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É tempo para sinalizar a atualidade marcada pela tensão entre Rússia e Ucrânia. É hora do Semáforo Político na Rádio Observador. O nosso convidado de hoje é o secretário de Estado da Energia, João Galamba. A grande repórter de economia, Ana Suspiro, junta-se também ao nosso painel residente, Judite de França e Bruno Vieira Amaral. A moderação tem luz verde e é da Vanessa Cruz.

Estamos de olhos postos nessa escalada de tensão entre Rússia e Ucrânia e o efeito ricochete das sanções que estão a ser anunciadas e que recaem também sobre a energia. A Europa depende muito do gás russo. Portugal tem outras fontes de abastecimento, mas também pode ser afetado, sobretudo se houver escassez no mercado mundial e é por isso que João Galamba está hoje conosco. Bem-vindo. Primeiro que tudo, e para termos uma ideia da dimensão, quanto gás natural é que Portugal importa à Rússia?

Boa tarde a todos. Portugal importou cerca de 10% do seu gás natural em 2021, mas foi um ano atípico porque normalmente importa bastante menos e em 2022. E, portanto, Portugal depende relativamente pouco da Rússia e então quando comparado com o resto dos países da Europa, depende mesmo muito pouco. A principal característica das nossas importações de gás é que elas são praticamente todas feitas por Sines, através de navios metaneiros, e aí temos vários fornecedores em que a Nigéria e os Estados Unidos surgem à cabeça. Portanto, temos alternativas de fornecimento. Temos, aliás, vindo a diversificar as nossas fontes de importação. Portugal está, pelo menos ao nível do volume, relativamente protegido das perturbações resultantes da crise entre a Rússia e a Ucrânia.

Mas de acordo com dados da Direção Geral de Energia e Geologia, Portugal mais do que quintuplicou as importações de gás natural proveniente da Rússia. Não é uma tendência para manter?

Não é uma tendência, porque foi um ano atípico. Aconteceu, isso foi sobretudo no final do ano, em que houve um operador que comprou essencialmente à Rússia, portanto, é um ano atípico e Portugal, se olharmos para os últimos anos e se olharmos para o que está a passar em 2022, depende pouco da Rússia e portanto, esse dado de que quintuplicou é um ano atípico e não representa qualquer tendência, como aliás se verifica no ano 2022 e nestas descargas previstas em que a Rússia tem um papel reduzido. Mas o ponto aqui fundamental é que enquanto há países que podem enfrentar rupturas de volume, ou seja, de abastecimento, o risco identificado para Portugal, sobretudo fruto da sua pouca dependência do gás russo e da pouca dependência do fornecimento por gasodutos, o fornecimento é todo, praticamente todo, por navios metaneiros que chegam a Sines, o principal risco que Portugal enfrenta é um risco de preço e não um risco de volume.

Ia precisamente pegar aí também. O chanceler alemão decidiu suspender o gasoduto Nord Stream 2, em resposta a esta escalada militar russa na Ucrânia. E este, para os nossos ouvintes perceberem, é o gasoduto que liga a Rússia à Alemanha através do Mar Báltico, que ficou concluído no ano passado. Estava agora em fase de certificação, foi suspensa. Nós corremos o risco com esta sanção de o preço do gás e da eletricidade subir em Portugal?

O preço do gás já está a subir. Foi, aliás, o efeito imediato do que aconteceu ontem, foi uma subida imediata do preço do gás, preço do gás esse que até tinha vindo a estabilizar ou a baixar nos últimos tempos.

Só hoje o gás natural para entrega em março subiu 7% no mercado holandês.

Exatamente. E, portanto, como é evidente, isso tem impacto direto no preço do gás natural e indireto no preço da eletricidade.

Portanto, estamos a falar de um impacto mesmo imediato.

Obviamente, depende das variações, mas sim, se o gás subir como está a subir, isso não pode deixar de se refletir no preço da eletricidade e no preço do fornecimento do gás à indústria, sobretudo à indústria portuguesa, que é o grande consumidor de gás em Portugal, seguido das centrais de ciclo combinado.

Já agora, João Galamba, o ex-presidente russo Dmitry Medvedev já reagiu a esta suspensão do gasoduto decidida pela Alemanha. Diz que os europeus vão pagar em breve 2 mil € por metro cúbico de gás. Este é um aviso realista? Quanto é que pagamos agora, Portugal e a União Europeia?

O preço está um pouco acima dos 80 € por megawatt-hora. Já chegou a cerca de 130, 140 € por megawatt-hora. Veremos como vai reagir agora os outros países também. Não esquecer que houve reuniões nos últimos tempos para preparar esta eventualidade, e um dos maiores produtores, senão o maior produtor de gás do mundo, os Estados Unidos, reforçaram significativamente a sua capacidade de exportação para a Europa. Portanto, tudo depende um pouco como as coisas se desenvolvam daqui para frente. O ponto importante é que, obviamente, outros países fornecedores de gás natural terão de compensar eventuais diminuições de fornecimento da Rússia, eventuais sanções. Há toda uma dinâmica aqui que nós ainda não conseguimos antecipar se irá ou não verificar. O importante aqui é assegurar a diversificação de fontes. Obviamente, que mesmo com essa diversificação de fontes

João Galamba, penso que perdemos momentaneamente o contato consigo, mas já recuperamos. Queria dizer que a Ana Suspiro, a grande repórter do Observador que acompanha esta área da energia, está também aqui conosco e quero introduzir um tema também nesta equação, não é, Ana?

Sim, boa tarde, João Galamba.

Olá, boa tarde.

Esta situação absolutamente atípica no preço do gás natural e também na incerteza quanto ao provisionamento, apanha Portugal numa situação muito complicada, com uma seca hidrológica que faz com que as barragens hidroelétricas estejam a produzir muito menos e é uma situação que deve agravar-se nos próximos meses. Nós não temos carvão, neste momento temos apenas o gás natural como centrais térmicas que servem de seguro ao sistema elétrico. Que impacto é que as duas coisas combinadas, o aumento do preço do gás e a necessidade de recorrer mais a estas centrais, pode ter na eletricidade e, sobretudo, no preço da eletricidade que vamos pagar?

Vai ter dois impactos. É da maior importância o MIBEL, o Mercado Ibérico de Eletricidade, e continuaremos, obviamente, fortemente dependentes do nosso mercado. E nesse sentido, as análises que temos feito com a REN e com a DGEG é que não se antevê qualquer risco de segurança de abastecimento. Obviamente que o preço pode subir, mas não se antevê, porque não se antevê nenhuma rutura de abastecimento, não está nos nossos cenários qualquer problema de segurança de abastecimento. Nós temos, obviamente, algumas limitações de algumas barragens, outras com menos limitações. Temos as renováveis em forte crescimento em Portugal e em Espanha, e o forte crescimento das renováveis em Espanha também beneficia Portugal, porque, mais uma vez, é um mercado ibérico. E, portanto, nos cenários nos quais temos estado a trabalhar, não se antevê qualquer problema de segurança de abastecimento. Obviamente, que pode haver um impacto no preço, mas esse impacto no preço será generalizado e não será apenas na Europa. Hoje o gás subiu em todo lado, o petróleo subiu em todo lado e, portanto, estes são efeitos em commodities que são transacionadas em mercados internacionais e que não podem deixar ter impacto. Mas do ponto de vista de segurança de abastecimento, já não do preço desse abastecimento, mas da possibilidade de haver ruturas e falta de abastecimento físico de gás, neste momento, e temos reunido regularmente, quer com a REM, quer com os principais operadores e importadores de gás que abastecem o mercado português.

Já agora, pode nos dizer quem são esses importadores, portanto, quem é que está a fornecer o gás a Portugal neste momento?

São quatro: a Galp, a EDP, a Endesa e a Naturgas.

Eu estava a falar dos países de origem do gás natural.

De origem do gás natural. A Nigéria é o principal fornecedor, a seguir é os Estados Unidos e temos também Trinidad e Tobago agora que têm assumido uma maior relevância. E obviamente que um dos impactos que esta crise entre a Ucrânia e a Rússia terá é uma reconfiguração geopolítica dos principais fornecedores da Europa. Podemos dizer que aquilo que provavelmente se passará na Europa é que do perfil de importação que existe hoje na Península Ibérica, mais dependente de LNG, mais dependente de fornecedores que não a Rússia. Portanto, a expectativa que temos é que a Europa como um todo, nesta altura de crise, provavelmente se aproxime mais do perfil da Península Ibérica.

João Galamba, além desta dependência do gás de que estamos a falar, há outros setores que podem vir a ser afetados por esta tensão entre a Ucrânia e a Rússia, ainda mais num eventual cenário de guerra. Eu estou a lembrar-me aqui, por exemplo, do trigo, do alumínio, isto porque a Rússia é um dos maiores produtores e exportadores do mundo.

Claro, não nos enganemos, um potencial conflito dessas dimensões terá sempre impactos. E, portanto, nunca estaremos aqui a falar da ausência de impactos, mas do tipo de impactos que podemos sofrer. O impacto mais importante é mesmo o da rutura de abastecimento, e essa é uma mensagem que nós queremos transmitir, de todas as análises que temos feito, das conversas semanais, quase diárias, que temos tido, quer com a REN, quer com os principais importadores de gás natural, a normalidade no fornecimento mantém-se e, portanto, o único efeito até agora detetado pelos quatro principais importadores de gás e pela própria REN é meramente de preço e não de volume. Isto é muito importante porque significa que a segurança de abastecimento parece estar assegurada. Obviamente, estas informações têm que ser permanentemente atualizadas, mas com a informação que temos neste momento, é essa a realidade. Mas sim, como é evidente, um conflito entre um dos principais produtores de petróleo e gás do mundo e um dos maiores, senão o maior país europeu, não poderia deixar de ter impactos negativos. Importa depois ver é quais os detalhes desse impacto, e a nossa preocupação maior neste momento é garantir a segurança de abastecimento, e essa parece estar assegurada. Por outro lado, importa também dizer que se há algo que esta crise entre a Rússia e a Ucrânia demonstra, é a absoluta necessidade de acelerar a instalação de renováveis. E porque cada quilowatt-hora produzido por solar ou por eólico é menos um quilowatt-hora consumido ou de gás ou de água nas barragens. E, portanto, neste momento, a melhor estratégia, e falando do caso especificamente português, para assegurar mais água nas albufeiras e menos consumo de gás e, portanto, proteger-nos destas variações de preço, é, sem dúvida alguma, a aceleração Total e absoluta de toda a instalação de capacidade renovável, que é o melhor seguro que Portugal pode ter contra esta volatilidade e este tipo de crises. Temos a sorte de ter recursos endógenos abundantes para nos proteger disto. Obviamente que não se faz de um dia para o outro, mas estamos a acelerar significativamente e temos instalado bastante capacidade renovável. Batemos um recorde em 2021, iremos seguramente bater um recorde em 2022 e, portanto, essa é uma das nossas prioridades, é assegurar a aceleração da instalação renovável. Por outro lado, esta crise entre a Rússia e a Ucrânia obriga a Europa a repensar o seu abastecimento de gás, e isso é uma enorme oportunidade para a Península Ibérica e para Portugal, em particular, e para Sines, que pode reforçar o gás natural americano na Europa. Isso terá de ser tratado a nível europeu, têm de ser feitos investimentos. A Península Ibérica tem, neste momento, a maior capacidade da Europa de importação de GNL por metaneiros, Espanha com os seus três terminais, Portugal com o seu terminal. Só que há uma limitação, que é a interligação entre Espanha e França, e, portanto, mesmo que nós aproveitássemos plenamente toda a capacidade de importação de Sines e até reforçássemos, o principal estrangulamento, neste momento, de fornecimento de Portugal ao resto da Europa e da Península Ibérica ao resto da Europa não se prende com qualquer falta de capacidade em Portugal ou em Espanha, mas sim com a exígua interligação entre Espanha e França.

Nos Pirenéus, não é? Não temos esse gasoduto nos Pirenéus. Deixe-me só voltar aqui um pouco atrás.

Nós temos, ele tem uma capacidade de trânsito entre a Península Ibérica e França.

Precisávamos de outro, era isso que eu queria dizer.

A posição de Portugal tem sido sempre a de defender a construção, o reforço das interligações de gás, já devidamente preparadas para os gases renováveis, ou seja, não se trata de um investimento dedicado exclusivamente ao gás natural, exatamente porque sabemos que, por muito que precisemos agora do gás natural, essa dependência irá diminuir ao longo do tempo. Diminuir quão rápido? Quanto mais rápido descarbonizarmos e instalarmos renováveis, hidrogênio e outros gases renováveis, menos dependeremos dessas fontes fósseis. Isso não se faz de um dia para o outro e, portanto, é da maior importância repensar o papel dos portos da Península Ibérica e o seu papel na segurança de abastecimento ao resto da Europa. E para isso, obviamente, temos que repensar interligações e gasodutos entre Portugal, Espanha e França. E esse é um debate que está em cima da mesa e que obviamente ganha enorme atualidade com esta crise ucraniana e russa.

E por que não temos mais? Quem é que está contra?

Tradicionalmente, houve sempre alguma resistência da parte de França em todo o tipo de interligações, seja de natureza elétrica, por causa da importância do nuclear em França, quer do gás. Pensamos que todas estas ideias do passado têm que ser, obviamente, agora repensadas e revistas à luz de uma reconfiguração geopolítica da maior importância do ponto de vista da segurança de abastecimento europeia, na qual Portugal e a Península Ibérica e Espanha terão um papel da maior importância e é nisso que estaremos encaminhados daqui para a frente.

E há condições para voltarmos a receber o gás da Argélia, que suspendeu o envio devido ao conflito com Marrocos?

A Argélia não suspendeu o envio, suspendeu o envio por um dos gasodutos, optando exclusivamente pelo envio pelo outro gasoduto, que tem menor capacidade. Mas sim, eu penso que todos esses temas estão em cima da mesa e serão questões que terão que ser reavaliadas à luz desta alteração geopolítica na Europa, em que fornecimentos alternativos, que não do Leste, terão que ser reconsiderados e obviamente que terão uma importância muito maior do que tinham no passado.

Agradeço-lhe, João Galamba, o Secretário de Estado da Energia foi o nosso convidado do Semáforo Político. Ajudou-nos aqui a perceber os impactos deste conflito entre a Ucrânia e a Rússia no que toca ao fornecimento de gás para Portugal e também aos preços. O gás já está mais caro, é o que diz o Secretário de Estado da Energia. Nós estamos de volta para mais uma edição do Semáforo Político amanhã. Até lá.