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Maria João Vilas, morreu hoje José Manuel Espírito Santo, aos 77 anos, vítima de doença prolongada. Sei que eram amigos de infância. Como é que ele era? Que memória guarda dele?

Guardo a melhor das memórias. Guardo uma impressão permanente de disponibilidade, a alegria de viver, um enorme companheirismo com os amigos, uma disponibilidade permanente para os amigos. Era um grande elemento de quando nós éramos adolescentes. Aliás, uma parte da minha adolescência foi muito vivida com ele e com alguns dos irmãos dele, numa casa que havia em Cascais. Quando se é adolescente e se parte para a vida, tem-se tendência a ver a vida de uma forma amável, afável, quase maravilhosa. Desde esse tempo, a recordação que eu tenho dele está marcada pela adolescência comum. Depois nunca deixámos de nos ver, a não ser quando ele viveu no estrangeiro, e foi um grande amigo. É uma hora muito triste para mim e é uma hora em que o que marca é, não tanto aquilo que foi o terrível sofrimento dele pelo que aconteceu com o nome da sua família e com a história do banco, mas a memória de uma vida em que eu o vi ser bom, reto, justo, tudo aquilo que nós achamos que um cidadão e um homem deve ser. Foi isso que eu vi o José Manuel Espírito Santo ser toda a vida. É com essa recordação, obviamente, que eu fico. Aliás, eu queria dizer também que não me espantou absolutamente nada. O país apreciou, mas eu não me espantei com aquele pedido de desculpa imediato, que muito mais do que de um conselho de um advogado ou de um conselho de amigos próximos, ou fosse do que fosse, foi completamente ditado por aquilo que ele estava a sentir naquele momento, que era um terrível vexame e uma vergonha pelo nome da família, pelo nome de um banco criado pela família dele, pelo nome de uma família da qual ele vinha e que sempre respeitou muito e da qual ele era um produto, que estivesse naquela espécie de roje da amargura. Deixe-me só acrescentar isto. Eu não estou a tentar passar um pano por cima daquilo que não sei ou que não devo. Estou só a enquadrar e a explicar com a autoridade que me permite a amizade de uma vida, estou só a tentar explicar a personalidade, o coração e a maneira de ser de um grande amigo que partiu hoje.

Maria João, ia perguntar isso mesmo. O José Manuel Espírito Santo foi o único Espírito Santo a pedir desculpa aos lesados do BES. Isto foi um período que ele viveu em grande angústia?

Não, isso foi um período que eu testemunhei de muito perto, porque assim que foi possível, o meu marido e eu fomos imediatamente a casa dele. Tivemos a ocasião de conversar muito. Isto é um dado muito importante, porque eu presenciei testemunhalmente. As conversas não iam nunca além do estado quase lancinante em que ele estava de humildade perante aquele erro, perante a dimensão, se quiser, até quase a própria surpresa que tivesse sido possível acontecer aquilo. Você falou em doença prolongada, eu acho que era um AVC. Ele teve um AVC profundíssimo, quase logo a seguir ou não muito tempo depois. E agora isto é uma opinião completamente pessoal, que só me responsabiliza a mim. Eu estabeleci imediatamente uma espécie de uma ligação entre uma coisa psicossomática. Ele sofria tanto, angustiava-se tanto, afligia-se tanto. Ele era uma pessoa que visitava muito, por exemplo, os balcões do banco permanentemente, que tinha um contacto muito íntimo com os funcionários mais altos, médios ou mais baixos. Tudo isso na cabeça dele deve ter provocado um tal choque que não desligue que o AVC possa ter sido causado por isso.

E depois da queda do BES, falou-se que ele tinha o objetivo de reabilitar o próprio nome e o nome da família Espírito Santo. Como é que foram passados estes últimos anos?

Estes últimos anos exatamente foram passados com ele sentado numa cadeira com os efeitos daquilo que é um AVC profundo. Ora conhecia momentaneamente as pessoas, ora não conhecia. Era impossível estabelecer um discurso coerente e racional, que nós percebêssemos o que é que ele estaria a pensar. Eu sei que o tempo que mediou entre aquele choque, a humilhação, a vergonha, o sofrimento e depois o AVC, ele não pensou noutra coisa senão como fazer para reabilitar o nome da família, até mais que o dele. O que estava em causa era uma família que tinha fundado aquele banco, de uma forma séria, informada e como deve ser, e que tinha acabado daquela maneira. Não houve muito tempo para estruturar ou para nós lá na nossa casa nos apercebermos como é que seria essa reabilitação. Agora, que ele tinha essa intenção, isso tinha absolutamente.