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Bom dia, bem-vindos a um "Sob Escuta" especial das eleições internas do PS. Depois de há uma semana termos recebido aqui José Luís Carneiro, esta semana temos conosco o antigo ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos. Bem-vindo.
Obrigado.
Este fim de semana disse em Bragança a seguinte frase, vou citar: "Eu não sou sonso." Entrou na campanha do insulto?
Eu? Não, eu não fiz insulto a ninguém. Aliás, tenho procurado não fazer insulto a ninguém. Tenho gostado sozinho nisso e vou continuar. Eu quero fazer campanha, pensar no dia 10 de março, é nisso que eu estou concentrado. E é por isso que quem me ouve e quem ouviu todos os meus discursos ao longo desta campanha não consegue retirar um ataque ao meu adversário interno.
Quem é o sonso?
Eu não estou a falar de ninguém, estou a falar de mim. Eu não sou sonso, eu sou frontal. Digo as coisas como elas são e não estou com rodeios, nem sou redondo.
Por que teve necessidade de dizer isso? É por oposição a alguém, com certeza.
Não é por oposição a ninguém. Se estão à procura de alguma coisa com o sonso, estamos só a perder tempo.
Podem considerar sonsice o facto de dizer quem é o sonso.
Mas não é sonsice nenhuma. Eu sou frontal e quando eu tiver que dizer alguma coisa sobre alguém, eu digo.
Então vamos tentar. Considera ético que o seu adversário continue a exercer funções de ministro? Até vai ter hoje um grande evento, chama-se MAIS Próximo, com S, ao MAI, Ministro da Administração Interna. Considera ético que ele continue nestas funções e como candidato?
Não é relevante para a campanha que eu estou a fazer. Isso é matéria do governo, do próprio ministro, do primeiro-ministro, não é matéria que me diga respeito. Eu estou apenas concentrado na campanha interna do PS.
Mas não vê nenhum problema de incompatibilidade?
Não é relevante pra mim, nem pra minha campanha. Quer dizer, eu não perco tempo com isso.
Se for primeiro-ministro, e acho que é algo que está a trabalhar para ser, José Luís Carneiro pode ser ministro desse governo?
Estou muito longe de fazer um governo e de pensar num governo, portanto, não faz sentido estar a especular sobre um futuro governo.
E Fernando Medina? Vai me dizer o mesmo?
É a mesma coisa.
Mas considera que tem sido um bom ministro das Finanças, não é?
Eu já tive a oportunidade de dizer que trabalhei com três ministros das Finanças e aquele com quem foi mais fácil de trabalhar foi mesmo com o Fernando Medina. Fernando Medina não só é, do ponto de vista técnico, um bom ministro, como tem uma experiência política, uma sensibilidade política que facilita o trabalho com os ministros setoriais. Portanto, eu tive uma boa experiência de trabalho com o Fernando Medina.
Não era um tecnocrata isolvia?
Não era.
Tentou algum acordo com José Luís Carneiro para avançar sozinho nestas eleições? Era desejável que tivesse havido uma candidatura de unidade? Já muitos socialistas falaram nisso.
Se houvesse condições pra isso, sim, mas nunca houve, aparentemente, da parte de José Luís Carneiro, essa vontade.
Chegou a fazer esse contacto, essa tentativa? Ou alguém por si?
Não. Sei que houve pessoas que falaram com ele, nomeadamente pessoas até que eram próximas do José Luís Carneiro, mas esse nunca foi um grande objetivo da nossa candidatura.
Mas era importante que tivesse sido assim?
Não, o que era importante era que nós não passássemos uma campanha interna a atacar o adversário interno ou o camarada.
Que é coisa que não está a conseguir que aconteça, certo?
Não, eu não estou a fazê-lo. Mas lamento que outros não o estejam a fazer. Acho que nós temos umas eleições legislativas muito próximas desta eleição interna dentro do Partido Socialista. Isso deveria fazer com que nós tivéssemos ainda mais cuidado.
Tem receio que não haja tempo para conseguir essa unidade daqui até às legislativas?
Não, o Partido Socialista é distinto do PSD sobre essa matéria. Nós somos capazes de trabalhar em conjunto e de não nos consumirmos depois de encerrada uma disputa interna. E por isso eu não tenho muitas dúvidas que a partir do dia 16 de dezembro, o Partido Socialista estará unido a pensar no dia 10 de março.
E concorda quando José Luís Carneiro diz que é o verdadeiro herdeiro do costismo?
Também não me preocupa muito isso. Isto não é uma disputa de herdeiros. Nós somos dirigentes do Partido Socialista, fizemos um percurso ao longo da nossa vida no PS, neste governo também. Os dois tivemos responsabilidades governativas na maior parte do tempo do governo e portanto temos visões diferentes sobre o que queremos do PS e para o país, mas somos também continuidade e somos também futuro, os dois. Em planos diferentes, porventura.
Mas há essa disputa ou acha que não há essa disputa?
Eu não faço essa disputa com ninguém, eu não estou preocupado com isso. Sinceramente, eu vou ouvindo muito essas leituras. Eu sou membro de um partido e fui membro de um governo do qual tenho orgulho, tenho em todos os meus comícios vincado resultados muito importantes desta governação, mas o que se trata agora é de preparar o futuro e de pensar no futuro. Nós pensamos demasiado no passado, estamos sempre agarrados ao passado.
Na quinta-feira passada, numa sessão de homenagem a Mário Soares, António Costa defendeu a solução da Geringonça, evocando precisamente o fundador do Partido Socialista. Diz que não está a lutar por ser o herdeiro do costismo, mas foi importante pra si ouvir isso da boca do líder do PS?
Sabe, eu fiquei sempre muito surpreso com as críticas que foram feitas a esse primeiro governo, porque acho que quem as fez ou quem as foi fazendo não percebeu que não era a mim que estavam a criticar. Não fui eu que tive a iniciativa de fazer um acordo com os partidos à esquerda do PS, não fui eu. Eu tive uma missão que me foi atribuída e que desempenhei, mas a iniciativa é do Secretário-Geral do PS e do primeiro-ministro António Costa. A propósito da história do herdeiro. Herdeiro é herdeiro, quem quer ser herdeiro é herdeiro de tudo, herdeiro dos oito anos, desde logo desse período. E a crítica a esse período é uma crítica a António Costa, não é a mim.
António Costa é o pai e o Pedro Nuno Santos é o filho da geringonça, é isso?
Não, eu não sou filho, nem António Costa é o pai. António Costa é o primeiro-ministro, líder do PS, que tomou uma iniciativa muito importante. Aliás, dentro daquilo que ele sempre tinha defendido na sua candidatura a secretário-geral, que não considerava que houvesse um arco de governação, partidos que estivessem predestinados a governar e outros estivessem impedidos. Isso foi sempre a sua visão. E depois das eleições, perante a configuração parlamentar, António Costa entendeu que se devia tentar aquela solução. E a mim foi dado um conjunto de responsabilidades, não só para negociar os acordos com o PCP e com o Bloco de Esquerda, e depois fazer a sua gestão ao longo dos primeiros quatro anos. Mas a iniciativa é do primeiro-ministro e é do secretário-geral do PS, desde logo, ainda não era primeiro-ministro.
E se vencer estas diretas e passar pra campanha das legislativas, vai querer António Costa nessa campanha?
Eu espero bem que sim. António Costa, eu já o disse, é o melhor político português, na minha opinião, e espero que continue, que possa ter novas oportunidades pra ajudar o país, em Portugal ou fora de Portugal.
E nas europeias?
Mais uma vez, eu tento ser disciplinado sobre essa matéria. Nós estamos em dezembro, nós não estamos a fazer listas ainda e não devemos antecipar. Já o disse e digo, António Costa será aquilo que entender.
E seria um bom cabeça de lista pras europeias, por exemplo?
António Costa será aquilo que entender, tem espaço pra isso, tem capacidade política pra isso e o Partido Socialista tem por ele um grande respeito. E o Partido Socialista, já agora, não tenho muitas dúvidas, os portugueses. E por isso ele tem um grande espaço pra decidir de que forma é que quer intervir politicamente no futuro.
Portanto, é uma decisão dele. Vai chamá-lo pra algum desses cargos? Tem isso na sua cabeça?
Não faz sentido isso nesta altura.
O que quer dizer contar com ele?
O que eu quero dizer é que o Partido Socialista conta com António Costa e que António Costa tem o espaço para decidir, fazer e intervir da forma que entender no futuro.
Por exemplo, Presidência da República.
Não faz sentido.
Mas deixe-me só perguntar-lhe isto, por que na moção, que agora apresenta ao Congresso, não tem uma linha sobre presidenciais? Não vai haver outro congresso antes das próximas presidenciais. Este é o último.
Mas eu chamo a moção de global estratégia.
É onde se definem estas ideias.
Não, quem sei lá dentro do partido. Nós temos tempo pra isso.
Não seria a primeira moção que vinha isso escrito. Acha que o PS deve ser um candidato próprio?
Essa sordidão pra sabermos quem são os candidatos é uma coisa que eu, sinceramente, acho que nós estamos mesmo longe, todos nós, e quando eu digo estou a falar no plural, estou a incluir-nos a nós, políticos, jornalistas e comentadores, nós estamos mesmo longe daquilo que é o sentir popular. Então nós temos umas legislativas, temos umas europeias, temos umas autárquicas.
Estamos no meio de uma crise política onde até o presidente da República está em causa neste momento.
Eu peço desculpa. E nós estamos obcecados com uma campanha presidencial de 2026. Calma!
Mas vai ser importante pra si definir uma linha. O PS deve ter um candidato próprio, por exemplo, pras presidenciais.
Isso é óbvio, eu sempre defendi isso.
Portanto, um candidato óbvio, claro e claramente definido e defendido pelo PS.
Sempre defendi que o Partido Socialista devia ter um candidato. Isso eu sempre defendi. Obviamente que as candidaturas às presidenciais dependem de uma vontade individual e pessoal, mas que o Partido Socialista deve ter uma posição nas presidenciais. É uma eleição unipessoal, mas isso não quer dizer que os partidos políticos não devam ter uma posição sobre essa campanha, que é uma campanha muito importante pra vida política portuguesa, que é importante sempre. E por isso acho que o Partido Socialista tem o dever de apoiar um candidato ou uma candidata.
Pedro Nuno Santos, se esse processo judicial que envolve António Costa se resolver rapidamente, teme que ele possa vir a ser uma sombra sobre sua liderança, um bocadinho como acontece a Luís Montenegro com Pedro Passos Coelho, por exemplo?
Eu não temo nada. Eu acho que António Costa faz parte do patrimônio do Partido Socialista e será sempre benéfico, será sempre bom pro PS contar com António Costa, nunca será um problema pra o Partido Socialista.
Nem pra si?
Não, claro que não.
Tão bom que devia ter ficado até 2026? Era o melhor?
Obviamente que eu achava que António Costa devia ser primeiro-ministro até 2026, não haja dúvida nenhuma sobre isso.
E nos cargos todos que vê que ele possa vir a ocupar, admite que possa voltar a ser primeiro-ministro ou isso já é uma página encerrada pra António Costa?
Mais uma vez, eu não quero estar a especular sobre o futuro. Acho, e António Costa já disse, este capítulo encerrou.
Pode ser tudo, menos primeiro-ministro.
Não é pode ser tudo, menos primeiro-ministro. António Costa será no futuro aquilo que entender, aliás, porque depende dele. Depende sempre de cada um aquilo que nós podemos ser. Depois, podemos depender também das decisões dos outros, mas a montante depende sempre do próprio. Portanto, António Costa pode ser aquilo que entender. Tem espaço pra isso. Agora, acho que essa função não está em causa. Nem sei bem por que nós estamos aqui a falar sobre isso. Tendo em conta que nós estamos neste momento a decidir o próximo secretário-geral do PS.
Falando então do seu futuro. Tem dito que só trabalha num cenário de vitória, mas Luís Montenegro, por exemplo, já disse que não forma governo se for o segundo mais votado. Está mais próximo da posição do Montenegro agora em 2023 ou da que António Costa tinha em 2015?
O que eu acho é que o Partido Socialista deve estar focado numa vitória Nas eleições do dia 10 de março, e em defender o seu programa eleitoral. E depois, consoante a configuração parlamentar, encontrar a solução que melhor permita cumprir o seu programa eleitoral. Ponto.
Para cumprir o programa eleitoral, tem de ser governo.
E é só isto.
Admite, então, pelo menos-
O que Luís Montenegro diz hoje, sinceramente, quando nós olhamos para aquela que é a prática do PSD, por exemplo, nos Açores, significa pouco. Porque o PSD nos Açores também disse, até praticamente às vésperas das eleições, que não faria nenhum acordo com o Chega, e fez. Aliás, nos Açores, o PSD ficou em segundo lugar e governou. Ficou em segundo lugar e fez acordo com o Chega e com outros partidos para governar. Por isso, aquilo que Montenegro diz sobre essa matéria vale o que vale. E por isso, aquilo que eu acho importante é que, nomeadamente no que diz respeito ao Partido Socialista, esteja concentrado na vitória, em ter o melhor resultado possível.
Mas aqui nós o queremos perceber o que Pedro Nuno Santos pode vir a fazer, isso não é importante para os eleitores.
Aquilo que é importante que os eleitores que votam no Partido Socialista saibam é que nós vamos lutar primeiro para ter o melhor resultado possível, depois lutar para conseguirmos cumprir o nosso programa eleitoral. É nisso que nós estamos focados. E essa é a certeza que os eleitores do Partido Socialista podem ter, que nós vamos fazer tudo para conseguir cumprir o nosso programa e que vamos encontrar a melhor solução governativa para cumprir o nosso programa.
Francisco Assis disse aqui no Observador que Pedro Nuno Santos tem uma vantagem face a António Costa em 2015, que clarifica aquilo a que vai, se vier a formar governo, mas afinal não clarifica. O que é que faz se perder, se ficar em segundo lugar?
Sinceramente.
Não há uma clarificação.
Não há uma clarificação.
Não é muito diferente do que António Costa fez.
Não é uma questão de haver ou não haver clarificação. Nós não sabemos quais é que vão ser os resultados eleitorais dos diferentes partidos. Nós não sabemos, no dia 10 de março.
Mas a questão é simples.
Não é simples para a Rita. Como nós não sabemos, e nós não temos que estar a fazer especulações sobre resultados no dia 10 de março, aquilo que nós estamos a fazer é concentrarmo-nos em ter o melhor resultado possível no dia 10 de março, com a certeza de que, perante os resultados, nós procuraremos a solução que melhor garanta ao Partido Socialista o cumprimento do programa com que nós nos apresentamos perante eleições. É nisto que nós estamos concentrados e é isto que é verdadeiramente importante. Porque nós não temos que estar a especular sobre quanto é que vai ter cada um dos partidos que se apresenta a eleições, isso não faz sentido nenhum.
Mas não, a especulação não era essa, é o PS ficar em segundo lugar.
Não, mas é uma especulação.
Foi o que aconteceu em 2015.
Mas nós não sabemos quais vão ser os resultados dos outros partidos. Quando nós falamos de uma solução governativa, ela não depende só do resultado do Partido Socialista.
Claro, mas é uma questão do que é que ami defendia a seguir. No caso dependeria de haver uma maioria de esquerda.
Mas é que não faz sentido nenhum estar aqui a fazer estimativas sobre os resultados dos outros.
Pedro Nuno, mas por isso é que se inicia Pedro Nuno Santos.
Nós vamos a eleições para defender o nosso programa e toda a gente que de alguma forma se sinta entusiasmada ou motivada pela candidatura do PS, pelo projeto PS, terem a certeza de que nós faremos tudo para cumprir esse projeto.
Pedro Nuno Santos, podemos retirar daqui que não exclui governar ficando em segundo lugar. Isso acho que se pode extrair. Sim, é factual.
Eu acho que factual não é.
Não?
Está a atribuir um facto a uma coisa que nem sequer se objetivou, nem concretizou, portanto, não é facto nenhum.
Uma vez que não exclui governar se ficar em segundo, podemos dizer que não exclui governar se ficar em segundo.
Eu peço desculpa. A minha preocupação também é, vocês fazem as perguntas e definem os títulos da entrevista.
Não se preocupa com o título, eu só estou a querer perceber.
Está em direto, não há título aqui.
Não, peço desculpa, eu preocupo-me, sim. Eu é que sei com o que é que tenho que me preocupar, dê-me licença. Verdadeiramente, aquilo que mais me interessa é que fique claro aquilo que eu aqui já disse. É que nós vamos lutar para ter o melhor resultado possível e encontraremos a solução governativa que melhor permita garantir que nós cumprimos o nosso programa. É o que interessa nesta campanha.
Se essa solução governativa que encontrar for à esquerda, nós sabemos que o Bloco de Esquerda acredita que uma nova geringonça, chamemos-lhe assim, teria de ser mais do que um programa de mínimos, que é o que considera que aconteceu da última vez, incluir novos acordos, por exemplo, na habitação ou na saúde. Estaria disposto a pensar em acordos à esquerda nesta área?
Reparem, nós continuamos a atirar ao lado, porque nós estamos todos excessivamente a gastar energia com aquilo que pode ser depois do 10 de março, quando, na realidade, nós estamos numa fase em que nós temos que nos apresentar perante os portugueses para defender uma determinada visão do país e depois, consoante a configuração parlamentar.
Mas não é importante dizer aos eleitores com o que é que contam?
Então, mas o que é que contam é com um programa eleitoral e com a defesa desse programa eleitoral.
Mas o senhor acredita que é provável que o PS chegue a uma maioria?
Nós temos de uma vez por todas entender que os parlamentos podem ter configurações parlamentares muito diversas, diferentes daquelas que nós estávamos habituados. Aquilo que nós temos que fazer até esse momento é discutir candidatos, atitudes perante o país, visões do país, projetos para o país e depois das eleições.
Mas os acordos que faz limitam o programa eleitoral. Aliás, o PS em 2015 teve que reformular o programa.
Correto, só que nós não sabemos nem conseguimos antecipar qual é que vai ser a configuração.
A questão é se está aberto a fazer acordos noutros temas, como por exemplo, a habitação ou saúde.
Nós não sabemos qual vai ser a configuração parlamentar que vai sair das eleições, quais vão ser os programas dos diferentes partidos. Nós ainda não sabemos isso.
Portanto, é um voto às cegas em si, não é isso? Para os portugueses, no dia 10 de março.
Desculpe lá, qual voto às cegas? Então, se vamos a eleições com um partido, com candidatos, com um projeto e com programa eleitoral, qual voto às cegas?
A questão é se vai conseguir cumprir esse programa com os acordos que terá de fazer. Ou acha que vai ter maioria absoluta? É isso.
Não, nós vamos gastar a nossa entrevista toda.
Não é importante ficar, não é gastar.
Na minha opinião é. Gastamos a nossa entrevista toda com o qual vai ser o papel do António Costa no futuro, com quem é que se quer ou não se quer aliar e sinceramente, estamos a atirar ao lado. Nós numa campanha, vamos votar em candidatos e no programa desses candidatos. É nisso que nós vamos votar.
O seu programa também não inclui mexidas, por exemplo, nas leis laborais, que era um dos grandes pontos de discórdia com a esquerda, também não admite mexer aí. Programa ou moção, neste caso.
Não, nós não temos linhas vermelhas sobre aquilo que nós queremos. Eu não estou a falar de linhas vermelhas com os outros. Eu estou a falar, não há temas sobre os quais nós nos fechemos à partida.
Mas fala na necessidade de estabilidade.
Exatamente. Há essa preocupação. Não quer isso dizer que nós não possamos fazer uma ou outra alteração, mas nós queremos procurar que em algumas matérias haja estabilidade. O governo fez alterações importantes em matéria de legislação laboral, e isso implica ou pressupõe que nós não estejamos sistematicamente a fazer alterações.
Nós perguntamos porque a esquerda na altura queria, inclusivamente, retirar algumas normas que eram do tempo da Troika e, portanto, isso são mexidas mais de fundo do que apenas deixar o quadro como está.
Correto, eu não minto nos programas dos outros. Portanto, não fechando a porta a alterações, a nossa preocupação é que aquilo que há de estrutural seja mantido e não seja alterado, porque é preciso alguma previsibilidade em matéria de legislação laboral pra toda gente.
Portanto, alterar, mas manter alguma estabilidade na legislação.
Exatamente.
Isto não pretende ser um quiz, mas às vezes as pessoas dizem que os políticos estão um bocadinho afastados e que não sabem da vida das pessoas.
Não é só os políticos.
Só perguntar se tem noção exatamente de qual é hoje o salário mínimo nacional e o indexante de apoios sociais.
Neste momento, 820 € a partir de janeiro.
Já está a pensar quando tiver que governar.
É o número que eu tenho presente. A partir de janeiro são 820 €.
Mas vamos avançar. O indexante de apoios sociais não tem ideia de como é que está neste momento?
Não quero arriscar, que é provável que fosse.
Sim, mas vamos seguir. O António Costa garantiu que o salário mínimo chegava aos 900 € até 2026. Consegue garantir que até 2028 pode chegar aos 1.000 € que o PCP já queria pro próximo ano?
Eu acho que deve haver uma preocupação com o aumento progressivo do salário mínimo, que nós devemos procurar continuar a aumentá-lo, mas esse aumento deve ser construído em negociação e concertação com as organizações que representam os trabalhadores e as empresas. E por isso não quero definir uma meta à partida, pelo menos nesta fase. Por isso eu acho que há aqui um trabalho que deve ser feito em concertação e que deve ter um conjunto de variáveis presente na definição de valores.
Mas nesse aspecto, não se compromete com um valor em específico.
Não, nesta fase não nos comprometemos com valores.
Eu creio que na moção diz aumento do salário mínimo nacional numa perspectiva plurianual. De acordo também com a negociação coletiva.
Exatamente.
Na sua perspectiva, agora vamos só um bocadinho ao passado, mas é muito rapidamente, por que o orçamento de Estado pra 2021 foi chumbado? A esquerda foi desleal ou tinha alguma razão nas exigências?
Eu acho que houve um desencontro entre o governo, o PCP e o Bloco. E na altura, nesta segunda legislatura, acho que falhou o que nós tivemos na primeira, e que foi um acordo escrito. Eu acho que a ausência desse acordo escrito na segunda legislatura não contribuiu para a estabilidade governativa desse mandato. Eu disse várias vezes que o anterior presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, foi um dos maiores contribuintes para a estabilidade do governo ao ter exigido o acordo escrito.
Portanto, isso é um elemento importante, um acordo escrito.
Estamos a falar desse segundo mandato, estamos sempre a saltar pros próximos. Relativamente à pergunta que me foi colocada, eu acho que uma das razões pra esse desencontro foi não termos, no início da legislatura, construído um acordo que desse previsibilidade ao mandato. À direita, esses acordos escritos sempre existiram. O nosso primeiro mandato também o teve, o segundo não teve. Não quer dizer que o acordo escrito resolva tudo.
Mas é importante que exista um acordo, por exemplo, no futuro. Se estivesse nessa posição, exigiria um acordo.
Não quer dizer que o acordo escrito resolva tudo, mas acho que foi uma das razões pra não ter resolvido.
Mas disse que resolveu aqui parte da questão da estabilidade no primeiro governo.
Certo.
A questão é se isso era importante pra garantir essa mesma estabilidade no futuro.
Nós estamos sempre a falar de momentos e de circunstâncias limitadas no tempo, e por isso eu julgo que no primeiro mandato o acordo ajudou a estabilidade, e que no segundo mandato a sua ausência prejudicou essa mesma estabilidade.
Portanto, era melhor haver um acordo pra garantir a estabilidade. É a dedução óbvia.
Eu estou aqui a explanar aquilo que é um ponto de vista, que obviamente do qual nós podemos retirar conclusões. Sim.
É um elogio a Cavaco Silva, portanto.
É, é um elogio a Cavaco Silva, é verdade.
Mariana Mortágua revelou que lhe fez um telefonema de cortesia quando se candidatou à liderança do PS. Ligou a todos os líderes partidários ou só os da esquerda? Ou só a Mariana Mortágua?
Eu não vou aqui partilhar os telefonemas que faço. Peço que compreendam. Tenho uma boa relação com Mariana Mortágua. Tive a oportunidade de trabalhar com ela durante alguns anos, e isso cimentou uma relação de confiança, obviamente.
Não ligou ao Paulo Raimundo.
Eu não quero falar de telefonemas que tenha feito ou deixado de fazer.
Os dois partidos, o PCP e o Bloco, mudaram de liderança neste espaço de tempo, desde essas negociações em que até disse que esteve com Mariana Mortágua enquanto deputada do Bloco de Esquerda. Vê os dois líderes, os novos líderes de PCP e Bloco, interessados em fazerem acordos com o PS?
Não sei.
Acha que o PCP não saiu traumatizado da experiência da geringonça?
Não sei, não perguntei. A única coisa que sei é que a experiência governativa foi uma experiência boa. Não tenho dúvidas, ao contrário daquilo que diz Luís Montenegro, que a memória que os portugueses têm dela é uma memória boa, e foram anos de recuperação de rendimentos, de recuperação da confiança do povo português nas instituições. Foi o mandato mais bem avaliado ou mais positivamente avaliado pelos portugueses em termos de confiança nas instituições e no próprio governo. E por isso foi uma boa experiência, e acho que todos os partidos ganham com isso, porque desde logo ganha o país, e o país ganhou com aquele governo.
E não muda nada o fato de terem começado guerras na Ucrânia e em Gaza.
As posições de cada um dos diferentes partidos à esquerda em Portugal são as mesmas que eram em 2015
Mas não o incomoda agora ficar associado a quem tem, por exemplo, como o PCP, a posição que tem relativamente à Rússia?
As posições são diferentes entre os diferentes partidos à esquerda e nenhuma posição de nenhum dos partidos em matéria de política externa ou de compromissos internacionais levou a que o Partido Socialista tivesse que se mover ou deixar de defender aquilo que sempre defendeu. Os compromissos internacionais e o posicionamento do PS em matéria de política externa não foi posto em causa naquele governo, como toda a gente sabe.
Verdade, mas não havia uma guerra na Europa como há agora neste momento. A questão é se se sente confortável em ter ao seu lado um partido como o Partido Comunista.
Peço desculpa. Eu não estou a falar do que é que vai ser depois do dia 10 de março. Nós estamos sempre por outras vias a chegar lá. Estamos a falar sobre aquilo que está a acontecer neste momento. E eu quero apenas dizer que as posições do PCP ou do Bloco de Esquerda sobre política externa nunca interferiram com as posições do Partido Socialista.
A questão não é de interferência, é se se sente confortável com estar lá, neste momento.
Nunca condicionarão as posições do Partido Socialista em matéria de política externa ou compromissos internacionais. As posições desses partidos sobre a NATO, sobre a União Europeia, não se alteraram, são as mesmas. Em 2015, aquilo que incomoda hoje poderia incomodar.
É um pouco diferente das posições que estão no papel de quando estão a acontecer conflitos no mundo.
Peço desculpa, não é. As posições em matéria sobre o mundo, sobre as relações internacionais entre diferentes blocos, são as mesmas que eram.
Então acha que o José Luís Carneiro, que fazia parte do governo, se lembrou tarde de que estes partidos tinham essas posições?
Eu acho que, de facto, em matéria de princípio, que é aquilo que interessa quando nós tomamos decisões, não há alteração, nem para o Bloco e para o PCP, nem para o Partido Socialista. Não há alteração sobre essa matéria.
Então o que é uma alteração no pensamento de José Luís Carneiro?
Eu não quero...
Eu pergunto porque ele tem defendido com partidos que são contra a NATO, não se via neste momento.
Mas já eram contra a NATO na altura.
Por isso é que eu estou a perguntar precisamente.
Já eram contra a NATO no governo de que ele fez parte. Mas eu não quero comentar.
A linguagem fica um bocadinho mais dura agora contra a NATO, por parte do PCP.
Mas as posições em matéria de princípio e de visão no que diz respeito à relação de Portugal com a Aliança Atlântica ou com a União Europeia, são as mesmas. Desse ponto de vista, não houve alteração nenhuma. Agora, o que é verdadeiramente importante sobre isso é percebermos que naqueles anos, o posicionamento do Partido Socialista e do país sobre essas matérias não se alterou nem uma vírgula. Isso é muito importante ficar claro. E nós não nos esquecermos, que é pra não estarmos a recuperar fantasmas que na altura nunca se concretizaram.
Tem dito que não é esquerdista, mas tem admitido entendimentos com a esquerda, que o PS tem falado em cortes de regime. O que isso inclui em concreto?
Em primeiro lugar, entendimentos com o Bloco e o PCP não fazem de nós esquerdistas, senão António Costa, José Luís Carneiro, José António Vieira da Silva, Augusto Santos Silva, éramos todos esquerdistas, porque estivemos num governo que resulta de um acordo com o Bloco e PCP.
Não sei se a rota o levou só daí.
Não são de esquerda, essas pessoas que...
Não são, não são esquerdistas. Normalmente, quando se diz esquerdista, se esquerdista é sinônimo de esquerda, eu sou de esquerda. Quer dizer, isso acho que ninguém tem dúvidas. E o Partido Socialista, já agora, também é um partido de centro-esquerda e de esquerda. Julgo eu que quando vocês usam a designação esquerdistas, estão a querer dizer que é alguém mais à esquerda.
À esquerda, esquerda, sim.
E de facto, eu não sou. Eu costumo dizer que nasci e cresci no PS, foi toda a vida no Partido Socialista. Eu não andei na extrema esquerda como outros socialistas andaram nos tempos em que eram jovens.
Está a falar de Tiago Barbosa Ribeiro?
Não sei, eu acho que ele também foi sempre da JS. Não é questão de ser outros tempos, não andei. Também podia ter andado, quer dizer, também há partidos mais à esquerda do PS. Quando eu comecei a minha vida política, o Partido Socialista não era o partido que estava na ponta esquerda do espectro político português. Eu sou do PS e da JS desde os meus 14 anos.
Então não podemos dizer que está a meter o socialismo na gaveta.
Não estou a meter o socialismo na gaveta, porque obviamente não há nenhuma alteração. A vida é como é e na política nós falámos isso quantas vezes, que se vive de percepções, mas mais importante do que percepções, e é por isso que nós nas entrevistas temos que escavar pra ir pra lá da percepção. E de facto, pra lá da percepção, eu sou apenas um militante do PS desde sempre. Fui líder da conselharia da JS da Madeira, depois da federação da JS.
A ideia de que era de alguma forma o lado mais à esquerda do PS está errada.
Secretário-geral da JS, líder da conselharia do PS da Madeira.
Como é que acha que se gerou essa imagem, então?
Eu tenho um percurso, eu tenho a minha leitura sobre isso. Mas eu tenho todo um percurso que é feito dentro do PS, quer dizer, eu não apareci agora. E não é por acaso que nós temos a maioria das estruturas e do partido a apoiar. Se fosse esse perigoso esquerdista, isso era impossível dentro do Partido Socialista, bem evidente. Eu acho que a principal razão, porque normalmente usam-se episódios para justificar essa imagem, mas acho que há, de facto, no nosso país, uma confusão, e acontece o mesmo à direita Mas no quadro daquilo que nós estamos a falar à esquerda, há uma confusão entre radicalismo e ter convicções e defender essas convicções com frontalidade. Nós vivemos ainda num país onde quando nós assumimos as convicções e vamos à luta e somos frontais na sua defesa, isso é confundido, mais a atitude perante a vida e perante a política, é confundido com radicalismo. Eu não sou radical, não há nada da política concreta que tenha sido desempenhada por mim que possa ser identificada ou definida como radical.
Não pagar a dívida tem sido comumente essas declarações.
Só que eu não defendo que não se pague a dívida. O problema, mais uma vez, da simplificação do que acontece na vida política resulta nisso.
Mas é normal que haja uma confusão. Em 2014, assinou o manifesto dos 74, que defendia, vou citar: "Sem a reestruturação da dívida pública, não será possível libertar e canalizar recursos minimamente suficientes a favor do crescimento, nem sequer fazê-lo beneficiar da concertação de propósitos imprescindível para o seu êxito". Admite que estava errado?
Rita, se pudesse ler alguns dos subscritores, conseguiria rapidamente perceber que não pode dizer que esses subscritores sejam radicais.
E a Francisco Louçã?
Então tem que ler todos. Não é só escolher para tentar confirmar uma tese.
Mas tinha António Guterres, tinha Francisco Louçã.
Mas Francisco Louçã retirou-se, se bem se recorda.
Não interessa, mas assinou. O Rui podia ter citado António Guterres, preferiu citar Francisco Louçã. E é assim que nós vamos construindo percepções.
Fica incomodado com a companhia de Francisco Louçã?
Nenhuma. Eu só estava a dizer, não fico nenhuma, antes pelo contrário. Agora estava a dizer que era preciso olhar para os subscritores pra perceber se eram todos radicais. E o Rui foi um ex-líder do bloco, podia ter ido a um dirigente do CDS ou a um ministro de um governo do CDS. É muito importante, porque nós vivíamos um momento de grande aperto que estava a ser usado pra justificar um conjunto de políticas também muito duras pro povo português. E é nesse contexto que eu defendo a reestruturação da dívida.
Mas continua a achar que é impagável sem ser reestruturada ou agora isso já não faz sentido?
Neste momento, não. Neste momento, nós não estamos nesse ponto, nesse aperto. Estamos a conseguir reduzir a dívida pública ao mesmo tempo que aumentamos rendimentos e por isso, obviamente, isso é localizado num determinado momento histórico e é nesse momento histórico que deve continuar.
Pedro Nuno Santos, já sabe onde é que vai buscar os 300 milhões de euros todos os anos só pro descongelamento da carreira dos professores?
Em primeiro lugar, nós não sabemos se são 300 milhões de euros.
Foi o governo, são números do governo. Podemos não confiar no governo e no Fernando Medina.
Não é isso. Nós, entretanto, temos professores que se vão reformando. Aliás, esse valor reduz todos os anos, porque nós temos professores que vão saindo do sistema e que tiveram o período congelado. Por isso nós precisamos de ter esses dados de forma mais próxima. O que é que era importante? Assumir um princípio, que pra mim é claro: o Estado português não pode exigir ao setor privado que cumpra o contrato com seus trabalhadores e depois não fazer o mesmo. Se o Estado entende que um determinado contrato ou um conjunto de regras não são sustentáveis, tem que as alterar. Se as mantém, tem que as cumprir. E este princípio é muito importante pra que haja confiança em quem trabalha no Estado, confiança com o Estado, mas também de toda a sociedade portuguesa com aquilo que o Estado quer impor.
Com os sindicatos privados.
Não é uma questão de pressionar, porque os privados cumprem, os privados não têm alternativa. Um empresário em Portugal não pode dizer: "Olha, eu tenho estas regras contratualizadas contigo, mas não as vou cumprir durante X anos". O privado já não pode fazer isso hoje. É como observador, tem que cumprir as suas regras com os seus trabalhadores. E o mesmo tem que acontecer também com o Estado. Isto é uma questão de princípio importante ficar clarificada. Depois, nós temos que compatibilizar este princípio com um objetivo de continuar a reduzir a dívida pública. Isso implica que nós construamos com os trabalhadores, neste caso, com as organizações que representam os professores, uma trajetória que permita, de forma faseada e gradual, recuperar todo o tempo que foi congelado, mas dentro dos limites orçamentais.
Ainda não fez as contas. José Luís Carneiro diz que só para fazer a tal reposição em todas as carreiras, não só dos professores, são mil milhões de euros.
Não sei de onde é que o José Luís Carneiro tira esse valor.
Mas não fez essa conta.
É muito importante nós termos a consciência. Fazer essa conta não é fácil. Rui Pedro Antunes também não consegue fazer.
Não, não consigo, certeza.
Não consegue. E, portanto, nós precisamos de ter acesso à informação, que teremos, com mais propriedade.
E quando é que terá acesso à informação? Só se for governo?
Se for governo.
Então no seu programa eleitoral das legislativas, as pessoas também vão ficar sem saber o que é que fará.
Não, não vão.
É porque esteve oito anos no governo, esteve nos conselhos de ministros, onde foi decidido, com o argumento de que não havia dinheiro pra pagar.
Eu não era primeiro-ministro.
Verdade, então esteve sempre contra essa posição do governo. Em todos os conselhos de ministros onde isto foi debatido, esteve sempre contra.
Antes desta crise política, a minha posição sobre esta matéria já era conhecida no espaço televisivo onde fiz コ メ ン ト .
Sim, duas semanas antes.
E então? Eu previ duas semanas antes que o governo ia cair, ou duas semanas depois? Quer dizer, pelo amor de Deus.
Durante os oito anos que esteve no governo, esteve sempre contrariado nesta matéria.
Em primeiro lugar, o que interessa não é se é duas semanas antes, o que interessa é que é antes.
Mas a questão é nos oito anos, esteve sempre contrariado ou não?
É agora, porque segundos antes a Rita fez questão de lembrar que tinha sido duas semanas antes. E eu estou a dizer duas semanas antes, uma semana antes ou três semanas antes, eu não sabia que no dia 7 de novembro ia acontecer o que aconteceu. E, portanto, a minha posição Antes desse momento era esta.
Antes, nos oito anos também em que esteve no governo, foi sempre esta. Esteve contrariado nos Conselhos de Ministros e no governo numa matéria que era central.
Não é uma questão.
E que tinha os professores na rua, era uma matéria central.
É uma questão central como tantas outras questões centrais que são discutidas. O governo muito cedo definiu aquela que era a sua doutrina sobre esta matéria, recuperou dois anos e algum tempo, e essa questão ficou fechada ali. Não acho que estejamos de forma sistemática e constante a discutir esse tema. Isso é uma questão que foi resolvida muito cedo no governo.
É aceitável que o ministro da Educação tenha a inversão que agora teve relativamente a esta mesma posição sobre os professores.
Num governo, os ministros não têm todos a mesma opinião sobre todos os assuntos. Isso não existe.
Estamos a falar do ministro da Educação, que é seu apoiante.
Num governo, não é possível, senão então isso seria um problema, que toda a gente tenha a mesma posição sobre todas as matérias. Obviamente, que depois são solidários com aquela que é a decisão assumida pelo coletivo, pelo Conselho de Ministros. Eu não quero comentar as declarações de nenhum ministro em particular.
Nem de um que é seu apoiante? Acha que é importante ele ter tido esta inversão quando ainda está em funções?
Isso é a expressão da opinião de uma pessoa, de um ministro.
Exato, ministro em funções.
Nós mesmos, nas nossas áreas, temos que governar no quadro de limites que são definidos pelo governo.
Portanto, quem manda é o ministro das Finanças dentro do Conselho de Ministros.
Todos os ministros setoriais, já lá vamos.
Num governo seu também vai ser assim?
Todos os ministros setoriais, não sei se todos, mas uma grande parte dos ministros setoriais não fizeram tudo o que gostariam de fazer. Isso é evidente. E, portanto, até o ministro da Educação não terá feito tudo o que gostaria de fazer. Isso é inevitável. Presumo que ele, num contexto já de final de mandato, se sinta mais livre pra poder expressar um conjunto de outras opiniões. Mas é natural que ninguém tenha feito tudo o que gostava de fazer, porque obviamente há limites.
Os ministros das Finanças limitam muito a ação dos governos. No seu governo também será assim.
As decisões são coletivas, não são do ministro das Finanças, são do governo inteiro. Mas é verdade que de algumas décadas pra cá, os ministérios das Finanças, em sucessivos governos, foram assumindo um poder muito grande sobre os governos. Disso não haja a menor dúvida, e isso tem consequências boas e más também.
Pedro Nuno Santos, na sua moção não tem referências à TAP. Está com medo de perder votos na defesa de que deve continuar pública?
Acha que é uma moção global estratégica que vai resolver, a existir algum problema com a TAP, vai resolvê-lo? Não. Fui ministro que teve a responsabilidade de um dossiê que foi dos mais difíceis do governo.
Por que não está lá a referência nenhuma?
Porque não há necessidade de estar, aquilo é uma moção global estratégica, não fala de tudo, não vai a todos os temas.
Mas refere-se a outros temas concretos.
Está bem, mas não vai a todos. E, portanto, também não tem que estar. Era preciso estar o quê?
Este não é importante?
É importante, mas a minha opinião também sobre ele é conhecida. Eu defendi sempre a abertura do capital da TAP, esse objetivo mantém-se. Sobre essa matéria, não há nenhuma alteração que justificasse uma menção ao rosa na moção global estratégica.
Precisamente sobre a sua posição.
Eu não sei se sobre a CPA ou sobre outras empresas há. Agora não me lembro.
Precisamente sobre a sua posição, depois do veto de Belém, o processo voltou ao governo. Vai fazer um novo decreto que deixe claro que a maioria do capital deve ser pública?
Eu acho que, primeiro, a TAP não pode ficar sozinha no mercado global da aviação, sempre disse isso. É preciso abrir o capital, ponto número dois, a grupos de aviação privados. Ponto número três, a posição negocial do Estado português deve estar salvaguardada em qualquer processo de abertura do capital. O que isto quer dizer? Que nós não devemos estar a definir à partida qual é a percentagem que nós temos.
Mas também tem defendido que isso seria obviamente mais fácil se houvesse a maioria do capital para o Estado.
Eu acho que dá mais garantias ao Estado português e ao país conseguirmos manter a maioria do capital.
Por isso, mesmo sendo o primeiro-ministro, faria sentido garantir essa maioria.
Acho que o Estado deve procurar esse objetivo e deve tentar esse objetivo.
Então, enquanto primeiro-ministro, como é que vai tentar? Vai definir logo à partida que são essas as condições.
No quadro da negociação com os potenciais interessados, logo veremos até onde é que nós conseguimos ir.
Então ainda vai tentar que a TAP fique no Estado.
O que é importante é que o Estado não prejudique a sua posição negocial. E sistematicamente, ao longo de décadas, nós fomos assistindo a processos de privatização que nem sempre salvaguardaram a posição do Estado. Isso implica que o Estado tenha inteligência na forma como vai negociar e é importante que um grupo, seja ele qual for, interessado na TAP, não tenha uma posição negocial mais facilitada porque o Estado português abriu o jogo quando não era necessário.
Mas só pra percebermos, se for Pedro Nuno Santos a decidir e se isso não usar o Estado, desejavelmente, a TAP continua pública.
Desejavelmente, o Estado continuará com a maioria do capital. Desejavelmente.
Passando agora um bocadinho pro aeroporto, continuamos aqui na área da aeronáutica. A comissão técnica independente considerou Montijo a pior opção, dentro de vários critérios, alguns era favorável. Se António Costa em junho de 2022 não tivesse travado tal despacho, tínhamos a pior opção. Isto não ajuda um bocadinho a ideia de que é impulsivo e que às vezes decide com alguma impulsividade e com pouca racionalidade.
Por quê? Mais uma vez, esse também é um bom tema em que se constroem percepções. Por que em Portugal Mais uma vez, nós confundimos impulsividade com capacidade de decisão, porque em Portugal infelizmente há uma cultura de arrastar os pés e isso vai caracterizando uma parte da nossa história ao longo dos anos.
É melhor uma má decisão rápida do que uma boa decisão-
Não é uma má decisão. Eu tenho dito que mais vale feito que perfeito, isso é óbvio, porque não haverá nenhuma decisão sem espinhas, não existe. E isso não pode nos impedir de decidir.
Mas a altura pediu desculpa por esse despacho publicamente.
Mas não teve a ver com a localização. Aqui estamos a falar de uma coisa, depois podemos-
Eu só gostava de dizer que mais vale feito do que bem feito.
Mais vale feito que perfeito.
Sim, desculpe a precisão.
Primeiro estávamos na substância, depois podemos ir à questão do despacho em particular. Nós já tínhamos estudado até àquela data 17 localizações, já se tinha estudado tudo. São 50 anos a estudar. Nós não estávamos a inventar nada, não há cá impulsividade nenhuma. Impulsividade é o quê? É nós estarmos ali como se estivéssemos a decidir numa folha em branco.
Mas Montijo fazia parte da solução, era uma péssima opção, pelos vistos.
Montijo para a Comissão Técnica Independente, ok?
Não é válido aquilo que a Comissão Técnica Independente diz?
Vamos lá ver se nós nos entendemos.
Mas não é válido aquilo que ali está?
Claro que é. Mas eu não estou só a falar disso.
Então ali está que Montijo é uma má opção.
Peço desculpa. Estamos a falar de junho de 2022, não havia cá Comissão Técnica Independente. E em 2022 havia o PSD a defender Montijo e havia o governo do Partido Socialista também a defender Montijo. O Montijo não nasceu ali. Montijo não nasceu em junho de 2022. Para não saltarmos de umas para as outras sem fecharmos questões que são colocadas. Não há nenhuma impulsividade. Impulsividade haveria se nós estivéssemos a tomar uma decisão numa folha em branco. A decisão é tomada depois de 50 anos de estudos, de 17 localizações estudadas e já com uma declaração de impacto ambiental aprovada para o Montijo, com apoio público para aquela solução que foi apresentada em junho de 2022, da Ordem dos Engenheiros, da Confederação do Turismo de Portugal, da própria ANA, que a tinha aceito.
Era uma solução que só servia à EL-AR, não é?
Não. Desculpe.
Disse na altura que o privado concordava, o PSD estava a mudar na altura e ainda nem sequer tinha eternizado o líder.
Nós não podemos lançar e depois passar logo para outra. Não era uma solução que só interessava ao privado, porque a solução de junho de 2022 dizia que nós estaríamos em Montijo durante um período transitório enquanto se preparava a solução de mais longo prazo, que era Alcochete. Como demora, como aliás isso continua a verificar no relatório da Comissão Técnica Independente, precisávamos de uma solução transitória que fosse obtida com um baixo custo, que permitisse ao país rapidamente começar a receber mais aviões e, portanto, mais receitas. E era só isso. Era nós conseguirmos, durante um período transitório, enquanto nós tínhamos a solução Alcochete, não estarmos mais 10 anos sem conseguirmos receber mais aviões. Era isto. Não era a solução que interessava à ANA, peço desculpa.
Mas também interessava à ANA.
Não, porque a ANA não quer Alcochete, como tem vindo a ser público. E a solução de junho de 2022, aquilo que dizia era que a solução definitiva em Portugal era o aeroporto de Alcochete. Peço desculpa.
Mas assim tinha o Montijo que a breve prazo servia à ANA.
Não servia à ANA, peço desculpa mais uma vez. Servia ao país, porque o que nós temos é um aeroporto Humberto Delgado que está saturado. A solução Alcochete é uma solução que demorará muito tempo e obviamente que neste período era importante nós termos uma solução transitória que nos permitisse começar a receber a procura adicional que nós temos e não conseguimos receber.
Verdade, mas a segurança aeronáutica, saúde humana, viabilidade ambiental, são tudo fatores que foram apontados como negativos. Nessa altura, a questão técnica está mesmo muito diferente do que está hoje. Mas sobre a ANA, era aí que eu queria chegar, que era para fazer esta ponte. Diz que o contrato de concessão do novo aeroporto foi uma privatização mal feita pela direita. Está disposto a reverter de alguma forma esta concessão e indenizar a ANA para passar a ter, por exemplo, o Estado, a gestão dos aeroportos?
São coisas diferentes. O negócio acho que não beneficiou o Estado português, antes pelo contrário. Não foi só essa, aliás, a privatização que do meu ponto de vista prejudicou o Estado português feita por esse governo, foram várias, para não dizer todas. A ANA, a gestão dos aeroportos portugueses é um grande negócio em Portugal, que infelizmente já não é do Estado, e o Estado perde com isso, para além de perder do ponto de vista da sua própria soberania em matéria de infraestruturas. Mas entretanto o negócio está feito e aquilo que o mais importante nós temos que garantir é fechar uma decisão sobre o aeroporto e naquilo que for necessário, negociar com a ANA as alterações ao contrato de concessão que forem necessárias para nós conseguirmos o aeroporto. Não sei se vão fazer mais alguma pergunta sobre o aeroporto, porque eu gostava de dizer mais algumas coisas sobre algumas coisas que eu tenho ouvido.
Estamos mesmo só com um minuto e tínhamos uma última pergunta sobre justiça.
Antes da justiça, deixe-me só.
Muito rapidamente, Pedro Nuno Santos.
Porque nós ainda ontem ouvimos um comentador falar sobre a questão das infraestruturas de ligação ao aeroporto, e nomeadamente sobre a terceira travessia do Tejo. Eu queria aqui lembrar que a terceira travessia do Tejo é um compromisso do Estado português com a União Europeia, independente do aeroporto. Ele está na rede transeuropeia de alta velocidade, está no plano ferroviário nacional que foi feito pelo governo. Essa infraestrutura existe independentemente da localização do aeroporto. É importante que não se impute ao aeroporto e à localização a terceira travessia do Tejo, porque ela teria que existir mesmo que o aeroporto não fosse em Alcochete ou Vendas Novas.
Então deixe-me acabar aqui com a parte da justiça. Na queda deste governo está uma questão judicial no centro da queda do governo. Concorda com uma alteração à composição do Conselho Superior do Ministério Público, que equilibre o número de magistrados e não magistrados?
Nós não negamos a necessidade, antes pelo contrário, de também fazermos uma reforma na área da Justiça, como é necessária noutras áreas. Acho é que o debate sobre essa reforma não pode ser feito em cima deste caso e nem a reboque deste caso. Isso seria uma péssima forma de decidir e uma péssima forma de legislar e por isso desligar o debate da Justiça deste caso em particular, acho que é muito importante e por isso a seu tempo nós apresentaremos as nossas propostas sobre Justiça.
É a posição que de facto também tem na moção e que tem vindo a dar sobre a Justiça. Pedro Nuno Santos, muito obrigado. Termina aqui este processo eleitoral.
Obrigado eu, foi um prazer.