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Cabo Verde está à beira de conseguir pela primeira vez o apuramento para o Mundial de 2026. Este apuramento pode ficar carimbado já esta quarta-feira frente à Líbia. Basta uma vitória ou então um empate se os Camarões também não vencerem frente às Maurícias. Há ainda outra hipótese, que é o jogo de rodeiro em Cabo Verde, frente a Eswatini, na próxima semana. Nós vamos falar aqui um pouco do percurso histórico desta seleção de Cabo Verde com alguém que conhece muito bem esta realidade. Rui Águas, antigo selecionador de Cabo Verde, foi também, enquanto jogador, figura maior no Benfica e no Futebol Clube do Porto. Bem-vindo à Rádio Observador. Como é que tem visto este crescimento da seleção de Cabo Verde, que está aqui à beira de escrever uma página dourada na história do futebol deste país?

Boa tarde. Para já, com muito prazer, porque era algo que faltava, algo que foi sempre muito difícil de conseguir em função do poderio superior de muitas das equipes africanas. Finalmente, conseguiu-se com muito mérito, com alguma fortuna que é necessária sempre quando se trata de um jogo. Estou muito contente por esta quase conquista.

Mas é Cabo Verde que está mais forte, são os outros que estão mais frágeis? Há aqui uma conciliação de fatores? Como é que vê este acontecimento e este desenvolvimento desta seleção?

Eu não acho que as coisas tenham mudado assim tanto. O futebol, como sabe, são circunstâncias que se reúnem por vezes, outras não. Claro que não é só isso, não é só circunstâncias, nem acasos. Até porque aquilo que tem sido feito em termos de organização, tem melhorado, de prestação, de angariação de jogadores que, como saberão as pessoas, todos evoluem fora do país. É um país imigrante, o futebol local é um futebol amador, por isso quem joga em Cabo Verde tem muita dificuldade em impor-se de maneira a jogar na seleção. Tem sido um processo continuado. A equipe tem se fortalecido sim, e tem que se dar muito mérito a todo o plantel. O espírito que se viveu e sei que se vive ajuda bastante, porque eu fui internacional português e aqui a diferença é enorme, a maneira como os jogadores gostam de estar, têm a atenção às suas famílias, à sua terra, a importância que os resultados têm no bem-estar das pessoas. É dos países mais pequenos do mundo e esta conquista ganha um relevo muito especial. Conquista, quase conquista.

O que está a dizer é que, de certa forma, os jogadores sentem mais a camisola na seleção de Cabo Verde?

Eu acho que sim. Foi isso que eu senti em Portugal e a realidade que eu vivi enquanto jogador. Normalmente, os jogadores que representam equipes grandes, normalmente Benfica, Porto, Sporting, era o mais vulgar. Agora as coisas também mudaram, porque o mercado também mudou. No fundo, a carência, a pobreza, o fato de ser um país imigrante com variadíssimos problemas de condições financeiras, etc. A pobreza do povo. Tudo isso ganha um especial relevo quando estas conquistas se perseguem e se conseguem fazer. E depois a questão dos jogadores jogarem fora, eu acho que ganha também outro significado. A pessoa poder vestir uma camisola de uma seleção é algo muito especial, as raízes familiares. Está longe de ser só Portugal onde os jogadores são recrutados, tem variadíssimos países para onde é normal o cabo-verdiano emigrar. Eu acho que é todo um conjunto de realidades bem diferentes daqui da nossa.

Mas foi ou é isso que tem melhorado em grande parte nestes últimos anos na Federação de Futebol em Cabo Verde e no trabalho das pessoas que estão ligadas ao futebol, é essa capacidade de encontrar o jogador cabo-verdiano em todo lado. Porque isto é um trabalho muitas vezes complicado, encontrar jogadores em ligas inferiores que podem ter esse potencial ou podem ter o interesse de representar uma seleção como Cabo Verde.

Sim, é um trabalho que já se faz, já se fazia também quando eu era selecionador e, como digo, a realidade aponta muito para isso. Depois acontecia também que são os próprios jogadores ou familiares a chamarem a atenção sobre os jogadores, um bocadinho por todo o mundo. Aconteceu também casos desses Isso é um trabalho que não é fácil de reunião de descendentes com experiências muito diversas. Mas o que eu senti sempre foi a capacidade, mesmo de origens diferentes, de união, de comunhão, de um espírito muito intenso, muito interessante.

Cabo Verde nunca esteve num mundial, e daí esta parte ser histórica, este possível apuramento, mas Cabo Verde já esteve na Taça das Nações Africanas, na CAN. Não esteve muitas vezes, salvo erro, quatro, cinco vezes. Uma dessas participações foi consigo ao comando da equipe, na altura, em 2015. A seleção de Cabo Verde acabou por ficar na fase de grupos. Eu não queria falar aqui tanto de resultados, queria sim falar de como é que Cabo Verde vive essas grandes competições, porque acontecem tão poucas vezes que será certamente algo excepcional para o país.

As pessoas gostam muito de futebol, desde logo, muito atentas também ao futebol português. Esta proximidade, embora tenha água pelo meio, mas a proximidade é grande. A partir do momento em que se conseguiu a primeira qualificação para a CAN, ainda anterior.

Em 2013. 2013 foi a primeira.

Sim, a partir daí foi um pouquinho mais regular. As pessoas também se habituaram e já estranhavam quando isso não acontecia. Uma das vezes até aconteceu, quando eu estava na segunda vez. As coisas não correram tão bem como esperávamos, faz parte. Mas sim, a fase final é algo sempre muito, para já o apuramento é desde logo muito festejado, e depois a fase final para tudo, não para completamente, mas quase.

Vê nesta seleção, nesta equipe, ainda frutos do trabalho que desenvolveu, o trabalho que fez no período, esteve na seleção por duas vezes, de agosto de 2014 a janeiro de 2016 e de agosto de 2018 até dezembro de 2019. Identifica aqui trabalho ou frutos de trabalho que desenvolveu nessas alturas?

Não vou chegar tão longe. Agora, o que eu vejo são alguns jogadores dos mais experientes que ainda se mantêm e que no fundo são aqueles que passam aquilo que de bom se viveu. O Vozinha, o Ryan, o Jamir, que jogava na Holanda na altura, que agora também é dos mais experientes. Vários jogadores, o Gary Rodrigues, o Roberto Lopes, por exemplo. O Roberto Lopes, eu não sei se conhece esta história, mas acho que muito rapidamente é interessante contar. O Roberto joga e jogava na altura já na Irlanda, e eu pelo nome achei que ele falava português e contactei via LinkedIn. Não obtive resposta durante algum tempo e passado um tempo resolvi mandar-lhe uma mensagem em inglês, e ele respondeu e ficou muito agradado. Mas foi aquele último recurso, eu já não estava sequer para o contactar. Acabei por fazê-lo e ele gostou muito e foi um feliz acontecimento, porque tornou-se para nós muito importante, quer como pessoa, quer como capitão agora também. E foi um dos exemplos daquilo que foi conseguido por iniciativa própria, digamos assim. Mas o ambiente da equipe eu acho que é uma coisa fundamental. Eu acho que dificilmente há um outro país. Eu conheço aquilo que conheço e não posso falar dos outros, mas dificilmente poderia ser um melhor ambiente do que aquele que eu vivi e nisso todos contribuem.

Sim. Por aquilo que conhece desta realidade, ir a uma CAN já é um clima de festa, ir a um mundial será certamente, ou podemos imaginar, de parar o país. É assim que vai acontecer um apuramento agora durante os próximos dias, parar completamente Cabo Verde?

Eu não tenho dúvida. É o máximo um país que é, se não me engano, o terceiro mais pequeno ou terceiro com menos gente a viver no próprio país do mundo, chegar a uma competição desta importância e desta grandeza, não tem nada a ver. E por isso as pessoas estão entusiasmadíssimas, como é evidente.

Ainda outro aspecto, só para falarmos aqui, para fechar, de futebol. Esta Líbia, como é que ia jogar? O que se pode esperar deste adversário? Cabo Verde tem aqui dois adversários um pouco mais acessíveis, a Líbia e a Suazi. Acredita que o apuramento pode ser já neste primeiro jogo?

A Líbia não é tão acessível assim. Nós jogamos, eu acho que na segunda vez em que passei. Nós jogamos contra a Líbia no Egito, porque na altura não se podia jogar na Líbia por questões políticas. Não sei qual é a realidade agora, mas é uma equipa e foi muito difícil ganhar. Ganhámos 2x1 e eles, lembra-me, que falharam dois pênaltis, o Vozinha acho que defendeu os dois. E por isso é uma equipa tecnicamente bastante boa e que nesta altura tem aspirações ainda, o que pode dificultar mais este jogo. Eu não sei onde é que se realiza o jogo, mas que são jogadores muito hábeis, tecnicamente fortes, são. Por certo, será o mesmo perfil da equipa que nós conseguimos bater nessa altura.

Muito bem, Rui Águas, muito obrigado por esta conversa e por esta antevisão, este duelo que Cabo Verde vai ter rumo ao mundial de 2026. Muito obrigado.

De nada