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Marilina, antes de mais, muito obrigada por ter aceitado falar conosco. E começo por lhe perguntar: há relatos de cortes de energia em várias cidades na Venezuela. Confirma que isto está a acontecer?

Confirmo.

Acredita que seja de propósito para evitar o acesso às notícias? Não sei se é o caso da sua família, como ainda tem família em Caracas.

Minha família, exatamente, de las que fica ainda na Venezuela, principalmente estão em Caracas. E uma delas teve luz e internet sem problema, mas duas zonas diferentes de las outras duas famílias estavam sem internet e sem eletricidade. Zonas onde não tiveram nenhum ataque do estado, mas dos americanos. Só que pode ter sido por causa de uma coisa ou da outra. O problema é que, à parte que as pessoas ficaram incomunicadas, em estos momentos, a repressão continua, porque as ruas estão cheias de coletivos. Ou seja, os coletivos são todos aqueles civis que são armados pelo Estado para controlar a população. E eles estão na rua e as pessoas preferem simplesmente sair, comprar comida e voltam para casa, porque vamos ser sinceros, o regime não é só o Maduro. Isto é uma coisa grande e os coletivos atualmente, neste momento, estão na rua e estão a revisar os telemóveis às pessoas e estão a controlar tudo e as pessoas simplesmente continuam com medo em casa, ou seja, celebram em silêncio.

Portanto, as pessoas têm medo de sair à rua.

Sim, em Caracas estão os coletivos, que são os civis armados. Não sei se sabes o que são os coletivos.

Os coletivos, os movimentos sociais que apoiam o Maduro.

É esta população, exatamente, que o governo dá armas, motos e equipamento para andar na rua a vigiar as pessoas normais, para controlar. Ou seja, não é o exército como tal, são pessoas vestidas de civil, não têm farda.

E a sua família consegue manter-se a par das notícias a partir ou das redes sociais ou da internet?

Das redes sociais e do YouTube.

E a partir da rádio consegue?

Não, não podem. As únicas notícias que se ouvem são as notícias oficiais. E quando está a falar, por exemplo, agora me estava justamente a contar minha tia, que estiveram a falar, a presidenta esteve a falar e então cortam o sinal das outras televisões, da rádio, para que toda gente ouça o que tem que ouvir. Ou seja, é que aquilo é uma ditadura. É uma coisa muito feia. Ou seja, é uma situação catastrófica. Então, óbvio que todos estamos super contentes, qualquer venezuelano está super contente de lo que foi feito, mas óbvio, ainda falta muito no caminho. Agora simplesmente como que ferimos a víbora, a serpente, mas ela ainda continua viva.

Consegue falar regularmente com a sua família?

Sim.

Todos os dias ou há problemas devido a este corte de energia elétrica que tem tido ontem também?

Não. Eu sábado e domingo só consegui falar com uma delas, com minha outra tia e minhas primas, não consegui falar porque não tínhamos comunicação. Por isso quando ligaste, pediste cinco minutos, porque só hoje foi que consegui falar com elas para saber que estavam bem.

Quando fala com a sua família, como é que descrevem o dia a dia na Venezuela? Ou seja, estava-me a dizer que muitas das pessoas saem para ir ao supermercado comprar comida e voltam para casa e que celebram em silêncio, mas nas ruas é um cenário calmo, é um cenário, pelo contrário, mais agitado? Como é que estão as pessoas em Caracas?

É um cenário com medo. As pessoas têm medo. As pessoas não sabem o que pode passar, o que vai acontecer. E então as pessoas estão com medo, porque a informação que têm, como estávamos a falar, é através das redes, do YouTube, o qual não sempre é uma informação fiável, porque também há muitas fake news. E então as pessoas ficam apreensivas de saber se estão a ver toda a notícia, se não é completa a notícia. Então as pessoas estão apreensivas, estão à espera do que vai acontecer. Ou seja, quais vão ser os passos seguintes aqui agora com esta situação. Porque realmente o que as pessoas querem, o que eles quiseram com o voto, que foi a María Corina e a Edmundo, ainda estão fora e não sabemos quando voltam, ou seja, como vai ser este processo de transição. Mas algo que eu gostava de deixar claro, em nome de, seguro que não há nenhum venezuelano que diga o contrário, é que a medida que foi tomada foi a melhor. Ou seja, em momentos em que não se respeita os direitos, não se respeita as normas internacionais, não se respeita nada, não se respeita a legítima defesa, só medidas drásticas resolvem as situações. Agora justamente estava a falar com minha prima e dizia-me: "Olha, Marilyne, e Hitler? Hitler como foi tirado? Esperaram que a Alemanha o levasse à prisão?" Não! Ou seja, há vezes que se necessita o apoio internacional para resolver estas situações. Ou seja, no nosso caso, era uma medida necessária a tomar-se. É mais, demorou muito. Na opinião de los venezuelanos, nosso caso óbvio é diferente de outro país, mas o nosso é esse.

E considera que a intervenção dos Estados Unidos foi a maneira mais correta de o fazer, mesmo que há quem duvida de que o direito internacional tenha sido respeitado?

Sim, é mais, temos pena que não se levaram mais Lástima que só foi Maduro, porque Maduro é o primeiro de muitos. Ou seja, é um grupo. Este regime, como dizemos, que forma toda essa parte dos soles, toda essa questão das drogas, são muitos. No poder há oito, 10 que fazem parte desse grupo. Tirar um não sei se foi suficiente. Por isso acho que o presidente Trump disse que, se era preciso, haveria uma segunda escalada, porque realmente este é um deles.

Não tem medo que agora os Estados Unidos tenham um certo poder na Venezuela que acabe por não ser positivo para os venezuelanos?

Não, para nada, porque nós, até agora, com este regime, estávamos a ser controlados pela Rússia e pela Cuba. Não sei se todos repararam na notícia, os que cuidavam do presidente, que não era o ditador, eram 32 guardas cubanos, não era cuidado por venezuelanos. Ou seja, quem governa? E onde estão todos os que têm a proteção? Está em Cuba. Cuba dava as instruções do que se deveria fazer ou não. E a Rússia tinha instalações feitas na Venezuela. Eles levavam urânio. Tudo é um jogo econômico. Mas se temos que jogar economicamente, éramos muito mais felizes quando éramos aliados dos americanos, porque as pessoas ganhavam salários decentes, viviam bem, não estavam com isso, vivíamos em democracia. Desde o momento em que entrou Chávez e rompeu relações com os americanos, a vida acabou na Venezuela. Não há nada bom para apontar. Que agora digam: "Agora se vai levar o petróleo da Venezuela." E o que faziam os cubanos? Quantos milhares de litros enviamos nós diariamente gratuitos a Cuba, para que Cuba venda onde eles queiram? Onde está o petróleo que vai para a China? Onde está o urânio que se levam os russos? Ou seja, no final é um negócio. Somos um país com recursos naturais e tivemos esta sorte de que os americanos estavam no continente e quiseram dar um apoio à Venezuela. Eu faço uma explicação fácil do que acho que está acontecendo. É assim como quando você está casado com um maltratador. Ninguém te ajuda, mas você tem um maltratador em casa, que te maltrata todos os dias, que te bate, que te golpeia, que te tem horrível, te tem nas piores condições. E vem teu vizinho do terceiro ou quarto andar, vem em cima, te dá três golpes e te tira da frente. Tu, como maltratada, não te importa o que tens que pagar, mas te tiraram o maltratador, que é o primeiro passo. E acho que essa é a melhor semelhança que podemos fazer à história. Acho que ainda falta muito para nós sairmos deste regime, mas é o primeiro passo. E com o apoio dos americanos, e se eles derem continuidade e controlarem que o governo comece a soltar e a entregar as coisas como devem ser, acho que é o melhor que podemos passar. Agora, quanto tempo vai demorar isso? Ninguém sabe. Isto vai ser um processo muito lento, porque não é fácil depois de 26 anos tirar as pessoas e recomeçar. Isto é um processo, vai devagar.

Precisamente, Nicolás Maduro foi hoje presente na audiência do tribunal nos Estados Unidos e a próxima sessão agora está marcada para 17 de março. O que espera que vá acontecer na Venezuela nas próximas semanas?

Certeza não tenho nenhuma, mas tenho esperança de que comece a haver alterações. Acho que com tudo isso, os que ficaram do regime vão ter que ceder aos americanos em algumas coisas e acho que isso vai trazer um pouco de liberdade aos venezuelanos. Essa é a esperança.

E teme que haja uma guerra civil?

Não, temo é que não haja uma guerra civil. Tenho medo é da guerrilha, porque esses coletivos podem se converter claramente em guerrilhas. Mas uma guerra civil, não, porque 80% dos venezuelanos não querem este regime. Nas eleições que foram feitas o ano passado, Maria Corina e Edmundo ganharam como 87%, que é um número válido e que já está em Panamá, na OEA e em todos os lugares. E resulta que 87% dos venezuelanos não querem Maduro. Ou seja, nem o regime, nem sua gente, nem nada. Porque quando te tiram tuas liberdades básicas, quando as pessoas não têm com o que comer, quando um médico cobra um dólar e meio ao mês, quando um pensionado, uma pessoa que está na reforma, que trabalhou 30, 40 anos no seu país, só cobra $1 ao mês, ninguém está contente. Ou seja, em 26 anos não fizeram nada para melhorar isso. Onde as pessoas querem ir comprar algo no supermercado e não há. Quando as pessoas saem a protestar, a dizer que não estão de acordo com isso, levam-nos como prisioneiros. Crianças, miúdos de 15, 16 anos são colocados em prisões de adultos. Não há respeito nenhum à população e ao povo. E eu acho que guerra civil não vai haver, o que pode existir são guerrilhas. Óbvio que há que ter cuidado com isso, porque já sabemos a história que tem Colômbia com as guerrilhas e nós já tivemos no passado. Mas guerra civil, nunca.

Marilene, muito obrigada por se ter disponibilizado para falar conosco.

De nada.