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Começou o ano letivo para a Autoeuropa. São dois temas não diretamente relacionados do Semáforo Político, sempre com os nossos condutores de serviço, a Judite França e o Bruno Vieira Amaral. Estás tu ao volante hoje, Bruno, e o meio de transporte é mesmo o carro. Lá estávamos até à fábrica de Palmela. Um vermelho para esta situação de paragem.

Pois é, os carros estão parados, e são muitos e têm um grande peso na nossa economia. Eu hoje estava a ler a crônica do João Miguel Tavares no "Público" e achei muita piada ao que ele chamou de nacionalizar a sorte e internacionalizar o azar, que é uma prática constante de António Costa. Quando a conjuntura é favorável, e mesmo a conjuntura internacional, arranja-se maneira de puxar os louros para o governo. Quando a conjuntura é negativa, empurra-se a culpa lá pra fora, seja pelo que for, pode ser o Banco Central Europeu, pode ser a pandemia, pode ser tudo e mais alguma coisa. Desta vez, foi um imprevisto, e os imprevistos acontecem. Uma catástrofe natural na Eslovênia e a fábrica que fabrica uma peça para os automóveis produzidos em Palmela foi afetada por essa catástrofe. E o que isso resulta para nós? De repente, temos 80% dos 11 mil trabalhadores do Parque Europa, porque a Autoeuropa não é só aquela fábrica, é todo aquele parque de fornecedores que está ali à volta e que emprega 11 mil trabalhadores, e cerca de 80% desses 11 mil trabalhadores têm agora uma redução total ou parcial do tempo de trabalho. Alguns trabalhadores temporários já foram despedidos, muitos outros têm cortes no vencimento e há ainda uma porcentagem significativa de outros que não sabem o que lhes vai acontecer. Portanto, vivem com a incerteza a pairar-lhes sobre a cabeça. Nesta altura, com os problemas das taxas de juro, da crise da inflação, é mais um problema a acrescentar a todos esses problemas. Portanto, aqui temos a borboleta a bater as asas na Eslovênia e a desencadear um sismo econômico em Portugal. E isto não seria tão grave se a Autoeuropa não tivesse o peso que tem na economia portuguesa.

Tivéssemos mais Autoeuropas.

Ou isso. O peso ficava mais bem distribuído por outras empresas desta dimensão. Não temos. Em 2021 representou 4% das exportações e 1,5% do PIB. E como dizia a Judite, e bem, visto que não temos muitas Autoeuropas, só temos uma, e também não as podemos arranjar agora de um dia pro outro, então não vale a pena desculparmos com os azares internacionais, como fez António Costa, que já avisou que dois meses de interrupção terão um peso enorme na economia portuguesa, mas ele disse assim em jeito de desculpa, que é: "Bem, se não crescermos tanto quanto poderíamos, a culpa não é nossa. É da tal borboleta que bateu as asas na Eslovênia." Mas Portugal não vai arranjar agora outras Autoeuropas, mas devia tê-lo feito nos últimos anos. E a responsabilidade não é só de António Costa, é de outros dirigentes políticos, de outros responsáveis políticos. Mas agora também dizer que o problema foi uma inundação que houve na Eslovênia e que, por isso, uma empresa que vale 1,5% do PIB tem que parar a produção e isso vai se refletir na economia portuguesa. Quer dizer, quando as coisas correm bem, está tudo bem, louros para o governo. Quando está mal, a culpa é sempre de alguma coisa exterior. Não pode ser assim, há aqui um problema estrutural da economia portuguesa, que devia ter sim mais Autoeuropas, ou então, só tendo uma, tem que arranjar também, tem que pensar muito bem em como evitar estas situações e mitigar ao máximo o efeito destes problemas.

Neste caso, o que aconteceu na Eslovênia está a prejudicar fábricas por toda a Europa.

Claro, mas provavelmente no resto da Europa essas fábricas não têm o peso que a Autoeuropa tem na nossa economia.

Essa é a diferença. Portanto, um vermelho para esta situação na Autoeuropa e vamos ao outro vermelho. Hoje só há vermelhos no Semáforo Político, Judite França para a abertura do ano letivo, e o teu vermelho é mais diretamente pro ministro da Educação.

Está na moda os governantes dizerem que os problemas não são de agora, como se o governo e o primeiro-ministro não fossem o mesmo há sete anos. Há dois dias foi a Elvira Fortunato que disse numa entrevista que há falta de camas pros estudantes, mas que as camas não se constroem de um dia pra outro. Agora, João Costa disse que o problema da falta de professores também não é deste ano. Eu, curiosamente, lembro-me do antigo ministro dizer exatamente o mesmo, que não era um problema da altura. O que eu acho muito porreiro, como não é de agora, pra que mudar, não é? E eu não percebo sequer a resposta, parece aquela de: "No meu tempo eram duas sardinhas pra três." Então, pra que mudar, não é? João Costa olha pra isto como se estivesse num novo governo, o que no caso dele nem é verdade, porque foi secretário de Estado durante seis anos. Pode sempre dizer que não concordava com aquilo que fazia o ministro Tiago Brandão Rodrigues. A verdade é que Brandão Rodrigues esteve lá sete anos e nunca teve uma contestação deste tipo. Pode-se dizer que o STOP não tinha a força que tem agora, enfim, etc. Mas voltando a este tema do "a culpa não é minha" Se está lá há sete anos e se as aulas começam sem professor, a ele o devemos também. Não só, mas também. E se em sete anos não deu para fazer nada, pela lógica aritmética mais básica, os próximos seis também não devemos esperar melhorias, porque João Costa esteve lá seis e não foi possível resolver. E depois há aqui um dado que eu vou dizer que é cômico, porque eu acho que rir é, de facto, o melhor remédio. No dia que marcou o arranque do ano letivo, o presidente do Conselho Nacional de Educação veio lamentar que não existam dados concretos sobre o número de professores em falta. O Estado já não sabe quantas casas devolutas tem, agora nem o número de professores em falta sabe. Sabemos, sim, que são mais de 100 mil crianças que não têm professores. E claro, já sabemos, sem nenhum desprimor para os paizinhos, mas de facto aqueles que têm sorte de pôr os filhos no privado, não têm este problema, obviamente. E, portanto, bora lá estragar mais um bocadinho o elevador social, como se ele já não estivesse completamente espatifado. Olhando para os governantes, Elvira Fortunato diz isso, porque diz: "Antes esteve aqui o Manuel Heitor, não fui eu". Mas isso não interessa, porque são solidários com um governo que é uma continuação durante sete anos. João Costa não tem sequer essa desculpa porque esteve lá como secretário de Estado. Portanto, dizer que a falta de professores não é um problema de hoje e que não se resolve de um dia para o outro. Não, é um problema com sete anos. Serão precisos mais sete para resolver? Sete não serviram, são precisos mais sete? E eu acho este discurso absolutamente assustador. E aquela ideia com que o PS começou o governo, que era não ser pessimista como era Passos e Vítor Gaspar, que tinham aquele discurso pesadão, de que isto é tudo mau e é preciso sofrer. No fundo, este governo agora está a fazer mais ou menos a mesma coisa. Não daquela forma como a direita gosta de fazer, que é sempre muito mais negra e sombria e de sacrifício à pátria. É uma coisa que a direita gosta muito de mostrar, mas é igualmente sombrio, que é: isto tem sete anos, não se vai resolver agora de um dia para o outro. E as pessoas já passam o que passam todos os dias e agora não sentem esperança?

Já houve tempo mais do que suficiente para este governo resolver estes problemas e garantir um ano letivo, um arranque a correr bem, Bruno.

Sim, isso nós sabemos há muito, o problema é antigo. Repete-se todos os anos, nós já estamos habituados, acaba por já nem ser um escândalo. É o que é, é assim que funcionam as coisas. Eu hoje, por acaso, estive a acompanhar a minha filha.

No teu arranque do ano letivo.

No arranque do ano letivo e faltam dois professores. E imagino que isto seja assim em muitas escolas deste país.

São 100 mil, não é?

Por acaso, um dos professores que falta é matemática, que é uma disciplina que nós sabemos que é central. Vamos lá ver quando é que há professor, mas isto não é um caso isolado, não é um caso atípico, é assim que funciona o sistema.

É, e terminamos este semáforo político com este exemplo concreto aqui trazido pelo Bruno Vieira Amaral. Estamos de volta amanhã.