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Helena Ferragut, até porque o Hugo tocou em alguns pontos que gostava de explorar também com a Helena. Muito bem-vinda. Obrigada por estar conosco.

Olá, bom dia.

Helena Ferragut, na lista de assuntos internacionais, o Custeira estava aqui a falar de uma resposta política de desgosto, eventualmente, por Donald Trump ter chegado à presidência e deste diferendo que existe com Washington e a ação mais musculada ou não de polícia na rua, que era o que Donald Trump queria. É uma associação que nesta altura podemos fazer ou podemos estar a entrar aqui também um pouco no campo da especulação. Mas o que é factual é que houve uma falha de segurança.

Claramente houve uma falha de segurança que permitiu que este professor e engenheiro informático estivesse não só hospedado no Hilton, que era o hotel onde corria este jantar com os correspondentes da Casa Branca, como que fizesse o assembly, ou seja, a montagem de uma das armas que trazia consigo. Segundo a imprensa norte-americana, ele trazia uma shotgun, trazia uma arma semiautomática e trazia várias armas brancas, portanto, haveria aqui uma intencionalidade de atingir provavelmente várias pessoas, talvez o presidente, talvez pessoas presentes na sala, e há claramente aqui um breach, uma quebra de segurança. Agora eu não sei se as únicas razões serão o descontentamento com Donald Trump, provavelmente é uma explicação ou fará parte desta equação de análise. No entanto, nós temos que pensar, e parece-me que este é um dado que tem que ser muito bem pensado pelas nossas sociedades atualmente, que é a polarização e que é o discurso de ódio. Fala-se muito de discurso de ódio, fazem-se campanhas muito bonitas contra o discurso de ódio, mas é verdade que nós, nos Estados Unidos, temos conhecimento de um movimento que dizia "alguém tem que o fazer." O fazer era assassinar o presidente dos Estados Unidos e que elementos deste movimento, que supostamente era sarcástico, humorístico, participavam em congressos partidários e faziam esse tipo de discurso. Depois nós temos um tipo de discurso que é de alguma forma legitimado ou que é abrangido por aquilo que é a liberdade de expressão, que é morte a A ou morte a B, sendo A ou B a pessoa ou o adversário político do qual se discorda. Morte aos fascistas, morte aos comunistas, morte aos polícias, etc. Portanto, este tipo de discurso polarizador, onde se desumaniza o outro, aquele que discorda de nós, que tem uma visão do mundo diferente da nossa, é um discurso que faz com que rapidamente, e sobretudo agora, na esfera hipermidiatizada onde vivemos, com esta força das redes sociais, que está mais do que documentado e mais do que estudado, contribuem pra radicalização das palavras deste tipo de discurso, que é tolerado à esquerda e à direita. Eu aqui não estou a dizer que são republicanos, são democratas.

Ia perguntar-lhe se a própria administração de Trump tem alguma responsabilidade nisso.

A toda a gente, é assim, felizmente, não houve aqui vítimas, não há vítimas a lamentar, mas há aqui muitos responsáveis à direita e à esquerda do espectro político norte-americano e também nas nossas sociedades europeias. A partir do momento em que nós toleramos discurso de ódio contra os adversários políticos, e discurso de ódio não é dizer esta medida política ou esta posição política e depois ir argumentando a posição política está errada ou do meu ponto de vista está errada. Agora, o que nós temos é fulano, fulana é um imbecil, é um anormal e por aí adiante. Portanto, este tipo de discurso normalizou-se, banalizou-se. E quando se desumaniza os outros, e nós sabemos disso, porque isso aconteceu há muito pouco tempo, no século passado, com os judeus que foram tratados como baratas, como animais, como ratos, como pulga. Portanto, esta desumanização tem consequências. E aquilo que nós vemos aqui nos Estados Unidos, e não só nos Estados Unidos, são episódios de violência política que se prendem precisamente com esta polarização e com o fato de além de campanhas muito bonitas contra o discurso de ódio, não se fazer efetivamente nada. Nós não temos condenações por discurso de ódio, quer dizer, temos nalguns países, por exemplo, na Alemanha há várias condenações, felizmente, por discurso de ódio nas redes sociais, mas em Portugal eu não tenho conhecimento. E aquilo que eu vejo contra adversários políticos, seja do espectro da direita, seja do espectro da esquerda, é, do meu ponto de vista, para além daquilo que é a liberdade de expressão, a liberdade de pensamento, a liberdade de crítica. Portanto, temos que pensar muito bem que sociedade é que queremos e se queremos que a violência política armada volte a entrar na vida política, porque isto tem consequências gravosas. Independentemente de Donald Trump ser um arruaceiro, publicar na Truth de uma forma torrencial, por vezes quase demente, de ser bastante agressivo na sua comunicação, de falar de fake news, de fake media, de todo o ataque que ele faz aos seus adversários. Independentemente de tudo isto, há que haver aqui um esforço de contrariar esta polarização, porque senão vamos ter consequências e vamos ter consequências gravosas. Nos Estados Unidos tivemos o assassinato de Kurt, aquele jovem ativista de direita, que fazia um esforço, independentemente do que possamos pensar daquilo que ele defendia ou da sua mensagem política, mas ele fazia um esforço de dialética, de diálogo com as pessoas e foi assassinado por isso. E portanto, estamos aqui num registo que, do meu ponto de vista, é muitíssimo perigoso.

Sendo que nos Estados Unidos, esse ambiente de polarização, de facto, é muito grande nesta altura e também já escalou para outros países, incluindo para a Europa, mas os Estados Unidos têm aqui também, historicamente, outros ataques contra presidentes também, não é? Há aqui também esse fator histórico.

Sim, tem aqui uma longa história de presidentes que foram mortos em atentados, todos nós nos lembramos do Kennedy. Houve várias tentativas e o Ronald Reagan foi vítima precisamente à porta desse hotel, de uma tentativa também de assassinato político e há vários presidentes queSofreram tentativas e isso se prende também com o facto de as armas serem acessíveis nos Estados Unidos e, portanto, qualquer um de alguma forma ter acesso a uma arma de fogo. Mas essa é toda uma outra discussão que tem que ser feita e tem que ser feita pelos americanos, e tem que ser pensada, porque morrem mais pessoas por via de incidentes, de acidentes ou de crimes com armas de fogo do que em todas as guerras onde participaram as Forças Armadas norte-americanas. Portanto, isso também deveria ser motivo para reflexão. E esta facilidade no acesso às armas, naturalmente, que possibilita ou que facilita atentados ou ataques contra alguém. Nos Estados Unidos há realmente essa tradição. Tradição essa que, como o Hugo dizia aqui há pouco, há claramente falhas de segurança, embora se saiba que não há segurança perfeita. Eu estive em vários eventos, até com presidentes norte-americanos, e pude acompanhar os movimentos de segurança e há sempre momentos onde é passível de haver falha, mesmo nuns serviços secretos tão sofisticados e com as capacidades que têm os serviços secretos norte-americanos, mas há sempre o elemento humano, a human engineering, tudo isso, que pode fazer falhar ou colapsar uma instituição, até porque ela se julga capaz de prever tudo, e já vimos aqui que não previu. Mas isso é depois ajuzante. A montante, temos aqui alguém com a intencionalidade de matar, porque ninguém vai para um hotel armado até aos dentes, passa a correr pela segurança, tentando aqui claramente atacar. E já depois do ataque, nós vimos uma senhora que tentou dirigir-se, porque havia protesto à porta do hotel, tentou dirigir-se ao presidente. Nós temos aqui um nível de normalização da violência em que se perdeu a humanidade do outro. Acho que este esforço de reflexão deve ser feito por todos aqueles que são democratas, por todos aqueles que acreditam que a vida política é dialógica, é de debate, de debate de ideias e que nós temos adversários políticos, não temos inimigos a abater. E é isso que de facto me preocupa, porque quando se olha para as redes sociais hoje em dia, é um chorrilho de ódio.

Sim.