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Diga-me, esta exposição está organizada em três eixos, em três momentos, não é? Quais são eles?
Olhe, esta exposição pretende ser uma narrativa. E uma narrativa que mostra, através de documentos, de livros, de cartas, etc., como alguém que começou por ser tradutor e depois funcionário de uma editora, acabou por ser um grande escritor e Prémio Nobel da Literatura. Portanto, há um primeiro momento que diz respeito justamente à formação do escritor, àquilo que antecedeu a publicação dos grandes romances. Há um segundo momento que diz respeito ao trabalho de pesquisa que o romancista fez para escrever, incluindo logo depois a publicação e o trabalho sobre as provas e a passagem dos textos a limpo e tudo isso. E depois há um terceiro momento que diz respeito à recepção e à consagração, isto é, quando se começou a publicar muito sobre o Saramago, quando começaram a aparecer edições ilustradas, quando começou a receber cerca de 30 doutoramentos honoris causa e depois, por fim, ou quase por fim, quando recebeu o Prémio Nobel. Portanto, eu diria que esta narrativa, de certa forma, ilustra aquilo que no dia o professor Eduardo Lourenço disse, e que é que este é um trajeto improvável, que nada fazia prever que fosse assim e que viesse a ter a projeção que teve. Mas o núcleo duro da exposição é, de facto, o trabalho do escritor, porque o Saramago tinha uma conceção, digamos, laboral da escrita, não propriamente uma conceção inspiracional, mas sim laboral. A escrita é um trabalho e esse trabalho desenvolve-se. É preciso fazer pesquisa, é preciso tentar, passar a limpo, emendar, etc. E tudo isso é trabalho. E, portanto, o centro fulcral da exposição é o trabalho que deixou todos esses vestígios de que eu estou a falar.
E isto engloba, por exemplo, documentos inéditos, manuscritos, essas tentativas erro.
Há uma parte da exposição que é constituída por manuscritos, contos, designadamente, planos de obras mais alargadas que o Saramago acabou por nunca publicar e por nunca levar adiante. Mas o que há aqui de inédito, no sentido técnico, são estes manuscritos. Evidentemente, o trabalho oficial, já várias coisas foram publicadas em reproduções fac-similadas noutras exposições anteriores, mas agora o que está aqui em causa é também apresentar alguns manuscritos que ainda não foram apresentados, outros que já o foram, mas sobretudo construir esta narrativa. Isso é que é, de facto, o mais importante. E, por outro lado, sublinhar o seguinte, aquilo que se pensava e que muitas vezes se disse, que o Saramago dos anos 50 e 60, que não escrevia, que estava calado, não é bem assim. Já ia escrevendo e bastante. E, portanto, agora muito disso que ele já estava a escrever e a tentar que aparecesse, está exposto na exposição.
Para além do material que está exposto, há outros momentos previstos na programação até outubro?
Sim, senhora. Vou então explicar. Hoje, por exemplo, há às 19h, em Algés, uma sessão de uma série que nós temos estado a fazer chamada Legados Saramaguanos, que são conversas com escritores que vieram depois do José Saramago, muitos deles premiados com o Prémio Saramago, e que nos dão o seu testemunho sobre como se escreve hoje, depois de ter aparecido na literatura portuguesa, sobretudo dos anos 70 em diante, um escritor chamado José Saramago. Hoje também há duas conferências de uma série chamada Genealogias Literárias Saramaguanas, que são reflexões sobre aqueles que eram os autores da árvore genealógica literária do Saramago. Hoje vai-se falar, agora às 15h, na Biblioteca Nacional, de Pessoa, Borges e Saramago, de Garrett e Saramago. Além disto, temos uma exposição a circular pelo mundo, com o apoio também do Instituto Camões, uma exposição em painéis chamada Voltar aos Passos que Foram Dados, que é uma exposição de caráter pedagógico, de divulgação, etc. Temos uma série de colóquios que não são organizados por nós, mas que nós apoiamos em universidades em todo o mundo, em muitos lugares do mundo. O Cabildo de Lanzarote promove uma programação autónoma com teatro, com dança, com exposições. Voltando a Portugal, ainda na sexta-feira, eu estive em Loulé na estreia do Bailado Memorial do Convento pelo grupo Dança em Diálogos. E como isso, muitas outras coisas que estão a acontecer, vão acontecer, e que no final de tudo isso vai terminar, como momento de encerramento do centenário, com a ópera Belimunda pelo Teatro Nacional de São Carlos.