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Donald Trump prometeu e cumpriu. Os Estados Unidos atacaram esta madrugada o Iémen. O presidente norte-americano admitiu ontem ter ordenado uma ação militar em Sana, na capital do Iémen. Prometeu usar uma força letal esmagadora, palavras do próprio, até que os rebeldes houthis, apoiados pelo Irão, deixem de atacar navios norte-americanos no Mar Vermelho. Comigo tenho José Filipe Pinto. Bom dia, que leitura é que faz deste ataque norte-americano ao Iémen e da ameaça deixada por Donald Trump?

Muito bem. Primeiro de tudo, eu penso que mais do que um ataque, temos que pôr a palavra no plural: ataques. E por quê? Porque segundo algumas fontes, os ataques não se deram pela capital, Sana, mas também incidiram sobre províncias, por exemplo, Saada no noroeste, Al Bayda no centro e outra cidade, Rada, também no centro. Eu penso que temos de interpretar estes ataques numa perspectiva dupla. Primeiro que tudo, como disse, e bem, este foi o primeiro ataque ordenado por Trump contra os houthis. E, a meu ver, não podemos esquecer que, como se passa também na questão ucraniana, Donald Trump está a tentar colocar sempre o eixo economicista à frente do eixo normativo. E por isso mesmo, penso que a primeira leitura a fazer é que há aqui uma finalidade econômica. O próprio Trump reconheceu que queria proteger os ativos marítimos, aéreos e navais norte-americanos e restaurar a liberdade de navegação. Tudo isto é uma dimensão do foro econômico ou economicista. Mas claro, há uma componente geopolítica. Por quê? Nós não podemos desligar estes ataques da guerra em Gaza e do apoio que o Irão concede não apenas aos houthis, mas ao Hamas, ao Hezbollah e aos outros grupos que constituem verdadeiramente uma ameaça para Israel. Ora, se pensarmos que estes ataques ocorreram logo a seguir aos houthis, que são os aliados do Irão, como eu disse, anunciarem um plano para voltar a atacar os navios israelitas ou todos aqueles que se dirigem para Israel e que passam pelos mares Vermelho, Arábico e principalmente junto ao estreito de Bab al-Mandab e pelo golfo de Aden, percebemos claramente que isso não acontecia durante o cessar-fogo em Gaza e que neste momento os houthis entendem que é tempo de retomar, porque o cessar-fogo em Gaza está naquilo a que se pode chamar quase um impasse. Por quê? Porque Israel pretende um prolongamento desse cessar-fogo e, de facto, o que temos é do outro lado o Hamas, que se continua a ver como solução e não como problema para o futuro de Gaza, situação que nem Trump nem Israel admitem minimamente. Há ainda um outro dado que eu considero muito importante. Repare, há fontes provenientes do Irão que dizem o quê? Que, afinal de contas, não cabe aos Estados Unidos definirem a política externa do Irão. Isto significa o quê? Que o Irão continua a ver o eixo da resistência naquilo que os Estados Unidos veem o eixo do mal. E por isso mesmo, significa que há aqui um extremar de posições. Repare, Donald Trump já tinha escrito, enviado uma carta a querer negociar com o Irão, porque o que aqui está verdadeiramente em causa é o programa nuclear do Irão e a ameaça que representa para Israel. Mas, por outro lado, percebemos claramente que o Irão não está interessado em negociar com Donald Trump e com o governo norte-americano.

É mesmo sobre isso que eu lhe quero perguntar, José Filipe Pinto. Como disse, o Irão já reagiu entretanto. Disse que Washington não tem efetivamente poder nem direito de ditar a política externa do país. Deixou um aviso, o líder da diplomacia iraniana, a Donald Trump, e o Irão exigiu que cessasse o apoio aos houthis. O Irão tem condições para fazer frente aos Estados Unidos, especialmente com Donald Trump na Casa Branca?

Não tem, mesmo que não tivesse Donald Trump na Casa Branca. E a razão, João, é simples: é que o Irão ainda não concluiu o processo nuclear. E por isso mesmo, Donald Trump que sabe isso, aliás, como todas as autoridades norte-americanas sabem isso, sabem que o Irão estará muito próximo de concluir esse processo nuclear, mas ainda está na fase última. E o que verdadeiramente pretende é que não se chegue a essa fase. E quando se fala, quando o Irão, que nós percebemos que também é um Estado pária, que verdadeiramente está envolvido no conflito na Ucrânia, que não respeita minimamente o direito internacional a nível interno, nem a nível externo. Quando o próprio Irão se acha no direito de invocar, passo o pleonasmo, a autoridade e o direito, isso significa o quê? Que verdadeiramente o mundo da política externa é um mundo muito de fingimento e que nós invocamos o eixo normativo, o eixo da lei, o eixo do direito, sempre que julgamos que podemos tirar usufruto dele. É evidente que o governo norte-americano não pode condicionar a política externa do Irão, mas o governo norte-americano não tem de aceitar que o Irão acabe por, em nome de uma Fraternidade que decorre da religião patrocine o terrorismo que põe em causa um dos seus aliados, que verdadeiramente é Israel, mas que também irá pôr em causa, mais tarde ou mais cedo, se não for combatido, o modelo de vida ocidental, porque esse é o grande objetivo do Irão. É evidente que quando o Irão define que os Estados Unidos são o grande Satã, o grande Diabo, isso significa o quê? Que é aquela ordem islâmica de que eu venho falando há anos, que está em formação e que o Irão xiita pretende comandar contra quem? Contra a Arábia Saudita sunita, que é majoritária e que, como sabemos, mantém relações privilegiadas com os Estados Unidos.

Sabemos que Donald Trump é especialmente interventivo no Médio Oriente, em especial com a causa israelita. O próprio primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse que é o maior aliado que Israel já teve na Casa Branca. Sabemos que o histórico de Donald Trump no primeiro mandato com o Irão, por exemplo, foi uma relação de alguma hostilidade. Que postura americana é que podemos esperar para os próximos tempos para o Médio Oriente?

Primeiro de tudo, temos de considerar que Steve Witkoff, que era o enviado especial de Donald Trump para a questão do Médio Oriente, neste momento esteve atarefado com outra questão, a questão ucraniana, porque repare, nós percebemos claramente que foi Steve Witkoff que foi negociar a posição norte-americana junto da Rússia e não aquele que tinha sido designado num primeiro momento como o general Kellogg, que tinha sido designado como representante dos Estados Unidos para negociar o acordo de Sarphov com Moscovo. Portanto, o que nós aqui percebemos é que Steve Witkoff é alguém que está muito ligado a Donald Trump e a solução que propõe para os dois lados, tanto para a Ucrânia como para Gaza, é muito semelhante. E é evidente que esta situação com os houthis e com o Irão tem de ser percebida nesta perspectiva. É a diplomacia da força. E a diplomacia da força, nós sabemos que durante a Guerra Fria, Raymond Aaron utilizou a expressão que melhor caracterizava esse período, que era a guerra improvável e a paz impossível. O que nós aqui agora temos é alguém que tem uma lógica transacional, os interesses económicos, e esse alguém é Donald Trump, os interesses económicos acima de tudo. E como os interesses económicos estão acima de tudo, o que é que importa fazer neste momento? Uma diplomacia da canhoeira. E o que é a diplomacia da canhoeira? Se preferir, a diplomacia dos drones e dos mísseis. E por quê? É aquela que vem substituir a diplomacia da canhoeira que foi utilizada durante muito tempo para conseguir fazer valer os interesses do mais forte. Aliás, se nós percebermos, por exemplo, que o Washington Post disse que o que foi utilizado foram os navios de guerra e os jatos dos Estados Unidos, percebemos que verdadeiramente estamos aqui perante a versão revisitada da diplomacia da canhoeira. Portanto, vamos ter uma posição mais de força, uma posição mais dura, até porque também temos de perceber que pelo envolvimento do Irão no apoio à Rússia, e parecendo que num primeiro momento Donald Trump estava, para além de uma ligação quase sentimental e de admiração com Putin, estava a favorecer os interesses da Rússia, neste momento também percebemos que Donald Trump com esta posição acabará também por diminuir um pouco a base negocial da Rússia na questão do conflito da Ucrânia. Mais uma vez, João, o que tudo isto prova é que verdadeiramente o que nós estamos é no mundo de múltiplas ordens e estando neste mundo de múltiplas ordens, mesmo os conflitos locais passam a regionais e de regionais passam a globais.

Um último comentário, José Filipe Pinto, sobre o que falou precisamente o enviado especial norte-americano ao Médio Oriente, Steve Witkoff. Ao que tudo indica, como disse, foi um enviado também à Arábia Saudita para negociar a posição norte-americana na questão ucraniana. O que isso nos diz sobre a postura de Donald Trump face às questões internacionais? Quase reaproveitar um enviado especial a um assunto, a uma matéria e enviá-lo para um outro lado. O que isso nos diz? Não é demasiado pragmatismo, se quisermos?

Mais do que pragmatismo, podemos falar de impreparação. Significa que havendo três verbos nas relações internacionais, o verbo querer, o verbo poder e o verbo dever, verdadeiramente Donald Trump só sabe conjugar os dois primeiros, que é o querer e o poder. E como ele quer e pode, ele acha que pode definir a política global como se estivesse a falar para o plano interno. E por isso mesmo, rodeou-se das pessoas que, mais do que yes men, acabam por ser os prolongamentos naturais da sua vontade. E esses prolongamentos naturais da sua vontade é alguém que, por exemplo, Kellogg era um general, tinha experiência militar, estava envolvido num conflito militar, que é a questão ucraniana. Foi desvalorizada a sua posição, por quê? Porque o que interessa é a lógica transacional, é ter alguém que tenha um espírito empresarial, que seja uma continuação de Trump, que as suas palavras acabem por refletir, funcionar como apenas uma amplificação da voz do dono, da voz do senhor. Trump tem esta posição narcisista, que a sua palavra é suficiente para resolver todos os problemas. E quando e por quê? Porque tem o poder. E o que é o poder? Voltamos à diplomacia da canhoeira transformada em diplomacia de drones e mísseis. Dispondo de maior poderio militar, é evidente que vai utilizá-lo para conseguir lograr os seus objetivos, sempre e em primeiro lugar, do foro econômico. E este não é um equilíbrio pelo terror, pela dissuasão. Não, é bombardear, é usar a força precisamente para obtermos estes objetivos. Se um general fosse como Kellogg, estivesse envolvido como esteve, e continuasse envolvido num processo negocial, ele diria que vamos perceber que há momentos num processo negocial, que verdadeiramente um problema político não tem uma solução militar. E por isso mesmo, primeiro de tudo, temos de organizar um cessar-fogo, a seguir um armistício e terceiro, então, um acordo de paz. É assim que toda a diplomacia explica. E os militares, apesar da sua formação no campo bélico, também têm uma formação do foro diplomático. Por quê? Porque percebem que estão ao serviço da política externa do seu país. E por isso mesmo, o que nós aqui temos é alguém que vem de fora deste mundo, alguém que vem do mundo empresarial e que gere o país como uma empresa, e uma empresa é para dar lucro. Se nós percebermos, porque é que ele se rodeou de Elon Musk, dos despedimentos que ele está a tentar fazer, ainda que ao arrepio dos normativos internos dos Estados Unidos, nós percebemos claramente que o que interessa aqui não é quem domina, quem é especialista no eixo pulmológico da guerra, no eixo normativo da lei. Não, o que interessa é quem seja um especialista no eixo economicista, um empresário de sucesso. E porque gere o mundo e o país como se da sua própria empresa se tratasse. E se ele conseguiu ter a sua própria companhia de aviação, se ele consegue ter a Trump Tower, se consegue ter tantos bens imóveis, é evidente que o narcisismo leva a pôr tudo em todos o seu nome, pensa que também pode pôr o seu nome no mundo. E o seu nome no mundo, por mais incrível que pareça, João, o seu maior desejo é o Prêmio Nobel da Paz, alguém que o tenta alcançar através da diplomacia da força.