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Como olha para esta mais recente atualização que ficámos a saber por parte do grupo Wagner em suspender essa insurgência, essa rebelião? Como é que fica também aos seus olhos a própria posição da Ucrânia?

Os desenvolvimentos do dia de hoje, penso eu, estão longe ainda de produzir todas as suas consequências, mas claramente já indiciam a fraqueza do regime russo e do poder de Putin. Aparentemente, ele acabou por fazer um negócio com Prigozhin. Sabemos que são, no fundo, chefes de gangues mafiosos a disputar-se e ao mesmo tempo a chegar a entendimentos, naturalmente, que não servem os interesses do povo russo e que não servem a segurança do conjunto da humanidade, porque estamos a falar de um país que tem o maior arsenal de armas nucleares. Para a Ucrânia, imagino que deva ter sido um dia interessante. Vejo notícias de que houve já uns avanços em determinadas zonas onde, inclusivamente, à conta destes desenvolvimentos na Rússia, tropas russas se renderam aos ucranianos, permitindo portanto aos ucranianos avançar. Não obstante a atenção com que foram seguidos estes acontecimentos. Penso que é ainda muito cedo para vermos todas as consequências, quer para russos, quer para ucranianos, mas eu diria que este foi um bom dia para a Ucrânia. E em relação à Rússia, muitos, como eu própria, há muito tempo esperávamos que a guerra na Ucrânia conduzisse a dissensões dentro do regime e cada vez me parece mais provável, será uma questão de tempo, que, de facto, a possibilidade de implosão do poder na Rússia se venha a verificar, sendo que isso não garante de maneira nenhuma mais segurança nem para a Ucrânia, nem para a Europa no seu conjunto.

Sim, efetivamente, a Ana Gomes falava-me agora desse dia bom para a Ucrânia. Mas há quem também possa considerar que toda esta situação entre o grupo Wagner e a própria força militar russa, que também pode ter sido uma espécie de jogada de bluff, uma jogada de teatro. Ana Gomes acredita que houve mesmo uma tensão interna?

Acho que é muito cedo para se perceber o que efetivamente aconteceu. A tensão é óbvia. Foi isso que motivou a tomada de posição esta manhã de Putin, e era isso que já se antecipava com as cada vez mais provocatórias declarações de Prigozhin. Mas estamos a falar de dois chefes mafiosos, não é? Portanto, isso não impede que eles depois se possam entender. E eu não deixei de ver algumas análises de conhecedores da Rússia, de verem que isto podia ser tudo uma operação, efetivamente, telecomandada por Putin, para poder ter uma desculpa para, aos olhos do povo russo, justificar uma retirada da Ucrânia. Tendo em consideração que a operação está claramente a correr muito mal e estava já antes mesmo destes desenvolvimentos de hoje.