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Junta-se a nós Luís Pedro Nunes, o diretor do Inimigo Público, onde foi publicado este cartoon. Muito boa tarde, Luís Pedro Nunes. Começo por lhe perguntar como é que um diretor de um suplemento satírico reage depois de ver um cartoon ser alvo, neste caso, da PSP?

Eu estou perplexo com o tempo disponível que a direção da PSP tem para se dedicar a processos-crime contra cartoons em suplementos satíricos. Nós temos 860 edições, temos milhares de cartoons publicados, uns com mais acutilância, outros com menos. Nenhum processo até hoje, seja em cartoons ou notícias. Eu estou espantadíssimo com isto, até porque o cartoon não é dirigido à polícia. Eu quero fazer uma correção: eu acho que 2020 é um ano cheio de surpresas e de acontecimentos extraordinários, mas eu hoje já me vi várias vezes a tentar explicar o cartoon. O que quer dizer que ou o cartoon está mal conseguido, é uma hipótese, ou as pessoas recusam-se a ler o cartoon, ou a sátira morreu. Há essa hipótese também, de as pessoas já não terem capacidade de ler sátira. Mas o cartoon em si não tem a ver com a manifestação, tem a ver com a sociedade portuguesa. Vai buscar a imagética da manifestação desta semana e faz uma leitura utilizando essa imagem, aquela imagética das máscaras e das tochas, e vai utilizar vários tipos que esta semana foram surgindo na sociedade portuguesa e nestes últimos meses, que se escondem atrás de uma máscara que é do Ventura. O cartoon é sobre André Ventura, não é sobre a manifestação desta semana e não é sobre a polícia. Estão ali vários tipos de pessoas que se escondem atrás da máscara de Ventura, entre os quais, de vez em quando, aparece um polícia. Aparece, é verdade. Mas também está ali um tipo com uma camisola de futebol, de adepto de futebol. Está um com um casaco muito vistoso, que nós quisemos que fosse um apresentador de televisão que tem estado em polémicas.

É o casaco aos quadrados amarelos?

Sim, exatamente. Que esta semana esteve em polémicas no Instagram e noutras casquilhos, por causa de um cantor que foi cantar a um comício do Chega e ele foi defendê-lo. Enfim, houve polémicas. Ou seja, aquilo era uma representação do que a sociedade portuguesa tem tido e que se tem escondido atrás da máscara e da carantonha do Ventura.

Luís Pedro Nunes, enquanto diretor do Inimigo Público, admite que possa ter havido aqui alguma má interpretação do trabalho? Admita, inclusive, que possa haver aqui alguma falha por parte de quem fez o cartoon, mas a questão aqui é claramente que não há aqui esta leviandade.

Eu não tenho que me explicar, porque é assim, porque esta manhã o Movimento Zero, que é um movimento inorgânico da PSP sem cara, lá está, sem cara, sem nada, começou a exigir à direção nacional da PSP que tomasse uma posição. Está lá esta manhã no Facebook do Público e no meu: "Exigimos à direção nacional". E aí está. Uma dessas caras brancas sem face e que se esconde atrás, às vezes, da máscara de um tal Ventura, exigiu à PSP que tomasse posição. E a PSP esta tarde tomou. E é isso que a sátira faz, é desconstruir a realidade. Não é ir acusar a PSP de infâmia e de grandes dramas na sociedade. Quer dizer, está lá o retrato. Vejamos. Agora, a direção da PSP quer ser literal e ser literal não é como a sátira funciona. E mais eu não posso estar a explicar, porque um cartoon é um cartoon, é um cartoon. E ainda mais é um cartoon de primeira página, portanto, é um cartoon editorializado, do qual eu me responsabilizo e sou coautor.

E o que é que o público pode fazer agora, depois deste anúncio por parte da PSP?

Agora esperamos.

Aguardar os desenvolvimentos.

Eu sei que o professor Observador é processado, o que é que se faz? Não vai pôr velinhas, fica à espera, não é? José Manuel Fernandes, que eu conheço, sabe isso. Portanto, esperamos.

É aguardar agora por novos desenvolvimentos.

Sim, mas eu aguardo, acima de tudo, que o diretor nacional da PSP, e eu digo isto sem estar aqui, que é uma pessoa que eu tenho consideração e disse-lhe na televisão, coisa que não passa, claro, nos clipes dos WhatsApps dos Movimentos Zero, que diz que quer uma pessoa com a minha consideração, que se ponha a pensar que vamos, se isso for para a frente, eu acho que vai ser uma situação no mínimo curiosa vermos os julgamentos a discutir o quão literal é um cartoon na sociedade portuguesa. Até porque quando uma sociedade começa a ir atrás dos cartunistas, é sempre sintomático de qualquer coisa.

Luís Pedro Nunes, não temos muito mais tempo, estamos aqui a aproximar-nos das 18h30. Queria só de uma forma muito breve: nos últimos tempos, temos ouvido falar, por exemplo, das críticas a outro cartunista, ao António, também o Vasco Gargalo, já foram alvo de ameaças, de críticas depois de desenhos que foram considerados antissemitas, por exemplo. Estamos aqui num momento perigoso também da sociedade?

Está, porque eu acho que ninguém lê os textos, porque os textos têm mais complexidade. Agora, eu acho que um cartoon é o que é. Estamos todos na era de nos ofendermos muito. Agora, sinceramente, eu acho que olhando para a semana que passámos, com a gravidade dos acontecimentos desta semana, a nível institucional, a nível de problemas graves a nível social, a direção nacional da PSP tirou a tarde de sexta-feira para emitir um comunicado relacionado com um cartoon de um jornal satírico que nem sequer tinha como ponto central a Polícia de Segurança Pública. Eu não tenho muito mais a acrescentar.