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Queria começar por perguntar qual é a sua opinião sobre este acordo que define as taxas em 15% sobre os produtos europeus.
Acho que não é propriamente uma surpresa. O terreno para este acordo estava a ser preparado há alguns dias, há mais de uma semana. A mim parece-me que é um péssimo acordo e a melhor prova disso é que o grande argumento dos defensores do acordo é que genericamente podia ser pior. Acho que recompensa, no fundo, os piores instintos de Donald Trump, confirma a ideia de que a Europa é pateticamente fraca, para citar aquele famoso escândalo do Signal Gate, aquela troca de mensagens entre vários altos responsáveis da administração de Trump, entre os quais o vice-presidente. A ideia que até poderia ser compreensível é a de que é melhor ter algum acordo que estabilize as coisas. Vamos ver se isso vai acontecer, porque presumir que Donald Trump agora se vai revelar um político sensato e que vai valorizar as alianças, parece-me que é bastante otimista. Tanto mais quanto isso confirma a impressão dele de que a Europa é fácil de pressionar, é fácil de chantagear. Vamos ver se quer na Ucrânia, quer na NATO, quer mesmo nas relações comerciais, isto realmente vai levar à tal estabilidade que é prometida com este acordo. Mesmo que isso aconteça, é objetivamente um mau acordo. A Europa fica a pagar tarifas muito mais altas do que os Estados Unidos, compromete-se com uma série de compras de investimentos nos Estados Unidos sem nenhuma contrapartida. É tudo menos o tal acordo recíproco que Donald Trump tanto fala e só é explicável porque os líderes europeus aparentemente acham que a Europa não é capaz de mais ou eles não são capazes de mais, mas arriscam-se realmente a ter ainda mais um Donald Trump disposto a pressionar e a chantagear a Europa. Vamos ver.
E que consequências imediatas é que as empresas portuguesas ou europeias podem sentir?
Vão pagar mais, ou seja, vão ter os produtos à partida mais caros nos Estados Unidos, e portanto ou absorvem uma parte desse custo para se manterem competitivos, ou tentam que as empresas americanas absorvam parte desse custo, ou então vão passar a ter produtos mais caros e portanto menos competitivos no mercado americano. A partir disso, tudo o resto sendo igual, significará menos quota de mercado, menos exportações europeias. No fundo, a resposta dos negociadores europeus é que poderia ser ainda pior. Donald Trump estava a ameaçar com tarifas ainda maiores. Claro que a minha resposta em relação a isso é que o erro de partida em tudo isto foi que a União Europeia nunca deveria ter deixado de retaliar imediatamente quando Donald Trump avançou com tarifas, porque era evidente que depois não tinha nada com que negociar. Donald Trump tem sempre de apresentar uma vitória, mesmo que ela seja bastante virtual. Mas qual era a vitória disponível quando, à partida, os europeus simplesmente deixaram os Estados Unidos avançarem com tarifas de 10% sem qualquer tipo de retaliação? Era só ceder ainda mais nesse campo. Para já tínhamos tarifas de 10%, agora vamos ter de 15%. Aparentemente isso é visto como um grande triunfo negocial pelos responsáveis europeus. Realmente não me parece que objetivamente se possa dizer que é o caso.
E que setores é que vão ser mais afetados?
Aqui parece também ter havido uma vitória, sobretudo do lobby automóvel alemão, que exporta realmente muito para os Estados Unidos e que assim tem uma vantagem objetiva, que para já tinha tarifas de 25% e agora passa a ter de 15%, portanto é um pouco menos, tem um desconto na sobretaxa. Mas obviamente antes de Trump chegar, as tarifas em média para a Europa eram menos de 3%. Estamos a falar de cinco vezes mais, em todos os produtos. À partida, todos os setores serão afetados negativamente. Aparentemente, o argumento que os negociadores europeus querem vender é que podia ser pior. Temos de ficar contentes com isto porque podia ser pior. Nós temos muito medo de Donald Trump e como aparentemente a Europa, apesar de ser um mercado maior do que os Estados Unidos, os Estados Unidos têm pouco mais de 300 milhões de habitantes, a Europa tem 450 milhões, mas aparentemente não é suficiente para terem capacidade negocial com os Estados Unidos.
E como é que este acordo se pode refletir na inflação na Europa?
Esse parece ser outro argumento que é usado, que é não podemos retaliar, não podemos avançar com tarifas contra os Estados Unidos como forma de pressionar e ganhar peso poder negocial, porque isso vai trazer inflação para os países europeus. Por essa via realmente não vai haver inflação. Como nós vamos manter aparentemente as tarifas que já existiam com os Estados Unidos, não vai haver mais inflação na Europa, a não ser que seja importada dos produtos americanos, mas à partida há uma vantagem objetiva. Vamos ver se isso compensa a previsível perda de mercado exportador no contexto norte-americano, sobretudo se Trump ficar por aqui, se isto não lhe der a ideia de que vale sempre a pena chantagear e pressionar mais a Europa, aí pode ter outros efeitos econômicos negativos. Também veremos qual é o impacto em termos da decisão de investimento de empresas. À partida, se têm um mercado a partir do qual podem produzir, apesar de tudo sem os tais 15%, e depois até podem exportar para a Europa sem terem nenhum tipo de sobretaxa, aparentemente isso quer dizer que faria mais sentido mesmo a empresas europeias investirem, criarem novas fábricas, fazerem nos Estados Unidos e poupam os 15% de taxas alfandegárias que pagariam exportando da Europa e ainda podem exportar a custos mais baixos para o mercado europeu. Vamos ver se aí não há um impacto negativo em termos de investimento e de emprego no futuro, mas realmente em termos de inflação, não, à partida este acordo não tem um impacto negativo na Europa.
E este acordo evita, de facto, uma guerra comercial ou é apenas uma trégua temporária, visto que Donald Trump tinha ameaçado com tarifas de 30% e agora fixou-se apenas em 15%?
Isto é uma rendição quase incondicional da Europa. Deste ponto de vista, é realmente uma grande vitória para Donald Trump, certamente irá também favorecer a sua popularidade nos Estados Unidos. Para quem acha que Donald Trump é um bom aliado da Europa, acho que é um acordo que faz sentido. Para quem tem dúvidas, acho que justificam as dúvidas. Mas em termos de guerra comercial, aquilo que a União Europeia parece acreditar é que sim, que é o fim. Donald Trump agora está satisfeito e vai passar a ser o melhor aliado da Europa na área comercial e noutras. Vamos ver. Eu tenho as minhas dúvidas que seja realmente assim. Acho que isto demonstrou a fragilidade da Europa e portanto seja nesta área comercial, seja noutras, em aspetos pontuais, suspeito que Donald Trump se sentirá tentado a testar mais uma vez as águas e a ver se é possível obter mais cedências da parte da Europa. Mas a aposta dos negociadores europeus é que não, que isto é o preço a pagar para estabilizar as coisas. Vamos ver se isso se confirma, mas isso realmente só o tempo dirá, até porque com Donald Trump acho que quem se arrisca a fazer previsões com grandes certezas arrisca-se a enganar-se, a errar.