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Eu acho que a prova foi uma excelente prestação. Acho que foi uma semana muito boa para eles. Efetivamente, tiveram azar logo no primeiro dia ao terem sido desclassificados, mas depois mostraram ao longo da semana que estavam com um ótimo andamento e a fazer boas decisões táticas. E isso viu-se hoje na regata de hoje, que era uma regata matematicamente extremamente complexa. Eles tinham que obrigatoriamente andar pra frente e serem primeiro e segundo, e de alguma maneira esperar que as outras embarcações dos outros países que estavam na guerra pelos pontos com eles tivessem falhas e ficassem para trás. Era extremamente complicado. Eles largaram logo na primeira bolina, não estavam na melhor posição, mas pouco a pouco foram andando pra frente e a verdade é que acabaram em segundo. Eu acho que foi um ótimo resultado hoje, foi o culminar de uma excelente semana. Obviamente, hoje estávamos todos um bocadinho com os olhos a pensar que ainda era possível poder chegar às medalhas, mas era muito complicado. E viu-se hoje com a equipe espanhola, que era uma das grandes favoritas, que foi pra regata de hoje claramente a lutar pela medalha de ouro e saiu lá fora do pódio. Dá pra ver que não foi um dia fácil.
E o Nuno sente que o adiamento das regatas pode ter tido alguma influência no resultado da dupla portuguesa?
Eu penso que não. Eu penso que tanto o Diogo como a Carolina mostraram ao longo da semana que estavam bastante fortes, estavam confiantes entre eles. As condições de vento de hoje, daquilo que deu pra ver durante a semana, eram as condições ideais pra eles, deste vento fraco. Tanto ontem como hoje, a previsão em termos de intensidade era idêntica e eu acho que isso não os afetou em nada. Obviamente pra quem está lá, quando põem toda a energia pro dia de ontem, mas eles sabiam que o dia de ontem era complicado, a previsão não era muito favorável, não era a primeira classe do dia que iria fazer, eles já iriam entrar na parte da tarde quando a previsão dava que o vento ia cair. Eu penso que eles terão feito esse trabalho de casa, juntamente com o treinador, de gerir um bocado essa ansiedade, essa expectativa que tanto podia terminar ontem como podia ter que esperar até hoje. Eu acho que fizeram um ótimo trabalho.
E relativamente aos próximos Jogos Olímpicos, porque no final desta prova, tanto a Carolina como o Diogo tiveram declarações em que apontaram já para os próximos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028. Quais é que são essas perspectivas? Podemos fazer já perspetivas para aquilo que são os próximos Jogos Olímpicos desta dupla e da modalidade?
Eu acho que a próxima Olimpíada começa hoje, o espaço compreendido entre os dois Jogos Olímpicos. O trabalho pra próxima Olimpíada começa exatamente hoje e acho que eles estão com essa mentalidade, que é importante, estão com essa postura. Não era estes Jogos Olímpicos. Obviamente, eles querem fazer o melhor, mas não é aqueles onde eles esperavam, tinham a expectativa de ter a maior maturidade já e tranquilidade na classe. Convém relembrar que o Diogo já foi a segunda Olimpíada que fez com os Jogos Olímpicos que fez na classe 470, mas a Carolina e o João foram os primeiros jogos. Ela é relativamente nova nesta classe. É uma dupla também recente, porque o 470 só agora é que começou, foi a primeira vez que foi como classe mista. Todas as tripulações, todos os atletas estão a formar. Isto é uma novidade, ter a dupla mista, isso requer mais tempo pra ganhar essa maturidade, esse conhecimento, não só do barco, mais no caso da Carolina e João, mas do trabalho enquanto de equipe entre os dois, pra poder dar verdadeiramente os seus frutos. Eu penso que se calhar na próxima, se eles continuarem a trabalhar como trabalharam pra esta, bem focados, bem acompanhados com o treinador, com o Aaron, que já tinha estado antes com o Diogo a continuar a fazer este bom trabalho com eles, penso que com um bom enquadramento, têm tudo pra poder fazer um bom trabalho daqui a quatro anos. Acho que o trabalho que eles também fizeram com a Beatriz Gago e com o Pires também foi muito bom em termos de trabalho de dupla, faz-me recordar um pouco o trabalho que nós fizemos quando foi pra Sydney, em que trabalhamos em conjunto com a dupla do Álvaro Marinho e do Miguel Nunes. E a verdade é que isso depois deu seus resultados. Eles poderem fazer o trabalho em casa, de ter uma ótima competição interna entre eles, que os obrigue a andar pra frente e a trabalhar mais, acho que é a forma correta de trabalhar. Acho que eles tiveram essa oportunidade de fazer esse trabalho. E agora, daquilo que deu pra ver, tanto a Beatriz como o Pires estão também com a expectativa de poder continuar a trabalhar para os próximos Jogos, o que faz com que a equipe portuguesa de 470 tenha duas ótimas equipes pra poderem trabalhar sério. E acho que trabalhando com seriedade Tudo está em aberto. Eles mostraram que são rápidos. Todo o trabalho de desenvolvimento do material, no caso o 470 é importante, foi bem feito e é continuar a fazer esse trabalho, a trabalhar e olhar pra frente.
Sim, a verdade é que as medalhas fogem à vela portuguesa desde 1996, quando o Nuno conquistou a medalha de bronze. Mas apesar da falta de medalhas, sente que tem existido uma evolução nesta modalidade?
Eu tenho sido bastante crítico à forma como se tem trabalhado nos últimos 15 ou 20 anos na vela em Portugal. Eu penso que se perdeu uma excelente oportunidade naquilo que já apelidaram de a geração de ouro da vela portuguesa, com todas as equipes e atletas que estavam envolvidos na preparação nos ciclos de Sydney e de Atlanta. Andamos durante demasiados anos a viver à sombra do trabalho que foi realizado nessa altura e com o patamar de excelência e de bons resultados que houve nessa altura. E a verdade é que, desde então, a vela, de alguma maneira, veio a decair. Os resultados cada vez mais foram também transmitindo isso, mas agora vê-se que o Diogo e a Carolina são fruto de uma nova geração que está a renascer das cinzas. Porque efetivamente houve muita experiência que se perdeu ou que tem vindo a ser aproveitada de forma sábia e inteligente por outros países estrangeiros, que têm vindo contratar o nosso know-how e a nossa experiência, exatamente esses velejadores dessa geração, e utilizá-los como treinadores. Em Portugal não soubemos fazer isso. Desperdiçamos essa oportunidade e agora estamos quase que a recomeçar do zero. O Diogo e a Carolina começam a ser fruto desse novo renascer e é bom que eles aproveitem e que mais tripulações, mais atletas possam olhar pra eles, ver esta postura, que não é querer fazer resultado a dois anos ou a três anos. Eles sempre puseram essa fasquia que o objetivo é mais para Los Angeles do que Paris. E que esse agora pelo caminho seria bom. Efetivamente foi muito bom. Acho que este diploma é um ótimo resultado, mostraram na água que não foi fruto ao acaso este resultado. Eu espero que os demais atletas velejadores em Portugal destas gerações mais novas ponham os olhos neles, efetivamente, e comecem a trabalhar a longo prazo para ganhar em consistência, ganhar a maturidade que é necessária para alguém que ambiciona não só chegar aos Jogos Olímpicos, como chegar aos Jogos Olímpicos de forma competitiva, que foi o caso do Diogo e da Carolina. É assim que se tem que trabalhar e é a única forma, porque senão os resultados não aparecem e infelizmente não têm aparecido.
E a vela tem os apoios necessários para a modalidade progredir?
Sim, quando falamos do alto rendimento e de campanhas olímpicas, o dinheiro nunca é suficiente. Pode-se sempre fazer mais com mais dinheiro. Não é à toa que nós vimos que há uns anos havia esse número. Agora não sei com este de Paris, qual terá sido o país que mais investiu, mas era engraçado quando foi na altura de Londres que só a equipe olímpica inglesa na vela tinha um orçamento maior do que a equipe olímpica portuguesa de todas as modalidades juntas. Dá pra ver um pouco a discrepância de montante de valores que estamos a falar. Mas isso não impossibilitou que o Álvaro fizesse um bom resultado, que o Gustavo também fizesse bons resultados, que houvesse mais dupla a fazer bons resultados. Eu penso que nós em Portugal, com o dinheiro que temos, poderíamos sempre, e é expectável que os atletas quisessem ter mais dinheiro, porque isso é significado normalmente de poder ter maior estabilidade, poder fazer um maior desenvolvimento, poderem se calhar experimentar mais material, no caso da vela, poderem fazer mais dias de treino no estrangeiro, se calhar poderem contratar mais especialistas para lhes poder ajudar a crescer enquanto velejadores. Portanto, mais dinheiro é sempre bem-vindo. Mas obviamente, esse dinheiro por si só também não faz milagre. Se não houver uma estrutura e um programa olímpico bem pensado e bem estruturado, esse dinheiro todo também não faz milagres. Eu acho que neste momento, com o dinheiro que existe, tem-se a obrigação de se poder trabalhar mais e melhor, com o dinheiro que existe, uma forma mais eficiente. E depois, se calhar, quando tivermos esse modelo mais eficiente a trabalhar, então podemos injetar mais dinheiro para que o resultado também possa ser melhor, e não apenas injetar dinheiro à toa sem ter um objetivo concreto e uma forma lógica e consolidada do gastar, porque senão, eu penso que muitas vezes os portugueses somos bons a dar dinheiro e a não fazer o trabalho de casa primeiro.