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Ana Matos, a curadora e responsável pela programação da Casa de Azinhaga. A antecipar o Dia Mundial da Poesia, a Fundação Saramago vai promover no sábado, dia 16 de março, de manhã, um passeio na Azinhaga. Chama-se José Saramago na Azinhaga com Poesia. Perguntava-lhe por que surge esta ideia e em que consiste este passeio?
Muito boa tarde. Nós resolvemos este ano assinalar o Dia da Poesia juntando também uma atividade ao ar livre. Temos feito, sobretudo desde o centenário, vários roteiros na aldeia onde o José Saramago nasceu. Estão assinalados vários pontos que se relacionam com o escritor, desde o local onde estava a casa onde ele vivia, à própria Fundação José Saramago, o rio Almonda e o passearismo do Almonda, com o qual o escritor também tinha uma relação muito forte. Há vários pontos na aldeia que estão assinalados com essa relação com José Saramago. E nós temos vindo a fazer passeios, que também vão contextualizando e vão dando a conhecer às pessoas, não só a aldeia, mas também os lugares de afeto do José Saramago. Em particular, um dos pontos que também está no roteiro e que é sempre muito simbólico e emocionante é a rua onde estão as 100 oliveiras para José Saramago. Cada oliveira tem o nome de uma personagem saramaguiana, que foi um projeto iniciado em 2018 pela família e que foi concretizado no dia em que o José Saramago fazia 100 anos. Nós decidimos este ano, na programação que temos na Azinhaga, passar a fazer estes roteiros temáticos. A ideia vai ser irmos desenvolvendo ao longo do ano vários roteiros com temas. Neste caso, naturalmente, aproximando-se o Dia Mundial da Poesia, mas também a primavera, o Dia da Árvore, enfim, uma série de efemérides que no fundo nos levam a percorrer a aldeia lendo poemas do José Saramago, mas não só.
No passeio, como dizia, vão ser percorridos os lugares que melhor representam as memórias de infância do escritor, nesta que é a aldeia natal, e vão ser lidos excertos dos livros de poesia de Saramago. São vários, há quem não os conheça a todos, mas são vários os livros de versos de Saramago. De que livros é que vão ler os poemas desta vez?
Nós vamos levar para partilhar com as pessoas que se associarem a esta iniciativa, os três livros de poesia do José Saramago. Os "Poemas Possíveis" e "Provavelmente Alegria", que são os livros mais conhecidos, mas também "O Ano de 1993", que é considerado, em rigor, que talvez se aproxime mais da prosa poética do que a poesia propriamente dita. Mas no fundo, são estes três livros que vamos partilhar com as pessoas que se associarem. Mas, como dizia, também pedir às pessoas para trazerem os seus próprios livros de outros poetas ou de outros escritores que queiram, ao longo deste roteiro e passeando pelas ruas da Azinhaga, partilhar com os demais.
Algum destes é o seu favorito?
O meu favorito? Não, por acaso o meu livro favorito não é deste género literário. O meu livro favorito do José Saramago é o "Levantado do Chão", que também já fizemos clubes de leitura, porque além destes roteiros temáticos, também temos vindo a desenvolver clubes de leitura na delegação de Azinhaga e um dos livros que lemos no ano passado, aliás, também convidámos as pessoas de Montemor que têm o projeto Levantado do Chão, e um dos livros que fizemos a leitura foi precisamente o "Levantado do Chão". Já fizemos também sobre o "Mural do Convento", enfim, vários livros para convidar e estimular a leitura.
Eu participei na inauguração do roteiro do Levantado do Chão, também em Montemor e portanto também estou a par e vamos ver se ainda participo de forma mais informal. Esta iniciativa dá a conhecer melhor Saramago, também já teve a oportunidade de o dizer, até porque as pessoas o conhecem mais como romancista e muitos não leram a obra poética. Alguns desses três livros, algumas pessoas os conhecem um pouquinho melhor, mas há outras que não fazem ideia que Saramago também escreveu poesia.
Olhe, eu até vou partilhar aqui uma citação do próprio José Saramago, que vem na "Clara Boia" e que acompanha a comunicação que nós fizemos sobre este evento e sobre este passeio, que diz, e passo a citar: "A poesia é talvez como uma fonte que corre. É como a água que nasce na montanha, simples e natural, gratuita em si mesma. A sede está nos homens, a necessidade está nos homens". Apesar de ser uma frase de um romance da Clara Goya, já aqui se nota muito também da importância, do significado e do simbolismo que a poesia também tinha para o próprio José Saramago. Aliás, isso acontece muito na obra do próprio escritor. Muitos dos temas que são falados, por exemplo, em crônicas, são mais tarde pequenos ensaios para romances que depois vêm a surgir posteriormente. No fundo, ele era um escritor que apesar de sim, é verdade, que as pessoas conhecem-no mais como romancista, mas há temas, considerações e reflexões que ele foi fazendo ao longo da vida e que é transversal a estes géneros literários, como por exemplo O "In Nomine Dei", que é uma peça de teatro, vai buscar temas que encontramos também no ensaio sobre a cegueira. No fundo, as temáticas, as reflexões são transversais aos vários géneros literários. Mas sim, de facto, a poesia não é muito conhecida e acaba por ser este o desafio também que nós lançamos neste dia 16 de março, para que as pessoas venham conhecer a poesia ou redescobrir a poesia do José Saramago, na aldeia que o viu nascer em 1922.
E quem quiser, vai ter aonde, a que horas?
O ponto de partida vai ser na própria Fundação José Saramago, às 11h30. A fundação fica no Largo das Divisões, que é um jardim muito fácil de identificar e também há sinalética. Sai-se às 11h30 da delegação de Azinhaga e depois é um passeio que dura cerca de 60 minutos, com algumas paragens também pelo caminho, naturalmente, mas que dura cerca de 60 minutos e depois voltamos à delegação de Azinhaga. Para quem não conhece, também fica o convite de conhecer a nova proposta expositiva, que foi alterada o ano passado. Nós, neste momento, na Fundação de Azinhaga, podemos encontrar uma série de documentos, não só que falam, sejam fotografias, sejam crónicas, sejam textos que acabaram por não ser publicados, que falam, sobretudo, dessa relação com a aldeia e com os avós maternos. E depois, as várias facetas que o José Saramago teve antes de ser escritor, nomeadamente leitor, editor, cronista e tradutor. São quatro facetas, quatro eixos que foram muito importantes para a sua criação enquanto escritor. E que também aí se pode perceber um pouco como é que ele, saindo de Azinhaga, e como o próprio professor João Lourenço tantas vezes referiu, ter uma vida que é quase uma espécie de uma impossibilidade, quase de um milagre. Porque, de facto, foi com muito trabalho e muita dedicação que ele realmente conseguiu chegar a esse momento alto em 1998, quando ganhou o Prémio Nobel da Literatura.