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Este é o "Tratar da Saúde" da Rádio Observador, sempre com a doutora Vanessa Mendes, diretora clínica dos Centros de Saúde CUF. Doutora, bom dia. Bem-vinda.

Bom dia. Obrigada.

Sente frequentemente a barriga muito inchada ou alterações do trânsito intestinal, ou sente desconforto depois das refeições, mas já se habituou? Não está sozinho. Um estudo recente em Portugal, "A saúde intestinal dos portugueses: um território por explorar", mostra que estes sintomas são muito mais comuns do que pensamos. Doutora Vanessa, o que mais revela este estudo?

Este estudo veio evidenciar uma realidade com a qual muitos ouvintes se irão, com certeza, identificar. Cerca de 45% da população entre os 18 e os 65 anos refere sintomas intestinais frequentes. E aqui falamos de distensão abdominal, como a Maria João falou, a barriga inchada, a flatulência, alterações do trânsito intestinal ou até mesmo dor abdominal. Mas o dado mais relevante é outro. A verdade é que muitos convivem com estes sintomas durante anos e acabam por considerá-los normais. E esse é, de facto, o principal problema. O estudo evidencia até uma baixa literacia em saúde intestinal, atraso na procura da avaliação médica e um impacto muito significativo na qualidade de vida. Ou seja, os sintomas estão presentes, mas muitas vezes não são reconhecidos como algo que deve ser valorizado clinicamente.

Era o que eu dizia, são normalizados. E isto, claro, tem impacto real no dia a dia, não é, doutora?

Muito significativo. Muitas pessoas acabam por adaptar o seu dia a dia aos sintomas, ou seja, evitam determinados alimentos, organizam a rotina em função do funcionamento intestinal e vivem com desconforto persistente, sem reconhecer que esta situação deve e pode ser avaliada clinicamente. E isto é particularmente relevante porque o intestino não é apenas um órgão digestivo, como também vamos falando. Está intimamente ligado ao sistema imunitário, comunica de forma direta com o cérebro, através do famoso eixo intestino-cérebro, e tem um papel importante também na regulação da inflamação, do metabolismo e até do humor. Portanto, quando o intestino não está equilibrado, o impacto pode ir muito além da digestão.

E qual é o maior erro que estamos todos a cometer?

O que acontece com frequência é a normalização dos sintomas. Muitas pessoas assumem que é do estresse ou que sempre foi assim, e adiam a procura de ajuda. E este estudo mostra precisamente isso. Existe uma tendência para se habituarem ao desconforto e deixarem de o valorizar do ponto de vista clínico. Mas sintomas persistentes não devem, de todo, ser considerados normais. E, portanto, na maioria dos casos, estamos perante uma situação multifatorial, que pode envolver uma alimentação pobre em fibra, estresse crónico, alterações da microbiota intestinal ou até o uso de determinados medicamentos. E em alguns casos, pode estar também associada a condições específicas, como é o exemplo do síndrome do intestino irritável. Por isso, a avaliação deve ser sempre individualizada, de forma a identificar a causa e orientar corretamente o tratamento.

E quem se identificar com estes sintomas que acabou de descrever, o que deve fazer, doutora?

O primeiro passo é simples e é fundamental: não normalizar sintomas que persistam. Existe uma tendência para nos habituarmos ao desconforto e deixarmos de o questionar. No entanto, é importantíssimo reforçar que o que é frequente não é necessariamente normal. Portanto, o organismo vai nos enviando alguns sinais e o intestino é muitas vezes um dos primeiros a manifestar alterações. A partir daí, é essencial rever hábitos de vida, nomeadamente a alimentação, a qualidade de sono, gerir melhor o nosso estresse e, sempre que necessário, procurar avaliação médica. Porque tratar dos sintomas sem compreender a causa raramente é eficaz. E ignorar também sinais apenas atrasa o diagnóstico e uma intervenção adequada.

tratardasaude@observador.pt, para onde pode enviar as suas dúvidas. Se preferir, também pode enviar áudio por WhatsApp 910024185. Doutora Vanessa Mendes, até amanhã.

Até amanhã.