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Valdemar Duarte é um dos maiores especialistas no setor das pensões em Portugal. Atualmente, além de ser diretor-geral da AGAS Pensões, do grupo AGAS Portugal, é membro da direção da APFIP, a Associação das Empresas de Fundos de Investimento e Fundos de Pensões. Muito bom dia, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite.

Obrigado eu.

Nos últimos meses, à semelhança do que aconteceu em anos passados, um tema que nesta área tem dominado o noticiário é a possibilidade de haver mais um pagamento de um bónus aos pensionistas em 2026, ou mesmo tornar esse bónus permanente. Concorda que isto deve ser feito?

Concordo na perspectiva de que há população reformada que tem pensões muito baixas e que se puderem ter salários ou pensões mais elevadas, melhor. Em termos de sustentabilidade, criar uma despesa permanente e uma responsabilidade permanente, acho que é uma grande responsabilidade e devia ser muito cautelosamente realizado.

Mas o que quer dizer com isso? No fundo, estar a prometer de forma permanente um bónus pode onerar em demasia as contas públicas?

Sim, nós, por exemplo, no ano passado, as pensões, as prestações pagas pela Segurança Social, cresceram cerca de 11%.

A Segurança Social?

Sim.

A CGA e a Segurança Social ou só a Segurança Social?

Acho que só a Segurança Social. A CGA também cresceu razoavelmente. Se fizermos crescer as responsabilidades de forma permanente em valores com esta dimensão, depois não andamos para trás, sem nós termos grandes garantias de quais são as pensões do futuro. Quando projetamos taxas de substituição na casa dos 40%, 30%, é bom preocupar-nos com as pensões dos que estão, mas também olharmos para as pensões dos que hão de vir a receber.

Sim, taxa de substituição, para quem não sabe o que isso significa.

É a relação entre a primeira pensão e o último salário. É o que se passa a receber relativamente ao último salário. Se for 40%, significa que quem tem um salário de mil, passa a receber uma pensão de 400.

Esse é o último dado, o mais recente.

Isto são as projeções para o futuro. Neste momento, essa percentagem está na casa dos 60%, mas depende muito das pessoas, porque cada um tem a aplicação da fórmula com a sua carreira contributiva completa e não há uma fórmula geral que se aplique a cada pessoa. Depende da idade, depende de como o salário evoluiu, depende o número de anos de descontos, se teve folgas de desconto no meio e não é um valor que se possa dizer a qualquer um.

Em média, 40% é o valor que as pessoas devem ter neste momento em mente.

Em perspetiva, para quem tem hoje 40 anos de idade ou está na casa dos 40, a perspetiva que é apontada e é apontada por relatórios oficiais, que é o Aging Report produzido pelo próprio Ministério das Finanças, aponta para, a partir da década de 50, pensões na casa dos 40 ou abaixo dos 40%.

Pensões públicas, no fundo, o primeiro pilar, como se costuma dizer.

Pensões públicas, ou seja, pensões da Segurança Social. Como pensões complementares, praticamente não há. Eu diria que são as pensões dos portugueses, a menos que se faça qualquer coisa para que as pensões complementares tenham significado, como acontece em muitos outros países, e nós trabalhamos ativamente para que isso possa mudar.

Então, mas globalmente, só para fecharmos este ponto, qual é a sua leitura sobre as perspetivas futuras de sustentabilidade da Segurança Social Pública em Portugal, designadamente à luz dessas taxas de substituição que referiu, no geral? Preocupa-o?

A sustentabilidade sozinha é um conceito que eu não gosto de falar. A sustentabilidade hoje é bastante boa, com o excedente da Segurança Social, mas o que é certo é que o Orçamento Geral do Estado transfere para os funcionários públicos, Caixa Geral de Aposentações e para os regimes não contributivos, mais de 15 mil milhões de euros, ou seja, praticamente o que corresponde à receita de IRS. Portanto, sustentabilidade é sempre possível, é só uma questão de arrecadar receita. Só por aí, o conceito de sustentabilidade é bom. Temos um Fundo de Estabilização da Segurança Social que desde 2019 passou de qualquer coisa como uns 20 mil milhões de euros para mais de 40 mil milhões de euros, portanto, está financiado e está saudável, mas a adequação, que é o outro lado da mesma moeda, aponta para valores que já vimos que são abaixo dos 40%. Só sustentabilidade sem adequação não funciona.

Mas o Orçamento de Estado para 2026 contém um cenário mais favorável para essa sustentabilidade da Segurança Social. Segundo o documento, os saldos do sistema previdencial serão mais positivos nos próximos anos, entram em déficit apenas no final dos anos 2030, mas com valores menos expressivos do que os anteriormente previstos. Isto são números que dão mais tranquilidade ou a sua ideia é que mesmo assim não...

Eu diria que dá alguma tranquilidade para se passar à ação.

E o que é isso, passar à ação?

Passar à ação é preservar as pensões dos cidadãos portugueses, ou seja, mantendo o regime solvente, mas um regime que não vai, como tem feito até aqui, ser a única entidade ou o único regime a prover pensões para os portugueses e, portanto, desencadear o processo de introduzir a complementaridade. De forma que os 40% que se tem de Segurança Social sejam acrescidos com 20, 30% daquilo que é a poupança individual de cada um, que tem uma grande vantagem: é que se ela foi poupada ao longo da nossa vida ativa, quando nos reformarmos, nós não estamos a carregar, a pesar sobre a geração que na altura está a contribuir. Essa é a grande diferença, porque nós hoje temos 2,5 população ativa relativamente a reformados, que em termos de população que contribui, o valor é inferior, porque temos uma taxa de atividade que é na casa dos 80%. Portanto, nem toda a gente que está em idade ativa contribui. 80% dá dois, ou seja, nós temos hoje, por cada reformado, e todos os reformados recebem, tendo direito ou não tendo, todos à partida recebem, temos dois reformados por um ativo. Este número vai tender para praticamente um por um e, portanto, se não tiver sido colocado nenhuma poupança de lado, terá de ser a geração que existir na altura a contribuir, que vai pagar as pensões dos que estiverem reformados na altura. E portanto, numa relação perto de um para um, significa que aquilo que se tem de poupar dos que estão a contribuir é praticamente igual àquilo que se recebe e, portanto, ou tem um esforço muito grande sobre o seu salário, ou então as pensões que se vão receber são mais baixas e por isso é que as perspetivas são na casa dos 30%.

Mas os anos passam e nós continuamos a ver que a discussão à volta deste tema é sempre à volta de privatizar a Segurança Social, discurso político, quero eu dizer. Quando ouve isso, o que é que pensa? Pensa que a discussão está bem centrada ou mal centrada?

Penso que é uma boa desculpa.

Para quê?

Para não fazer nada e para dizer que alguém quer combater a Segurança Social.

Ou quer pô-la na mão dos especuladores do mercado.

Dos especuladores do mercado, da bolsa, do jogo. Tantos conceitos têm sido atirados para o barro. Mas isso eu diria que é fundamentalmente fumo sobre o problema. O que é importante é salvaguardar que a Segurança Social tem capacidade de prometer benefícios e vir a financiá-los e que seja equilibrada. E neste momento, não sou eu que o digo, foi publicado no início do ano um relatório pelo Tribunal de Contas que aponta um défice ou um valor negativo entre contribuições e benefícios acumulados de mais de 200 milhões, cerca de 80% de um Produto Interno Bruto. Aplicando o sistema tal como ele está, ele tem já hoje uma perspetiva de desbalanceamento e deve ser balanceado de forma que aquilo que é prometido seja corretamente financiado, mas depois sejam criadas condições para que os portugueses possam viver, porque de certeza absoluta ninguém vai conseguir viver com 30% do seu salário ou 40. É preciso criar condições para que a população, quando se reforma, tenha benefícios. O que acontece, e esta grande descida de vir dos 60, quase 70% para os 30 e poucos, é virmos ou caminharmos para aquilo que hoje é a média da União Europeia. Não é surpreendente. O que é surpreendente é o nosso valor hoje. O valor futuro que é estimado está perfeitamente alinhado com a média europeia.

Agora que se recebe mais do que na União Europeia, é isso?

Sim, em média. Depende dos casos, depende dos países, como é evidente, não são todos iguais, mas recebe-se mais. E depois há países, não são todos iguais, que têm e que caminham, e a OCD aponta para um objetivo de ter uma taxa de substituição acima dos 65%. Se temos 30 e tal, 40%, devemos juntar dinheiro para poder ter 20, 30% de complemento adicional. E para isso é preciso juntar muito dinheiro.

Falar destes temas de outra forma que não desta, o que interpreta? Acha que estão a mentir aos portugueses, os políticos dizem que não é preciso resolver este problema, ou o que acha?

Eu acho que os próprios políticos estão a começar a ganhar consciência para este problema. Não sou um homem de grande fé, mas sou um crente e creio, e acho que estão a começar a ser criadas condições para que estes assuntos mudem. Para já, temos ao nível da Comissão Europeia, a Savings and Investments Union, a União das Poupanças e Investimentos, que nasceu com o relatório Draghi, a necessidade de transformar depósitos adormecidos em poupanças e investimento efetivo na economia e em que o principal pilar para absorção desse investimento é a componente de reforma. Aí está a haver um push que é crescente e que vai ter impacto em termos de recomendação.

Nós vimos que a Ministra do Trabalho e Segurança Social disse no Parlamento há poucos dias que o governo está a trabalhar não só na criação de contas poupança com benefícios fiscais, mas também propostas no sentido de alargar a subscrição de regimes complementares. Está otimista em relação às medidas que estão em preparação, que se presume que serão para 2026?

Não conheço as medidas.

Mas está otimista.

Não foram partilhadas. Estou. Posso confessar que ainda há poucos dias, no Parlamento, na Comissão de Orçamento e Finanças, um deputado do PSD enunciou objetivos exatamente iguais aos que nós, APFIP, apresentamos.

APFIP, que é a Associação-

A Associação Portuguesa de Fundos de Pensões.

De que faz parte, só para não introduzir.

Ok, da qual faço parte, um alinhamento daquilo que são os objetivos e uma sintonia. Não foram apresentadas propostas, mas um expressar sintonia relativamente às propostas que nós continuadamente temos vindo a formular. Portanto, acredito e tenho esperança. Já agora, relativamente às contas de poupança e investimento, estamos a falar de um instrumento de curto prazo, cuja recomendação foi publicada pela Comissão Europeia em 30 de setembro. A parte das pensões é outro bloco importante e que tem recomendações muito fortes.

Estamos a falar com o Valdemar Duarte, diretor-geral da AGS Pensões. Naturalmente, algumas pessoas vão estar a ouvir a entrevista e vão pensar: "Bem, é um senhor que trabalha no setor privado e quer naturalmente vender o seu peixe. E o que está a dizer é tudo disparates. A Segurança Social não precisa de fazer nada e está tudo bem".

É assim que muita gente vai ler, é assim que muitos daqueles comentários que costumam aparecer por baixo vão dizer e, portanto, é um risco que se corre ser juiz em causa própria, correndo esse risco. Mas estou perfeitamente disponível para dialogar e debater argumentos.

No fundo, são os dados que traz, não é?

Sim. Eu não estou aqui a falar diretamente de negócio e há muito negócio possível de canalizar recursos dos clientes para produtos. Estes são os mais difíceis, ou seja, jogar com produtos de curto prazo é aquilo que os clientes gostam. Portanto, o que eu estou a propor, ou o que nós propomos, é poupar numa lógica de longo prazo. Isso não é fácil. Não estou a propor caminhos fáceis para as pessoas. Estou a dizer é que se elas querem, efetivamente, ter um bom nível de vida na reforma, é indispensável que poupem. Se poupam em produtos meus ou de outros concorrentes, aí compete ao mercado. Mais, se investem em produtos que são geridos por entidades privadas ou por entidades públicas, o Estado não está vedado de fazer gestão destes investimentos. E, por exemplo, o caso de Inglaterra, em que o Auto Enrollment tem um peso muito grande, há um operador público, que é o Nest, que é fundamentalmente dedicado aos pequenos investidores, aos trabalhadores individuais, portanto, por conta própria, não só a pequenas empresas, que é gerido pelo Estado. O Estado pode ser um operador. E como tal, compete ao consumidor escolher qual o operador. Eu não estou a dizer que devem fazer poupança em fundos de pensões ou seguros, estou a dizer que devem poupar para a reforma. Isso é importante. E poupar para a reforma sem risco não é efetivo. Ou seja, num horizonte de 35, 40 anos, poupar com menos 1% que a taxa de inflação significa perder 50% de poder de compra. Acho que ninguém está interessado nisso. E se tiver mais 1% ou mais 2% que a inflação, o poder de compra reforça-se para praticamente 100% ou mais de 200%.

Sim. Há um grande número de portugueses que basicamente concentrou aquilo que se pode considerar a sua poupança na compra de casa, incluindo pessoas que hoje até podem estar perto da entrada na reforma e que têm a casa paga ou praticamente paga, casas essas que nos últimos anos provavelmente aumentaram bastante de valor. De que forma é que esse ativo, a residência principal, que muitas vezes é o principal ou o único ativo das famílias portuguesas, como é que esse fator pode entrar nesta equação que estávamos agora a falar sobre a preparação da reforma?

Existem muitas alternativas e fala-se muito em termos de conceito daquilo que é a hipoteca inversa.

O que é isso?

Que é tomar um empréstimo com base no valor da minha casa. Ou seja, permaneço na minha casa, vivo na minha casa e com uma percentagem do valor da casa é-me gerado um rendimento, uma prestação que recebo. Precisa de ser regulamentado.

Em Portugal?

Sim.

Mas existe em Portugal isso?

Não, não existe.

Não existe ou existe pouco?

Não, que eu saiba não existe e sei que houve inclusivamente bancos a tentarem caminhar por aí e que, por falta de regulamentação, o próprio Banco de Portugal travou esses processos. Agora, existe algo já hoje efetivo, que é desde 2019, o ano em que foi publicado no Orçamento do Estado de 2019, a possibilidade de utilizar a venda de casa própria. E como foi dito, o mercado está bom, está muito bom para vender casas e, portanto, é fácil vender Não é preciso esperar muito tempo e as surpresas que se obtém normalmente são positivas, ou seja, é bem possível com uma venda gerar-se um valor superior às expectativas, pelo menos daqueles que não estão a acompanhar o mercado imobiliário no dia a dia. Portanto, o momento é oportuno.

Em 2019 aconteceu o quê?

Foi dada a possibilidade de quem reinvestisse, e já sempre existiu a possibilidade de reinvestir noutra habitação própria e permanente. Alguém que vende uma habitação própria e permanente por 500 mil, se reinveste num valor acima de 500 mil, não paga imposto de mais-valias. Se reinvestir por uma mais barata, podemos imaginar uma mais pequena, 250, localizada se calhar num sítio não tão central, vai pagar imposto de mais-valias na proporção. Mas pode haver situações em que nem sequer faz sentido reinvestir noutra habitação própria e permanente. Quem está a passar para uma residência assistida, aquilo que em Portugal se chama vulgarmente de lares, não vai para uma habitação. Há pessoas que querem efetivamente monetizar, que já têm uma idade relativamente avançada e preferem, por exemplo, optar por alugar uma casa ou para ir para residências. Há muito a história da residência estudantil. Também há a residência sénior com o mesmo conceito, em que não se vai porque se está doente, como acontece muitas vezes no lar, mas se vai porque se quer combater a solidão, se quer partilhar serviços e este conceito começa a ter desenvolvimento em Portugal e quem está a pagar uma prestação desse tipo de habitações. O que faz? Consegue vender a sua casa, gerar dinheiro, que lhe vai permitir pagar a residência e, à partida, poder ainda libertar dinheiro remanescente na situação de morte para os seus herdeiros. E aí, com uma tributação praticamente inexistente, só tributa a parte dos rendimentos financeiros.

Estás a dizer que isso está a começar a acontecer em Portugal, é isso? Só para perceber.

Não, isto já está a acontecer em Portugal desde 2019, 2020. Começou de forma muito tímida e tem aqui uma situação importante, é que é preciso vender a casa. O português é muito de reação imediata. O que tem de fazer é vender a casa e reinvestir num produto com estas características no prazo de seis meses. Já agora, o produto pode ser um fundo de pensões, pode ser um seguro de vida. É obrigatório que pague prestações regulares. Essas prestações regulares não podem ser superior a 7,5% do capital investido.

Podemos falar qual é a diferença entre isso e vender a casa simplesmente e ficar com o dinheiro da casa e gerir o dinheiro da casa?

Pode.

Só para ficar claro.

Para ficar claro. Uma conta simples: quem venda uma casa e vamos pegar um número redondo por 1 milhão de euros, e que a tenha comprado por cento e tal mil euros, a casa é valorizada, valoriza-se para cerca de 300 mil euros em termos de coeficiente de atualização e gera uma mais-valia de 700 mil euros. Mas vamos dizer que a mais-valia, para não exagerarmos, é de 500 mil euros. Quinhentos mil euros são integrados no rendimento, 50% disso, portanto 250 mil euros são integrados no rendimento do ano e a taxa média que vai ser aplicada é de certeza absoluta superior a 40%. E 40% de 250 dá 100 mil euros.

Ou mais. E então, mas o que é que acontece aqui?

Cem mil euros de pagamento de imposto de mais-valias é dinheiro que não é recuperado de forma nenhuma. O que acontece aqui é que de imposto de mais-valias vai pagar zero.

Como?

Porque reinvestiu num produto que vai pagando regularmente uma prestação e vamos ver se aplicou, por exemplo, os 500 mil euros, 7,5% são perto de 40 mil euros, cerca de 3.500 € por mês. Ou seja, vai gerar um valor bastante interessante. Por exemplo, estas residências sénior, já com uma série de serviços adjacentes, como restaurantes, lavandarias, limpeza e outros tipos de serviços, poderão custar, para um apartamento pequeno, para uma pessoa individual, chega-lhe ter uma sala, um quarto, uma kitchenette, as outras áreas são partilhadas, dificilmente custa mais de 2 mil euros, o que significa que se tem 3.500, ainda vai ficar com pocket money para poder viver.

Então, mas isso é o que? É fazendo o quê? É comprando um produto em que no fundo a casa vai ficar prometida?

Não, a casa é vendida em mercado e põe à venda onde quiser, vende e depois de ter vendido, o proprietário da casa é dono dela e faz com ela o que quiser. Quem vendeu a casa tem soluções alternativas, ou está a reinvestir numa habitação mais barata ou não está a fazer isso e com o produto da venda reinveste uma parte em casa e tem um remanescente que aplica num produto com estas características. Como já disse, fundo de pensões ou seguro de vida. A partir daí está a receber um rendimento, o máximo são 7,5% ao ano, não é obrigatório ser esse valor, esse é o valor máximo.

É o máximo com o benefício fiscal, é isso?

Não, é o valor máximo Aqui eu nem falaria em benefício fiscal, é uma exclusão de tributação. Portanto, não está no estatuto dos benefícios fiscais como um benefício fiscal, está no código do IRS, como uma regra para excluir tributação, tal como o reinvestir noutra habitação, ninguém diz que é um benefício fiscal. Portanto, é exatamente a mesma coisa que reinvestir para adquirir nova habitação.

Ok, em termos fiscais é a mesma coisa.

O tratamento fiscal é exatamente o mesmo. Alguém que tem casa e que reinveste o valor, vai gerar rendimento para juntar às outras suas componentes de rendimento.

Vamos imaginar, qual é o conselho que dá ao seu amigo que tem 55 anos e que está a pensar fazer isto? Ou até mais perto, reformado.

Cinquenta e cinco anos não lhe dou conselho sobre isto, posso lhe dar conselho para pensar, porque esta situação só se aplica para habitação própria permanente e para reformados ou com mais de 65 anos de idade. Só a partir da idade de reforma ou dos 65 anos é que isto pode ser feito. E aqui o que estamos a fazer é, após a reforma, transformar a poupança, e nós também temos produtos para transformar poupança financeira num produto para pagar prestações regulares para o período remanescente de vida, em que ao longo do tempo os objetivos com que se está a fazer podem ser diferentes, os montantes que estão a ser levantados também podem ser diferentes e os produtos onde o dinheiro está a ser aplicado também podem ser revistos. Portanto, é pegar na poupança que existe e dinamizá-la em proveito próprio. O que é necessário é que as pessoas tenham à sua disposição um leque de alternativas suficientemente amplo, para poderem adquirir aquela que mais se adequa aos seus interesses.

Mas sente que existe cultura receptiva a isso em Portugal ou é preciso criá-la? As pessoas quando lhes falam nisso, neste caso, estamos só a falar de vender a casa.

Há um ditado popular que diz que a necessidade aguça o engenho. O que tem acontecido em Portugal, e ainda recentemente fizemos um inquérito, em que se constatou que os baby boomers estão relativamente surpreendidos com os níveis das suas pensões. Ou seja, reconhecem que praticamente não perderam poder de compra. E até agora tem acontecido mais ou menos isso. Agora, a perspectiva futura não é essa. Se o nível de rendimento que se vai ter na reforma for metade ou abaixo de metade, então a necessidade vai fazer com que as pessoas utilizem os instrumentos que tiverem à mão. E o que tem acontecido é que se calhar a necessidade não é muito grande, ou onde a necessidade é grande, há uma insolvência total e se o nível de rendimento é efetivamente muito baixo, também não há soluções. Estamos a falar em níveis de rendimento médios, onde isto pode ser aplicado. Se for um nível de rendimento muito baixo, nenhuma solução, que não seja assistencial, se calhar consegue funcionar.

Mas seria necessário fazer alguma alteração a nível legislativo para facilitar a introdução destes produtos? Mas produtos é uma designação um bocadinho comercial.

Soluções.

Soluções.

Acho que sim.

O quê?

Eu não sou regulador.

Mas quais são os obstáculos que enfrenta e que podia ser...?

Eu diria que regulamentar o tipo de atividade seria importante e depois adotar, para além da regulamentação legal, a adoção de um código de conduta de boas práticas.

Porque há o perigo disso não acontecer, como foi o caso do Reino Unido?

Exato.

Ok.

E os principais interessados, como aconteceu no Reino Unido, foram os próprios operadores que perceberam que a adoção desse código de conduta era útil para os operadores.

Sim, mas neste caso estamos só a falar, no fundo, de como as casas são de fato vendidas no momento.

É a utilização da poupança e o que falta é poupar. E em Portugal poupa-se pouco.

Ganha-se pouco?

Não se ganha muito, mas uma coisa é certa, poupa-se pouco porque nunca se ganhou muito e já se poupou muito mais do que hoje. Vamos só fixar na primeira parte, poupa-se pouco e vou ser aqui um bocado agressivo.

E investe-se pouquíssimo.

Ou seja, poupa-se pouco e aplica-se mal. Isto por quê? Porque não há uma separação clara entre os objetivos pelos quais nós poupamos e os instrumentos que utilizamos para lhes dar cobertura. Se nós estamos a poupar no curto prazo, um paradigma importante é a preservação de capital. Ou seja, se eu estou a aplicar dinheiro que sei que vou precisar daqui a seis meses, daqui a nove, 12 meses, não faz sentido nenhum estar investido em mercado, porque os mercados são voláteis e é possível que tenha uma queda razoável e vou perder poder de compra. E posso ganhar, também posso ganhar muito, mas é mais numa lógica de jogo. No curto prazo, faz todo sentido preservar o poder de compra No longo prazo é exatamente ao contrário, ou seja, aplicar sem risco é passar a ter quase certeza que se vai perder poder de compra real.

Os mais jovens ou mesmo uma geração já de meia idade usam muito os PPR, que também é um produto que há.

Eu diria que é o produto disponível. Agora, quando falamos em poupança de longo prazo para a reforma, os PPR não cumprem diretamente esse objetivo e têm sido utilizados fundamentalmente como poupança de médio prazo. E como faz sentido que o PPR continue tal como está, aquilo que nós propomos é que se incentive adicionalmente aquilo que é a poupança sem liquidez para a reforma.

Sem liquidez significa que não há extrações.

Não é para reembolsar.

É para ficar mesmo até à reforma.

Exato. Porque se nós vamos dar a possibilidade das pessoas levantarem por motivos relevantes, eles vão existindo ao longo da vida.

Claro.

Mudamos de casa, precisamos de dinheiro. Estamos a mudar de carro, precisamos de dinheiro. O filho está a entrar na universidade, precisamos de resolver essa questão. E todos esses motivos são o mais dignos possível e devemos ter poupança para isso. Agora, não devemos ter uma poupança que dá para tudo. O que é que acontece? Vamos utilizando essa poupança constantemente e começamos a repô-la até à utilização seguinte. E quando chegarmos lá, para dar uma ideia, alguém que hoje se esteja a reformar e vamos imaginar que tem um salário de 1.500 €, vamos olhar assim grosso modo para o salário médio.

600 €, por exemplo.

Oh, 600 €. Ora, para ter 600 €, precisa ter aplicados no produto 120, 130 mil €. Não é nenhuma fortuna. Isto poupado ao longo de uma vida é efetivamente muito pouco, mas o valor médio que está aplicado em PPR, eu tenho a impressão que são 3 mil €. Portanto, o que significa que, em média, o que está aplicado em PPR, há pessoas que aplicam mais, são valores baixos. E, portanto, é necessário ter valores com significado, poupados de forma regular ao longo da vida e, já agora, poupados antes de chegar ao final do mês. Ou seja, poupar não é o que eu deixo de consumir quando chego ao final do mês, é o que eu tiro de lado antes de começar a consumir. E se isso acontecer, é relativamente fácil poupar, porque me vou habituar a viver com o líquido após a poupança e, portanto, ou consigo viver com ele ou não, e portanto, vou ajustando aquilo que poupo. Se eu vou consumindo e fico à espera de ver o que é que sobrou, para já sobram sempre valores diferentes todos os meses. E depois a probabilidade de sobrar valores de zero e negativos é razoável. E, portanto, poupar regularmente, e já agora, disseste aí uma coisa que eu acho que é muito importante. Esta nova geração Z, que é aquela que está entre os 24 e os 29 anos, é aquela que mais poupa, isso é curioso, e é aquela que de longe mais poupa de forma regular. E temos um estudo que publicámos recentemente, uma iniciativa que desenvolvemos aqui do Mais Idade Mais, ou seja, a preocupação com o segmento sénior, onde esse segmento da população poupa, de forma regular, sensivelmente o dobro do que as idades mais elevadas. Depois há algo interessante, é que aplicam um bocadinho com mais risco, mas não se diferenciam as gerações, inclusivamente os baby boomers acabam por ser um bocadinho mais arriscados que a geração anterior. Portanto, eu diria que genericamente, a totalidade da população, mais novos e mais velhos, acabam por aplicar preferencialmente ou maioritariamente em produtos de baixo risco e, portanto, como corolário, também de baixo retorno.

Para terminar, a Autoridade de Seguros e Fundos de Pensões, que no fundo regula a vossa atividade, tem desde há alguns meses uma nova liderança, Gabriel Bernardino. Que expectativas tem relativamente a esta escolha, a esta nomeação e ao seu trabalho?

As expectativas são muito elevadas. Eu pessoalmente conheço o Gabriel Bernardino já há muitos anos. Eu faço parte também de um stakeholders group da EIOPA. Ele foi presidente da EIOPA durante 10 anos.

Que é o supervisor europeu da área.

Que é o supervisor europeu de seguros e de fundos de pensões. Ele esteve lá 10 anos. Eu estou lá ainda há oito anos, mas é um stakeholders group, portanto, conheço bem. Temos alinhamento de conceitos e de propostas e acho que será muito importante termos um regulador que seja ativo. Ou seja, é importante que o regulador controle o mercado, e isso é indispensável, mas também é muito importante ter um regulador que estimule o mercado, porque um mercado como o mercado de fundos de pensões em Portugal, que vai encolhendo de ano para ano, porque mesmo que aumente os valores sob gestão, o peso no Produto Interno Bruto tem sucessivamente vindo a descer e continuará a descer se nada for feito, é importante dar um passo em frente e um estímulo, e o papel do supervisor também aí, como advisor do próprio governo, penso que será bastante importante.

Muito obrigado. Falámos com o Valdemar Duarte, que é um dos maiores especialistas no que se fala em pensões no país, diretor-geral desta área na seguradora AGAS. Muito obrigado.

Obrigado, eu.