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Olá, sejam muito bem-vindos a mais um episódio de Terapia de Casal. Por que eu optei por me sentar melhor enquanto dizia Terapia de Casal e não antes de começar o episódio? Isso é uma questão que vai ficar para o futuro da história dos podcasts. O meu nome é Guilherme Fonseca, comigo está a minha querida esposa, Rita of the New, pessoa que está oficialmente proibida, a partir de hoje e para todo o sempre, de comprar blind dates.

Pois é, ainda não tínhamos falado isso aqui. Eu já tinha falado com a comunidade do Livret, mas ainda não tinha falado isto aqui.

Pois, mas também qual é a comunidade que tu preferes?

Os blind dates. Pois é.

Justifica-te.

Vamos justificar. Para quem não sabe, o conceito de blind date with a book, ou encontro às cegas com um livro, é quando vocês vão a uma livraria e compram um livro que está embrulhado, tem uma pequena descrição fora, não diz qual é o livro, e a ideia é que vocês, por aquela descrição que ali está, por aquela premissa, comprem o livro e vão num encontro às cegas.

É um quinta surpresa de livros. Tu chegas à livraria, ele está embrulhadito e diz assim: "Isto é uma história que se passa no futuro, tem uma mãe e um filho e tem ação".

Exatamente.

E tu digitas esse gênero.

E tu pensas: "Ok, vou".

Olha, vou arriscar.

Não sei se vocês sabem, mas eu sou muito fã deste formato de blind date with a book. Agora em Portugal já existe, mas durante uns anos não existiu, então sempre que eu viajava e havia livrarias que tinham blind dates, eu acabava sempre por comprar. Algumas eram boas surpresas, outras nem por isso.

Agora explica o que tem acontecido.

Agora, em outubro do ano passado, não sei se vocês se lembram, mas nós fomos a Edimburgo com os nossos amigos Sofia e Vítor, e eu e a Sofia, o Vítor também estava, por acaso. Fomos a uma livraria que eu gosto muito, que é a Golden Hare Books, que é uma livraria feminista. E lá estávamos e eu disse para a Sofia: "Olha, vou comprar um blind date".

O que é uma livraria feminista? Só vende autoras?

Não, é uma livraria que primordialmente vende autoras, mas que apoia mais livros com mensagens feministas.

Ok, já percebi.

E eu pensei: "Olha, vou comprar, vou levar um blind date, não sei". Saio da livraria com o blind date e penso: "Eu vou abrir, porque se eu já tiver este livro, é mais fácil vir trocar".

Claro.

Abro, já tinha.

Voltas para trás.

Volto para trás. Isto foi literalmente à porta da livraria, ou seja, eu desci as escadinhas, abro, volto para trás e digo: "Olha, eu já tenho este livro, é possível trocar ou eu posso..." É possível? E ele: "Sim".

Só devolver.

"Troco, troco, troco. Escolha outro blind date". Eu escolho outro blind date, saio, a Sofia diz: "É melhor abrires agora, porque se tiveres..."

Não vai acontecer a mesma coisa.

Não vai acontecer outra vez. Abro, já tinha. E já tinha lido. Entro na livraria, o senhor já estava a rir. E eu: "Olhe, desculpe, mas eu também já tinha este". E ele: "Ok".

No fundo, estás só a desembrulhar livros daquela livraria.

Eu estava a desembrulhar livros, estava a dar trabalho às pessoas. Fui buscar outro, acabo de pagar. Quando acabo de pagar, digo: "Olhe, isto é o não sei o quê de não sei quem". E ele: "É". E eu: "Olha, então eu vou ter que trocar, porque eu também já tenho". Já não me lembro se acabei por comprar um livro já sem ser blind date ou se lá acertei num blind date que eu não tinha.

Ok. Isso foi outubro do ano passado. Agora conta o que aconteceu quando voltaste a Edimburgo.

Não foi Edimburgo.

À Escócia, quando voltaste à Escócia.

Estávamos na Escócia, fomos a Fort William, que é uma cidadezinha.

Que tem uma livraria.

Que tem uma livraria muito gira. Tinha blind dates. Fomos aos blind dates e disse: "Esse sei qual é, pela descrição acho que é isso". Mas olho para um e digo: "Olha, eu este não sei o que será e tenho curiosidade".

E eu e a Sofia dissemos três vezes: "Certeza? Pensa lá bem se não leste nada", porque aquilo tem, como nós dissemos no início, coisas genéricas da descrição da história.

E eu: "Não, eu acho que eu este não li". Mas vou à caixa e digo: "Olhe, tem aí qual é o livro? Consegue saber no talão qual é o livro para eu mostrar ao meu marido, para ele dizer se eu já li ou não, porque eu tenho uma maldição com blind dates". E ela: "Olhe, não tem, mas é assim, pode vir trocar, caso seja".

Claro.

E eu: "Ok, está bem, não vai ser". Estava a chover, não abri lá fora, chego ao carro, abro, já tinha.

E não tinhas percebido pela descrição.

E não tinha percebido pela descrição. Já tinha e dois dias a seguir tínhamos que passar pela cidade para ir embora e eu fui lá. Assim que eu entrei com o livro, eu disse: "Olha, eu estive aqui". E a senhora: "Sei perfeitamente quem é. Já tinha, não é?"

Pois.

Eu disse: "Olha, já tinha, mas vou trocar por um livro".

Estás proibida. A partir de hoje.

Já me proibi a mim própria também.

Estás proibida, acabaram os blind dates.

Acabaram. E a senhora disse uma coisa que é verdade, que é: quando tu lês muito, a probabilidade de não teres lido os livros dos blind dates diminui.

Pois, mas tu estás a ler uma média de quantos livros por ano?

120, 130.

A probabilidade de acertar na porcaria dos blind dates das livrarias.

É muito grande. Mas eu cheguei a ter boas surpresas com os blind dates, porque houve uma altura em que as livrarias o que faziam era pôr em blind dates livros que não eram conhecidos.

Coisas que iam desperdiçar.

Mais antigos, exato. E acabava tendo boas surpresas, mas não aconteceu aqui. E agora, de repente, isto foram 20 minutos sobre a minha maldição dos blind dates.

Não, eu acho que isto é importante, é só porque tu tens que assumir para ti própria que acabaram os blind dates.

Acabou.

Já não vais a mais blind date.

Acabou a minha era dos blind dates.

Acabou, és uma mulher casada.

Exatamente. Sou casada com a minha lista de livros para ler e não vou andar aí por fora em encontros às cegas.

A agarrar pacotes.

Exatamente.

Sim, senhora. Pronto, era assim que eu te queria apresentar.

Muito bem, muito obrigada.

Onde é que nós estamos, Rita? Diz às pessoas.

Estamos em Londres.

Estamos em Londres. E as pessoas dizem assim: "Espera aí, mas Londres é onde mora o irmão do Guilherme Com a sua mulher, a Sara, e é lá que está a Alice, a sobrinha.

Não.

Não.

Não.

Trocámos. Eles foram para Portugal, nós viemos para cá.

Nós viemos para cá. Fizemos uma troca.

Home swap.

Home swap, exatamente. Sendo que eles não estão na nossa casa.

Tu lembras-te desse programa que havia, que era trocar mães?

Não.

Que era, numa família, acho que era da MTV, na altura em que a MTV se começou a transformar no TLC. E eles trocavam a mãe. Era uma família com imensas regras e uma família sem regras nenhumas, e trocavam as mães.

Não me lembro disso.

Não te lembras desse programa?

Mas essa ideia é muito gira.

Era muito giro.

Não me lembro desse programa. Não te esqueças que tu és quatro anos mais velho do que eu.

É, em quatro anos saíram imensos programas.

Não é isso, mas já vias coisas que eu não via.

Porno, ia assim.

Parvalhão.

O que eu ia dizer?

Estamos em Londres.

Trocámos, viemos para Londres. E viemos fazer o quê? Conta às pessoas.

Mas por que tem que ser eu a contar tudo hoje?

Está bem, então eu posso falar. Estás farta, não é? Devias ter gravado outro podcast agora antes e estás farta de falar.

Desculpa lá se aos domingos de manhã para mim é um estúdio de gravação de podcasts. Fala tu um bocadinho também.

Então nós viemos a Londres fazer aquilo que eu chamo uma overdose cultural, porque nós vamos estar cá cinco noites e em quatro fomos a quatro coisas culturais completamente diferentes. Primeira noite fomos ao cinema ver o "Super-Homem".

Podíamos ter feito em Portugal, mas aproveitámos que estávamos cá.

E há cá um cinema muito giro chamado Everyman Cinema, que tem jantarinho e que tem umas cadeiras confortáveis e foi uma experiência boa. Isso foi quarta-feira. Quinta-feira, Billie Eilish na O2 Arena.

Gostei muito.

Eu também gostei muito.

Mas temos de conversar sobre uma coisa.

Então eu já continuo o nosso périplo cultural.

Ok, vamos. É isso.

Vamos parando.

"Super-Homem", podemos começar por aí. Gostei muito, é muito gatinho. Muito gatinho o "Super-Homem" novo.

Por acaso eu não sei. O filme tem alguns problemas, mas eu até gostei, eu diverti-me. Mas eu não sei se não é o ensemble, que é assim que se diz na América, não sei se não é o cast de pessoas mais bonitas que eu já vi nos últimos anos. Porque o principal, a Rachel Brosnahan, o mau, o Nicholas Hoult, que é o Lex Luthor, neste caso, Sara Sampaio. Eu não sei se o agregado de atores não é o agregado de atores mais bonitos.

É a definição de tanto faz.

Exatamente.

Sabes? Olha, neste blind date saía sempre bem.

Ia de calhar qualquer coisa.

Calhava, eu desembrulhava. Olha, realmente já, mas está tudo bem.

Exatamente.

Mas achei muito gatinho o Super-Homem. A Rachel Brosnahan também acho muito gatinha.

Porra, ela é inacreditável.

Ela é lindíssima. Vi um meme muito engraçado de duas fotos dela a fazer de Lois Lane e alguém a dizer: "Esta Lois tem ar de quem já beijou mulheres". Porque ela tem. Tem bi energy, gostei muito.

Aquela coisa do coletinho e não sei o quê. Ela tem mesmo um ar de: "Olha, houve ali uma fase na faculdade em que eu não vou dizer nada".

Não, não tem de ser uma fase, pode beijar mulheres sem ser uma fase.

Não, quando o meme diz já beijou.

Sim, já beijou.

Não beija.

Pode beijar, mas já beijou.

Foi esse o meme que eu citei, já beijou.

Ok, pronto, não interessa. Achei giro, gatinho, muito gatinho o Super-Homem novo. Tem umas covinhas muito giras.

O gajo é tão bonito que o filme tem um cão e tu continuas a dizer que ele é bonito.

O cão é muito fixe.

Não te focas no cão.

Mas se tivesse um gato...

Pois, não, mas também não podes querer, o Super-Homem não é gato.

He is not a cat person. Pois não, é uma dog person 100%.

100%. O Super-Homem é dog person.

Pronto. Assim foi o cinema. Depois, Billie Eilish.

Nós aqui temos de fazer uma crítica, não à Billie Eilish, mas ao povo inglês.

Não só ao inglês, porque Londres é um sítio multicultural. Eu acho que é à geração mais nova.

Eu cresci a ouvir os artistas a darem concertos em Portugal e a dizer: "O português é o melhor público". E eu cresci muito cético, a achar: "Eles só estão a dizer esta merda, porque estão cá. Porque eles não estão noutros países a dizer que nós somos bons. Estão cá a dizer que nós somos bons. Claro, estão-nos a fazer grooming".

Claro.

O que se passa? Nós vimos Billie Eilish no MEO Arena há uns anos.

Em 2019, acho eu.

E agora vimos Billie Eilish no O2 Arena, em Londres.

Arena?

Arena.

MEO Arena ou O2 Arena.

Eu estou há cinco dias em Londres, eu já falo assim. O que é que se passa? Eu acho que nós somos o melhor público.

Nós somos o melhor público. Porque quando nós vimos a Billie no MEO.

Já nem dizes arena.

Arena.

No MEAltice.

É MEO ou Altice? É Altice.

Eu sei lá o nome.

Não interessa.

Diz Pavilhão Atlântico.

No Pavilhão Atlântico. O Pavilhão Atlântico veio abaixo quando a Billie entrou em palco.

Não, e mesmo a energia dos portugueses em concertos. Eu não sei explicar.

Tudo vai abaixo, as pessoas ficam loucas e saltam e dançam, etc. Aqui, apeteceu-me andar à chapada, porque primeiro, a O2 é uma arena incrível.

Pois é, é espetacular. E o palco é no centro.

Era isso que eu ia dizer. Todo o palco, os ecrãs, a iluminação, todo o palco, todo o espetáculo estava muito fixe. A Billie estava incrível, a saltar, toda contente, etc. E as pessoas estavam paradas.

Tipo a curtir o concerto como se estivessem no clube de jazz.

Ya, paradas.

Não consigo perceber. Mesmo o Bad Guy.

Ninguém saltou.

Oxytocin. Há imensas músicas da Billie Eilish que é de género. Mexe-te, o que estás a fazer?

Sim, salta. Então estávamos nós, os dois, depois na fila ao lado, também assim nos lugares da coxia, duas meninas britânicas, também a saltar imenso.

A curtir, mas essas estavam mesmo a curtir.

E éramos os únicos quatro na nossa secção inteira a curtir o concerto.

Não consigo perceber.

Mas eu já vi isto.

Eu acho mesmo, Portugal, nós somos o melhor público.

Mas não é só Portugal. Eu acho que é uma cena geracional. Eu acho que a geração mais nova que nós salta menos em concertos e vive menos os concertos.

Ok, isso é muito giro.

São menos expressivos nesse sentido.

Tu achas que a malta mais nova é menos física nos concertos?

Tu não viste isso no Live agora?

Mas o Alive não é um sítio de concertos, não me levas a mal. O Alive é um sítio de selfies, de marcas e de pulseiras.

Está bem, mas estávamos a ver Olivia Rodrigo. E mesmo fãs da Olivia Rodrigo estavam tipo: "Uhum".

Mas é que os festivais eu não julgo da mesma maneira, porque nos festivais há uma grande misturada. Ou és monge das grades, ou estás misturado com pessoas que querem o concerto a seguir, ou que vieram ver porque ouviram dizer que a Olivia Rodrigo é X.

Eu estava a falar das fãs mesmo, pessoas que estavam de t-shirt Olivia Rodrigo. Não estou a dizer o Zé Manel que calhou vir ver a Olivia.

Concordo contigo, mas mesmo isso era miúdas com os pais ao lado. Não é a mesma cena. Eu não consigo julgar a mesma energia.

Não, mas aqui tu pagaste. Percebe, aqui especificamente tu pagaste um bilhete para ver a Billie Eilish. E eu sei quanto é que paguei por aqueles bilhetes. Eu sei quanto é que paguei. Portanto, no mínimo, aquelas pessoas pagaram o mesmo que eu.

Sim, claro.

Ou se calhar pagaram mais porque compraram em revenda. Não sei. Também não quero estar a dizer como é que as pessoas têm de aproveitar. Nem toda a gente tem de ser igual. Mas fico mesmo chocada, porque mesmo lá embaixo, as pessoas estavam em pé, tu não ouvias muita gente a saltar.

Pois, a Billie Eilish chegava ao cantinho onde eles estavam, eles gritavam e filmavam. E depois a Billie Eilish afastava-se. Somos pessoas de pé a ver.

Ya, achei um bocadinho esquisito.

Havia uma vibe de pais que vão ao sarau dos filhos e têm que aguentar os outros meninos.

Ya, um bocadinho.

Estou aqui a ver, estou à espera.

Não sei, achei um bocadinho esquisito.

Eu também achei. A ideia que deu foi: a Billie Eilish deu sete concertos seguidos no O2 Arena e a vibe que deu foi: este é o mesmo público das sete noites, já estão cansados.

Já estão tipo: "Já dá-nos qualquer coisa nova, Billie."

Muito giro foi vermos pessoas a tentar entrar com bilhetes falsos, que é uma coisa que eu nunca tinha visto em Portugal. Deve acontecer, como é óbvio. Mas aqui, vimos na bilheteira, um gajo a tentar levantar os bilhetes com-

Um PDF falso

...com PDF de um Photoshop de bilhetes. E a senhora a dizer assim: "Por favor, isso é o que nós chamamos um bilhete falso, feito em Photoshop. Pode dizer, por favor, quem é que lhe vendeu esse bilhete?"

"Sim, o nome e o e-mail da pessoa para nós prosseguirmos criminalmente."

E ele assim: "Não vou dizer." E é do género: "Ya, então foste tu."

"Ya, tu é que fizeste."

"Ou pediste a um primo para fazer essa merda. Pronto, então adeus, até à próxima." É engraçado que eu nunca tinha visto pessoas a tentarem entrar com bilhetes falsos.

Sim. Mas o concerto foi muito divertido. Saltei imenso.

Gostei muito do concerto, achei a própria Billie também um bocadinho cansada.

Também estávamos na última noite de não sei quantas.

Sem dúvida nenhuma.

Já para o fim da tour.

Sem dúvida nenhuma, não estou a criticar. Diverti-me muito, foi um bom concerto. Da última vez que a vi, ela tinha o pé todo entaipado e aí não saltou mesmo de todo.

Ya. Estava com uma canadiana, não estava?

Estava. Andava com uma canadiana na mão. Uma senhora chamada Jéssica.

Uma senhora mesmo. Sim.

E pronto.

Foi muito divertido.

Foi um excelente concerto, gostei muito de ver Billie Eilish ao vivo.

Depois, no dia seguinte, fomos-

Então, quarta-feira, cinema. Quinta-feira, Billie Eilish no O2 Arena. Sexta-feira

Fomos ver "Romeu e Julieta" ao The Globe do Shakespeare.

Exatamente.

Mas versão western.

Pois é, no fundo é: imaginem o "Romeu e Julieta"-

Mas eles são cowboys

...com o texto do "Romeu e Julieta", mas eles entram e saem por uma porta de saloon e estão vestidos de cowboys e há tiros.

Ya, e há momentos de "Ihá!". Adorei.

E há uma espécie de um momento de line dancing. Lá pelo meio, a certa altura, no "Romeu e Julieta", há uma festa que os Capuletos dão e é onde o Romeu, que é dos Montagues, que eu não sei como é que se diz em português. É os Capuletos e os, como é que se chama a outra família?

Romeu e Julieta.

Os nomes.

Sabias que Romeu e Julieta é uma comida?

What?

É queijo com goiabada. Uau!

Chama-se Romeu e Julieta queijo com goiabada?

Sim.

Ok.

Montéquios.

Montéquios, é isso. Então, o Romeu, que é Montéquio, vai a uma festa na casa da Julieta, que é Capuleta. E vai mascarado. E nessa festa, como esta versão é western, eles dançam line dancing. Sentiste representada ou não?

Super representada, adorei, achei muito divertido. Nunca tinha visto "Romeu e Julieta" ao vivo. Nós, de vez em quando, quando vimos cá, gostamos de ir ver peças de Shakespeare em contextos diferentes. O ano passado vimos-

"Much Ado About Nothing"

...ou este ano.

Já foi este ano

Vimos "Much Ado About Nothing" em contexto pop com meio musical e não sei o quê, que adorámos.

Com o ex-namorado da Taylor Swift.

É verdade. Adorámos. Mas eu nunca tinha visto "Romeu e Julieta".

Eu também não. Há uma coisa que me surpreende na peça do "Romeu e Julieta", que é: tem muito mais piadas, tem muito mais humor do que eu achei, porque o Shakespeare tem tragédias e tem comédias. E normalmente as comédias são muito engraçadas. O "Much Ado About Nothing" que nós vimos é muito engraçado. É sobre uma mulher que não quer nada juntar-se com um gajo que está apaixonado por ela, e insultam imenso. No fundo, é a nossa-

Somos nós

...é a nossa dinâmica. O "Much Ado About Nothing" é sobre nós. Mas o "Romeu e Julieta" é uma tragédia. Não preciso de contar, toda a gente sabe o fim, é uma peça que tem 500 anos, não me lixem. Ou 400. Não me lixem, mas é uma tragédia. A quantidade de piadas que há, eu não tinha noção nenhuma.

Também não. Eu achei que ia ser uma cena muito mais dramática, mais "Macbeth". "Macbeth" tem algumas piadas, mas não é isto.

Exatamente. "Macbeth" é do género, é mesmo uma tragédia pesadona e tem uma ou duas piadas pelo meio. O "Romeu e Julieta" tem imensas piadas.

Tem imensas piadas. É muito engraçado.

Tem personagens muito engraçadas, tem pelo menos dois comic reliefs, sendo que um deles morre, coitadinho. Tem dois comic reliefs, mas mesmo o Romeu e a Julieta, que a Julieta é particularmente engraçada, tem muitas piadas.

Tem.

É muito engraçado quando ela manda a Nurse, que é uma espécie de camareira Da família a procurar notícias do Romeu e ela vai e depois volta. E ela é uma senhora muito gorda, grande, e ela vem a correr e ela diz assim: "Conta-me o que é que disse o Romeu?" E ela: "Ai, eu agora não consigo, que não tenho ar." "I'm out of breath." E a Julieta diz assim: "Como é que tu estás out of breath? Como é que tu dizes que estás out of breath?"

Não, tu tens ar para dizeres que estás sem ar, mas não tens ar para me dizeres a verdade.

É muito engraçado, toda a gente a rir. Surpreendeu-me o "Romeu e Julieta" ser uma peça com tanto humor.

Foi muito giro.

E é muito engraçado ouvir piadas com 500 anos. É muito engraçado.

Numa linguagem que não é a que nós utilizamos hoje em dia, mas que tu percebes.

Perfeitamente. Acontece-nos sempre a mesma coisa quando nós vamos ver Shakespeare. E eu acho que deve acontecer também quando as pessoas vão ver ópera ou teatro mais clássico, que é: nós começamos a ouvir o inglês, e uma coisa é uma pessoa ver séries, ler livros, ouvir música e perceber inglês. Outra coisa é o inglês clássico do Shakespeare, que é dito palavra por palavra pelos atores, que ao início é do género: "Não espera, eu vou ter que me concentrar para ver o thou e art e não sei o quê". Muito engraçado para mim, e tive vontade de me rir, é que hoje em dia diz-se punished. Eles diziam punished.

Ya.

Banished. E eles diziam banished. O que é banished? You are banished from this town.

Sim.

Banished.

É engraçado.

Punished.

Eu a certa altura na peça fiz um zoned out e estava a pensar: imagina decorar texto de Shakespeare.

Eu disse isso uma vez ao Bruno Nogueira. Estávamos a trabalhar no Tabu e eu estava a falar com ele, porque fomos vê-lo naquela peça chamada "A Morte de Mastram às". E eu estava a lhe dizer: "O que eu mais admiro nos atores não é conseguirem chorar, não é nada, é decorarem".

Não.

Como é que é possível decorar uma hora de texto?

Não, mas decorar uma hora de texto é uma coisa quando é a tua linguagem do dia a dia. Imagina decorares Shakespeare, especificamente.

Pois, porque estás a falar em arcaico, não é?

Sim, tens de decorar não só o texto, porque tu tens de compreender o que estás a dizer para decorar.

Sem dúvida.

Admiro imenso.

Mas é giro, porque o inglês, eu não sei se é de ser o arcaico, mas há coisas que ficam muito mais giras dito em inglês arcaico. A certa altura há um homem que leva uma facada na barriga e os outros dizem-lhe: "Como é que tu estás?" E ele: "Não tem mal, está tudo bem, isto não é tão profundo como um poço, nem está tão aberto como a porta de uma igreja."

Sim.

E é engraçado a maneira como aquilo é dito em inglês arcaico e parece, não sei explicar, eu percebo perfeitamente que a gozar as pessoas digam coisas em inglês arcaico e começa a parecer Shakespeare.

Sim.

Inglês arcaico agora parece Shakespeare. Percebe o que eu quero dizer?

Sim.

É muito giro. Eu gostei muito de ver o "Romeu e Julieta".

Também adorei.

E é engraçado ver a maneira como as pessoas veem "Romeu e Julieta". Havia pessoas a ver aquilo como se estivessem a ver a novela.

Ya.

Mãos na cabeça.

Mão no peito.

Mão no peito a sofrer.

Sim. Como aquilo é no Globe, há uma altura em que a varanda da Julieta aparece no meio do público, numa espécie de carrinho.

Ela é elevada no carrinho.

Ela é elevada no carrinho. E as pessoas ficam no meio, entre o palco e esta estrutura, e há pessoas que ficam no meio. E estava uma senhora muito engraçada, que havia uma conversa entre o Romeu e a Julieta, a agarrar o peito, e parecia que estava a ver ténis, porque o Romeu falava, ela olhava para o Romeu, a Julieta falava, ela olhava para a Julieta.

Com a boca aberta.

"Ai, meu Deus, e agora?"

Muito giro. E o Romeu e Julieta eram uns putos.

Ya.

E o Romeu até tinha uns tiques nervosos de piscar os olhos.

Sim, mas muito bons atores.

Excelentes.

Adorei.

Tu estavas toda irritada com o Romeu ao início.

É um manchild.

Também ela. Atenção, é preciso uma pessoa lembrar-se que "Romeu e Julieta" é uma história de amor com uma rapariga com 14 anos.

Ya.

A Julieta tem 14 anos.

Ya. A Julieta devia estar a brincar com as Barbies.

14 anos.

Ya.

E o pai obriga-a a casar.

Ya, tipo: "Olha, já vais tarde, ó minha menina".

Não, mas isto é outros tempos, também.

Exatamente. Estamos a tentar ver com os olhos de hoje.

Muito engraçado ver a maneira como as pessoas veem a peça. Havia lá um senhor asiático que estava com o texto do Shakespeare.

A acompanhar.

A acompanhar o Romeu e Julieta à medida que eles falavam ou a ler. Deve ser muito giro fazer isso também. Porque há imensas coisas que se perdem no meio da-

Da pronúncia, até

...e da linguagem. Imensas coisas que eu não percebo, o fraseamento só de olhar. Tu percebes a história, porque é em inglês, mas há imensas coisas ali que eu não percebo. Estavam lá senhores mais velhotes, que claramente vão ver tudo que é do Shakespeare live, já devem saber as peças decor. Eu tenho muita curiosidade em ver mais peças do Shakespeare, porque mesmo as mais conhecidas que nós não conhecemos e que nunca tínhamos visto, como o "Romeu e Julieta", eu nunca tinha visto encenado, mas há outras que eu nunca.

Sim, nem sequer o "12th Night".

"Noite de uma Noite de Verão".

Sim, eu essa acho que já vi uma vez. Não sei se foi um concerto inspirado, se foi a peça mesmo, mas em português. É diferente.

Pois, não sei.

Muito bem.

E depois, sábado.

Sábado fomos a Comedy Club.

Exatamente, comprei bilhetes para a Comedy Store, para irmos os dois lá ver stand up. Não apanhámos ninguém que eu conhecesse, só um humorista que até já vimos no "Taskmaster" e tudo, mas nem nos lembrávamos dele, que é o Paul Sinha, que como ele diz, he checks a lot of boxes, porque ele é gay, imigrante, tem Parkinson.

Já teve não sei quantos ataques cardíacos.

Dois ataques cardíacos no Fringe. Muito engraçado. O que tu achaste da experiência de ir a um Comedy Club?

Eu gostei muito. Quer dizer, eu vou a Comedy Clubs, não é como se tivesse sido a primeira vez. E achei, primeiro, a experiência de ir a um Comedy Club em Londres versus ir à Comedy Cellar em Nova Iorque, é muito diferente, porque o ambiente é o mesmo, a sala até é muito parecida, em termos de estrutura.

Eu acho que esta sala, a da Comedy Store em Londres, é quase a sala perfeita para comédia. Quase, em termos de estrutura. O Cellar eu acho que é perfeita, esta é quase. As salas são mesmo feitas de propósito para stand up.

São muito parecidas. Só que tu quando vais a Nova Iorque ao Comedy Cellar Os seguranças são brutos como as casas. É tipo: "ID." "Sim."

É à americana, não bulices.

"A mala." Com cara de cu. Aqui era um senhor igualmente grande, igualmente com ar de mau, mas nós chegámos e dissemos: "Desculpe, posso tirar uma foto do alinhamento?" E ele: "Não, claro que pode. Claro, tira uma foto do alinhamento."

Sim. Eram gigantes simpáticos.

E era tipo: "Desce, lá embaixo está o meu colega para picar os seus bilhetes."

E depois o cara que nos vai sentar esteve o tempo todo a dizer piadas, ele levei um livro enquanto esperávamos e ele estava a olhar: "Estás a ver o quê? Isso é o quê?"

Ya. E ele a falar das minhas tatuagens, a dizer: "Gosto muito mais assim de pequenas tatuagens juntas do que uma grande manga. Adoro, que tatuagens giras." Tipo, muito queridos. Portanto, só essa experiência versus aquela que já tinha tido em Nova York é bem diferente. Em Portugal não comparo, porque não tens esta estrutura de teres um segurança à porta, é diferente.

Sim, de ser sentado.

Sim, não é igual. E gostei muito, acho que todos os comediantes são muito sólidos, apesar de lá ser muito difícil.

Nós vimos um MC, quatro comediantes, sem ser demasiado técnico, mas vimos quatro comediantes a fazer 15, 20 cada um e um MC que fez o seu papel na perfeição.

Perfeição, perfeito mesmo, muito divertido, não foi bruto com ninguém, apesar de ter americanos com quem falou e, portanto, podia ter ali...

Não, temos de falar disso. Ele disse: "Tu és de onde?" E a pessoa com quem ele estava a falar do público disse que era americano. Bem, um bu geral.

Eu até fiquei com pena do rapaz, não é por ele ser americano, eu percebo, mas ele claramente é só americano, coitado, nasceu na América, não tem culpa de ser americano.

A certa altura falou-se de Israel num dos sets, uma piada lá no meio.

Sim, e ninguém fez bu.

E houve bu, mas não houve o bu que ouvimos com o americano. Eu acho que foi metade ter graça estar a dizer bu ao americano, metade raiva dos americanos, chatos do caralho, saiam daqui. Mas pronto, surpreendeu-me.

Mas gostei muito, acho que foram os quatro muito sólidos. Diverti-me muito com eles e gostei muito.

Foi divertido.

E foi bom ir às 18h30.

18h30 foi perfeito, acaba às 20h30.

Vamos jantar.

Depois fomos a um Five Guys. Mas foi perfeito porque começa às 18h30, tem um intervalo de 10 minutos, tens uma segunda parte que acaba às 20h30, tudo contadinho. A sessão seguinte era às 21h30, portas abrem às 20h30 e tu sentas-te e vais bebendo. Qual foi o meu único problema? É que os ingleses, ainda por cima fomos a um sábado. Os ingleses vão bebendo e na segunda parte...

Estavam altamente bêbados.

Estavam completamente bêbados. De barulho, de meio conflituosos, a guinchar e a gritar. O descontrole que foi a segunda parte em termos de bebedeira.

Não, e não justifica. Sabes, não justifica.

Porque são 19h30 de um sábado.

São 19h30 de um sábado. Depois quando saímos, acabámos de jantar tipo 21h30, vimos inglesas bêbadas, quase a cair para o chão.

E nós a olhar para o relógio.

São 21h30, malta.

Parecia Tóquio.

Está a dar a telenovela.

Ya.

Está a dar a telenovela.

Não, eu acho que ainda nem começou a novela, ainda está a acabar o telejornal.

Parem, conectem-se com as vossas emoções. Sabes? Olhem para dentro de vocês, vocês têm coisas para resolver. Mas não é assim, não é com álcool.

As pessoas bebem para não terem que ouvir as vozes que estão lá dentro.

Nossa Senhora, ser terapeuta no Reino Unido deve ser...

Ou uma mina de ouro, ou terrível, porque não tens trabalho.

Muito bem. Foi assim a nossa semana cultural.

Foi uma semana cultural, foi cinema, foi concerto, foi Shakespeare, foi stand-up. Foi excelente. Eu gostei muito. Vir cá injetar diretamente para a veia cultura, incluindo stand-up comedy, foi excelente. Vamos voltar para Portugal. E tirámos também, acho eu, ideias para terapia de casal ao vivo, ou não?

Sim, se calhar.

Eu acho que tirei vibes, tirei ideias, tirei coisas, desde o Shakespeare até à O2 Arena.

Há aqui coisas.

E atenção, estou a falar sério, acho que se tiram coisas.

Não, como é óbvio. Sabes que uma das coisas que mais me faz confusão, sobretudo em pessoas que são, vamos pôr na caixa de artistas.

Está bem, eu vou aceitar por motivos de...

Por motivos gerais, por motivos de generalização.

Ya.

Mas uma coisa que me faz muita confusão é pessoas criativas e artistas que não consomem arte e criatividade de outras pessoas e que não se expõem. Por exemplo, a mim faz-me muita confusão quando vou a apresentações de livros de outros autores e não estão lá outros escritores. Da mesma forma que quando vamos ver stand-up comedy, faz-me confusão no público não estarem stand-up comedians, não estarem comediantes, não estarem pessoas que querem melhorar a sua arte.

Eu essa conversa tenho vontade de a ter durante mais 15 minutos de episódio.

Eu sei, não é aqui.

Mas eu adorava tê-la, porque eu comecei a aflorar esse tema com o Ricardo Araújo Pereira no "Má Ideia". Vão ouvir um podcast chamado "Má Ideia", que tem lá um episódio com o Ricardo, em que eu também falo disso. Eu acho, e já tive esta conversa contigo e tive com a minha terapeuta. Eu acho fascinante pessoas que trabalham numa área artística, e não tem que ser artística, tu podes ser contabilista, podes ser dermatologista, podes ser o que tu quiseres. Mas pessoas que trabalham numa área, no meu caso, eu vou dizer artística, e não têm curiosidade sobre essa área. É fascinante para mim. No outro dia eu estava a falar com uma pessoa de uma área e eu disse assim: "Tu já viste estas pessoas que andam a fazer isto no YouTube? Que isto até tem graça, são uns putos novos. Já viste como é que eles fazem isto, põem este vídeo?" E a pessoa disse-me assim: "Não, não conheço isso." Vamos bloquear? Não queres saber? Tu não tens curiosidade de o que é que os humoristas falam nos comedy clubs, que solos é que estão a sair agora, quais são os temas que as pessoas falam, como é que se começa, por exemplo, notar trends. Falei disto no "Má Ideia" também. Tu vês os solos de stand-up comedians dos anos 70 e 80, e eles começam, entram em palco, fazem um bocado de crowd work com as pessoas que ainda estão a sentar. Hoje em dia os solos começam com as pessoas já em palco e a começar em uma piada, não tens as entradas. Esse tipo de coisas não é giro de ver? Como é que as coisas evoluem, o fato de agora a comédia ter sempre uma mensagem no final, os humoristas acabam sempre com uma mensagem mais pessoal ou mais dramática Que era uma coisa que há 10 anos não existia.

Não acontecia. Mesmo só no processo de escrita. Quando nós fomos a Edimburgo e fomos ouvir a V.E. Schwab falar. Eu saio destas coisas com a sensação de: caramba, nunca vou ser tão boa, mas agora quero tentar.

Claro.

E eu acho que isso é tão interessante quando tu crias alguma coisa, quando o teu trabalho é criar conteúdo, seja literário, seja o que for, tu ires consumir e não só diretamente a tua área, mas outras áreas que também te podem inspirar e influenciar.

Claro, a criatividade. Tu nunca sabes de onde é que te vêm as ideias ou de onde é que vêm as coisas que tu queres.

Mas para mim é importante expor-nos a isso. E faz-me confusão pessoas que não se expõem.

Ya. Há pessoas que se bloqueiam completamente, não fazem ideia do que é que os outros estão a fazer, não consomem no sentido de ver coisas, estar a par, estar a ver solos, estar a ver comédia. Imagina um escritor que não lê.

Exato.

Ou um músico que não está a par das bandas que estão a sair agora, do que é que as bandas estão a fazer, que tipo de música que sai, que não vai a concertos. O que estás a fazer? Como é que tu dizes que trabalhas numa área-- porque tu vês os gajos que tu admiras e que têm, de facto, carreiras longas e que são pessoas dedicadas na sua área, eles estão completamente a par.

Sim.

O Stephen King lê todos os dias e está a par dos novos escritores que estão a sair agora. Os humoristas de topo têm perfeita noção de jovens que estão agora a começar. É fascinante para mim pessoas que se bloqueiam completamente criativamente.

E que ficam na sua ilha e é tipo: "Eu não preciso".

Não preciso ou nem quero.

Sim.

Porque tu podes não precisar, mas não quereres, para mim é muito pior.

Sim, é um bloqueio de curiosidade que eu não entendo.

Se tu és escritor, tens que ter gosto em ler. Se tu és comediante, tens que ter gosto em ver stand up.

Não, em ver stand up, em perceber processo criativo, em ouvir as pessoas a falar sobre a sua arte, sobre a maneira como constroem a sua arte, isso para mim é super importante. Portanto, não entendo pessoas que não têm essa curiosidade, não entendo, genuinamente. Mas acho que isso daria todo um episódio.

Atenção, vamos parar já.

Vamos parar.

E ainda para mais.

Podemos ir a um e-mail, só para não estarmos só a falar da nossa vida e desta semana. Eu sei que tu gostas que seja menos tempo, mas vamos só a um e-mail.

Então escolhes tu qual é que queres.

Eu quero ir ao e-mail da alemã.

Da Eva Braun?

Eu adorei este e-mail, da Eva Braun.

Então força, dale aí.

Porque o e-mail chama-se superioridade da raça alemã.

Muito bem. Até agora estou a concordar com tudo.

Este e-mail é super direto, mas eu acho que tem muito pano pra mangas.

E é da Eva Braun.

É da Eva Braun, que era a mulher do Hitler. Desculpa, pessoa que mandou este e-mail, não queríamos, mas achámos graça, superioridade da raça alemã.

Acho que ela vai achar graça.

"Olá, Rita e Guilherme, espero que estejam bem. Escrevo-vos à procura de um diagnóstico. Só me interesso por alemães."

Ok.

"Nos últimos dois anos estive com três alemães e foram das melhores conexões que eu já tive. Pelo meio, até tentei dar uma chance a um português, mas não consegui ter atração. Isto não seria um problema se: um, eu não vivesse em Portugal, o que faz com que sempre que me envolvo com um, ele acaba..." Espera, desculpa, eu estou a tentar ler. Repara como está escrito. "Eu não vivesse em Portugal, o que faz com que sempre que me envolvo com um, ele acaba." Por isso é que deu-me aqui.

Acaba, ele acaba?

Acaba, ele acaba. Desculpa. "...com um, ele acaba por voltar para o seu país." Portanto, ela é portuguesa, mora em Portugal, quando se envolve com um alemão, ele depois volta pra Alemanha.

Vai para a terra dele, claro.

"Eles não fossem seres muito enigmáticos e frios."

Eu acho que é isso que há. Mas está bem, já vou à minha.

Não há assim tanta oferta de alemães. E ela diz que vota no partido que trouxer mais nômades digitais para Lisboa, pede desculpa pela especulação imobiliária.

Muito bem. É possível, deve ser aí ele.

Exato. O que é que faz? Muda de país? Muito obrigada pela vossa ajuda e um grande beijinho.

Olha, eu tenho aqui...

Eu adoro este e-mail.

Eu também gosto muito deste e-mail. Obrigado, Eva Braun, por teres explanado o teu amor por alemães aqui.

Danke.

Danke schön. Agora, o que é que há aqui? Eu tenho várias perguntas para fazer. Têm que ser mesmo alemães ou pode ser um português que fale alemão fluente?

Eu acho que tem de ser alemão. Eu acho que a vibe dela não é a língua alemã. A vibe dela é...

A personalidade alemã.

A personalidade alemã. Mas sabes uma coisa que me faz confusão neste e-mail, e gostava que tu tentasses explicar se souberes, que é: ela diz que sente uma grande conexão com eles, mas depois eles são pessoas muito frias e distantes.

Sabes o que é? É porque os homens alemães são como um teste de Rorschach. Como eles são muito pouco expressivos, são muito frios e muito fechados sobre si próprios, como ela própria diz, misteriosos, ela consegue olhar para lá e ver lá a relação ou a resposta que ela quiser. Eles não são latinos no sentido de terem sempre as emoções aqui à boca...

À flor da pele.

À flor da pele, as coisas não lhes saem pela boca e então ela tem que interpretar.

Há ali essa margem, não é? É o que ela quiser que ele seja.

Porque ele hoje está muito calado. Eu estou a interpretar, de que maneira é que eu interpreto isto? Ele está apaixonado por mim? Está chateado? Está com diarreia? O que é que é?

Essa é a parte emocionante, não é?

Exatamente.

Não é um latino que está tipo: "Ai, tu és tão linda".

Eu amo-te, não sei o quê. Pois, e eu acho que ela gosta dessa...

Gosta da luta.

Ela experimenta andar com um mudo. Vamos deixar esta pausa aqui.

Eu não gostei deste.

Não gostaste?

Não.

Várias perguntas. Ela gosta de homens misteriosos. Têm que ser alemães? Não pode ser um homem misterioso, loiro, de olhos azuis?

É que eu também não acho que seja o ser loiro de olhos azuis.

É o quê? É a farda nazi. Será isso que ela curte?

Não sei, eu acho que ela tem um fascínio com os alemães, olha.

Ela quer ser invadida. Ela devia chamar-se Antônia, porque o que ela quer é ser invadida pelos alemães.

Olha, eu acho que terminamos aqui. Terapia de casal.

Por que ela não vai pra porta da embaixada alemã?

Eu acho que é uma grande ideia. Embaixada alemã Vai para o aeroporto, para as gates dos voos para a Alemanha.

Porque é que ela não dá explicação de português a alemães? Olha a quantidade de alemães que ela vai conhecer.

Porque é que ela não dá a sua língua aos alemães?

Ensinar a língua, para começar pela dela.

Sim.

Temos aqui três ideias. Ir para a porta da embaixada, dar aulas de português a alemães, vai pôr papelinhos na embaixada ou em grupos de Facebook, ou não sei onde é que os alemães se encontram. E ela vai lá e diz assim: "Eu dou explicações de português a alemães, venham, eu explico-vos tudo."

Ou então podes mudar de país.

Então vai para a Alemanha. O que ela está cá a fazer? Os portugueses não lhe deixam o pipi aguado?

O pipi aguado.

Mas não é?

Ai. terapiadecasalpodcast@gmail.com é onde vocês podem enviar os vossos e-mails de dúvidas, como fez a nossa querida Eva Braun/Polónia. Peço imensa desculpa pela forma como as coisas terminaram, começou muito culto, acabou com pipi aguado, não sei como é que... E peço desculpa ao Observador por ter feito parceria connosco.

Pedi desculpa ao Observador pela expressão pipi aguado. Não vou pedir desculpa. Eu acho que eles se riram. Eu acho que as pessoas do Observador riram.

Eu peço desculpa.

E queria também dizer que além de terapiadecasalpodcast@gmail.com, que é onde vocês podem enviar os vossos e-mails, vão a ticketline.pt. Nós já não estamos no top, saímos do top. Subimos ali até ao segundo lugar, só estávamos atrás das festas não sei quê, não sei mais da onde, da Santa não sei quê, e agora já saímos do top.

Vão pôr-nos no top outra vez.

Mas Leiria, pouquíssimos bilhetes. Porto vai a andamento, eu nem acredito que nós se calhar vamos mesmo esgotar aquilo.

Enfim.

Eu acho difícil, mas vamos ver. Lisboa, terceira sessão, sala já vai a meio. Eu não sei do que vocês estão à espera. Portanto, olha, ticketline.pt e terapiadecasalpodcast@gmail.com é onde vocês podem mandar as vossas ideias.

Olha, e até para a semana, também é assim, também há essa.

Também há essa e mantenham o vosso pipi aguado, que isso é o mais importante.

Não, Guilherme.