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Estamos de volta a mais um "Sob Escuta", desta vez com Ricardo Oliveira, gestor, 51 anos, candidato pela lista B nas próximas eleições do Sporting no dia 5 de março. Antes de mais, obrigado por ter aceitado o nosso convite. Perguntava-lhe, por me recordar também de 2018, depois de ter tido aquelas eleições que foram as maiores de sempre, com centenas de pessoas envolvidas, o que o fez agora avançar como número um de uma lista?

Eu é que agradeço o convite. Muito obrigado por me terem aqui, por me darem a oportunidade de explicar um pouquinho mais o meu projeto e porque é que me candidato a presidente do Sporting Clube de Portugal. É uma junção de uma série de fatores, mas essencialmente é pela preocupação que tenho com o rumo financeiro que o Sporting leva ao dia de hoje. Obviamente que essa preocupação, ao dia de hoje, não é uma preocupação na parte desportiva, mas para o desporto existir, tem que haver alguém que pague as contas. E eu sei que é um momento difícil, sei que há um dos candidatos que parte em larga vantagem, pela parte desportiva, obviamente, mas eu não podia amanhã, se alguma coisa corresse mal, viver em consciência com o não ter tentado fazer alguma coisa para ajudar o Sporting. E essa é a minha principal razão.

E houve algum fator que o tenha desmobilizado? Ou seja, em 2018, por exemplo, na lista que integrava, que era Dias Ferreira, não teve propriamente o resultado esperado. Aliás, até para algumas pessoas do Sporting, acabou por ser até um fator preponderante para a eleição de Frederico Varandas, porque toda a gente pensava que poderia ter mais. Depois, por outro lado, tem aqui a parte do sucesso desportivo, que também poderia ser um fator que o poderia desmobilizar. Nunca repensou essa hipótese e quando é que toma a decisão de avançar?

Levei muito tempo a tomar a decisão e a decisão, posso lhe confessar, que não foi tomada só por mim, foi tomada por um grupo de pessoas que fomos debatendo Sporting ao longo do tempo. Depois do Sporting com Rumo, criaram-se ali uma série de amizades, pessoas que engraçaram umas com as outras e que foram conversando sobre Sporting, foram analisando o Sporting, depois da entrega desse documento que resultou do Sporting com Rumo, e continuaram a analisar a performance do Sporting, a ler os jornais, a ver as notícias preocupantes, eu como acionista do Sporting, a ir às assembleias gerais da SAD, do clube também, mas as da SAD que me preocupavam sempre mais pelos relatórios e contas que eram apresentados e pela forma como lá chegava e me transmitiam uma ideia de uma situação que o Sporting vivia que não correspondia àquilo que eu analisava nas contas que eram apresentadas. Portanto, com essas pessoas todas, que também são sportingistas, a maioria deles há mais anos que eu, juntos, obviamente, decidimos, e posso lhe dizer que foi já em janeiro que houve um jantar que levou a essa tomada de decisão e depois, obviamente, tivemos que fazer tudo a correr, mas houve um período de reflexão muito grande.

Mas portanto o grupo decidiu que haveria uma lista ou o grupo decidiu que seria o Ricardo a avançar?

Nas conversas que tínhamos, eu era um dos perfis preferidos, uma das pessoas que eles entendiam que devia avançar pelas minhas características, que eles entendiam que eram favoráveis ou que eram boas e que podia servir bem o Sporting. Tive sempre apoio nesse sentido e eu manifestei obviamente a minha disponibilidade para, havendo uma candidatura, liderar essa candidatura, até pelo meu perfil, que também já liderei outras coisas na minha vida e obviamente com o apoio deles entendi dar esse passo, mas sobretudo, porque como digo, nós não podemos virar as costas à guerra, não podemos assobiar pro lado. E até também porque para além da parte financeira, e apesar do sucesso desportivo, havia uma parte que nos incomodava muito: o Sporting não está unido. As diversas fações do Sporting, as diversas guerrilhas que existem no Sporting, etc. Está tudo unido à volta de Rúben Amorim e da equipa de futebol, e é isso que os adeptos mostram, e do Sporting ao fim e ao cabo, porque qualquer candidato não é o Sporting. Os candidatos a presidentes do Sporting têm que entender o seu lugar quando são presidentes daquele grande clube e entender que são alguém que chega, que passa por lá e que se vai embora e que o Sporting já existia e continuará a existir antes dele. Portanto, é normal que as pessoas estejam unidas à volta daquilo que é o sucesso desportivo, protagonizado grandemente pelo Rúben Amorim e pela sua equipa. E isso é o que vale.

Já lá vamos à parte do futebol. Ia-lhe perguntar: a ligação que foi tendo ao Sporting foi sobretudo as assembleias gerais da SAD, enquanto acionista. Pergunto-lhe se nessas assembleias, se não gostava mais, neste caso, hipótese A, daquilo que via nas contas ou, hipótese B, na atitude que via por parte do conselho de administração, que no fundo podia não corporizar o tal unido do Sporting que estava no modo 2018? O que o chateava mais ali?

Efetivamente, eu vou às assembleias-gerais do clube e vou às assembleias-gerais da SAD. E sim, obviamente que a minha postura, como presidente do Sporting, jamais será: ou nas assembleias-gerais do clube, enviar beijinhos para as bancadas, para os adeptos do Sporting, ou na SAD, referir-me aos acionistas que ali estão presentes, que são pessoas que não lhe dizem nada ao presidente e que não tem que lhes dar satisfações sobre aquilo que são as perguntas que os acionistas estão a fazer. Essa não é a minha postura, efetivamente. Confesso que isso me incomoda. Acho que não é esse o papel de um líder que quer unir o Sporting. Se nós queremos unir as pessoas, temos que nos sentar, temos que dialogar, temos que tratar todos de forma igual. Não podemos dizer que há uns de primeira categoria, uns de segunda categoria. Não podemos mandar tirar os sapatos a uns a entrar no estádio e os outros podem entrar calçados. Não podemos fazer uma série de coisas que, ao fim e ao cabo, não permitem que todos se sintam bem-vindos. E, portanto, obviamente, também lhe posso dizer que talvez o ambiente nas assembleias-gerais do clube não é o ambiente mais propício a que essas assembleias-gerais tomem lugar. É um ambiente ruidoso.

Mas já percebeu, por exemplo, os chumbos do orçamento e do relatório e contas? Sobretudo na questão do relatório e contas, ou seja, está-se a votar uma coisa que pode seguir mais para esquerda ou para a direita, mas vai ser sempre aquilo.

O relatório e contas tinha que ser aprovado até para bem do Sporting. Portanto, vai ter que ser aprovado, mas acho que quando os associados chumbam o relatório e contas, acho que é realmente uma manifestação de insatisfação para com a gestão do Sporting. Nós temos que diferenciar aqui dois aspetos, que é o de gestão e o desportivo. O conselho diretivo está lá para gerir, não está lá para jogar futebol, nem para treinar, está lá para gerir. E em termos de gestão, o nosso último relatório e contas evidencia um prejuízo de 32 milhões de euros, e um relatório dos auditores que manifesta a preocupação do Sporting não conseguir cumprir aquilo que são as suas responsabilidades financeiras. Só há uma interpretação para isso. Quer dizer que o Sporting está em risco de falência, de não poder cumprir. E aliás, e o que assistimos na imprensa, normalmente não são notícias dizendo que o Sporting cumpre com os seus pagamentos, nem aos agentes, nem à UEFA. Há muitas reclamações nesse sentido. E portanto, eu, como sei que o principal fator para se obter um financiamento em boas condições é a confiança. E notícias desse gênero e comportamentos desse gênero em nada beneficiam a confiança que possa existir entre o Sporting e outras instituições.

E não acredita que, por exemplo, este próximo exercício da SAD 21/22 pode ser um exercício de viragem? Ou seja, olhamos para as receitas da Liga dos Campeões e é à volta de 75% quase já do que existe de custo pessoal. Não poderá ser uma viragem? Além das alienações dos jogadores, nomeadamente o Nuno Mendes, que vai ser uma mais-valia enorme.

É verdade. Sim, pode ser. Ou seja, pelo menos, espera-se que no capítulo das vendas e das entradas de dinheiro relativamente à Liga dos Campeões, sim, que elas venham lá refletidas. Mas existem uma série de outras coisas também, uma série de despesas, custos, que também virão lá refletidos. E essa é a comparação que depois nós temos que fazer. Não podemos só falar, porque o serviço dívida, por exemplo, destas obrigações, dos empréstimos, dos fundos, etc. Há uma série de custos também que vão aparecer aí e que também algumas destas receitas que foram antecipadas servem para pagar custos que já havia. Portanto, temos que ver o que é que vai acontecer. Se isso acontecer, é óbvio que eu ficarei contente, até porque se o lugar de presidente eventualmente vier a ser meu, obviamente fico mais contente. Por duas razões, porque o Sporting estará melhor e porque encontrarei um clube que é mais fácil gerir esse clube, basicamente.

E nesta altura, o que é que o preocupa mais nas contas quando vê, por exemplo, o último relatório e contas? A antecipação de receitas, o aumento da dívida de fornecedores. Uma outra coisa paralela que é, apesar do sucesso desportivo, parece que o Sporting não consegue encurtar muito o gap que ainda continua a ter para Benfica e FC do Porto a nível de receitas. O que o preocupa mais nesses números todos?

Olhe, tudo aquilo que disse, mas posso até pôr por ordem. Preocupa-me. As mocas é o fator que mais me preocupa, provavelmente vai me falar disso, não vou falar muito disso agora. É uma coisa que me preocupa muito.

Não há Sporting sem mocas.

Não há Sporting sem mocas. Aliás, a SAD já não é realmente do Sporting. A SAD está ali tipo tomada refém pelos bancos. O Sporting pode resgatá-la outra vez, mas não é. Mas a gente já fala disso. Preocupa-me a transformação de passivo a longo prazo em passivo a curto prazo, ou seja, aquilo que referiu agora que é as responsabilidades, as dívidas aumentarem. Portanto, a curto prazo, dívidas com menos de um ano, normalmente. Há efetivamente uma redução da dívida a longo prazo, mas há um grande aumento e elas mais ou menos compensam-se. Isso é uma das preocupações. A outra preocupação, efetivamente, é o fosso que existe nas receitas, nas vendas, porque receitas e vendas não são a mesma coisa, referem-se a documentos contabilísticos diferentes, mas para aqui estamos bem, creio eu. Muito bem. Nas vendas, o fosso para os nossos adversários, até porque essa é uma bandeira da minha forma de gerir, que é dizer: eu não estou tão preocupado no corte das despesas, estou preocupado em que os enganos das contratações não sejam tão frequentes. Isso ficou resolvido desde a entrada do Rúben Amorim. Havia realmente esse fator Muito preocupante antes.

Os tais 30 milhões.

Trinta milhões, números redondos, que muito ajudariam o Sporting e, se calhar, teriam contribuído para um exercício este ano, que eram 32 negativos, para que não fossem. Mas preocupa-me bastante que na minha gestão eu queira é aumentar vendas, eu quero é aumentar receitas, efetivamente. É isso.

É por aí que passa o futuro, não é a questão de estar a cortar custos.

Não. Nós temos que investir. Quando é que a SAD gerou resultados que permitam investimento na SAD, na realidade? Nós chegamos ao fim do ano e se aquilo fosse uma empresa normal, os acionistas sentar-se-iam e definiriam como é que se vão distribuir os dividendos ou não se vão dividir, ou se é 50% reinvestimento e 50% para distribuir.

Há sempre alguma coisa para pagar.

Há sempre alguma coisa para pagar. Isto tem que acabar, basicamente. Por isso é que eu acho que o Sporting precisa de um balão de oxigénio, temos que reestruturar a dívida. E em vez de dever a 57 credores, temos, para já, pagar àqueles a quem devemos, para estar ao dia, porque isso vai gerar mais confiança no mercado e amanhã, quando precisarmos nos financiar, vamos nos financiar a um juro mais baixo, provavelmente. E também porque precisamos de ter dinheiro para poder gerir o clube confortavelmente no dia a dia, sem estar preocupado. E porque precisamos dar melhores condições também à nossa equipa, ao nosso treinador, no que diz respeito ao futebol, e às modalidades a mesma coisa, para que eles possam ser mais competitivos lá fora e não sejamos campeões nacionais.

Mas há aqui uma situação que é: nós há pouco falámos Sporting e VMOC, que é quase indissociável, ou seja, são sempre dois termos que andam juntos, mas a reestruturação financeira ou reestruturação de dívida também não é muito diferente. Ou seja, já há mais de uma década que se fala de reestruturação financeira e vem uma, vem outra. Foi feita recentemente uma reestruturação financeira outra vez, que supostamente seria a última. Perguntava-lhe: o que falhou nesta para não ser a última e o que poderá ser feito na próxima para ser mesmo a última?

Olhe, eu desconheço alguma reestruturação financeira que tenha sido feita no Sporting neste atual mandato e no mandato anterior. Havia um projeto de uma reestruturação financeira no mandato anterior que, quando esta direção entrou, não seguiu em frente com ela. Isso eu sei que havia, porque tive acesso a estes documentos e havia. A direção não é obrigada a aceitar o que estava feito, entendeu?

Assim como também havia um acordo com uma financiadora para tratar da questão das VMOC.

Exatamente, estava lá neste documento. Havia uma operação triangulada entre o Sporting, entre uma boutique de investimento e entre um investidor que iria injetar julgo que eram 160 ou 180 milhões de euros no Sporting, e isso permitiria comprar as VMOCs, ter dinheiro para fazer isto, aquilo, etc. Havia toda ali uma coisa que foi posta em papel e foi assinada, atenção. Depois, não seguiu para frente.

E o que viu era bom em 2018? Ou seja, perante até o contexto que o Sporting atravessava.

Aquilo que eu tenho conhecimento e que me chega, que não é oficial, porque chega-me através da imprensa e de pessoas que estão próximas. Esse valor de juro era melhor do que aquele que tem sido veiculado que o Sporting tem pago hoje em dia. Mas o Sporting entendeu não fazer isso. E, portanto, eu hoje em dia não sei de que reestruturação financeira se fala.

Em parte, já foi anunciado à CMVM algumas coisas, nomeadamente, por exemplo, baixar a percentagem do valor que vai nas mais-valias de jogadores que reverte para pagamento de dívida.

Eu não chamo a isso reestruturações financeiras.

É uma questão de léxico.

Eu não chamo a isso reestruturações financeiras, de todo. Para mim, o Sporting tem que fazer troca de dívida, basicamente. Tem que trocar os credores, porque se paga alto aos credores e incumpre-se com os credores e, portanto, tem que se pagar esses credores e a dívida que vamos buscar é uma dívida a um juro mais baixo do que o Sporting paga nas operações todas que tem hoje em dia de endividamento. Isso, sim. E depois, há coisas à mistura, como as VMOCs, que permitem que o dinheiro que se vai buscar, permitem que cerca de metade fique logo pago com a compra das VMOCs, porque podemos abdicar de parte dessas ações, ficando ainda com mais capital do que temos hoje em dia, mas valorizando essas ações com um parceiro estratégico que tenha interesses no setor e que valorize uma participação de peso e que tenha assento no conselho de administração. E podemos lhe vender essas ações que vamos comprar a 30 cêntimos a um preço, se calhar, acima do valor face ou certamente acima do valor de cotação, porque vamos lhe vender aqui, entre aspas, um goodwill pela participação que eles têm de, imagine, 25% e o Sporting mesmo assim, que acaba por ficar com 88%, fica com 63%, que é mais do que tem hoje, que são 62%. Só que imagine que eram 200 milhões de euros. O Sporting vai buscar os 200 milhões de euros, gasta 40, fica com 160 milhões, só que entretanto pega em 25% das ações, vende a este parceiro, imagine por 100 milhões, e agora já só tem 100 milhões de dívida e ainda tem 160 de dinheiro para fazer todos os projetos que tem que fazer.

E uma coisa mais fácil que é, até pelas receitas que a Liga dos Campeões conseguiu trazer esta época, agarrar no dinheiro do Nuno Mendes, comprar as VMOC. Era uma não questão que ficava logo resolvida.

Eu não sei é se não há dívidas para fazer face a outras obrigações e se esse dinheiro do Nuno Mendes já não está destinado a alguma coisa.

Mas o ideal seria isto. Agarrar Comprar, ficar com 88% e depois a partir daí, eventualmente.

Eu tenho que ser justo e dizer-lhe o seguinte: claro que sim, o ideal seria isso, mas pode haver situações que nós desconhecemos no Sporting hoje em dia, até se calhar processos judiciais, não sei, ou alguma dívida em incumprimento que possa gerar consequências graves para o Sporting e que tenham que ser pagas e isso seja mais prioritário do que uma dívida com uma VMO que só vai vencer em 2026. Agora, há aqui um fato muito preocupante relativamente a isso, que eu já expliquei noutros sítios, mas nunca é demais explicar, que é: se o Sporting tiver três anos de antecipações de receitas relativamente ao contrato da NOS, que o presidente do clube me disse no único debate que vai ser feito nestas eleições, que seriam só dois. Ele disse, mas como digo, eu tenho que me reportar àquilo que me foi dito pelo administrador financeiro na última assembleia-geral da SAD, porque lhe perguntei.

Onde estava também o presidente do Sporting sentado.

Onde estava, é onde estava, mas sobre essa matéria falou o administrador financeiro e que disse que o Sporting teria dois anos e deu a sensação, eu não me lembro bem, mas isso estará gravado, portanto, facilmente será verificado, que seriam dois anos e muito mais de dois anos e meio. Portanto, nós apontamos para os três. O que é que isso queria dizer? Se o contrato dos direitos televisivos acaba no dia 1 de julho de 2028, quer dizer que os direitos televisivos 2027-2028, 2026-2027 e 2025-2026 já foram, esses três. Portanto, quem chegasse no dia 1 de julho de 2025, já não tinha direitos televisivos, não tinha nenhum dinheiro a receber, porque já foram antecipados. Portanto, teria que gerir o Sporting, a SAD, sem esses direitos. Eu não confundo Sporting e SAD, eu sei perfeitamente que o Sporting é o Sporting Clube e a SAD é outra coisa.

Que é uma das verbas sempre mais importantes de qualquer clube.

É, se for olhar para os resultados líquidos, vai sempre lá ver uma rúbrica dessa entrada de dinheiro e se não estiver lá, nós este ano, se não tivéssemos lá, imagine 50 milhões, em vez de 32 milhões negativos, tínhamos 82 milhões negativos. Portanto, 2027-28, 26-27 e 25-26, fora. Não temos receitas. O presidente que entrar nesse dia não tem receitas e tem que dar as transmissões da mesma de borla. O que isso quer dizer? Se é 2025-2026 que estamos a falar, quer dizer que o último dinheiro que o Sporting recebe é 2024-2025, porque é o dinheiro respeitante à época 2024-2025, que recebe no dia 1 de julho de 2024. Muito bem. As VMO vencem em dezembro de 2026. Quando é que as vamos comprar? Se esperarmos até 2026, quer dizer que o Sporting não vai ter 50 milhões de euros de receitas em 2025, não vai ter 50 milhões de euros de receitas em 2026 e em dezembro vai ter que comprar as VMO, que são mais 40 milhões. Estamos a falar de 140 milhões de euros que vão ser precisos para que o Sporting continue a sua atividade normalmente. Onde é que o Sporting vai buscar esse dinheiro? Se em vez de ser em três anos, for em dois anos, é fácil, passamos de 140 para 90. Parece-me número preocupante da mesma. Portanto, os sportinguistas têm que ter noção disto. Por isso é que eu digo sempre, as VMO têm que ser resolvidas. Já deveriam ter sido resolvidas há muito tempo. Já se fizeram antecipações para isto, antecipações para aquilo. Resolvam esse problema e tentem associar este negócio das VMO, lá está, com um investidor de referência no setor para criarem uma situação de mais-valia como esta que eu estive a explicar, que é agarrar nas VMO e nós não precisamos dos 88%. Agora, claro que vai haver os sonhadores que dizem: "Não, vamos comprar as VMO, vamos ficar com 88%". E eu pergunto assim: vamos ficar com 88% para quê? Ou seja, o Sporting tem uma posição dominante e aprova o que quer na SAD, tendo os 62%. Podíamos dizer assim: "Mas o Sporting todos os anos gera resultados líquidos positivos e todos os anos o Sporting tem 20 ou 30 milhões para receber da SAD, porque os resultados líquidos e decidiu distribuir os dividendos". Aí, sim, faz diferença.

Nunca foi feito.

Nunca foi feito. Portanto, aí sim, faz diferença ter 88 ou ter 66,6, por exemplo, que estou aqui a dar o número, que é o número que em algumas decisões é importante. Mas quem tem 62 ou quem tem 88 para a generalidade das coisas, que não se antevê receber dividendos de nenhuma ordem, porque não se anteveem resultados líquidos para distribuir dividendos, não há diferença nenhuma. Portanto, é igual. Nós continuamos a ter uma posição dominante, portanto, podemos ter só 63%, não temos 62. Ficamos com 63, abdicamos disso.

Mas nesse intervalo, não tem propriamente um valor fixo. Dentro desse intervalo, depois depende das condições e do contexto que possa surgir.

Claro, mas lá está, quanto mais alienarmos, podemos alienar 10, 15, 20. Aliás, os sócios têm que aprovar isto, obviamente. Atenção. E há todo aqui trabalho jurídico ou financeiro que tem que ser feito para isto ser possível.

Há quem defenda que se possa vender a maioria do capital social sem passar pela assembleia geral.

É, isso aí, vou-lhe dizer, seria a única vez na minha vida que eu poria algum sportinguista em tribunal ou o Sporting em tribunal. Não permitiria que isso acontecesse.

Mas sabe que existe essa tese de uma coisa que já foi aprovada há algum tempo, que poderia permitir uma venda da maioria do capital social.

Se ela existe, na minha cabeça, ela nem pode existir, porque como eu digo, seria a única vez na minha vida que eu Provavelmente, envidaria todos os esforços possíveis nos locais próprios para impedir que isso acontecesse. Pode acontecer, não sei, mas eu lutarei sempre contra isso, sendo presidente ou não, porque sou sempre sportinguista.

E dentro do contexto que já se conhece dos parceiros que podem ajudar num tal financiamento de 150 a 200 milhões, perguntava-lhe: um, se não achou arriscado, quando está numa campanha, falar nisso, porque há maus exemplos no passado, inclusivamente houve exemplos também no Sporting de pessoas que prometeram e depois nunca houve propriamente nada. E dois, até que ponto é que esses parceiros, ou por que esses parceiros trabalham só consigo e não com, nomeadamente, a atual direção?

Muito bem. Olhe, é verdade, houve no passado pessoas que se agarraram a chavões desse gênero para tentar obter votos ou serem eleitos, etc. Efetivamente, até parece que houve quem fosse eleito e depois isso não acontecesse. Eu não sou esse candidato. A minha vida, nos últimos anos, tem sido fazer operações desse gênero, gerir dinheiro, mexer em dinheiro, investir dinheiro. Não o meu, mas o dos outros. E nessa minha vida e nessa minha carreira, obviamente que fui conquistando algumas amizades, fui conhecendo pessoas com muita capacidade financeira, muitas instituições com muita capacidade financeira, e fui conversando com elas e estabelecendo também laços de confiança, porque graças a Deus nunca incumpri, nem deixei de pagar o que quer que seja em qualquer negócio que eu tenha participado, seja como sócio, seja como representante de quem estava a fazer o negócio. Portanto, isso é um problema de credibilidade. Ou seja, quando me pergunta por que essas pessoas não investiriam? Porque se calhar sou eu que fomento o interesse dessas pessoas no projeto Sporting, sou eu que vendo a essas pessoas que o Sporting é um projeto interessante e é um projeto que pode ser rentável para elas, sendo que se for rentável para elas, será sempre rentável para nós primeiro e em maior quantidade. E depois, essas pessoas podem se entusiasmar, podem querer, podem ter acesso aos números que eu lhes apresento e às expectativas que eu tenho de como esses números se vão transformar, na minha opinião e sob a minha gestão, e podem se entusiasmar para um negócio desses, que não trará só algo financeiro, mas trará, aportará, uma coisa que também é muito importante, que são as relações com pessoas que se movimentam no mundo financeiro e que podem garantir ao Sporting que se abram portas a outros níveis, por exemplo. Agora, eu não quero fazer isso, não vou chegar aqui, como aconteceu há muitos anos, com uma pessoa a dizer que este é o tal da IBM que vai investir 400 milhões de euros. Não, não é esse o meu propósito. Até porque só se eu for eleito é que essas pessoas vão realmente analisar profundamente. O que eu digo é que eu tenho a capacidade de influenciar pessoas para investirem no Sporting, porque lhes vou vender um projeto credível e fruto da experiência que elas têm comigo noutras coisas que fizemos já juntos na nossa vida, nos projetos em que eu participei, provavelmente elas terão confiança em mim. Por que se calhar elas não fazem isso diretamente e não as posso entusiasmar para a atual direção do Sporting? Primeiro, não conheço o projeto deles. Sei o que eles fizeram até agora e eu vou lhe ser sincero: eu não investiria naquilo que as contas representam a dia de hoje. É claro que eu não investiria no Sporting. E para investir no Sporting teria que cobrar um juro muito alto.

Ou poderia investir, mas pela parte desportiva.

Sim, pela parte desportiva. Se dissessem assim: "Se o Sporting é campeão, vai receber não sei quanta receita, eu ponho aqui dinheiro se vocês me pagarem X da receita disso". Sim, dessa forma, sim. Agora, investir da forma que eu estou a dizer, que é ser acionista, aportar um financiamento a longo prazo e a um juro baixo. E abrir portas e participar naquilo que é o redimensionamento do Sporting para aumentar a sua grandeza e o seu acesso a outros palcos que lhe permitirão bater-se de igual para igual com equipas internacionais, provavelmente estes acionistas vão olhar e vão dizer assim: "Mas nós não conhecemos estes senhores e a performance que estes senhores nos demonstram ao dia de hoje é esta. Não temos confiança para este investimento".

E se Frederico Varandas, em caso de eleição, por exemplo, o chamasse e dissesse: "Este é o meu projeto, somos todos Sporting, consegues ajudar-me nisto?" O que diria? Porque percebi no debate que, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, com o Nuno Sousa, não existe propriamente, ou não se sentiu pelo menos, uma grande clivagem entre candidatos. Foi uma conversa, à exceção dos primeiros cinco minutos, quase normal.

Oiça, eu não tenho clivagem com nenhum sportinguista.

Mas sentiu isso no debate. Estava no meio. Era uma espécie de Suíça.

Somos todos candidatos. Na minha candidatura, uma das bandeiras é unir o Sporting e, portanto, acho que um presidente do Sporting tem que ter uma postura de presidente do Sporting, tem que ser um Sporting que fale com todos os sportinguistas, tem que ser um Sporting que não determine classes e graus de sportinguistas, e tem que ser um presidente do Sporting conciliador, pelo menos entre os sportinguistas. E portanto, é claro que durante o debate, quando assisto Aquelas, entre aspas, balas e flechas a passar à minha frente. Sim, cheguei a um ponto do debate e disse: "Meus senhores, somos todos sportinguistas. É muito mais o que nos une do que o que nos separa, portanto vamos tentar aqui conversar os três de uma forma conciliadora e apresentar as nossas ideias, que é aqui que viemos, mas não precisamos de andar aos tiros. Eu não quero andar aos tiros com ninguém no Sporting". E agora respondendo à sua pergunta muito diretamente: se amanhã o atual presidente Frederico Varandas for o vencedor do Sporting, primeira coisa, terei todo o gosto em apertar-lhe a mão e desejar-lhe os maiores sucessos, porque o sucesso dele é o sucesso do Sporting. Se o presidente Frederico Varandas entender conversar comigo e apresentar-me um projeto para o Sporting e pedir a minha ajuda para captar investimento para o Sporting, e eu entender que aquele projeto é credível e que estão lá as pessoas que vão lhe poder dar andamento e que eu entendo que o risco não é gigante, estarei sempre disponível para ajudar o Sporting. Sempre. Fica aqui este compromisso para toda a gente ouvir, não tenho problema nenhum com isso. Eu quero unir os sportinguistas e só podemos unir os sportinguistas a dialogar com os sportinguistas.

Mas daquilo que vê atualmente, o risco é grande.

Claro, porque o risco é uma variável da finança que é muito interessante, porque é uma variável que às vezes é fácil de calcular, às vezes não é fácil de calcular. Nós temos o risco, temos aquele spread, toda gente conhece, sabe o que é, mas dentro daquele spread vão muitas coisinhas. É mais fácil quando estamos num setor que esteja bastante estudado, que a gente olhe para as contas, saiba qual é o risco daquele setor. Já podemos indexar aquilo aos riscos A, AA e BBB, que acho que toda mundo conhece mais ou menos essas referências. Mas depois, em cima disso, vão se meter mais uns pozinhos sempre de algumas coisas. Uma delas é sempre o medo que o investidor vai ter ou aquilo que ele espera obter. E isso normalmente é proporcional ao risco. Portanto, ao risco que aquela pessoa, aquela entidade tem de não cumprir aquele acordo que eles estão a fazer. Vai lá dentro isso. Há umas pessoas que vão valorizar isso um pouquinho mais por cima, outras mais por baixo. Há uns senhores que são fantásticos e que se entretêm a fazer esses cálculos todos.

Quando é uma sociedade desportiva e tendo em conta que mete uma bola e há balizas e ela às vezes bate no poste.

Está a ver? No futebol, não é a mesma coisa que o imobiliário, que a gente compra um prédio e sabe. Olhe, neste momento, infelizmente, os ucranianos, já nem o risco imobiliário é baixo, porque hoje em dia cai uma bomba ali em cima e aqui em Portugal não temos esse perigo, por exemplo. Mas percebeu um pouco o risco. É óbvio que se alguém for pedir um empréstimo na Ucrânia para construir um prédio hoje em dia em Kiev, é óbvio que provavelmente não vai obter nenhum empréstimo, mas se obtivesse, se calhar os juros desse financiamento eram 20 ou 30% e os ucranianos, coitados, não têm culpa nenhuma disso. Mas são as circunstâncias da vida que as equações matemáticas não conseguem prever, basicamente. E o risco também é um pouco assim. Agora, a prova de que a gestão não é de confiança, é que o juro do Sporting é sempre um juro alto.

Até em comparação com o Porto e Benfica.

Pois. E com o Guimarães, se quiser.

Como se viu na última obrigacionista.

Claro, e com o Guimarães.

Agarro na questão do risco para passar também para a parte do futebol. Em março de 2020, Rúben Amorim é contratado por 10 milhões de euros, que depois até acabou por ser muito mais. A estreia feita num dia em que há uma manifestação à volta com 3 mil, 4 mil pessoas, o estádio praticamente vazio, uma vitória também condicionada com o Desportivo das Aves que ficou logo com nove elementos logo no início do jogo. Pergunto-lhe, naquela semana, o que achou da contratação de Rúben Amorim por aqueles preços e naquele contexto, em termos institucionais, que o clube vivia?

Muito bem. Mas vou responder à sua pergunta, só este preâmbulozinho. Eu nunca comento qualidade técnica nem de jogadores, nem de treinadores. Não comento, porque são do Sporting, são jogadores do Sporting, são treinadores do Sporting, e enquanto estiverem no Sporting, são os melhores. Mas comento o negócio financeiro dessas aquisições ou vendas, que é uma coisa completamente diferente.

E à luz do risco, ainda mais.

É óbvio que um analista financeiro que tivesse visto aquela operação, teria ficado escandalizado com aquela operação. Um treinador que não tinha um clube grande, que não tinha o curso ainda completo, não se podia sentar no banco.

Tinha 13 jogos na Primeira Liga.

Tinha 13 jogos na Primeira Liga e que custava 10 milhões de euros, mais os pozinhos todos, porque não foram 10 milhões de euros, mais os pós todos, mais um salário também para o treinador em questão e com a experiência que ele tinha, que não aconteceria muitas vezes, ou não se viram casos desses no passado. E portanto, claro que sim, analisando a contratação do treinador sob o ponto de vista financeiro, foi uma aquisição de elevadíssimo risco. Sim, senhor. Não estou com isso a dizer que o treinador não é bom. Nós, em finanças, temos que prever muita coisa. As taxas fórum, quanto é que isto vai ser daqui a 20 anos ou daqui a 30. Temos sempre essa previsão. Uma coisa que lhe posso dizer é o seguinte: é que aquilo que prevemos hoje para daqui a cinco anos ou daqui a 10 anos, aquela taxa na altura depois nunca vai ser aquela. Pode até ser que estejamos contentes quando é parecida com aquela. Portanto, são tudo cálculos. O Rúben Amorim, naquele momento, no tempo, porque o dinheiro anda muito nisto, que é como é que ele anda no tempo, o que é que ele vale no tempo, hoje ou amanhã, ou depois, ou ontem. O Rúben Amorim, naquele momento, financeiramente, não é um bom negócio para o Sporting. Hoje, financeiramente, o Rúben Amorim é um excelente negócio para o Sporting.

Portanto, foi uma espécie de all-in.

Foi um all-in no casino.

Mas caiu na casa preta, no número certo.

O presidente contratou vários treinadores. Foi mesmo um all-in, foi aquele jogador que chegou e que andou no casino a pôr as fichas que tinha, o dinheiro. Foi gastando e depois, de repente, ou perdes tudo ou nada e tumba. Porque ele teve outros treinadores, como sabe. Quando contrata o Silas, até houve uma apresentação que eu diria que não foi a apresentação mais feliz, porque também não me quero estar aqui a tirar tiros e não é esse o meu intuito. Mas quando o fez, já foi daquela maneira. E a seguir, e pelo meio tenta contratar mais uns, que são uns conhecidos, porque vieram recortes na imprensa. O Mourinho e o Leonardo Jardim, etc. E há uns que não se sabem. O Jorge Jesus já depois disse que tenta também, portanto leva umas negas. E é um all-in, porque também não sei quantos é que iriam aceitar. Não é só um all-in com o dinheiro e meter as fichas todas, mas é que alternativas é que ele tinha. E atenção que isto não é nenhum desprimor para o Rúben Amorim, porque eu sou a pessoa que mais elogia o Rúben Amorim em termos de competência como treinador. Treinador e outras coisas que nem se calhar deviam ser responsabilidade do treinador, mas que felizmente ele se ocupa delas e com bons resultados, basicamente.

Acho que esse até pode ser o problema dele. Ou seja, ele é bom a fazer demasiadas coisas além de ser treinador.

Eu acho que é difícil, num modelo profissional e que esteja bem enraizado dentro de um clube, um modelo desportivo, que seja compatível que esse treinador venha e se ocupe dessas áreas todas, e depois é difícil substituí-lo. Eu não estou a dizer que não quero, atenção, eu quero. Mas repare que quando o Rúben Amorim se for embora um dia, um dia há de se ir embora, vai ele, vai a equipe técnica dele, vai o Antero Henrique e o Raul Costa, vai uma série de coisas que ele trouxe com ele. E vai ficar um vazio muito grande quando o Rúben Amorim se for embora.

Acha que o Rúben Amorim é que abriu as portas do Sporting ao mundo de uma forma direta e indireta?

Das boas contratações, certamente. Veja que há dois níveis de contratação no Sporting. Tem aqueles jogadores cirúrgicos que vêm a um preço bastante acessível para o Sporting. Esses normalmente são trazidos, tenho quase a certeza absoluta, são trazidos pela equipa do Rúben Amorim. E depois temos aqueles jogadores daqueles negócios de 10, 20 e 30 milhões de euros que já são trazidos por outra pessoa, que tem uma relação com o Sporting há muito tempo, e a quem se fazem contratações que às vezes nós não conseguimos perceber muito bem, que são para compensar a outra, que não se fez e que se fez, etc. E que são valores de outra ordem. Eu gosto mais das contratações da equipa do Rúben Amorim, não tenho a menor dúvida. Agora repare, quando ele se for embora, repare no vazio que fica. E um clube que tem o modelo bem definido e que esteja bem estruturado e com capacidade financeira, normalmente não tem esse modelo, porque quando o treinador se vai embora, contrata um treinador só. Sai um treinador, entra um treinador. Aqui não vai ser um treinador que vai sair. Aqui vai sair muita coisa. E os vazios que lá estão vão implicar numa série de contratações e que dificilmente vão conseguir suprir essas necessidades a um valor e com a qualidade que o Rúben Amorim traz ao Sporting.

Perguntava-lhe então nesse contexto se a viragem que houve a meio do mandato, se foi, na sua ótica, reflexo da chegada de Rúben Amorim ou também a aprendizagem dos erros. E depois, perante aquilo que me descreveu, se acha que nesta altura o Sporting está refém do sucesso de Rúben Amorim.

Na minha opinião, não tenho qualquer dúvida. Repare, e falou disso há bocado. Dois primeiros anos. Contratações, não há um que calce. Hoje. E deixaram lá 30 milhões. Deixaram não, levaram com eles. É mais, que eu não estou aqui a pôr salários, estou só a falar de custos de compra, venda, etc. Custos mesmo ali direitinhos, porque os outros a gente também não sabe, porque não temos acesso a essa informação, mas estão lá. Há esses dois primeiros anos, e no fim desses dois primeiros anos, se se lembrarem, e falou disso há bocado, havia lenços brancos no estádio. Criaram-se slogans para o presidente do Sporting. As pessoas agora já se esqueceram e diz tudo. E havia manifestações à porta do estádio, como disse há bocado, de 4000, eu já ouvi falar em três, já ouvi falar em seis, de milhares de pessoas que não queriam mais o presidente Frederico Varandas ali. Havia este ambiente em Alvalade. Ninguém estava unido à volta da equipa, ninguém estava unido à volta de nada. Rúben Amorim chega, como disse, num jogo dúbio. Eu próprio olhei para aquele jogo e digo: "Será que isto vai e tal?" Agora temos que dar tempo ao treinador para mostrar aquilo que vale. E ele entra. Foram sete ou oito jogos antes de acabar o campeonato.

Faz um jogo e aparece a pandemia, confinamento.

Confinamento, começa a jogar ali. Mas depois nesse mercado de verão, tem esse tempo para se preparar para o calendário do ano seguinte. E é aí que o Rúben Amorim começa a meter o seu know-how, aquilo que sabe, e muda tudo, porque toda a gente reconhece no Rúben Amorim uma pessoa, para já, simpática, tem um sorriso na cara. Seja a altura que for, consegue transmitir um sorriso.

É tão bom a comunicar como treinar.

Eu acho que se dissesse que ele era melhor a comunicar, estava a ofendê-lo em termos de treinar. Mas acho que ele é certamente tão bom a comunicar como a treinar, isso certamente.

E provavelmente a gerir balneários.

Gere tudo, a gerir tudo. Repara, aqueles jogadores, quando entram em campo, dão a vida pelo treinador, dão a vida pela equipa, deixam tudo.

Basicamente, o clube está mesmo refém de Rúben Amorim.

Em resumo daquilo que me perguntou, para mim, o clube está refém do Rúben Amorim e não tenho dúvida que quando forem as eleições no dia 5 de março, as pessoas que votarem no presidente Frederico Varandas, estão a votar no Rúben Amorim. Por isso é que eu vou repetir isto não sei quantas vezes. Não votem no Rúben Amorim, porque o Rúben Amorim vai lá estar. Ele é funcionário da SAD do Sporting. E se for outra pessoa, votem numa pessoa que lhes dá a resolução dos problemas a curto prazo, imediato e que tem projeto para o futuro, porque o Rúben está assegurado, está lá.

E como é que vê o futebol em termos de estrutura para evitar Que o Sporting daqui para a frente fique refém do sucesso e da capacidade de um treinador.

Aí sim. Entrar no Sporting, ser presidente do Sporting e a abordagem a Rúben Amorim e o sistema que está montado no Sporting, certamente será um projeto em si de muita negociação, porque nós não podemos entrar e dizer a Rúben Amorim: "Agora as regras vão ser estas". Não, porque aquela fórmula está a funcionar, está a ganhar. As pessoas perguntam: "E o Hugo Viana?" Eu tenho o homem forte para o futebol, mas e o Hugo Viana? Não vou falar nisso, porque o Hugo Viana também é um empregado da SAD. E atenção que há aqui uma coisa, um treinador não ganha jogos sozinho, tem que ter uma equipa. Há todo um projeto fora do campo. Fora dali, que tem que haver pessoas que têm que se entender, têm que comunicar, têm que se sentir confiantes com a outra pessoa, etc. Eu vou chegar lá e vou dizer o quê? "Rúben Amorim, agora não há Hugo Viana." Isso pode afetar a equipa de uma maneira fortíssima.

Mas em termos de modelo e sem nomes, prefere um modelo mais curto e quase discreto, digamos assim, como existe agora, ou acha que isso só existe para se encaixar naquilo que é também Rúben Amorim?

Acho que muito do modelo que está em prática, muito provavelmente a totalidade, porque isso mudou, é do Rúben Amorim. O Sporting Clube de Portugal tem que ter um modelo próprio, não pode ser um modelo que fique refém do modelo de um treinador. Portanto, nós temos que implementar um modelo que até pode ser parecido com o do Rúben Amorim, calma, mas tem que ser o modelo identidade Sporting, ADN Sporting, é o modelo do Sporting. E amanhã, quando o Rúben Amorim for embora, temos que ir buscar um treinador com as mesmas ou características parecidas com as do Rúben Amorim para se adaptar ao modelo que está implementado. Basicamente é isto. Agora, o problema é que o Rúben Amorim não é só o modelo, é uma série de coisas. E será muito difícil substituir o Rúben Amorim e continuar a ter resultados bons. Nós ganhámos o campeonato. Este ano somos candidatos ao título. Eu ainda acredito que vamos ser campeões. Acredito que sim, apesar de todas as contrariedades e tudo o que nos acontece e todas as forças que nos empurram e que inclinam o campo, normalmente ao Sporting. Mas acho que sim, estamos na luta. Mas oiça, o Sporting em 99 e em 2001 também foi campeão. Esperava-se que o Sporting fosse disparar, etc. E não disparou e ficámos mal. Tínhamos estado 18 anos, depois ficámos 19. E o que eu não quero é ficar mais 19 outra vez. Para ter sustentabilidade desportiva, tem que ter financeira. Para ter segurança desportiva, tem que ter segurança financeira. Nós não podemos passar a vida em all in.

Não olha muito para aquela questão que foi referida também no debate do tudo isto gira à volta do sucesso desportivo.

Não. Isto é uma pescar de rabo da boca. É mais fácil ir buscar dinheiro quando há sucesso desportivo. Não é?

São duas coisas indissociáveis e não se pode estar só a apontar para a parte desportiva.

Atenção, quando nós tivermos uma segurança financeira, nada garante que vamos ganhar a Liga dos Campeões. O que garante é que nós vamos ter mais chances de ganhar a Liga dos Campeões. Depois a bola pode entrar ou não entrar. Agora, uma parte desportiva sem dinheiro não vai ganhar a Liga dos Campeões nunca.

Há aqui também uma questão, falámos há bocadinho agora mesmo do sucesso desportivo, na formação também é muito discutida a questão de ser um modelo centrado no jogador e não propriamente nos resultados e na equipa. Mas percebi que não gostou, por exemplo, da questão de jogadores dois anos mais novos estarem a jogar já num escalão acima, por sentir que também é importante ganharem desde pequeninos para chegarem lá acima e estarem habituados com o sucesso. Pergunto-lhe se é essa nuance que querem introduzir em termos de formação ou se consegue identificar outras lacunas no projeto, tendo em conta também a importância que a formação tem para o Sporting.

O Sporting é um clube de formação, não temos dúvidas. Esse é o modelo, eu mais uma vez desconheço, calculo que seja do Rúben Amorim, seja isso que ele queira retirar dos jogadores de formação, implementando esse método. Se fosse um método aceito universalmente, todas as equipas faziam isso, e não fazem. Portanto, é uma coisa que o Sporting faz. Eu não disputo que isso não possa até criar um melhor jogador a nível individual, em certos aspectos do jogador, da preparação que o jogador tem que ter. Claro que é um jogador que vai estar habituado. Se eu treinar e andar de carros a 100 km/h e com um gajo que anda a guiar a 100 km/h só, eu nunca vou saber guiar a 300 km/h. E se eu andar com um carro e toda a gente andar a 300 km/h, eu vou ser forçado a ter que andar a 300 km/h. E depois de andar a 300 km/h, andar a 100 km/h para mim já é um passeio. Portanto, eu entendo esse conceito. Entendo que eles vão ter que ser mais fortes, vão ter que aguentar mais pancada, vão ter que desenvolver mais musculaturas, velocidades para ser competitivos.

Que nunca ganham as corridas.

Pronto, está a ver? Exatamente, vão ter que fazer tudo isso. Mas depois temos aqui o aspecto psicológico da formação de um jogador, daquilo que o jogador vai fazer. Não vamos falar sequer em futebol, que não é o melhor exemplo, mas aquele lançamento ao cesto de basquete, quando faltam três segundos. Aquilo que é a diferença de um campeão, um vencedor, que é um Michael Jordan da vida, que toda a gente sabia que ele ia ter a bola na mão nos últimos segundos. A bola ia para ele. Eles podiam pôr quatro em cima dele, que toda a gente sabia que a bola ia para ele, porque ele próprio dizia, e eu ouvi esta frase do Phil Jackson: "Winners always want the ball". Portanto, para o winner querer a bola, ele tem que ter uma confiança louca e o Jordan não criou a confiança que tem naquele ano. Isto foi um trajeto, ele foi campeão em North Carolina, por exemplo, na high school era um excelente jogador, diziam que ele era baixo, ainda o rejeitaram. Sofreu muitas adversidades.

E não foi o número um do draft.

Não foi o número um do draft, foi o número três, calculo eu, lembro-me. Portanto, está a ver? Mas criou-se um campeão, um vencedor puro, um animal competitivo. E não compensaram dois anos acima. Fizeram-no trabalhar muito. Agora, a mentalidade vencedora tem que se criar Eu fui desportista de alta competição desde muito cedo e é uma coisa que aprendi. Eu ganhei no campeonato do bairro, do da cidade, da região, do nacional, lá fora, etc. Eu sempre me senti muito confortável nos momentos de estar nos últimos cinco segundos do jogo. Quem é que está lá? E há jogadores até que são moles e que durante o jogo não jogam grande coisa, mas naqueles momentos eles aparecem, são os grandes jogadores. E eles aparecem por algum motivo. Não tenho melhor exemplo no futebol do que o Ronaldo, para mim, que é um jogador que vai jogar contra o Atlético de Madrid e espeta três batatas, vai jogar contra a Espanha e estamos a perder no último livre e ele mete a bola lá dentro. Ele sente-se bem ali, ali é o conforto dele, ele é um vencedor.

Deixe-me agarrar na questão do Jordan, North Carolina, alguém que viveu nos Estados Unidos claramente e que está habituado. Falou na questão da cidade Sporting, na importância da cidade Sporting. Perguntava-lhe: o que já existe no seu projeto de cidade Sporting? Ou seja, se é uma coisa só conceptual, se já conseguiu perceber como é que poderia ser feito, se teria investimento também para isso, se seriam as mesmas pessoas. Gostava que me falasse um bocadinho sobre isso. Perguntando se concorda que é uma visão muito de quem viveu a experiência americana.

Se calhar é. Eu vivi a experiência, eu fui jogador da First Division da NCAA, uma universidade americana, por acaso era a número um nesse ano do ranking. Ganhámos os campeonatos da NCAA, que não são fáceis. E os americanos realmente têm o desporto organizado de uma maneira que eu gosto muito, que acho que é a maneira forte, a maneira certa. Eles estão na universidade, mas já são profissionais. Ali não há espaço, tudo é estudar, tudo é trabalhar. Portanto, depois a transição para os profissionais é muito mais fácil. Por exemplo, no futebol americano, normalmente já só é o ganharem peso e ganharem músculo, porque eles sabem que nas Pro Leagues têm que ter mais 10 quilos de massa, basicamente. E no college, como é um running game, não é um passing game, as características são diferentes. Enfim, não vou aqui perder muito tempo a falar de Sporting. Mas sim, vivi o desporto nos Estados Unidos e tenho o modelo americano de desenvolvimento do desporto. E você vai a qualquer universidade dos Estados Unidos, a primeira onde eu estive em Oklahoma, o dome deles, de onde jogavam a equipa de basquetebol, etc, tem 11 mil espectadores e é um entre 4 mil nos Estados Unidos. Na altura eram 4 mil universidades, não sei quantas são agora. E depois você vai ao Multicultural Center, ou Multisport Center, que é para, não para os jogadores já da equipa da universidade, mas todos aqueles que gostavam de lá estar e não estão aí, que também fazem desporto e jogam muito de qualquer um deles. E você tem pavilhões que têm, imagine, 10, 12 campos de basquetebol seguidos e que às 15h se convertem em voleibol, etc. E depois tem tudo, tem os soccer fields. É óbvio que na universidade não estamos a falar da formação, mas estamos a falar daquela infraestrutura e de todas as sinergias que existem para suportar aquela infraestrutura.

É assim que concebe, ou seja, em termos de infraestrutura, o modelo americano, mas depois adaptado à capacidade portuguesa de formação.

Exatamente, à formação. E para financiar, volto a dizer o seguinte: para bons projetos, há sempre financiamento. E atenção, que isto é uma coisa que o Sporting tendo uma cidade do desporto, uma marca Sporting, que seja a maior de Portugal de todos os tempos, seja a referência, que nem o governo português tenha uma coisa naquela dimensão e que se torne realmente a casa da formação do Sporting para ser referência nacional, mas internacional também. Um projeto desse gênero pode ser um projeto até lucrativo, pode ser um projeto pelo menos que não dê prejuízo, que seja pago ao longo do tempo. E para isso também há o quê? Porque o Sporting também tem uma responsabilidade social. E são nesses locais que nós podemos aportar essa responsabilidade social, até trazendo aqueles miúdos menos favorecidos que passam a ter local para competir. E se calhar não estão a fazer formação naquela área, mas aquilo está aberto para os miúdos todos da zona e os que vêm não sei de onde, porque tem bons acessos de transportes públicos, por exemplo. Não têm que ser levados pelo pai ou pela mãe. Porque é perto de Lisboa, é perto realmente deste centro onde há mais de 1 milhão de pessoas. E portanto, vantagens: Oeiras ou Odivelas. Mas depois o próprio município está interessado em receber um projeto deste gênero. E se calhar também pode tentar captar verbas para um projeto deste gênero.

Mas quanto é que algo assim poderia custar?

Uma cidade do desporto, eu tenho uma equipa de pessoas que conheci, conheço, fazem parte das minhas relações nos Estados Unidos, uns que são arquitetos e engenheiros de infraestruturas desportivas, outros que geriram e construíram instalações desportivas e na gestão também do desporto, sports management, que é algo estudado nos Estados Unidos, até nas universidades. Eu tenho um minor em sports management, que estão a trabalhar nesse projeto. Estimativas por cima aplicadas ao mercado português, entre 100 e 150 milhões de euros. Mas não são pagos no primeiro dia, isto é um projeto que leva seis anos a construir. E não são todos pagos pelo Sporting. Se calhar a autarquia vai meter alguma coisa, se calhar o governo vai meter alguma coisa.

Mas mantendo sempre Alcochete.

Não. Mais uma vez uma triangulação de negócio. Alcochete vai funcionar enquanto isto não estiver pronto e Alcochete vai servir de moeda de troca para aplicar o que Alcochete render ou em venda, ou em desenvolvimento de projeto imobiliário, ou se criar um aeroporto ali ao pé com a valorização dos terrenos, ou o que quer que seja, e vai servir para depois pagar também, fazer face às dívidas que houver deste projeto até ele estar concluído. Está a ver? Não, porque a equipa profissional de futebol também vem para aqui, isto é a formação. Agora não vai estar ao lado dos outros.

Eu estava a perguntar isto porque olhando para o espaço físico de Alcochete e depois multiplicando por todas as modalidades.

É uma área grande.

É uma área muito grande.

É uma área muito grande. É, e por isso é que perto de Lisboa só há duas autarquias onde poderíamos cabimentar um projeto desse tipo, basicamente. Mas também atenção, Alcochete está muito mal distribuído. Isto é como um campo de golfe. Há quem diga que para fazer um campo de golfe são precisos 65 hectares, mas Troia, que é o melhor campo de golfe, o melhor layout em Portugal, sem dúvida, para mim, foi construído em 45. Nós temos aquela área toda em Alcochete, mas com as coisas um bocado espalhadas. Algo que seja bem planeado de início, obviamente que vai organizar as coisas muito melhor.

Há muitas zonas onde nem sequer se pode construir.

Nada. Não é culpa deles, mas não pode. Ali é uma zona em que a gente vai poder construir tudo muito bem e tudo otimizado, obviamente. Agora vai tudo para ali, a formação toda. Não quer dizer que os jogadores profissionais de futebol não tenham a sua zona completamente privada e completamente à parte dos outros atletas todos. Mas isso gera sinergias, gera poupança, e gera mais-valias a nível de motivação, de todos os miúdos poderem ver os graúdos, aqueles que já são heróis, aqueles que são os ídolos deles, aqueles que já foram e que vão lá e visitam. O convívio ali naquele espaço. A tal mentalidade vencedora, Sporting, tem que se criar.

E acabando como começamos, no caso de Frederico Varandas ganhar as eleições e se for chamado também para esse sentido, um: estaria disposto a partilhar todo esse know-how? Dois: acha que ele próprio estaria interessado no projeto teu?

Olhe, eu estaria disposto a partilhar o know-how todo, mesmo que no dia 6 não seja eleito presidente do Sporting. Como disse aqui, eu serei presidente de todos os sportinguistas, os que gostam de mim e os que não gostam. Todos. A minha ideia é unir este clube. Todos têm que entender que são bem-vindos ao Sporting. Todos. Quando eu digo todos, eu estou mesmo a dizer todos. Ou se quiserem, desde que cumpram as regras, regulamentos e leis do Sporting. O Sporting está acima disso tudo. Atenção, eu estarei sempre disposto a partilhar qualquer solução que eu tenha para uma melhoria do Sporting. Eu não ajudo o Frederico Varandas, nem o outro presidente ou outro. Eu ajudo o Sporting, estou sempre disponível para ajudar o Sporting. Se quem lá estiver nesse momento for o Frederico Varandas, é o Frederico Varandas. Se quem lá estiver for outro, ajudarei outro, se ele me pedir a minha ajuda. Agora, também lhe vou dizer uma coisa. Não vi até hoje, da parte do presidente do Sporting, uma atitude dele de chamar o conhecimento dos outros a ele. E portanto, acho que será algo improvável de acontecer, mas estarei sempre disponível.

Muito obrigado, Ricardo Oliveira, candidato pela lista B às próximas eleições do Sporting. Fica por aqui este SubScuta. Obrigado.

Muito obrigado eu.