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Tempo para mais uma edição do "Sem Falta", sempre com o antigo árbitro Pedro Henriques. Pedro, boa noite.
Muito boa noite.
Em dia de dose dupla de jogos na Rádio Observador, analisamos primeiro a arbitragem do Casa Pia-Benfica, um jogo que acabou com a vitória dos encarnados por 1 x 0, com esse gol de Gonçalo Ramos. Um jogo que contou com Tiago Martins a liderar a equipe de arbitragem, que teve como assistentes André Campos e Hugo Ribeiro. Flávio Lima foi o quarto árbitro e na Cidade do Futebol, nos comandos do VAR, estiveram António Nobre e também Pedro Ribeiro. Pedro, a nossa análise começa pelo minuto sete, logo com cartão amarelo para Neto, o jogador do Casa Pia, por uma entrada sobre João Mário. É um cartão mostrado logo no início do jogo. É bem mostrado?
Sim, este cartão é bem mostrado. É a tal situação que impede a saída em contra-ataque, neste caso, por parte de João Mário. Nós designamos que é a chamada falta útil para matar o jogo. Em termos técnicos, chamamos de falta tática. E portanto, é com base nesta falta tática, que o cartão amarelo é corretamente mostrado.
Seguimos para o minuto 27. Há aqui mais um cartão amarelo, desta feita a Godwin, não por falta, mas sim por lançar a bola para longe, numa altura em que o jogador do Benfica, o Gilberto, se preparava para fazer o lançamento lateral.
Sim, sob o ponto de vista daquilo que é a estrita leitura do lance, é cartão amarelo, porque há um jogador que dá um toquezinho na bola quando o lançamento natural por parte de Gilberto ia ser executado e, portanto, há aqui um comportamento desportivo. Sob o ponto de vista da gestão de um jogo, um árbitro que até tem experiência, tem que fazer de forma diferente. Fala com o jogador, dá-lhe um aviso, não é um cartão amarelo relevante, nem importante para o jogo e com isto impede aquilo que é a chuva de amarelos, que depois aconteceu neste jogo. E se o jogador reincidir, então sim, poderia mostrar o cartão amarelo. Ainda por cima com 10 apanha-bolas no estádio, que é obrigatório na Liga, as bolas estão sempre a ser repostas em jogo de forma rápida. Não é, portanto, um cartão amarelo que se possa dizer que é errado, mas sob o ponto de vista da gestão disciplinar e da própria gestão do jogo, podia ser evitado.
Um jogo que, como já disseste, teve vários cartões amarelos, logo também ao minuto 29, desta vez o primeiro para o Benfica, para o Otamendi, depois de uma entrada sobre o Rafael Martins.
Sob o ponto de vista daquilo que é a tal entrada, uma vez que o jogador Rafael Martins estava de costas, é sempre defensável para um árbitro dizer que estas entradas por trás são para cartão amarelo. É um toque ligeiríssimo que realmente acaba por derrubar o jogador. O jogador nem sequer está a sair em contra-ataque, não é ataque rápido, está a receber a bola de costas, não tem ninguém a quem passar, está rodeado até de outros jogadores do Benfica e o toque é ligeiro. Portanto, a diferença entre ser imprudente, que não é cartão amarelo, e a negligência, que é cartão amarelo, é sempre muito interno. Para mim, não tem os condimentos da negligência. E no meu ponto de vista, este cartão amarelo é incorreto. E só estou aqui a reforçar um bocadinho mais, porque isso depois vai ter implicações, porque o Otamendi acaba por ser expulso mais à frente.
Já lá vamos esse lance, já na segunda parte, mas primeiro continuamos aqui nestes vários cartões amarelos da primeira parte. Aos 30 minutos de jogo, é a vez de Florentín, do Benfica, depois de uma falta sobre Afonso Teixeira. Foi bem mostrado desta vez este cartão amarelo?
Sim, aqui sim, estica a perna direita e com os pitons acaba por acertar em cheio no pé do seu adversário. Portanto, esta entrada enquadra-se na tal negligência, que não tem em conta o perigo e as consequências do seu ato quando tem estas entradas, nomeadamente pitons e de sola, e aqui sim, o cartão amarelo é o correto.
Afonso Teixeira que no minuto a seguir também não quis ficar de fora, viu também o cartão amarelo, depois de travar Gonçalo Ramos em falta.
Se isolarmos o lance, é cartão amarelo, porque o Teixeira acaba por impedir a saída em contra-ataque da equipe do Benfica. Ora, e é por isso que o árbitro interrompe e mostra o cartão amarelo. Um árbitro com outra gestão do jogo aplica uma coisa que é aquilo que define os melhores árbitros, chamado de lei da vantagem. O jogador é derrubado, a bola sobra para outro jogador do Benfica, ainda por cima a bola vai mais pra frente, nem sequer a bola veio pra trás ou pro lado, ou o jogador que ficou de posse de bola ficou a ser pressionado. Não, há uma clara vantagem do Benfica que poderia ter continuado o lance. E se tem continuado o lance, aquilo que era o motivo para o cartão amarelo, que era travar uma saída em contra-ataque, deixava de existir, porque na realidade, o contra-ataque tinha continuado. Ou seja, o árbitro ao interromper, tem que mostrar amarelo como fez. Se aplica a lei da vantagem, já não mostrava o cartão amarelo. E portanto, lá está, insisto, porque isto é importante para aquilo que eu vou falar no fim, que é a gestão disciplinar. E portanto, não é incorreto, mas sob o ponto de vista de gestão disciplinar, podia ter tido outro comportamento, nomeadamente com a questão da lei da vantagem.
Vamos agora para os 42 minutos. Pedia-se aqui um segundo cartão amarelo, desta vez para Godwin, que já tinha visto esse cartão amarelo logo aos 27 minutos de jogo. Seria uma consequente expulsão? Seria o segundo cartão amarelo? Ficou aqui por mostrar.
Não, pra mim não, porque embora aparentemente o Godwin tivesse tido uma entrada fora de tempo sobre o adversário, aquilo que se percebe é que ele não toca com os pitons, nem com o pé, portanto, as tais entradas, essas sim, que são negligentes. O que acontece é que ele realmente acaba por não chegar à bola a tempo e depois há um contato de choque com a parte de cima, com a parte superior, com o corpo. Corpo no corpo e depois há o aparato, o jogador cai no chão. Portanto, um lance absolutamente normal. Faltoso, sim, mas um faltoso de imprudência, que de acordo com as leis de jogo, não tem cartão amarelo, é só não mostra atenção e consideração para com o árbitro. E estas palavras não são minhas, são as palavras da lei, e não era entrada, portanto, negligente. Aqui bem a equipe de arbitragem, ou o árbitro, mais propriamente, por ter deixado seguir o lance sob o ponto de vista disciplinar, obviamente, não ter mostrado o cartão amarelo.
Boa decisão aqui de Tiago Martins e mesmo antes de terminar o primeiro tempo, há uma dúvida de um possível pênalti sobre João Mário. Ficou por marcar um pênalti para o Benfica.
Não, correta decisão. O João Mário está em drible, está com dois adversários, nomeadamente com o seu direto, que é o Vasco Fernandes, e é o próprio João Mário que com o seu pé direito tropeça, acaba por pontear o pé, também direito, do Vasco Fernandes e tropeçar nele. E é isso que leva à queda. Ou seja, o Vasco Fernandes já tem o seu pé colocado no chão e não faz qualquer movimento no sentido de arrastar o João Mário. Portanto, correta a leitura, não havia aqui motivo para pontapé de pênalti.
Seguimos para a segunda parte, ainda com esse 0 x 0 no marcador, minuto 53. Continuamos com a saga de cartões amarelos, desta vez para Kunimoto, também não por uma falta, mas, neste caso, Pedro Henriques, por demorar tempo a bater o canto.
Sim, só que não demorou. E é um perfeito disparate na gestão disciplinar. É lógico, o jogador do Casa Pia não vai a correr para bater o pontapé de canto, está na área, a bola saiu e vai na sua tranquilidade. E quando digo tranquilidade, não é tranquilidade de demorar, vai passo para ir bater o pontapé de canto. Não é uma daquelas situações em que o jogador foi no sentido contrário ou pôs-se a apertar as botas, nada disso. É um lance absolutamente normal e o que o árbitro deve fazer é pedir ao jogador, eventualmente, mais celeridade, se achar que a celeridade não é a correta, o que não devia fazer, neste caso. Eventualmente, acrescentar mais tempo, porque tudo que é pontapé de canto, lançamento lateral, pontapé de baliza, faz parte do jogo. Portanto, não se acrescenta tempo por causa disso. Só se acrescenta quando realmente há uma perda exagerada por parte de um jogador e esse jogador tem que ser sempre advertido. No meu ponto de vista, um cartão amarelo incorreto e uma vez mais a mostrar uma falta de gestão disciplinar do jogo, que foi a grande incoerência. Ou seja, ele foi coerente na má gestão disciplinar e incoerente nesta atitude.
Depois, por outro lado, ao minuto 65, consideras que ficou por mostrar um cartão ao Weigl.
Exatamente. Mostra-se um cartão amarelo por causa de um lançamento em que dá-se um toque para fora. Mostra-se um cartão amarelo porque se acha que um jogador demora a marcar um pontapé de canto, que são situações fáceis. E depois nas entradas, que é aqui que os árbitros têm que ser fortes na gestão disciplinar, falha e é o Weigl. Aliás, a dúvida aqui neste lance, para mim, é cartão amarelo, e aquilo que vai eventualmente servir de discussão é se é amarelo ou se é vermelho. Para nós percebermos, efetivamente, aquilo que aconteceu neste lance, para percebermos que é uma entrada que está entre aquilo que é falta grosseira ou negligência. Aliás, a negligência, que é cartão amarelo, e a força excessiva ou falta grosseira, que é cartão vermelho. Para mim, é cartão amarelo, ele toca com os pitons, entra com o pé à frente e acaba por acertar abaixo do joelho, meio toque, meio de raspão. A entrada em si é negligente, não tem em conta o perigo das consequências do seu ato, na forma como entra, como aborda, não há uso excessivo de força, nem sequer põe em risco a segurança e integridade física do adversário, na minha leitura, e, portanto, cartão amarelo por mostrar.
Cartão amarelo por mostrar, um cartão que até podia ser vermelho por essa entrada de Weigl. Avançamos para o final do jogo, numa altura em que Henrique Araújo já estava em campo, o jogador do Benfica sofre uma falta na área e fica-se a pedir um pênalti. Há motivos para isso?
Não, não há falta. O Henrique Araújo chega primeiro à bola em relação ao guarda-redes, ao Ricardo Batista, e domina a bola com o seu pé direito, tirando da zona possível de chegada do guarda-redes. Só que o guarda-redes chega, para o seu movimento e acaba por bater com ambas as mãos no solo, não tocando nem derrubando o Henrique Araújo. Portanto, aqui a dúvida não era se é pênalti, para mim, era se eventualmente o jogador do Benfica não terá feito simulação. Mas vou aceitar como boa a decisão de não ser simulação, porque é um momento de velocidade que ele leva e depois ao tentar inverter, fugindo ligeiramente para a direita para inverter aquele movimento para tirar a bola do guarda-redes, isso pode ter provocado o seu próprio desequilíbrio quando coloca os pés no chão. Vou dar como boa a decisão de não simulação e como muito boa a decisão de não ser pontapé de pênalti.
Depois temos a expulsão de Otamendi, o jogador do Benfica que vê o segundo amarelo da partida, acaba expulso depois desta falta sobre Clayton.
Sim, este segundo amarelo, não há grandes dúvidas. Aliás, o lance é um pouco caricato para um jogador que, ainda por cima, tem cartão amarelo. Esta expressão não existe nas leis de jogo, mas é a melhor imagem, ele montou-se completamente.
Em cima do Clayton.
Como se saltasse para as costas do adversário. Exatamente, e colocou-se em cima do Clayton e portanto, além de impedir a saída em ataque rápido por parte do jogador e da equipe do Casa Pia, acaba por ter um comprometimento desportivo na forma como aborda e se coloca em cima do seu adversário. Aqui, sim, este segundo cartão amarelo, sem dúvidas, bem mostrado.
Tendo em conta que na primeira parte referiste que Otamendi não deveria ter visto o primeiro cartão amarelo, portanto, aqui põe-se também em causa esta expulsão do jogador do Benfica.
Exatamente. É bom também dizer que o lance pode, eventualmente, até dividir opiniões. Estou a falar do primeiro cartão amarelo. Porque é fácil achar no contato e nos toques por trás, ser fácil colocar o carimbo do cartão amarelo. De qualquer maneira, acaba por ser um lance que, sob o ponto de vista deste jogo, não tem consequências, nomeadamente no resultado ou nos pontos, porque não houve mais nenhum gol. Se houvesse, aí sim, estaríamos com um lance com gravidade maior.
E mesmo ao cair do pano, ainda tempo para mais um cartão amarelo, desta vez para Rafa Silva.
Sim, também não concordo. É junto à linha lateral, portanto uma zona sem perigo, mas isso não quer dizer nada, por si só. O Rafa realmente não para o seu movimento, mas uma vez mais não entra de pitons nem de sola, acaba por promover um choque com os joelhos ao nível do seu adversário. E, portanto, à semelhança daquilo que aconteceu com o Godwin na primeira parte, e também eu tentando ser coerente na minha leitura, eu acho que é uma situação claramente de livre direto, como foi assinalado, mas sem cartão amarelo Mas para o critério que o árbitro estava a levar, obviamente que o cartão amarelo acaba por ser mostrado exatamente para manter a coerência, isto do ponto de vista do árbitro e de todos os cartões que mostrou.
E foi um critério, podemos dizer, bastante apertado, porque este foi um jogo recheado de cartões. Tiago Martins mostrou 10 cartões ao longo dos 90 minutos. Foram três cartões amarelos para o Benfica, depois um segundo amarelo para o Otamendi, que resultou nessa expulsão. E do lado do Casa Pia, falamos em seis cartões amarelos, alguns dos casos, Pedro Henriques, que já falaste aqui, de situações que não concordas e, por isso, é tempo de te perguntar que nota dás, Pedro Henriques, à arbitragem de Tiago Martins. Falaste ao longo do "Sem Falta" da questão da gestão disciplinar, que foi ou não foi feita por Tiago Martins, com esses vários cartões amarelos que foram mostrados ao longo de toda a partida.
Sim, é com base nessa não boa gestão disciplinar que o Tiago Martins fez, que eu vou dar nota cinco. Ou seja, o cinco ainda é positivo, porque, na realidade, os lances de área foram bem resolvidos, não tem qualquer influência, vamos dizer assim, naquilo que é o resultado, ou seja, na vitória, neste caso, do Benfica, e estes são sempre predicados positivos para a equipe de arbitragem. E por isso o lado positivo ser a nota cinco. De qualquer maneira, é uma nota que acaba por ser baixa em virtude da tal gestão disciplinar com a qual não concordei, embora sem grande impacto no jogo, acaba por realmente manchar um bocadinho aquilo que foi a prestação da equipe de arbitragem, um bocadinho dentro também do conceito da arbitragem portuguesa, que não consegue sair desta questão que é amarelo por tudo e por nada, muitas interrupções, muitas faltas e dificuldade em deixar fluir o jogo, em dar lei da vantagem e valorizar assim muito mais o jogo. Portanto, nota cinco, sobretudo por causa da má gestão disciplinar, mas sem erros importantes e relevantes ou, dito de outra maneira, com boas decisões ao nível, por exemplo, das áreas.
Portanto, sem essa interferência direta no resultado. Obrigada, Pedro Henriques. Foi mais um "Sem Falta" aqui na Rádio Observador. Ainda te vamos ouvir esta noite. Voltamos a abrir a via depois para a análise do Sporting-Rio Ave.