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E hoje há ouro, não há? No Três Histórias.

Há ouro. Hoje temos uma campeã olímpica nos Jogos Olímpicos de Inverno envolvida numa fraude e que conquistou ouro, um defesa que levou um amarelo por amor e um jogador que fez 22 horas de carro para não andar de avião e que mesmo assim perdeu. É a vida. Vamos à primeira história.

Vamos ao ouro.

Vamos ao ouro. Julia Simon. Isto foi já na semana passada, nos Jogos Olímpicos de Milano Cortina. É assim?

É, Milano Cortina.

Milano Cortina 2026. Julia Simon, biatleta francesa, ganhou o ouro na prova individual de 15 quilômetros. Normal, alguém tem de ganhar o ouro. Qual é o problema? Meses antes dos jogos, eu acho que cheguei a falar aqui desta situação, Julia Simon foi considerada culpada por usar indevidamente o cartão de crédito de uma colega de equipe para fazer compras online.

Ah, malandreca.

Ela no início não assumiu, recusou, rejeitou a acusação. Disse que não sabia de nada, não tinha sido ela, não se lembrava de nada. Mas não foi isso que o tribunal determinou. A consequência: teve uma multa pesada, pena suspensa e um castigo disciplinar. Mas, mesmo assim, teve a oportunidade de competir. Não foi afastada da equipe, se calhar porque tinha boas hipóteses de chegar aos primeiros lugares. Talvez tenha sido isso. E competiu na semana passada na sua prova e ganhou. Quando cruzou a meta, Julia Simon, é preciso ter autoconfiança, porque fez o gesto de silêncio para o público.

A sério?

Como quem diz: "Olha, agora falem lá." É verdade. Agora, há outro pormenor interessante: é que a vítima da burla, a outra atleta francesa, também participou nos Jogos Olímpicos e acabou no 80º lugar. Às vezes o crime compensa.

Muito lesada.

Duplamente lesada. Não só viu o seu cartão de crédito a ser usado para compras online, se calhar foi para comprar uns esquis.

O que comprou? Não sabes.

Não sei se calhar foi um gorro. Não sei. Espero que tenha sido equipamento.

Ou é o equipamento com que ganhou os Jogos Olímpicos.

Sim, era melhor. Bem, foi uma vitória muito discutida, não propriamente por aquilo que se passou na competição, mas por aquilo que tinha acontecido antes.

Muito bem.

Vamos agora continuar em França com a história de um futebolista, o defesa Anthony Caci, que atualmente joga no Mainz, mas na altura estava no Estrasburgo. Na altura está há quatro, cinco anos, e que fez algo que muitos pensam fazer e fazem, mas raramente assumem, que é ver um cartão amarelo de propósito. Isto já deu muita polêmica. Às vezes são os próprios treinadores que dizem aos jogadores para levar um amarelo para ficarem suspensos num jogo aparentemente mais fácil e depois ficarem resguardados para jogos mais complicados. Acontece muitas vezes. Há muita polêmica, mas ninguém assume que o faz, mesmo que faça. Agora, por que esse jogador decidiu levar um cartão amarelo? Foi para se poupar para um jogo importante? Não. Foi para estar com a namorada.

Parece uma boa razão também.

Não é? É o amor. Ainda passamos agora o 14 de fevereiro, dia dos namorados.

Pois, em França o amarelo é a cor da traição, portanto ele traiu a equipe para estar com a namorada.

Mas não traiu a namorada.

Não, mas traiu a equipe e a disciplina. Boa.

Ele estava à beira da suspensão, ou seja, mais um cartão amarelo e ficava suspenso. E ele queria mesmo ficar suspenso.

Dava-lhe jeito.

Dava-lhe muito jeito para passar aquele fim de semana com a namorada. Isto já foi há quatro, cinco anos. Aos 16 minutos do jogo, na altura do Estrasburgo contra o Nantes, ele fez a chamada falta cirúrgica. Levou o cartão amarelo, até protestou para dar mais realismo à coisa, para ser mais convincente. Tinha sido acidental, protestou contra o árbitro. Podia ter levado um vermelho pelos protestos.

Ficava mais tempo com a namorada.

Mais uma semaninha. Se calhar tinha de voltar para os treinos. E agora, anos depois do sucedido, ele contou tudo e diz que não se arrepende. Ainda bem, o amor acima de tudo. Hoje ele tem um filho. O casal continua com a namorada. Ainda bem. Provavelmente, se não continuasse, iria dizer que estava arrependido de ter levado esse cartão amarelo. Mas isto é que são faltas inteligentes. Aquilo que se diz uma falta inteligente.

Pois.

Porque há valores mais altos que se levantam.

Normalmente, as faltas inteligentes são aquelas que evitam um gol certo. Esta também.

Esta também. Se calhar para o clube não foi muito inteligente, mas para ele, pelos vistos, foi. Continuamos em França para acabar.

Estás muito francófono hoje.

Hoje temos aqui o lateral Fabian Santos, do Nantes, que tem medo de andar de avião. Não é assim um medo tão raro.

Não viu um holandês.

Era o Dennis Bergkamp.

É isso.

Dennis Bergkamp não ia para lado nenhum. Ele chegava a fazer viagens de comboio longuíssimas na Liga dos Campeões para poder jogar, porque se recusava a andar de avião, tinha mesmo uma fobia. E Fabian Santos também tem uma fobia de andar de avião. A equipe teve de ir de avião para o Mônaco e ele recusou acompanhar a equipe. A solução foi de carro. Foi de carro, mas é uma viagem de 11 horas. E depois ele foi, à mesma.

Não foi ele a conduzir.

Não deve ter sido, calculo que não. Portanto, enquanto os colegas estavam a fazer o check-in, ele estava na estação de serviço a abastecer. Ou ele ou o motorista, não sei. Chegou, jogou, ou seja, tudo bem até aqui. Até marcou o único gol da equipe. Só que o Nantes perdeu 3 x 1, mas marcou o único gol da equipe.

Chegou, viu e venceu.

Chegou, viu e perdeu.

E marcou. Chegou, viu, marcou e perdeu.

Marcou e perdeu. A equipe perdeu 3 x 1, mas ele agora pode dizer: "Olha, estão a ver? Eu cheguei, fiz uma viagem de 11 horas, ainda marquei o gol. Para a próxima vou todos de carro."

E vocês aí do aviãozinho.

Ficaram todos relaxados. Ele não, ele ia muito atento.

E depois ainda teve mais 11 horas de viagem de regresso.

Mas ainda há essa. É que ele podia, com esta viagem, ter perdido o medo, mas não. Depois foram mais 11 horas para regressar a casa e ainda por cima, eu não sei se com a sensação de dever cumprido, porque por um lado ele cumpriu o dever dele, marcou um gol, mas a equipe acabou por perder. Ou seja, evitou a turbulência aérea, mas não evitou a turbulência defensiva. Três gols sofridos. Eu não sei se por acaso ele teve responsabilidade em algum dos gols. A verdade é que ele marcou. Não sabemos se isto vai mudar daqui para frente a sua perspectiva de viajar de avião, mas para os colegas também está aqui uma lição. Às vezes uma viagem de 11 horas até pode ser boa para despertar e marcar um gol.