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Quando falo, descubro mais sobre mí e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza que somos todos malucos. Olá a todos, sejam bem-vindos a mais uma semana de Somos Todos Malucos. Esta que é a oitava temporada. Se bem que eu não ligo muito essa coisa das temporadas, eu vou fazendo quando me apetece e como ninguém também me paga, não há limite. Há temporadas de 10 episódios, de 12, de 20, é deixar fluir. Esta, por uma questão de organização, é sim a oitava temporada, 2026. Já sabem, é um podcast observador, está nas páginas do Observador, nas plataformas Spotify, iTunes, tudo que é de plataformas de podcast áudio. E no meu YouTube, se gostam de associar uma voz à cara, podem também ver no YouTube e rever todas as conversas e venham também aos comentários no YouTube. Já sabem que eu venho aqui também falar convosco e peço sempre a vossa opinião. Ora bem, a conversa de hoje vai passar pelo estresse. Por quê? Porque hoje em dia toda gente fala de estresse, mas fala como se fosse uma condição natural e imutável na nossa vida. Existe e faz parte, e não há nada que se possa fazer em relação a isso. Mas até que ponto é que o estresse e as emoções contribuem para a nossa saúde física, não só mental, aí nós já temos essa relação, mas também para a saúde física. Há mais de 10 anos, a Vânia Castanheira passou por um processo de um câncer que a levou também a questionar isto tudo. Hoje, esta relação entre o estresse, as emoções e a saúde acabam por ser a sua área de trabalho, que integra a neurociência do comportamento, medicina do estilo de vida, que eu não sei o que é, mas já vamos saber, psicologia aplicada e espiritualidade. Vânia, muito obrigado por estares aqui, de passagem, porque a seguir vais para o Brasil, onde tu vives há quanto tempo?
Há 21 anos.
21 anos?
21 anos.
Estás a falar português de Portugal, mas lá falas Brasil.
Exatamente.
Eu já vi algumas entrevistas tuas e fica falando já isso.
Sim, falo português do Brasil.
21 anos no Brasil. Primeiro que tudo, porque eu fiquei curioso com esta expressão, "medicina do estilo de vida", o que é isto, medicina do estilo de vida?
Raminhos, antes de mais nada, muito obrigada pelo convite. Fico muito feliz de estar-
Desculpa, tenho que te dizer uma coisa, que esqueci me de referir. O teu terceiro livro, "As Emoções que Inflamam, Hábitos que Curam", vai agora na segunda edição.
Sim.
É o teu terceiro livro, porque o primeiro livro foi exatamente sobre o teu processo de câncer de mama.
Exato, em 2014. Eu passei pelo câncer em 2013, um câncer de mama triplo negativo, que dentro dos cânceres de mama-
Que é dos mais agressivos.
É dos mais agressivos, e tinha 31 anos. E em 2014, foi "O Câncer Foi a Minha Cura". Em 2020, "Porque Andamos Tão Exaustos? Um Guia Prático Para Vencer o Burnout".
Exato.
E agora em setembro de 2025, "Emoções que Inflamam, Hábitos que Curam", do qual tenho muito orgulho.
E que está tudo relacionado com aquilo que nós vamos falar aqui hoje, não é?
Exatamente.
Mas estavas então a referir, porque essa questão para mim foi interessante eu ler aqui "medicina do estilo de vida", porque eu não sei o que é a medicina do estilo de vida. O que é isso?
Medicina do estilo de vida é integrar os nossos hábitos, hábitos físicos, como dormir, exercício físico e alimentação, dentro dos hábitos físicos. Hábitos mentais, a forma como nós vemos a vida, a forma como nós reagimos aos desafios da vida. E se temos uma mentalidade mais de crescimento ou uma mentalidade fixa. Hábitos também emocionais, como nós gerimos as nossas emoções, e hábitos mais espirituais. Então como é a espiritualidade horizontal, como é que nós nos conectamos conosco, como é que nós nos conectamos com as pessoas à nossa volta, como é que nós nos conectamos com a natureza. E uma espiritualidade mais vertical, como é que nós nos comunicamos com algo maior do que nós. Então é integrar os nossos hábitos, a forma como nós vivemos a nossa vida, as nossas rotinas de autocuidado, também como um processo de cura.
Sim.
Então a medicina não é só tomar remédios, mas também parte de nós, nós temos uma responsabilidade sobre a nossa saúde, a forma como nós vivemos.
Isto acaba também por ser remédios.
Exato. Mas antes de remediar, é agir antes de remediar.
Ora bem, mas tu não tinhas ligação a nada disto antes do teu processo.
Não. Eu fiz comunicação, eu sou licenciada em Comunicação Social.
Sim.
E trabalhava no Brasil como administradora de uma empresa de tradução, uma empresa internacional de tradução técnica.
Sim.
E de repente, veio o diagnóstico de um câncer, que me trouxe de novo para a comunicação, para o jornalismo, parte investigativa também, que é a parte que eu mais gostava, por quê, acho que é a palavra que mais me guia na vida.
Mas, por exemplo, aquela questão básica e clássica: eras uma pessoa espiritual?
Era uma pessoa prática, muito prática. Fazer o que precisa ser feito. O que é que precisa de mim, o que é necessário? Vamos lá, prática.
Sim.
Eu sou muito prática. E eu comecei também a questionar, eu precisava entender o que nós estávamos a fazer para ficarmos doentes tão cedo. Isso não pode ser sorte e azar, não pode ser só genética. Aí depois comecei a estudar muito e entrei na epigenética. Já ouviste falar da epigenética?
Já. Claro que sim.
Na época achavam que eu era maluca. "O que é isso, epigenética?" Epigenética, ou seja, nós podermos mudar a expressão dos nossos genes através dos nossos hábitos Nós temos um poder sobre a nossa saúde e ninguém nos falou sobre isto.
Mas tu eras uma pessoa estressada ou eras uma pessoa alegre, uma pessoa triste? O que tu eras?
Para fora, sempre alegre. Aquela pessoa sempre de sorriso no rosto. Tudo eu implodia, eu não explodia. Quando eu tive o diagnóstico do câncer, eu estava em burnout, não se falava sobre isso na época. Mas porque eu levava muito a sério o meu trabalho, mas levava a sério de uma forma que engolia muitas emoções e muitos sapos.
E se calhar fazias também aquele clássico que muitos de nós fazemos, que era te cobravas muito.
Muito.
Pois, clássico.
Muito. Eu lembro que a minha superior, a diretora geral da empresa, eu lembro de conversar com ela: "Olha, não vale a pena. Não vale a pena tu tentarmos cobrar alguma coisa de mais resultados, porque nada, nem ninguém vai me poder cobrar mais do que aquilo que eu já me cobro". Então tinha esta perspectiva. Eu não dormia praticamente. E também tinha aquela questão, que eu dormia pouco, não era preciso dormir muito.
Quem dorme não está a perder oportunidades.
Exato, está a perder, dormir pra quê? Era um bocado assim, descansar, o que é isso? Descansar para sapos.
Eu já perdi horas de sono, eu já perdi imensas oportunidades.
Não, hoje em dia o sono para mim é dos meus inegociáveis. É inegociável na minha vida. E eu era uma pessoa que me deitava meia-noite, uma da manhã, duas. E hoje em dia eu durmo às 21h, 21h30.
É, isso também não consigo.
21h30. Mas acordo cedo. Acordo muito cedo. Tenho um ritmo circadiano, que é o meu ritmo que está de acordo com a natureza, muito equilibrado.
E tu começaste a estudar essas coisas todas, que te ajudaram no teu processo. E tu começaste a perceber isto que eu estava a falar no início, que o estresse, porque tu viveste isso também, é uma expressão banalizada?
Sim, é banalizada, pulverizada. Apesar de ser muito comum, as pessoas viverem sob estresse, isto não é normal, porque o estresse é algo positivo, mas um estresse crítico ele é positivo. O nosso corpo, reage, porque se nós estamos numa situação, estou a conduzir, aparece um carro à frente, o carro da frente trava, uma criança passa, enfim, o nosso corpo tem que conseguir reagir ao estresse sobre alguma ameaça. Aparece um leão. O nosso cérebro evoluiu muito desde a época das cavernas, então se aparece um leão ou um tigre à nossa frente, o meu corpo tem que entrar em estresse, tem que ativar o eixo HPA para ele mandar uma mensagem para a pituitária, a hipófise mandar uma mensagem às suprarrenais, para produzir cortisol e adrenalina no corpo, que é para ficarmos com mais energia, com mais força, com mais atenção. Em vez de termos a visão panorâmica, haver uma visão focada, hiperfoco, e com mais insulina, açúcar a correr na corrente sanguínea e para eu ter mais força, se é para eu atacar ou se é para eu fugir. Então este estresse crítico, que depois passada aquela ameaça, o corpo até entende: "Ok, passou", então tira lá o cortisol, a adrenalina em excesso e até dá que às vezes aquelas pernas tremem, pode dar uma dorzinha de cabeça, fica até molenga. Então é o corpo a restaurar-se. E isto o corpo sabe lidar muito bem. E ele é positivo.
O problema é que tu estás constantemente em altas.
O problema é que é crônico.
Exato.
E quando eu estou constantemente com esta desregulação do cortisol e da adrenalina presentes, que depois até às vezes desgasta demais e até falta este cortisol, então fica desregulado no nosso organismo. Nós não vamos conseguir agir bem na vida, passamos a ser mais reativos. Então a pessoa deixa ter uma funcionalidade tão grande no seu dia a dia. Por quê? Porque o sistema límbico, que é onde estão as nossas emoções, fica hiperreativo. Imagina ali no centro do nosso cérebro. A amígdala fica hiperreativa, cresce. E aí a comunicação com o nosso córtex pré-frontal, que é o nosso centro de poder de decisões, o nosso cérebro racional, digamos assim, entre aspas, a comunicação não fica tão boa, fica com ruído.
Sim.
Então a pessoa começa a fazer más escolhas. Começa a ser mais impulsivo, começa a ser mais reativo. Começa a fazer escolhas alimentares piores.
Começas a fazer escolhas em cima do acontecimento, mas impulsivas.
Mais impulsivas, porque tudo é uma reação. Começa a comer mais. Às vezes até pode gerar uma compulsão.
É aquilo que eu já falei aqui em outras conversas, que é ficas tipo o ratinho na roda.
É o ratinho na roda. E quanto mais tu fazes más escolhas, mais aumenta o teu estresse, e entras nessa roda.
E por que nós vivemos nesse registro? É uma questão cultural, é uma questão desde a revolução industrial?
Eu acho que é um conjunto de fatores. É um conjunto de fatores individuais, é um conjunto de fatores culturais, também da própria família, a pessoa como ela aprende como é que deve viver, porque se formos conversar com pessoas na rua e dissermos: "Está estressada?" Se a pessoa está a dormir bem, começar a perguntar sobre detalhes da vida dela, de estilo de vida e de bem-estar. Ela vai dizer que é normal. Afinal, não estão todos assim? Não são todos assim? Isto não é vida adulta? Viver estressado? E a pessoa depois vai ao médico e muitas vezes a pessoa relata estas coisas que está a sentir. Às vezes nem diz tudo. A pessoa não diz tudo aos médicos. E eles dizem: "Está estressado. É da sua cabeça, vá cuidar da cabeça". Ou "é o estresse, é normal". Mas como resolver isto?
Mas como? Como, Vânia? Como resolver isto? Explica.
Primeiro, isto parte de uma consciência.
Sim.
De uma consciência. Estar estressado constantemente não é normal e o preço de eu estar a viver assim é alto. Eu não quero pagar este preço, porque depois vem com juros, de nós vivermos assim. Eu vivia assim. Mas a minha vida não era tão estressante. Eu é que criava, porque não dormia, depois fazia más escolhas alimentares.
Pois, é que há aqui uma questão. Eu acho que faz sentido isto, porque eu já li também algumas coisas sobre isso. Obviamente, não tenho estudos, mas parece-me que faz sentido que não há uma relação. Há muitas pessoas que podem associar aquela ideia de estar a ouvir a conversa e estar a pensar: "Agora o estresse causa cancro" ou "Agora o estresse vai me fazer ficar constipado". Não há uma relação direta causal no sentido de fazes isto, vai acontecer isto, mas o estresse leva-te a isso que tu estás a dizer.
Exato.
As escolhas impulsivas, más escolhas alimentares, falta de sono, falta até de beber água. E essas escolhas todas levam uma baixa do sistema imunitário, alterações também provavelmente hormonais.
Hormonais, metabólicas.
E isso tudo é que vai facilitar.
Resistência à insulina, uma série de coisas.
Isso tudo acaba por facilitar uma data de questões, seja o cancro, seja diabetes, seja um burnout.
As doenças crônicas não transmissíveis, também. Isso é importantíssimo o que estás a dizer, porque muitas vezes as pessoas veem má gestão emocional ou um estresse crônico causam cancro. Não é aquela questão, não é uma relação direta, mas é o ciclo.
Sim.
Então se eu tenho escolhas ou se eu estou constantemente com cortisol e com adrenalina, que eles são ótimos, isso é importantíssimo, até para nós acordarmos de manhã. Eles são importantíssimos para vários sistemas no funcionamento do nosso organismo, mas de forma equilibrada. Tudo ou em excesso ou em falta, vai dar ruim, como se costuma dizer no Brasil. Então o que nós temos que procurar é o equilíbrio. Se nós começamos a fazer essas escolhas erradas, temos cortisol e adrenalina o tempo inteiro no nosso organismo, ele vai fragilizar o centro de controle de qualidade da nossa fábrica. Então imagina que nós somos uma fábrica de livros. Estou a produzir uma gráfica, neste caso, uma fábrica. E o centro de controle de qualidade que vai passar este livro e vai dizer: "Se este livro tiver com uma pontinha ou a cor saiu-
Sim, vai para o lixo.
Vai para o lixo. Então este livro não pode passar, não passou no centro de controle de qualidade. E isto é o quê? É o nosso sistema imunológico. E todos os dias nós produzimos células cancerígenas.
Sim.
E se o nosso sistema de controle de qualidade, o nosso centro de controle de qualidade funciona bem, ele vai perceber: "Isto aqui não pode ir".
Exato.
Agora, se ele está fraco, às vezes o espaço é tão mínimo, é uma célula defeituosa, que é tão pequenina, mas ela passou. E ela depois continua a proliferar o nosso organismo.
Exato. Eu acho que o problema do estresse é não ser uma coisa visível e palpável, exceto quando acontece depois uma chatice.
Exato. É como uma doença invisível.
Porque se tu fores levar com um pau, se alguém tiver com um pau à tua frente, tu sabes que se ele bater, vai doer.
Sim.
Mas o estresse-
Ele mói.
É isso.
Ele não mata logo, mas ele vai moendo, até que depois vem uma cobrança. Então não podemos normalizar o estresse, eu acho que esse é o primeiro ponto. E depois outra coisa também, Raminhos, é que o nosso cérebro não foi programado para ser feliz. Ele é programado para sobreviver. A única coisa que ele quer é sobreviver, a principal função dele é sobreviver. Então ele tem que poupar energia para sobreviver. Ele tem que se sentir seguro. Quando ele não se sente seguro, ele começa a emitir uma série de funções, ele ativa o nosso sistema límbico para ele começar a fazer uma série de funções para estar alerta, em hiperalerta, para que ele possa dar segurança, por exemplo, "Não, isso vamos sobreviver, precisamos poupar energia, o que precisamos fazer? Nós estamos sob ataque". Então o que eu tenho que dar ao meu cérebro? Segurança.
E como é que dás essa segurança?
Tenho que dar segurança. Através dos meus rituais, da autocuidado, das minhas rotinas. Então uma coisa que nós não temos no nosso dia a dia, que não aprendemos culturalmente a valorizar, o descanso e o silêncio. Então é importantíssimo. Por exemplo, eu gosto muito de acordar de manhã, ser a primeira pessoa a acordar da casa.
Que horas é que acordas?
No Brasil, normalmente às 5:00.
Da manhã?
Aqui tento acordar às 6:00. Daqui é duas horas antes da casa. Eu estou na casa dos meus pais, acordo duas horas antes de toda a gente. E no Brasil, normalmente às 5:00.
E o que é que fazes às 5:00 da manhã?
Às 5:00 da manhã eu acordo, vou à casa de banho, rapo língua.
Sim.
É rapo, no Brasil é raspar. Raspo a língua, lavo a cara, faço as minhas higienes, tomo água, que eu já deixo a minha água morninha. Pronto, agora no verão lá não dá, mas a água morninha, e vou meditar. Então é a primeira rotina do dia comigo.
Eu começava a meditar, adormecia outra vez.
Mas se eu durmo bem, porque o dormir bem, o que é dormir bem? É um sono de qualidade e de quantidade, não é só quantidade. Às vezes a pessoa pensa: "Eu tenho que dormir, sou adulto", então é adulto entre os 18 e os 64 anos, são de sete a nove horas de sono por noite. Mas não é só essa quantidade. "Ah, mas eu durmo oito horas". Como é que é a qualidade desse sono? Como é que é a arquitetura? Quanto é que eu tenho de sono profundo? Em que momentos da noite está o sono profundo? Se está nos horários adequados, o sono REM. Porque no sono profundo, existe toda a reparação tecidual do meu organismo. Os músculos, por exemplo, aquela musculação, o exercício físico que se faz durante o dia, é à noite que, com a produção da hormona GH, que é a hormona do crescimento, que o músculo se vai desenvolver. E toda a parte também cerebral, tecidual, tudo o que é tecidual, fígado, rins, todos os órgãos. E depois no sono REM, que é na segunda metade da noite, mais ou menos, são os ciclos de sono REM, que é um sono mais leve, que a mente está quase como se fosse acordada, mas o corpo adormecido, e é toda a reparação emocional. E é o reorganizar tudo o que aconteceu na primeira parte da noite, a parte emocional, o processamento emocional e de memória.
Mas há malta que está a ouvir isto e está a dizer: "Mas eu não tenho tempo".
Há um provérbio indiano que diz, em relação à meditação, mas acho que isto vale para tudo: "Se não tens tempo de meditar 20 minutos por dia, então precisas meditar uma hora". O tempo é uma questão de priorização. Então é assim: "Ok, eu não tenho tempo pra meditar 20 minutos por dia". Se acordo às 5h, ok. Eu não quero dizer que as pessoas tenham que acordar às 5h. Isto pra mim funciona nesse horário, mas no Brasil, que eu deito-me cedo. Aqui, estou a acordar às 6h. Às 6h ainda é de noite. Até queria acordar um bocadinho mais tarde, mas o meu ritmo circadiano está muito equilibradinho, eu também não quero mexer nele. Mas às vezes é assim: "Eu não tenho tempo". Mas não tem 10 minutos? Não temos 10 minutos para estar em silêncio, fazer uma respiração consciente?
Eu acho que tem isso, tem a ver muito com a falta de hábitos.
De se priorizar. Por exemplo, temos uma série de resistências quando são coisas por nós. Eu tento há muito tempo que a minha mãe tenha uma rotina de exercícios físicos. E a minha mãe, é engraçado, há uma resistência e vêm todos com uma série de argumentos, isto é o meu dia a dia de trabalho. Então eu já sei todos os argumentos de toda gente da autossabotagem.
Quais são os principais argumentos?
"Eu não tenho tempo". Este é o principal. E o "não tenho tempo" é um paradoxo. Nós criamos tempo através das prioridades. Se eu não tenho 10 minutos pra eu poder respirar, porque não precisa ser meditação, mas é um tempo meu de silêncio, parar e respirar conscientemente, porque nós desaprendemos a respirar, nós nascemos a saber respirar. O bebê. Tens três filhos, três filhas. Lembras-te bem delas pequenininhas a respirar, era a barriguinha. Sabiam respirar bem. Depois nós não temos tempo, começamos a querer poupar tempo e a respiração fica curta. E isto ativa o nosso sistema nervoso simpático, que é o sistema nervoso que está sob estresse. Se eu respirar curto.
A própria respiração.
A respiração. Eu ponho-me em estresse sem estar em estresse, porque antigamente os nossos inimigos era o leão, era o tigre, os animais selvagens. Hoje em dia somos nós mesmos que criamos. Então eu preciso ter estratégias de autorregulação quando eu entro num momento crítico. Por exemplo, uma respiração. Eu parar dois minutos para respirar, fazer uma respiração profunda e conseguir ter a expiração maior do que a inspiração. Por exemplo, se eu inspiro em quatro tempos, percebo aquele minutinho, um minuto que fica dentro, e depois expiro em seis. E depois tenho um fora. Este momento entre uma respiração e outra, é este momento que nós nos conectamos conosco. Esta é uma pausa.
Essa é uma das desculpas, a falta de tempo.
Falta de tempo.
Outra, deixa-me adivinhar: aborrece-me.
"Ah, eu não tenho paciência, não gosto". "Ah, isso aí é só ginásio, ginásio é só pras pessoas fitness, elas vão lá para desfilar, pra tirar fotos". E daí? Cada um vai pra aquilo que quer. Eu tenho responsabilidade sobre aquilo que eu vou, daquilo que eu faço.
Sim.
Então é ir desconstruindo um pouco também estas resistências internas, estas autossabotagens, porque ninguém vai fazer por nós. Ninguém.
Tu estavas a dizer, nós vivemos nesse estresse crônico.
Sim.
O estresse está sempre presente na nossa vida.
Sim, mas o estresse crítico é uma forma funcional. Se ele não é ativado.
E é esta nossa relação com o estresse que nós temos que mudar. Mas também o estresse relaciona-se diretamente com as emoções.
Sim. Uma má gestão emocional.
Conduz a mais estresse. E o maior estresse crônico também leva a uma má gestão emocional.
Sim, é um conjunto de fatores. Não temos aqui uma solução única, "toma este remédio, faz isto que não tens mais estresse". Eu gosto sempre de olhar quando vou construir, até com as minhas clientes, a vida delas, nós olharmos assim pra vida. Nós temos as coisas que nós fazemos pontuais, quando vem uma situação de estresse crítico, as coisas pontuais de uma pausa, de uma respiração. Se tem uma ansiedade, de pôr uma almofada aqui em cima que ajuda e fazer uma respiração e depois conectar pra ver qual é o medo que estou a sentir, qual é a emoção que eu estou a sentir por trás daquela ansiedade. É ansiedade. É medo de não conseguir controlar não sei o quê, é medo que não vá dar certo, que não vá dar tempo, ok. Conversar com a emoção, tentar entender a emoção e acolhê-la, porque o que gera através da má gestão emocional, que leva a esse estresse crônico, é nós não gerirmos as emoções, nós não queremos sentir as emoções. Eu já volto àquele ponto, sabemos esta questão aqui, que é um ponto importante. As emoções, quando não são geridas, levam a este estado de estresse crônico, que é uma inflamação subclínica que vai estando presente no nosso organismo. Já quando nós acolhemos as emoções, nós as processamos, nós conseguimos ter uma melhor relação com o mundo. As emoções são uma ponte para a nossa relação com o mundo. Como é que eu me dou com as outras pessoas, como é que eu vejo o mundo, como é que são as escolhas que eu faço, porque se eu giro bem as minhas emoções, eu consigo fazer escolhas mais saudáveis por mim.
Às vezes, eu acho que há pessoas que podem interpretar o gerir emoções como o ficar bem com as emoções. E eu acho que às vezes se calhar não passa tanto por isso.
Gerir não é controlar. Isto aqui é um ponto importantíssimo.
É aceitar.
É. Mas dar nome. Por exemplo, o que eu estou a sentir?
Estou triste, estou zangado.
Exato.
E aceitar que nesse momento aquela situação fez-me sentir assim.
Exato.
Às vezes, acontece-me isto daqui e outras coisas, e estou muito melhor em relação a isso Por exemplo, às vezes sinto inveja em relação a uma pessoa qualquer, em relação ao trabalho. E eu antes, se calhar, ficava muito: "Tu não tens razões para isso", independentemente de ter ou não ter.
Queres diminuir o outro.
Ou no sentido de estares a pensar nele, não ligues a isso.
Queres ignorar.
Ignorar esse sentimento. E eu hoje, se sinto inveja em relação a algo, eu tento perceber: "Ok, eu estou a sentir inveja em relação a isto. Obviamente, isto diz mais sobre mim do que sobre a outra pessoa. Por que eu estou a sentir inveja? Do que eu tenho medo? É de eu falhar no meu próprio trabalho?" E aceitar jogar, ter uma visão pragmática daquilo que se está a sentir e tentar quase que ser o meu próprio terapeuta naquele momento, sem estar aqui nem a sobrevalorizar, nem a desvalorizar aquele sentimento. E às vezes, seja sentimentos de inveja, medos, tristezas, às vezes uma pessoa acorda só: "Hoje estou triste, hoje acordei triste". Por quê? Às vezes sei, outras vezes não sei.
Mas não é ignorar, não é tentar: "Não quero sentir isso, eu tenho é que pensar positivo".
Sim.
Mas é curioso teres falado da inveja. Eu acho uma emoção superútil, a inveja. Vou dizer a minha visão sobre a inveja, que é uma emoção perfeitamente normal de sentirmos. Mas ao sentir inveja, eu gosto sempre de me questionar: "Isto o que eu estou a sentir? Inveja? Tá, ok. Então o que o outro tem, que eu gostaria de ter? É exatamente do quê? Tá, é aquilo. Ok, então quais seriam os preços para eu pagar, que eu tenho que pagar, para eu ter aquilo?" Normalmente é ter alguma coisa, não é material.
Sim.
Algo que seja profissional. Para eu estar naquele patamar, quais são os preços que eu tenho que pagar? Tá, é isto. Às vezes é trabalhar à noite, fora de hora. Eu estou disposta a pagar esses preços? Não, eu não quero pagar esses preços. Então eu gostaria de ter o que aquela pessoa tem, que ela alcançou, mas eu não quero pagar os preços para estar naquele lugar. Então ok, não quero mais aqui.
Ou arranjas de outra maneira.
Ou dentro do meu sistema, da minha maneira, dos preços que eu estou disposta a pagar, qual é que seria o patamar ideal para mim? Então eu gosto muito da inveja neste sentido, por causa da pessoa: "Inveja, que emoção tão feia, não é coisa de se ter". E não é!
E não é só isso. Tu não controlas nem as tuas emoções, nem os teus pensamentos.
Mas como é que a maior parte das pessoas faz? Tenta controlar e julga as emoções. Isto é muito importante, nós não julgarmos aquilo que sentirmos, mas vermos as emoções como informação. Então aquela emoção é uma informação sobre mim. Ok, então está aqui uma oportunidade de cura. Então o que esta emoção está a tentar comunicar comigo? Porque nós tentamos muitas vezes, aquilo que nós sentimos no corpo, as emoções, nós tentamos arranjar argumentos racionais para os resolver, sendo que é uma questão emocional. Ok, então neste caso eu trouxe argumentos racionais. Mas agora, às vezes, quando é uma ansiedade, quando é um medo, o que nós precisamos? Entender. Eu entendi. Eu estou a sentir isto por causa disto. Ok, então como é que eu agora posso acolher esta emoção? É uma respiração, é uma almofada aqui no peito, porque a ansiedade fica muito aqui. E se nos puseres assim a mão, até sentes uma certa calma.
Sim.
Então às vezes o que eu preciso é de um exercício de acolhimento. Então é nós termos, voltando àquele ponto lá atrás, em termos de solução, entre aspas, de termos ferramentas para momentos em que nós saímos do nosso eixo. Porque todos nós vamos sair, a vida vai nos trazer desafios e nós vamos desequilibrar. Então para que eu volte mais rapidamente para o meu eixo, mas de forma funcional e não de forma de tentar controlar, como estávamos a falar. Então, por exemplo, a respiração, ter estas técnicas de gestão emocional também, como às vezes também exercícios de ioga, enfim, algumas coisas assim. E ter também ferramentas do nosso dia a dia, as nossas rotinas. Então as minhas rotinas patrocinam, digamos assim, não se usa muito o termo aqui em Portugal.
Sim, suportam.
Patrocinam, suportam a minha versão que eu quero ser, a Vânia que eu quero ser, ou as minhas rotinas são como se fosse de outra pessoa.
E isso é uma coisa new age ou que serve para qualquer tipo de pessoa, seja um publicitário, um diretor de uma grande empresa ou uma pessoa que é faxineira?
Isto serve para qualquer pessoa, só que tudo adaptado. Ninguém é igual.
Porque lá está, às vezes há essa ideia de que é algo: "Não, isso são modas".
Mas não precisamos mudar a vida inteira. Eu lembro quando, por exemplo, estávamos aqui a falar, quando meu irmão esteve aqui também para os 70 anos do meu pai, ele ficou cinco dias em Portugal e ele estava no computador: "Vou ao ginásio", porque eu chego e inscrevo no ginásio. E seja só vou ficar 15 dias ou uma semana, eu inscrevo-me e continuo. Há uma certa flexibilidade nas minhas rotinas, mas há coisas que eu gosto de manter. E fui ao ginásio e voltei, e ele: "Já foste ao ginásio?" "Sim, eu não preciso do dia inteiro para ir ao ginásio. Eu vou 50 minutos, volto, tomo banho, estou pronta". Então às vezes nós temos a ideia de que precisamos mudar a vida inteira. Para cuidar de mim, eu preciso mudar toda a minha vida. E não, estas são pequenas coisas. Eu tenho clientes, às vezes são médicas e plantonistas, e têm uma vida muito cheia, horários muito cheios, e no meio disto é possível ter espaço para criar rotinas que as façam sentir bem e as façam sentir seguras e numa rota de cura, digamos assim. Então tenho pessoas que têm várias profissões e vários estilos de vida, ou que têm filhos, ou que não têm filhos, ou seja o que for, e é sempre possível. Individualizado. Só que há ferramentas que são gerais. Toda a gente precisa de um pouquinho de silêncio. Podem ser cinco minutos, 10 minutos, mas ter uma reunião consigo próprio para se conectar consigo. Então as minhas escolhas estão de acordo com a pessoa que eu quero ser? Ou as minhas escolhas estão na contramão da pessoa que eu quero ser? Porque nós estamos aqui sempre para evoluir.
Sim. Que mudanças é que tu já assististe, para além da tua, como é óbvio, mas que mudanças é que tu já assististe em pessoas?
São 12 anos de atendimento clínico. Muitas mudanças. Muitas. Não digo todas. Mas muitas das minhas clientes, com diagnóstico de câncer, eu não atendo só mulheres com câncer, mas muitas de diagnóstico de câncer, normalmente chegam até mim e dizem: "Vânia, eu quero me separar, eu quero mudar de emprego, eu quero sair do meu emprego". Querem mudar as coisas estruturais, porque correlacionam o estado emocional e da vida delas, o resultado das vidas, às questões de fora. É coisa que me dizem. Eu digo: "OK, até pode ser que isso seja válido e que seja necessário e podemos trabalhar isso no futuro. Mas agora a minha sugestão é cuidar de si, vamos fazer isso de dentro para fora". Eu gosto de fazer até uma analogia, como se a vida da pessoa fosse um circo, uma tenda de circo. A tenda de circo tem, pelo menos antigamente era assim, várias estacas em volta e no meio, um pilar principal. E eu disse: "Nós podemos, isso tudo, o casamento, os filhos, os amigos, o trabalho, são várias estacas em volta".
Sim, mas se não tiver aquela do meio, ela cai.
Se eu tiver aquela do meio bem fincada no chão, até pode ser que as estacas não estejam bem firmes, mas se vier um vento, levanta a estaca, mas a tenda não cai. Agora, se a sua vida, o seu pilar, depender das estacas em volta, vem um vento grande e ela cai, como agora com o diagnóstico de um câncer ou não. Então primeiro vamos cuidar disso de dentro para fora, entramos num processo de autoconhecimento profundo. Primeiro é ir ao autoconhecimento. Quem é que a pessoa é, quem é que ela quer ser, quais são os valores. As pessoas não se conhecem.
Não estão conscientes.
Não trabalharam isso, porque é sempre a vida é para fora, o que a vida precisa de mim. Então, depois que a pessoa casa, tem filhos, trabalho.
É muito cultural. Já os nossos pais eram, os teus pais eram provavelmente assim, os meus, os meus eram.
Exato. E na minha família, as mulheres são todas muito guerreiras, trabalhadoras, são elas que tomam conta, são a estrutura da família, da casa.
É logo um peso.
Exato, eu já vinha com isso também. Mulher é que dá conta daquilo tudo e tem que ser, e trabalha não sei quantas horas por dia e vive para o trabalho, para a família, para os outros.
Depois tu mudas a tua vida e como é que és vista pelos outros?
Foi difícil. Foi bem difícil, porque na época, aquilo que eu faço hoje em dia, não havia. Eu não tinha suporte para isso. Era aquilo que eu ia descobrindo. Eu fui e continuo a ser cientista do meu próprio corpo e da minha própria vida. Fui fazendo estas formações, fui pioneira no primeiro curso que saiu de medicina do estilo de vida, de coaching de medicina do estilo de vida. Eu fiz na American College of Lifestyle Medicine, com o Well Coaches em Harvard, também na Harvard Medical School. Fui fazer todas estas formações e pioneira nisto. Medical coaching, também a primeira, que é em Israel, primeira medical coach em Portugal, a segunda no Brasil, mas a primeira a trabalhar com mulheres com câncer. Fui pioneira no meio disto tudo. Fui descobrindo, tem as suas coisas boas, mas também teve os seus pesos. E as pessoas em volta gostam muito de ditar aquilo que nós comemos, aquilo que nós fazemos, por quê? Nós somos um espelho daquilo delas.
Pois, era isso que eu ia dizer, porque se começam a apontar as tuas escolhas, na realidade, elas estão a apontar as escolhas delas.
As escolhas delas, porque se eu estou ali, eu escolho não beber, a pessoa está: "Ah, então eu estou a beber", ela vai me julgar, a pessoa: "Mas bebe só um vininho, é só hoje. Ai, comer este doce aqui, come só hoje. E esta porcaria, isso, não sei o quê, mas é só hoje". Mas se eu não quero? Isto não diz nada sobre as tuas escolhas, tu podes fazer o que tu quiseres. Nós somos aqui livres e aquilo que eu ponho para dentro de mim é meu, nós não comemos junto. Isto foi difícil, sendo trabalhado, e depois quando comecei a estudar a neurociência, comecei a entender como é que são os nossos processos neurais, como é que nós funcionamos. Isso deu também uma claridade muito grande e para ajudar também a lidar com as outras pessoas, com estas questões, estes confrontos, porque nós vivemos em sociedade. E não podemos deixar de viver em sociedade, até porque há um estudo de Harvard que foi feito ao longo de 80 anos, que era para tentar entender o que é que deixava as pessoas felizes. Chegou-se à conclusão que o-
É o Benfica. Neste momento não está a correr muito bem, mas pronto.
O que deixa as pessoas felizes, efetivamente, são as boas conexões. Não é só ter uma vida social.
Nós somos seres sociais.
Somos seres sociais, então não dá para deixarmos.
E vivemos em sociedade.
Exatamente. Temos que escolher bem as boas conexões. Também não precisa ser muita gente, mas que sejam boas, sejam de qualidade. E nós adaptarmos a esta vida que entendo como sendo uma vida mais saudável e que me dá uma certa segurança. Isto, por exemplo, quando eu tive o diagnóstico do câncer, o meu oncologista disse: "Vânia, a chance do teu câncer voltar em até dois anos e voltar no cérebro ou nos ossos ou em outros órgãos, é acima de 60%". E eu respondi, até o meu marido ficou nervoso na sala, eu disse: "Doutor Fernando, eu entendo perfeitamente isso que me está a dizer, que é baseado em números, numa série de mulheres, mas eu entendi para que o câncer veio e eu estou a fazer a minha parte. Se até vier, pronto, olha, é outra coisa e eu vou ter que lidar. Mas eu tenho a segurança de que eu estou a fazer a minha parte para que esta doença não volte. Então eu acredito, se até vier alguma, que seja por outra razão qualquer".
Ou seja, e a tua parte é isso, era a mudança de hábito.
Exato, é cuidar de mim.
Depois é assim, depois há casos De pessoas que têm problemas de saúde, seja ele qual for, que continuam na mesma.
Sim, muitos. Exato. As pessoas que me procuram é porque elas entendem que não querem viver com o medo da recidiva da doença. Entendem que tem uma parte que elas podem influenciar. Ou seja, nós não podemos controlar os resultados, mas nós podemos influenciar. Mas muita gente, sim.
Mas há muita gente, eu tenho exemplos de pessoas que passaram por processos de burnout e que na cabeça delas continua a ser: "Eu só preciso descansar dois ou três dias".
Pois.
E voltam ao mesmo registo.
E vivem nesse efeito sanfona. Tem um efeito de picos. É como aquelas dietas restritivas, a pessoa faz uma restrição calórica enorme e depois vai para uma compulsão ou exagera nalguma coisa. Depois faz mais uma dieta para perder três ou quatro quilos, depois vai e engorda seis. Vive nestes picos, como nós também na alimentação. Nós temos que evitar os picos, os picos de insulina, os picos de comportamentos extremos, dos excessos e das faltas.
Mas a sociedade hoje em dia também não está a ajudar nada.
Sim, mas nós temos que fazer.
Isto parece que está cada vez pior.
Pois está. Está difícil, mas nós não podemos pôr a culpa na sociedade.
Não, mas como é que tu tornas as pessoas conscientes?
Sabes que eu durante um tempo, ali na época da pandemia, eu tentei voltar a minha comunicação nas redes sociais, no Instagram, mais para a prevenção. Se eu tenho esta informação toda, as pessoas podem prevenir. Noventa por cento dos casos de câncer de mama e da maior parte dos tipos de câncer são evitáveis.
Sim, porque tem a ver muito com hábitos.
Exato. Então, por que as pessoas sabendo o que sabem, não fazem aquilo que precisa ser feito? Existe um gap muito grande nisto.
Pois é, porque é isso, porque estão presas, porque estão nessa roda viva.
Exato. E quando é essa doença invisível, ou seja, eu consigo lidar com este moer do estresse crônico.
Sim.
Mas não é um susto suficiente, não é um pontapé suficiente para que eu faça mudanças. Então cada pessoa tem o seu clique, cada pessoa tem o seu momento e ninguém muda ninguém, não podemos obrigar ninguém a mudar. Claro que com a consciência, quando eu comecei a fazer mudanças, quando comecei a estudar e vi as pessoas que eu amo à minha volta a fazerem escolhas, que para mim eram caminho, rota de doença, e muitas delas pegaram à doença, isto doía-me imenso. Mas eu não posso mudar ninguém. Estou a tentar mudar esses hábitos das pessoas que eu amo.
Quando muito, podes mudar com o teu exemplo.
Exatamente, foi o que eu decidi. É o meu exemplo. E quando as pessoas precisarem de mudança, mesmo estas pessoas próximas a mim, elas pedem-me ajuda. E eu sou feliz em ajudar.
Há uma questão que é: tu achas que, por exemplo, a criação de rotinas é bom para toda a gente?
É importante para o cérebro e toda a gente tem um cérebro.
Mas o cérebro, eu vou te dizer, como é que eu vou te explicar. Não sei se acompanhas a minha história, eu tenho questões relacionadas com a perturbação obsessivo-compulsiva. No Brasil, TOC.
É o TOC.
Transtorno obsessivo-compulsivo, e déficit de atenção. Rotinas para mim é muito difícil.
Sim.
É muito difícil de criar. Eu tenho a consciência que poderia ser útil.
Sim.
Mas daí a criar horas para fazer coisas é muito complicado.
Mas daí é que está, não precisam ser as horas, mas é a sequência de eventos.
Ok.
Então, se eu acordo às 5h, às 6h, às 7h, às 8h, não importa, eu vou acordar, vou à casa de banho, vou raspar a língua, vou buchar com óleo de coco, vou lavar a cara e vou beber água.
Eu faço isso durante três dias, depois esqueço.
O raspar a língua também. Não, raspar a língua é dos hábitos mais fáceis de fincar, porque a primeira vez que tu raspas e vês o que é que sai, tu nunca mais queres que aquilo volte para dentro de ti.
Sim.
Então é dos hábitos mais fáceis de fincar.
Uma coisa que eu faço, eu não faço isso, mas bochecho todos os dias e a primeira coisa que eu faço é sempre, obviamente, levantar-me, bochechar, lavar a cara e beber quase meio litro de água logo de manhã.
De manhã é assim, eu também bebo um litro de água antes do pequeno-almoço, mas não tudo de uma vez. Fazes bem.
Sim, mas bebo quase 400 ml, para aí, de uma vez, mas não é tipo "blá blá blá". Bebo um copo, depois faço qualquer coisa, bebo outro copo.
Então, isso é uma rotina.
É.
Isso é uma rotina.
Mas por exemplo, eu tenho na minha cabeça, para mim, que eu acho que beneficiaria com criação de certos hábitos.
Por exemplo, quais?
Por exemplo, acordar mais cedo, não é que eu acorde tarde.
Sim.
Acordar mais cedo, eu acordo sempre aí 10 para às 7h. Não, 10 para às 8h.
Tá.
Mas acordar mais cedo, fazer ali de manhã 10 minutos de meditação ou podemos chamar também de oração.
Sim, exato.
Uma oração matinal.
Oração, exato.
Meditação, ler um bocadinho de manhã ou estudar um bocadinho de manhã.
Adoro.
Uma coisa dessas, mas não consigo.
Tá, ok. Então vamos andar um bocadinho atrás. A que horas é que tu jantas e a que horas é que tu te deitas?
Agora, essa parte. Jantar, janto cedo.
Cedo a que horas?
Geralmente, acabei de jantar tipo 20h30. 8:00, 8:30.
Então, queres uma boa ou uma má notícia?
Porque não vou jantar às 17:00, queres ver.
Não, às 17:00 não, mas jantar entre as 18:00 e as 19:30.
Não dá. Com as miúdas não dá, eles estão a chegar da escola. Às 18:00 estou a ir buscá-las à escola. Não dá.
Mas pronto, tentar ir às 19:30, 20:00 horas no máximo, já.
É aqui que entram as gestões, porque, por exemplo, terças e quintas é dia de treino das miúdas.
À noite. Mas isso está socialmente errado.
Pois, mas isso agora vou eu chegar lá e digo assim: "Olha, mudem o horário". E eles direm: "Está bem".
Mas isso é complicado.
Isso não dá. Terças e quintas, tenho uma delas a chegar a casa às 21:30 da noite.
Coitadinha.
Não dá. Mas pronto, são os únicos dias. Mas depois eu quero ver uma série. Eu já falei disso aqui várias vezes, quero ver uma série, portanto, 23:00 da noite estou na cama, 23:30. Que é tarde.
Sim, mas pronto, vou te explicar o nosso ciclo do sono, mais ou menos. Nós costumamos no fim da tarde começar por volta das 17:00, a produzir a melatonina, que é o hormônio do sono, digamos assim. Tem outras funções, mas a do sono. E depois, ele tem ali um pico, é como uma onda. Se vais surfar uma onda, se tu pegas o pico da onda, a onda está a vir e começas a nadar e pegas o pico da onda, vais até à praia de forma espetacular.
Pois.
Agora se perdeste ali o pico da onda, mas tens que voltar, vais ter que remar. Então passou ali às 21:30, 22:30, até às 23:00 da noite, tens que remar bastante, não tens aquele pico da onda e aquele prazer, aquela serotonina. Porque o nosso sono profundo acontece idealmente ali entre por volta das 21:30, 22:00, entre as 22:00, 23:00, 00:00, depende ali do horário de deitar, e 01:00 da manhã, mais ou menos.
Sim.
E depois começam os ciclos de sono leve e sono REM. Então para aproveitar o máximo, tendo esses desafios, com o TDAH e com o TOC, toda gente beneficia. Não vale a pena estar a tentar convencer toda a gente, toda a gente beneficia. Então são escolhas. Às vezes eu tenho que escolher. O que eu quero? Se calhar dois dias na semana ou três dias tentar.
Uma convidada que esteve cá falava exatamente nessas coisas. Aliás, esta conversa acabou quase por ser uma consequência ou uma sequência dessa conversa com a Mariana. E ela falava muito de depois há aquela ideia na nossa cabeça de querer mudar tudo de uma vez.
Sim, e não. Isso é overwhelming para o cérebro, não é bom, e a chance depois dar errado.
Por exemplo, de uma forma muito geral, para uma pessoa que vive em estresse crônico, qual seria a tua primeira mudança? Claro que tem que se perceber a vida da própria pessoa.
Exato.
Mas assim de uma forma geral, qual seria a primeira mudança?
Eu poria a respiração, momento de silêncio, de respiração, nem que seja pausas de três, cinco minutos, fazer, por exemplo, uma respiração quadrada, que é uma respiração muito simples de se fazer. Lembrando sempre que a respiração é sempre pelo nariz, boca fechada e abdominal, completa. Que é inspirar pelo nariz, encher a barriga, dar em quatro segundos, reter quatro, inspirar em quatro, quatro fora e continuar.
Sim. Às vezes faço isso.
E ir fazendo isto. Pelo menos isto, respirar, porque com a respiração, nós conseguimos alterar o nosso estado do sistema nervoso. Então passa do sistema nervoso simpático, que apesar do nome, é estresse, para o parassimpático. Então nós temos este poder de mudar o nosso estado emocional. Então vamos respirar. Respirar e foco no sono. E normalmente o foco no sono, o que melhor funciona para um sono melhor, é jantar mais cedo, pelo menos três horas antes.
E a que hora tu começas a ver alterações se adotares estas mudanças?
É que depende do estado de cada um.
Da pessoa, pois, claro.
Por exemplo, se eu vou fazer um trabalho de equilíbrio do ritmo circadiano com alguém, e se a pessoa faz estas mudanças, ir fazendo aos pouquinhos, mas depende do estado que a pessoa está e como a vida está, normalmente em duas semanas conseguimos equilibrar o ritmo circadiano.
Eu tenho é que meter na cabeça.
Ou experimenta, porque é assim, isso é outra coisa. Se calhar, está pesado. Quando tu pensas em tudo, o que tens que fazer? Por exemplo, tu tens rotinas e não chamas isso de rotina. E isto que o cérebro gosta. Quando vais conduzir o carro, se tu começares a pensar, se alguém te diz: "Descreve-me como é que se conduz o carro". Tu vais ficar cansado. "Deixa, eu levo-te".
Sim, obviamente, eu tenho uma data de práticas. Agora não tenho treinado, porque estou constipado, mas eu treino quase todos os dias, por exemplo.
Pronto, isso são rotinas. E é mais ou menos no mesmo horário ou na mesma sequência de eventos?
Sim.
Pronto.
Sim.
O cérebro não sabe que horas são.
Pois.
Ele tem o ritmo circadiano, ele é o relógio interno. Nós deveríamos respeitar mais a natureza, que é o nosso corpo. E nós tratamos o nosso corpo como se fosse uma máquina que nós é que programamos como é que ela deveria funcionar para se adequar à sociedade. E deveria ser ao contrário. Como é que ele funciona melhor? O meu corpo não entende: "Isso não me dá jeito nenhum dormir às 23:00, então só vou dormir à 01:00. Então dá-me mais jeito". O cérebro não vai adaptar o ritmo biológico dele por causa disto. Isto vai moendo o organismo, depois vem uma conta e nem sequer sabíamos que era daqueles hábitos que estávamos a ter. Então é pensar na sequência de eventos, tal como tu quando vais conduzir o carro. Tu não pensas na sequência de eventos para ir do ponto A ao ponto B.
Sim.
Tu vais automaticamente.
Aprendeste.
E depois vira automático.
Sim.
Então o nosso objetivo é automatizar os nossos hábitos. Mas não precisa mudar a vida inteira. Não precisamos mudar de emprego, mudar de marido, mudar de país, mudar para o meio do mato e plantar batatas. Não, não precisamos disto. Eu acho que isso também não é saudável. Tudo o que é extremo, não é saudável.
Sim, porque depois também vives dependente disso.
Exatamente. E é o stress. Por exemplo, agora tenho uma cliente, lembrei-me que foi do fim do dia de ontem, e ela teve um cancro há nove anos e agora ele veio metastizado noutro órgão. O mesmo cancro. E geralmente quando vem metastizado noutro órgão é o mesmo tumor que teve, não é um tumor novo. E ela fez muitas mudanças na época, há nove anos, só que as mudanças foram físicas. As mudanças físicas, ou seja, exercício físico e alimentação. Foi principalmente isso que ela fez e algumas no sono. Só que virou um stress e virou uma série de "eu não posso isto, eu só posso aquilo, isto vai me dar cancro, isto vai me dar isto". Então ela estava em stress crónico, estava em burnout. Estava em stress crónico, o corpo dela disse "chega, basta". Ou seja, nós temos que ter atenção que as coisas têm que ser com equilíbrio, porque às vezes mais vale a pessoa comer um fast food, se comer aquilo de forma plena. Claro, eu não estou a indicar, eu nunca, jamais a ninguém indico fast food, mas a título de visualização, do que comer só os vegetais com a proteína e com a gordura boa e os hidratos de carbonos saudáveis, enfim, tudo isso, tudo bonitinho, mas virou um stress.
A exceção não faz a regra.
Não, exatamente. Eu acredito numa vida equilibrada, numa alimentação anti-inflamatória, de padrão mediterrânico e depois adaptado a cada individualidade de cada pessoa. Por exemplo, eu fui vegana durante dois anos. Isso inflamou-me, isto já há muitos anos, até eu descobrir que a alimentação estritamente vegana para mim é nociva. O meu corpo não dá conta.
Descobriste como?
Estava a me sentir um bocado inchada, tinha algumas borbulhas. Fui fazer exames genéticos em 2016, 2017. E nos exames genéticos disse que realmente a minha alimentação tem que ser do padrão mediterrânico.
Eu não como carne.
Eu estive oito anos sem comer carne.
Mas às vezes apetece me comer frango do churrasco.
Quando venho a Portugal, é uma das coisas da minha lista, é frango, churrasco de Portugal.
Aquela churrascara típica portuguesa.
Mas não como as batatas fritas.
Isso é o melhor. As batatas fritas.
Não consigo, não me dou bem com as frituras. Eu gosto, mas depois não fico bem, então eu não quero esse preço. Por cinco minutos de prazer, não vou pagar horas de azia, indigestão, não vale a pena.
Eu tenho essa sorte. Batatas fritas para mim é vida. Não como todos os dias, como é óbvio. Mas lá está, de vez em quando, apetece-me mesmo aquela batata frita de churrasco. Não como frango, mas não sei, às vezes penso se devia voltar a comer carne ou não.
Eu o ano passado, ou seja, 2025, um ano atrás, eu propus-me carne picada uma vez por semana. Agora, carne de churrasco não como, nem pensar, um bife também não consigo, parece-me carnívoro.
Mas frango do churrasco?
Frango, sim. No domingo foi almoço de despedida da minha família e tudo, e a minha tia veio: "Tenho saudade de comer frango no churrasco, ainda não comi".
Mas é curioso porque, por exemplo, isto é aqui um desvio da conversa, mas muita gente me pergunta: "Por que não comes carne?" Lá está, aquela cena social. "Por que não comes carne?" E é engraçado: "Por que deixaste de comer carne?" Eu deixei de comer carne porque eu já só comia frango e peru, aves, portanto carnes brancas.
E peixe, não?
Como peixe e ovos. E deixei de comer. Não era a cena animal, mas hoje em dia, parece que eu não consigo voltar a comer carne por causa da cena animal. É curioso.
Tocou-te a causa.
Sim.
Sabes, nós temos que respeitar. Eu nunca disse: "Eu não vou comer carne, eu não como carne". Pode ser que amanhã me dê vontade, mas eu comecei a criar uma certa aversão. E estive assim oito anos. E depois comecei a perceber, eu acho que me vai fazer bem. E mesmo sabendo do meu exame genético, que seria bom eu comer carne uma vez por semana, carne vermelha.
Sim.
E então no ano passado eu abri-me a isto, eu vou experimentar, ver como é que eu me sinto, que eu perco massa magra facilmente. Quero ver como é que funciona no meu corpo. E abri-me para isso e pronto, socialmente às vezes é mais fácil também. Mas eu voltei a comer peixe e frango depois da pandemia também.
Tu estavas a falar da questão social e veio agora aqui à memória essa questão, por exemplo, em relação com o stress, que é, e a mim acontece-me ainda bastante, o julgamento que há quando tu paras. No sentido de se estás relaxada é que não estás a trabalhar, se não estás a trabalhar é porque és um preguiçoso.
Mas se calhar a opinião alheia está a importar muito, não é?
Sim, mas eu acho que isto acontece muito. E tu sentes isto de uma forma castradora.
Mas será que uma parte em ti também não acha isso?
Sim, claro.
É porque isso dá velcro. Se a pessoa te dá algum comentário, mas não dá velcro, ou seja, não sentes minimamente aquilo, passa batido.
Não. Este julgamento eu acho que acontece comigo e acontece com grande parte das pessoas, que é se tu estás a parar, se eu hoje não tenho muita coisa para fazer, tenho que inventar qualquer coisa para fazer.
Tem que estar ocupada.
Tem que estar ocupada.
Só que estar ocupado não é igual a ser produtivo.
Exato. Estar ocupado não é igual a ser produtivo. E eu acho que isto também contribui, obviamente, para esse não saber parar.
Mas sabes que há um processo do cérebro, o processo da criatividade, tem uma etapa que tu investes naquele conhecimento, o que tu queres fazer, o que queres desenvolver. Tu estudas, vais tentando fazer, criar um nome para o teu negócio. Estás ali, pesquisas isso e pesquisas aquilo, e de repente dá-te um branco, depois não consegues criar mais nada ou tens que criar conteúdo, seja podcast, o que for. E depois, de repente, tens é que sair Sair e não fazer nada. Nada. Ia dar uma caminhada, às vezes é um dia, outras vezes são dois dias. E isto, aquele eureka, vem deste processo. Eu não estava a fazer nada e de repente veio uma ideia do nada. Não veio do nada. Ele é a terceira etapa de um processo de criatividade. Então o não fazer nada tem que fazer parte da nossa agenda de produtividade.
Sim.
E valorizar o não fazer nada. E temos que começar a falar sobre isto. Quando te perguntam: "Então, Raminhos, o que é que estás a fazer?" "Olha, nada". E começar a integrar aquilo.
Nada, mas com prazer.
Nada. Estou a usufruir deste nada.
Sim.
Depois a coisa vem.
Eu hoje já consigo fazer isso e interpretar também de onde é que vem.
Exato. Que parte minha aqui é que está a tocar?
Isto vem da educação também.
Tudo. E é o olhar de quem está em cima, é a voz de quem que aparece, é da mãe, é do pai.
É do meu pai.
Está claro. Já está resolvido. Mas é isso.
Sim, é do meu pai.
Fazemos esta autoterapia interna, que é este autoconhecimento, estarmos constantemente com o nosso observador, digamos, se tivéssemos uma parte nossa que pudéssemos dar esse nome, esse observador, para percebermos sempre como é que nós podemos estar a buscar processos de cura internos. Porque este processo de cura é contínuo. Nós estamos aqui para evoluir. Nós não somos seres prontos e acabados. Estamos sempre a poder melhorar. E todos os desafios que vêm da vida, isto é uma forma que eu gosto de olhar, e é o único controle que nós temos, a única coisa que nós conseguimos controlar na vida é a forma como nós reagimos àquilo que nos acontece.
Claro.
Então temos que parar de sair daquele vitimismo de: "Coitado de mim, isto acontece sempre comigo", ou é a minha genética, os meus pais, é o meu chefe, são os amigos, é a família, são os outros, que acontecem e ser: "Ok, então como é que eu posso interpretar isto e que parte minha que eu preciso trabalhar para poder melhorar e subir de degrau neste aspecto?"
A que sinais é que as pessoas podem estar atentas? Sinais de alerta.
Um exercício que eu gosto muito de fazer, de deixar como trabalho de casa, em algum momento para as minhas clientes, que é: você já ouviu falar do diário de gratidão, no fim do dia, a pessoa agradecer a três coisas que aconteceram no dia, mas é um bocadinho mais rebuscado, que é agradecer alguma coisa que elas fizeram por elas naquele dia, agradecer a alguém que fez alguma gentileza por elas, e a outra é agradecer a alguém que as desafiou. Porque sempre que alguém nos desafia, como por exemplo, vem um julgamento, e eu: "Estou aqui assim sem fazer nada, realmente, que parte minha é que tocou e que eu posso trabalhá-la?" Então que parte minha é que a outra pessoa que me desafiou trouxe luz para aquilo, para que eu agora possa trabalhar.
Mas esse exercício é para a pessoa descobrir o quê?
Tem dois sentidos. O exercício da neurociência tem dois sentidos. Um deles é, porque os nossos hábitos, sejam hábitos físicos, sejam hábitos de pensamento, de comportamento, eles são caminhos neurais, que nós temos. Nós temos na nossa cabeça uma série de autoestradas, que são aqueles que nós fazemos já automaticamente, como conduzir, por exemplo, e temos aqueles que têm um monte de mato no meio. Então se eu quero acessar uma parte minha, por exemplo, o sentimento de gratidão, que a gratidão é um sentimento, e é dos melhores sentimentos que se pode ter. Sentir grato dá uma plenitude enorme. Muitas vezes esse sentimento de gratidão, que nós não estamos muito acostumados a receber. Temos dificuldade em receber. E então esse caminho é como se fosse um monte de mato, depois está aqui a gratidão, estou aqui eu, digamos assim, aqui está um monte de mato e eu quero construir um caminho mais direto, uma autoestrada, quero desbastar para construir esse caminho. Dar acesso à gratidão. Então isto é uma forma de desbravar para construir este caminho. E a outra é o processo de eu olhar mais para mim e não olhar só: "Ai, que estúpida aquela pessoa que falou isto comigo". E a pessoa fica vitimizada e renega o outro, fica até com um bode do outro e segue a vida. Não, ali houve uma oportunidade de cura. Nos relacionamentos, a nossa maior faculdade na vida, diria até mestrado, doutorado, pós-doutorado, é com os nossos relacionamentos próximos. Então estas pessoas que nos tocam mais nas nossas feridas, têm mais acesso aos nossos botões. Então aproveitar estes relacionamentos para perceber partes nossas que podem ser trabalhadas.
É cansativo.
Mas depois torna-se também um automático.
Eu sei, assumir o poder pessoal é cansativo.
Sim, é muito mais fácil nós dermos a culpa do outro.
Claro. Eu sinto às vezes, por exemplo, questões muito específicas, quando eu estou em um processo de ansiedade ou com uma obsessão, e em vez de entrar naquele registro que eu entrava muito de: "Por que isso me está sempre a acontecer e vou estar sempre a pensar nisto e agora vou não sei o quê". Ter que fazer aquela pausa e dizer: "Ok, por que eu estou outra vez aqui neste sítio? O que eu não estou a fazer?"
Qual foi o gatilho, né? O que é que me levou aqui?
É cansativo.
Sim. Mas é construtivo. É a única forma de lidar com isso.
É o que eu digo. É cansativo, mas vale muito a pena do que estar sempre preso no mesmo sítio. Estavas a falar do exercício de gratidão. Há algo que eu fazia, que era parecido com esse. Como é que era? Porque eu fiz aquilo durante um tempo. Lá está, depois deixei de fazer. Se calhar também deixei de fazer porque me deixou de fazer sentido. Mas era agradecer por algo que eu tinha. Era apontar três coisas também, mas aspetos positivos do dia. Algo que eu fiz que tivesse corrido bem, algo que aconteceu que tivesse marcado meu dia e outra coisa qualquer do gênero. Eu já não me lembro bem do exercício, mas o que eu me lembro é o que este exercício promovia. Promovia de tu começares a reparar nos pormenores. E perceberes que às vezes quando tu estás nessa roda viva, há coisas que te acontecem boas que tu nem sequer reparas. E isso foi muito interessante.
E isso, exatamente por isso, porque o nosso cérebro Ele é programado para a sobrevivência. Então para sobreviver, ele está o tempo inteiro, 70% do tempo, à procura de ameaças.
Sim.
Então não consegue perceber.
Quer resolver problemas.
Então, o que é que posso estar aqui a ameaçar a nossa sobrevivência? Nós precisamos criar, nós não estamos só aqui para sobreviver, cérebro, para de ser tão rudimentar ainda. Nós não estamos aqui para sobreviver, estamos aqui para viver. Isto é uma das coisas que eu digo: não passei por um câncer para sobreviver ao câncer, passei por um câncer para eu viver a minha vida. E acho que nós estamos aqui todos para viver e não para sobreviver. E então criar estratégias de dizer ao nosso cérebro que nós estamos seguros. Então quando nós começamos a ter estes caminhos de gratidão, começamos a perceber coisas boas no nosso dia a dia que passariam batidas, porque afinal elas não foram um atentado à nossa sobrevivência. Então se não foi um atentado à sobrevivência, eu nem percebi o que aconteceu.
E é engraçado, coisas tão simples como: "Hoje estive 20 minutos a falar com a minha filha mais nova sobre não sei o quê". E tu pensas: "Que engraçado, isto foi fixe". E se calhar, se tu não estivesses atento a esses pequenos pormenores, lá está. Ou se eu não tivesse feito este exercício, isto ia me passar completamente ao lado.
Ou seja, esse caminho não está um monte de mato no meio.
Exato, é neuroplasticidade.
É neuroplasticidade, exatamente.
Tu crias novos caminhos neuronais, novas redes neuronais.
Então não começas só na tua lista do fim do dia, mas começas a perceber em estado de presença. "Olha que momento tão bom aqui com a minha filha. Vai depois para a minha lista à noite", se ainda a fizeres, vai para a minha lista à noite. Percebes no momento e não só quando fizeste a lista no fim do dia. Então isto quer dizer que o caminho está lá, está mais fincado.
Eu tenho essa mensagem na minha cabeça, eu vou ter mesmo que fazer alguma coisa. Que eu tenho essa mensagem na minha cabeça, que a minha vida ia melhorar bastante se eu fizesse determinadas coisas.
Então começa com uma coisa por vez e depois duas ou três semanas, depois pões outra.
Vai ter que ser.
Não é tudo de uma vez, não. Vai criando espaço.
Sim.
Criando espaço. Depois quando começas a sentir o benefício, porque uma das coisas também que as pessoas esperam, e acontece muito aqui nesta época do início do ano, que é esperar que a motivação venha para fazer a mudança.
Não, isso é uma coisa que eu já sei que não existe.
Só que o cérebro não funciona assim. Primeiro tu fazes. Primeiro, é como diria o Fernando Pessoa-
Desculpa, eu tenho a certeza absoluta que tu não estás todos os dias motivada para ir ao ginásio.
Não.
Claro que não.
Mas pouquíssimas vezes, já estou no automático.
Claro.
Estou no automático.
Eu agarro-me a uma coisa. Como eu te disse, eu não tenho ido agora porque estou constipado e eu faço Muay Thai. Então estou aleijado e não vale a pena estar a insistir.
Mas podes fazer uns alongamentos em casa para até aumento da imunidade.
Mas não é essa a questão. Lá está, também ouvir eu por mim, ia treinar. Só que eu penso: "Ouve também o teu corpo. Tens um dedo aleijado, estás constipado, aproveita, mas é para recuperar, para depois poderes treinar".
Até porque se te magoas mais, depois vais dar trabalho à tua família. A tua mulher é que vai sofrer com isso.
Portanto, mais vale aproveitar. Mas eu não me apetece ir treinar todos os dias.
Mas não é para perguntar.
Mas quando eu chego e às vezes até estou a treinar e estou: "Isto é tão difícil". Mas não há um único dia, e é isto que eu digo à malta, não há um único dia que eu não saia do treino e não diga: "Fogo, isto foi fixe".
Valeu a pena.
Valeu a pena.
Exato.
Não há um único dia.
E é isso que temos que nos agarrar. Porque o cérebro depois, que ele já vê o benefício, ele depois começa a te ajudar também a ir fazer. Mas sempre a mente vai dizer, porque o cérebro quer poupar energia. Então ele vai sempre dizer: "Não vás, para quê? Está frio, ainda está cedo, acabou de amanhecer".
"Come um chocoquinhos, vamos ficar aqui de shorts".
"Fica quentinhos", vai dizer um monte de coisas. Só que é isto que define, que distingue o que é um adulto maduro, também o que é um adulto mimado. Um adulto maduro faz aquilo que precisa ser feito. As crianças é que fazem só aquilo que querem. Nós adultos, há muitas coisas que nós fazemos e que não gostamos assim tanto. Dentro do teu trabalho também deve ter coisas que não gostas muito.
Claro.
E tem as coisas que gostas mais, mas as coisas que gostas mais valem os preços das coisas que gostas menos. Então é como tudo.
Aliás, eu pago este podcast com os trabalhos que eu gosto menos.
Pronto, exato.
Que é uma maneira também de pensar: "Olha, eu não estava sem fazer isto", mas vai buscar ali ao outro lado.
Sim, isto acontece muitas vezes até com pessoas que não gostam muito dos trabalhos que fazem e que só que é o que paga as contas e no momento não dá para mudar. Vai ter que desenvolver alguns talentos.
Mas esse trabalho que fazem dá para outras.
Ele permite para fazer outra coisa.
Se calhar ganham mais num trabalho que não gostam, mas esse ganhar mais dá para viagens.
Para fazer outras coisas que gostem. Trabalhar perspetivas sobre a vida. A nossa mentalidade também, nós temos que cuidar muito da nossa saúde mental também, da qualidade dos nossos pensamentos, a forma como vemos a vida e a forma como lidamos com os desafios.
Que mensagem é que tu gostavas de deixar a quem nos está a ver e ouvir?
Mais alguma?
Sobre aquelas práticas e aquelas dicas de ponto de partida, de arranque.
Sim. Olha, uma coisa agora que estávamos aqui até a falar, acho que é muito importante cada um perceber que nós temos um poder sobre a nossa saúde muito grande e que nós temos a tendência de delegar esse poder.
Sim.
E então se nós queremos viver, ao invés de sobreviver, nós precisamos fazer a nossa parte. É como, por exemplo, um navio. Há uma frase, acho que é do Mark Twain, que fala assim: "O navio não afunda por tempestade, por causa de uma tempestade. O navio afunda por problemas no casco". Eu tenho a responsabilidade de cuidar do meu casco para lidar com as tempestades. As tempestades vão existir. Nós não podemos controlar a vida fora de nós, mas nós podemos nos potencializar para a vida. Então nós temos que ir buscar hábitos, a todos os níveis físicos, mentais, emocionais, espirituais, para nos fortalecermos no nosso dia a dia, para termos a vida que nós queremos ter. E não é uma vida perfeita. Ninguém tem vida perfeita. Não é mudar tudo na vida, mas ter pequenas fontes de abastecimento de energia no nosso dia a dia, para que a vida seja uma vida e não uma sobrevida. Eu falo imensas coisas, eu dou imensas sugestões, faço imensas perguntas para autorreflexão, também. Lanço uma série de sementes para poder ajudar as pessoas e de forma humana. Não é de forma impossível e que tenha que fazer uma série de coisas. Não é isso, mas que possamos começar a fazer mudanças. Eu até hoje, eu comecei este processo de mudança há 13 anos, quase 14 anos, e ainda faço mudanças hoje em dia. Então isto é um processo contínuo.
Sim.
É um processo em evolução e que a pessoa seja mais suave consigo própria, mais amorosa, traga amorosidade para a equação. Menos julgamento, menos autojulgamento. Faça com amorosidade, com autorrespeito e sempre com o observadorzinho ligado para perceber os processos de oportunidade de cura. E abrace as emoções. Se, por exemplo, tem um medo, não é perder-se nas emoções, mas tentar acolhê-las, respeitá-las e usá-las como ponte para um relacionamento melhor com o mundo. Tenha silêncio, traga silêncio, valorize o sono, valorize uma alimentação anti-inflamatória a maior parte do tempo e perceber que tudo aquilo que nós fazemos tem uma expressão na nossa saúde.
E que coma frango no churrasco. De vez em quando, que não faz mal.
De vez em quando.
Vânia, muito obrigado por ter estado aqui. Vais voltar para casa. Está melhor tempo lá?
Lá está muito calor. Está demais. Eu estou aqui há um mês, também, já. Eu fico aqui entre Portugal e Brasil, meu coração está sempre
Podem acompanhar a Vânia nas redes sociais, no Instagram, podem procurar os livros da Vânia, o último, "Emoções que inflamam, hábitos que curam", Vânia Castanheira. Muito obrigado por ter estado aqui no "Somos Todos Malucos". Quanto a vocês, já sabem, continuem a acompanhar o podcast no Observador, em todas as plataformas de áudio, vídeo aqui no YouTube, e para a semana teremos, obviamente, um próximo convidado. Até para a semana, muito obrigado. Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza que somos todos malucos.