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Perguntava-lhe se esta atitude do Grupo Wagner surpreendeu Putin e se há o risco real dos mercenários porem em causa, de alguma forma, este regime de Vladimir Putin.

Muito boa tarde. Aquilo que podemos observar hoje é uma situação surreal. Como sublinhou há pouco, estamos a acompanhar uma coluna de combatentes Wagner em direção a Moscovo, que de manhã estava em Rostov, já passou pela cidade de Voronezh e está agora em progressão em direção à capital. Temos aqui uma situação sem precedentes. A parada está muito alta, pese embora não me pareça, nesta fase, que estejamos a assistir verdadeiramente a um golpe de Estado no sentido de derrubar o presidente Putin. Os objetivos de Prigozhin são verbalmente muito claros. Ele quer duas cabeças, quer a cabeça da liderança militar russa, ou seja, o senhor ministro da Defesa Shoigu e o chefe das Forças Armadas russas, Gerasimov. O que ele quer fazer com essas duas pessoas, ele já falou em fuzilamento, é muito obscuro. Estamos habituados a uma personagem que tem uma narrativa muito violenta e cujas ações não são sempre condizentes com as suas palavras. É um dia surreal, é uma crise profunda. Não é uma crise leve, mas estamos, de facto, limitados a conjecturas neste momento, uma vez que aquilo que se está a passar num tempo muito concentrado, está a acontecer nas mais altas esferas do poder russo, às quais nós não temos obviamente acesso neste momento.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros russos já disse ao Ocidente para não utilizar esta rebelião para atingir os objetivos russofóbicos. Ou seja, é preciso olhar aqui com cuidado para o Grupo Wagner, porque pode haver uma tentação para, tendo em conta que estão a tentar enfraquecer o regime de Putin, para o Ocidente apoiar ou gostar destas movimentações. Mas é preciso ter cuidado, tendo em conta que são mercenários de quem estamos a falar.

De facto, Prigozhin tem esse protagonismo porque ele tem tido uma ascensão, sobretudo desde setembro do ano passado, muito grande. Ele não era um militar e passou a ser um chefe de guerra com cerca de 25 mil combatentes sob a sua alçada. A consistência do Grupo Wagner enquanto combatentes na Ucrânia foi algo que lhe foi permitido pelo regime de Putin, porque era útil ao presidente Putin. Neste momento, aquilo que Prigozhin pelo menos aparenta querer alcançar, que é uma tomada de poder, um maior espaço para ele e para as suas forças, vai ao encontro de uma facção ultranacionalista muito mais radical que a do presidente Putin. Não me parece que neste momento estejamos a assistir a um golpe de Estado no sentido de derrubar Putin, mas com certeza a um realinhamento no âmbito dos clãs que compõem o regime de Putin e um dos apoios principais do poder do presidente Putin são os oligarcas, para além dos mafiosos, criminosos, que também se juntam a esse grupo, dos burocratas e das forças de segurança da Rússia. Claramente estamos aqui a ver este tríptico a sofrer processais realinhamentos e estamos a observar, diria quase ao minuto, a evolução desta situação.