutor António Sales sobre esta questão e há aqui um problema inultrapassável, para já, que é a questão da língua. Para poder ser enfermeiro, obviamente, tem que se falar português, e português técnico, porque estamos a falar de um contacto muito direto com os doentes e da utilização de medicamentos e da sua administração também, e é um risco muito grande. O doente tem que perceber o profissional e o profissional tem que perceber o doente, porque senão alguma coisa pode correr muito mal. E o que nós sugerimos? Porque nós não temos barreiras de acesso na Ordem dos Enfermeiros. Nós temos, aliás, 45 enfermeiros ucranianos a trabalhar em Portugal, com cédula, que já cá estavam. E a questão do reconhecimento específico das universidades é uma questão que não passa pela Ordem, portanto, é a montante da Ordem. O que nós fazemos é receber a inscrição e verificar este requisito da língua. E portanto, o que sugerimos ao doutor António Sales foi que o Governo português lhes pagasse cursos de português, até porque eles aprendem relativamente rápido e que pudessem, no entretanto, fazer alguma outra coisa que não exercer enfermagem em contacto direto com doentes, porque isso para nós é inultrapassável, é uma questão de segurança dos doentes. Nós colaboramos em tudo e temos colaborado com os refugiados a fazer avaliação de saúde. Mas esta questão não podemos ultrapassar.
E relativamente a este espaço de tempo até esses cidadãos ucranianos terem o título profissional de enfermagem, a Ana Rita Cavaco sugere, por exemplo, que os enfermeiros em causa possam desempenhar outro tipo de funções, é isso?
Sim. Primeiro, nós o que perguntámos, e até porque isto foi dito pelo próprio secretário de Estado da Saúde, que muitos deles nem falaram em trabalhar. As pessoas vieram para cá numa situação complicada. Imagino o que terá sido para elas terem que sair do seu país neste contexto. E não sabemos quais e quem é que querem trabalhar. E têm, provavelmente, primeiro que encontrar a sua paz de espírito e ver o que querem fazer, porque também segundo o doutor António Sales, muitos deles disseram que queriam regressar o mais rápido possível. Depois, estamos a falar provavelmente do número residual, porque este tipo de profissionais, sobretudo enfermeiros e médicos também, foram aqueles a quem foi pedido que não abandonassem o país, porque infelizmente são muito necessários numa situação de guerra como esta que está a haver.
Exato.
E portanto, aqueles que quiserem trabalhar no imediato, não poderá ser com o título de enfermeiro por causa da questão da língua, mas poderão eventualmente ser contratados noutras funções que não exijam o contacto direto com os doentes, a interpretação de sintomas, a administração de medicação, porque isso é um risco muito grande e não podemos correr esse risco. Nós não temos estágios tutelados, como têm os médicos, por exemplo. E ainda assim, mesmo para o caso dos médicos, é um risco, porque como é que eles vão comunicar com os colegas portugueses? Continuam a só falar ucraniano, eventualmente alguns poderão falar inglês e portanto, eu percebo a bondade da medida, mas acho que não está a ajudar ninguém.