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Os homens vêm vestidos de verde, têm uniformes militares, mas não trazem qualquer bandeira ou outro tipo de emblema que os identifique. Praticamente ninguém deu pela chegada deles. No entanto, o sol ainda não nasceu naquele dia de final de fevereiro de 2014, quando entram no Parlamento Regional da Crimeia e ocupam o edifício. Nas próximas horas, mais homenzinhos de verde, como viriam a ficar conhecidos, hão de chegar à península do sul da Ucrânia. Vêm fortemente armados e não encontram resistência. Por esta altura, ninguém sabe ao certo quem são, mas há algo estranho: falam russo e conduzem veículos com matrículas russas. A situação é confusa. Cinco dias depois, Vladimir Putin vem negar que se trata do exército russo.

"Não há nenhuma unidade do exército russo no leste da Ucrânia".

"Qualquer pessoa pode entrar numa loja e comprar um uniforme", afirma o presidente. Um dia depois da chegada dos homens vestidos de verde, um avião militar aterra na Crimeia. Leva a bordo cerca de 170 homens, que trazem facas, soqueiras, tacos de beisebol e algumas metralhadoras Kalashnikov. Nos próximos dias vão ter uma missão muito especial: vão fazer-se passar por ucranianos e organizar manifestações que exigem que o território passe a fazer parte da Rússia. A contestação cresce e numa questão de dias é organizado um referendo. Supostamente, mais de 96% dos eleitores decidem que já não querem pertencer à Ucrânia.

"Esta território estratégica deve estar sob uma soberania forte e estável, que, de facto, hoje pode ser apenas russa".

Logo depois do referendo, os homens de verde abandonam o território, tão misteriosamente como tinham chegado. Só depois de várias semanas se confirmou exatamente quem eram. E foram precisos vários anos para se perceber que aquela era apenas a primeira peça de um plano muito maior. Já estava tudo decidido há semanas. Putin tinha confiado apenas em quatro pessoas para partilhar uma ideia arrojada: dois amigos que controlam os serviços secretos, o ministro da Defesa e o chefe de gabinete, que conhece desde os tempos do KGB. Estão juntos uma noite na residência oficial, quando o presidente partilha a estratégia. Os quatro homens não reagem todos da mesma forma. Um entusiasma-se, outro diz que os serviços secretos têm informações de que pode correr bem. O terceiro mostra reservas e o último mantém-se em silêncio. Mas isso pouco importa. A palavra final é sempre de Vladimir Putin. Sabemos que o plano decidido naquela noite era anexar a Crimeia, mas como sempre acontece com o czar da Rússia, cada plano que é revelado só existe para esconder outro plano maior. O problema é que, tal como Putin queria, só percebemos isso tarde demais. Este é "Um Espião no Kremlin", uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Marco Delgado, com banda sonora original de Martim Sousa Tavares e Manuel Palha. Episódio cinco: Os Homenzinhos de Verde.

Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a onda em direção a um futuro melhor. Vamos continuar este percurso juntos, porque a onda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir. Nesta viagem, os podcast Plus do Observador têm o apoio da Onda Automóveis.

Ao longo dos anos, Vladimir Vladimirovich Putin montou uma teia de guerra e poder que partiu do KGB e acabou na invasão da Ucrânia, sem que quase ninguém se apercebesse. Para conseguir isso, teve de dar vários passos. O quinto passo, como vão ficar a saber agora, está num truque essencial para gerir as relações de poder: nunca deixar os outros perceberem o que pensa verdadeiramente.

"Não podemos deixar os provocadores criar a situação".

Anatoly Sobchak era um homem carismático Deputado e professor de direito, tinha o dom da oratória. Naqueles tempos de abertura, durante a reforma da perestroika, os seus discursos cativantes impressionavam. E os casacos de xadrez que usava contrastavam com o estilo cinzento da maioria dos burocratas soviéticos. Quando chegou à presidência da Câmara de São Petersburgo, voltou a cruzar-se com um antigo aluno da faculdade de Direito, que tinha acabado por seguir carreira nos serviços secretos. Agente do KGB, regressado de Dresden, Vladimir Putin trabalhava por aquela altura na universidade. Um dia, Sobchak abordou-o diretamente e perguntou-lhe se gostaria de colaborar com ele na Câmara. "Devo dizer-lhe que não sou apenas assistente do reitor. Sou um agente no ativo do KGB", respondeu-lhe Putin. Sobchak calou-se, hesitante. Depois de pensar alguns segundos, deu uma resposta: "Que se lixe". Foi assim que ambos recordaram publicamente o convite. Mas há quem diga que Sobchak talvez já soubesse que Putin era agente do KGB e que tenha sido precisamente por isso que o convidou. O facto de Putin ser do KGB tornou-se assunto de piada entre ele e o chefe. A viúva de Sobchak revelaria, anos depois, que o marido tratava Vladimir por Stierlitz, o nome de um espião de uma popular série russa da década de 70. São Petersburgo, nos anos 90, era uma cidade sem regras. No rescaldo do fim da União Soviética, com uma economia desfeita, o ambiente era de caos. As discotecas e a prostituição andavam a par e passo com a chantagem, os tiroteios e os assassinatos a soldo. A máfia rapidamente passou a dominar a cidade. Franz-Josef Delmere recorda como naqueles anos contornar as regras era a única lei, seja para os mafiosos, seja para o cidadão comum.

O ambiente era um pouco de anarquia. As pessoas não queriam respeitar a lei e não queriam novas leis. Queriam liberdade. Estavam dispostas a experimentar coisas novas. Para os que ali viviam, e para mim, acabado de chegar, era um mundo novo. Fiquei completamente surpreendido com o que encontrei. Esperava encontrar uma sociedade restritiva e cheguei a lugar que só posso comparar a Berlim depois da queda do Muro.

A máfia estava por todo o lado e escondia-se nos sítios mais insuspeitos. Um deles era uma loja de antiguidades nas traseiras de um bar, que tinha sido aberta ainda durante o tempo da União Soviética. Ilegalmente, claro. O dono chamava-se Ilya Traber, mas era a alcunha de "Antiquário", que realmente provocava calafrios um pouco por toda a cidade. Traber começou por fazer contrabando de antiguidades, mas não consta que alguma vez tivesse sido perseguido pela polícia. E era um dos líderes de um grupo mafioso que estava por trás de assassinatos e lavagem de dinheiro. Ainda assim, entre os seus clientes estavam o próprio presidente da Câmara e a mulher, e recebia muitas vezes a visita de um homem que começava a ser conhecido por toda a cidade. Esse homem era Vladimir Putin. Oficialmente, o vice-presidente da Câmara era responsável pelas relações exteriores. Na sombra, era o elo de ligação entre o poder político e o crime organizado. E assim, os interesses do antiquário cresceram muito para além das relíquias do passado. Estenderam-se à gestão do porto da cidade e do terminal petrolífero. Tudo com licenças passadas pelo próprio Putin. Franz-Josef Delmere tinha, na altura, negócios com a autarquia de São Petersburgo. Contou-nos que não tem dúvidas de que havia corrupção, mas não está assim tão certo de que Putin beneficiava diretamente disso.

Ele estava basicamente a cumprir ordens do presidente. Não tinha nenhuma iniciativa, o presidente é que beneficiava daquilo. Putin era o seu "fixer", a pessoa que organizava tudo. Mas beneficiava disso? Não, financeiramente, não.

Nem todos partilham a mesma opinião. Vladimir Ashurkov, ex-banqueiro e atualmente diretor da Fundação Anticorrupção de Alexei Navalny, acha que Putin foi hábil a esconder o que realmente se passou.

Houve muito esforço por parte de Putin e os seus comparsas para eliminar estas provas. Não é fácil obtê-las, mas, para mim, é um facto Muitos empresários russos que operavam nos anos 90, senão todos, tinham algum tipo de contato com o crime organizado, porque este era o ambiente em que se tinha de operar. E Putin estava no meio de vários negócios na segunda maior cidade da Rússia, São Petersburgo. Portanto, estava muito envolvido nesta rede de negócios, corrupção e crime.

Anos mais tarde, a mulher do presidente da Câmara confirmava: Putin tinha sido uma espécie de relações públicas com os grupos criminosos. Pelo menos, garante a esposa de Sobchak, numa ocasião. Para preparar os Jogos da Boa Vontade, teve de negociar com a máfia, para garantir que nada iria perturbar um evento tão importante pra cidade. Dizem que Traber, ainda hoje, é amigo de Putin. E o certo é que, já depois da chegada de Vladimir ao Kremlin, há quem garanta ter visto o antiquário em festas de aniversário do presidente. Putin percebeu cedo que a democracia tinha um problema: o acesso ao poder não era eterno. No final de 1996, fica subitamente desempregado quando Anatoli Sobchak perde as eleições pra autarquia de São Petersburgo. A cidade já não tem nada pra lhe oferecer. Apanha um avião pra Moscovo e bate às portas certas. Consegue um emprego na administração presidencial. Jeremy Kinsman cruzou-se com Vladimir Putin, ainda em São Petersburgo. Em conversa com a jornalista Katia Bruno, recorda um homem que sabia bem o que fazer pra se tornar indispensável aos outros.

Dava a impressão de ser extremamente inteligente e eficaz, mas também muito modesto. Nunca pedia nada para si próprio, deixava sempre os outros parecerem bem na fotografia. Quando se faz isso muitas vezes, não demora até as pessoas começarem a dizer: "É uma pessoa assim que é o preciso".

O certo é que a ascensão foi meteórica, quase difícil de acreditar. De um gabinete discreto na administração pública, o homem que aos 16 anos foi bater à porta do KGB, a pedir que o aceitassem, subiu rapidamente a diretor dos serviços secretos, em julho de 1998. No verão do ano seguinte, chegaria a primeiro-ministro e, meses depois, a presidente. Dois dos homens mais poderosos do mundo estão num castelo, nos arredores da capital da Eslovénia. Estamos em 2001 e numa destas salas, os novos líderes da Rússia e dos Estados Unidos encontram-se pela primeira vez. Vladimir Putin e George W. Bush estão há pouco tempo no cargo. Apertam as mãos, trocam palavras de cortesia e depois seguem para os temas que realmente importam, como um tratado de desarmamento e a relação entre a Al-Qaeda e os Talibã. Até que, a meio da conversa política, Putin aborda um tema pessoal. Confessa que é um homem de fé e conta uma história que o marcou, a do dia em que houve um incêndio na sua casa de férias. No meio do caos, garante que só quis verdadeiramente resgatar um objeto, um crucifixo que lhe tinha sido dado pela mãe. Bush ficou impressionado com aquele homem. Tanto que na conferência de imprensa que se seguiu, afirmou aos jornalistas que sentiu mesmo uma ligação especial com o presidente russo. "Olhei o homem nos olhos. Consegui ver a alma dele", confessou Bush. Era tudo mentira. O que Putin quis resgatar das chamas não foi um crucifixo, mas uma mala com dinheiro, como já contamos no outro episódio. A verdade pouco importava. Bush tinha acreditado e o objetivo foi atingido: ganhar a confiança. A mentira é uma arma que Putin nunca hesitou em usar na política, defende o jornalista russo Andrei Soldatov.

Os políticos não mentem uns aos outros em privado. Quando há uma reunião entre líderes de dois grandes países, normalmente, eles não mentem descaradamente. Isso acontece mais nas declarações públicas. Mas, para Putin, isso nunca foi um problema. Acha que mentir na cara de alguém não faz mal nenhum.

Putin sempre fez tudo pra se entender bem com Bush Quando dois aviões colidiram com as Torres Gémeas, a 11 de setembro de 2001, o russo foi o primeiro chefe de Estado a ligar ao presidente americano. Duas semanas depois do 11 de setembro, impressionou com um discurso no Parlamento da Alemanha, onde falou em alemão e garantiu que a Guerra Fria tinha acabado.

"Da nossa parte, o Muro de Berlim não existe mais. Ele foi destruído."

O líder russo era visto pelo mundo como o homem que queria enterrar o passado da União Soviética e lançar o país numa nova era. Franz Sedelmaier conviveu com Putin em São Petersburgo e garante que mantinha o mesmo discurso também em privado.

Era muito agradável. Ele ia lá à casa e comíamos comida alemã, bebíamos cerveja da Baviera, passávamos um bom bocado. A mim, ajudava-me a perceber o sistema. Quem é quem, como é que as coisas funcionam. Também tínhamos longas conversas sobre política. Uma coisa que sobressaía era o facto de, nessa altura, ele não estar muito interessado em debater o fim da União Soviética. Aquilo que o preocupava era como revitalizar a economia russa.

Serguei Guriev, economista russo, que foi consultor do Kremlin nos primeiros anos da presidência de Putin, participou em várias reuniões de trabalho onde o presidente esteve presente. Em entrevista à jornalista Kátia Bruno, explica como Putin sempre soube ser como uma espécie de espelho: refletia aquilo que os outros queriam ver.

À altura, aquilo que ele mais queria era projetar a ideia de competência e dizia aquilo que queríamos ouvir. Os empresários ocidentais falavam com ele e ficavam com a ideia de que era alguém focado na economia, educado, pragmático, ocidentalizado.

Ele mostra aquilo que o outro quer ver.

É isso, precisamente.

No verão de 2007, Putin está na iminência de ficar novamente desempregado, mas desta vez não vai deixar que aconteça o mesmo que em São Petersburgo, mais de 10 anos antes. O presidente já cumpriu dois mandatos e está impedido de concorrer às eleições do ano seguinte. Tal como Yeltsin já tinha feito com ele, quer escolher o próprio sucessor. Só que ao contrário de Yeltsin, Putin não quer sair de cena. Por esta altura, ainda só tem 55 anos. Há dois candidatos possíveis. Um é o vice-primeiro-ministro, Sergei Ivanov, que se começava a afirmar politicamente. O outro é um homem que se destacava pela simpatia, mas não pelo pulso firme. Um homem que Putin conhece bem, desde os tempos de São Petersburgo, e que tem uma característica fundamental: a lealdade. Nas eleições de março de 2008, é o nome dele que vai estar no boletim de voto: Dmitri Medvedev. Confiança e química pessoal são as palavras que Putin usa no anúncio público de que vai apoiar Medvedev para a presidência. Medvedev vence as eleições e, aos 43 anos, torna-se presidente da Federação Russa. "Presidente da Federação Russa, Dmitri Anatoliévitch Medvedev." Decide nomear como primeiro-ministro Vladimir Putin. Havia quem dissesse dentro do Kremlin que tinham uma relação de quase pai e filho. Putin tratava-o mesmo pelo diminutivo: Dima. Abas Gallyamov trabalhava na equipa que escreveu os discursos de Putin e descreve uma relação desigual.

É claro que Putin era superior, mas acho que tinha o cuidado de não ofender Medvedev, mostrando isso em público. E Medvedev estava grato a Putin por lhe ter dado a oportunidade de ser presidente e de não o estar a humilhar, mostrando que era apenas um fantoche.

Não demorou muito até se perceber quem realmente mandava. O economista Sergei Guriev, que percorreu os corredores do Kremlin como conselheiro, recorda um episódio revelador.

Tornou-se óbvio logo no segundo mês da presidência de Medvedev. Putin, como primeiro-ministro, teve uma reunião com empresários. Um deles faltou e Putin disse: "Informaram-me que ele está doente. Devemos mandar o médico para ir resolver este problema". Aquilo pareceu uma ameaça e as ações da empresa deste tipo caíram um terço. Era muito claro quem é que mandava no país.

O plano tinha apenas um problema: o delfim Medvedev estava a dar demasiado nas vistas. Era jovem, usava um iPhone, prometia publicamente combater a corrupção e, apesar das perseguições internas, até convidava ativistas dos direitos humanos para órgãos da presidência. Abbas Gallyamov afirma que Putin começava a sentir-se ameaçado.

A palavra do ano era modernização. E, de repente, Putin sentiu que estava fora de agenda, que desapareceu da esfera política. No outono, começamos a acelerar. No final do ano, já fazíamos quatro a cinco eventos por dia como Medvedev. E havia uma competição feroz entre os dois departamentos de comunicação, para ver quem aparecia primeiro nas notícias a cada dia.

Putin percebeu que tinha dado demasiada rédea solta a Medvedev. Aos poucos, é obrigado a endurecer a mão. Em 2010, a WikiLeaks divulgou vários telegramas diplomáticos secretos de embaixadas americanas. Num desses documentos, os diplomatas em Moscovo descreviam Medvedev como Robin e Putin como Batman, o verdadeiro super-herói. Até a máscara cair. São 3:00 PM do dia 8 de agosto de 2008. A televisão russa interrompe a programação pra emitir um anúncio do presidente Dmitri Medvedev, há poucos meses no cargo. "Está em curso uma operação de paz na Geórgia", diz Medvedev. No dia anterior, tropas russas tinham passado a fronteira. Moscovo garantia que estava a intervir para proteger os cidadãos da Ossétia do Sul e da Abecásia, zonas com movimentos separatistas. Começava assim a primeira guerra do século XXI em território europeu. Putin, quem realmente mandava, mostrava pela primeira vez ao mundo que não tinha qualquer problema em invadir as fronteiras de um país vizinho. O Ocidente não queria irritar a Rússia. Tentou mediar o conflito, mas sem defender a Geórgia de forma clara. A guerra acabaria por durar apenas cinco dias e Putin tirou lições importantes para o futuro. A maior delas iria ver-se seis anos depois, quando homens vestidos de verde entram numa península do sul da Ucrânia e ocupam o território. Perante a passividade da comunidade internacional, a Rússia anexava quase do dia pra noite, uma parcela de um país vizinho. Mas não iria ficar por aí. Primeiro, foram apenas umas notas tímidas, por vezes incertas, ao piano, que deixavam antever a canção. Mas a banda quer mais, quer que aquele homem cante. Ele ensaia uma expressão de surpresa no rosto, mas acede ao pedido. Levanta-se e dirige-se até ao microfone no centro do palco. A mão direita de Putin agarra o microfone com firmeza. A mão esquerda repousa no bolso das calças. Está de fato preto e camisa branca, mas sem gravata. Botão de cima desabotoado, numa postura claramente descontraída. Putin começa a cantar em inglês. Estamos num evento solidário em 2010. A guerra na Geórgia, dois anos antes, em nada tinha afetado a imagem internacional de Putin. Há sorrisos e aplausos na audiência perante a atuação deste cantor inesperado. Mas não são rostos anônimos que ali estão. Muito pelo contrário, vemos Sharon Stone, Kevin Costner, Goldie Hawn, Kurt Russell. Parecia que naquela noite, Hollywood estava em peso em São Petersburgo. A audiência vai perdendo a timidez. Bate agora palmas em conjunto para marcar o ritmo da canção. Putin entusiasma-se, liberta o microfone do tripé, leva a mão esquerda ao coração. À distância de mais de 10 anos, tudo isto parece agora bizarro, mas na altura, o charme de Putin conquistava ainda o Ocidente. Mesmo que os sinais de uma ruptura já se viessem a acumular há anos. O rosto denota tensão. Putin não sorri, como tinha feito anos antes, quando garantiu que o passado da Guerra Fria tinha mesmo ficado para trás. Está de novo na Alemanha, mas desta vez em Munique, para participar num fórum internacional de segurança. Avisa que não vai ser diplomático e que o que está prestes a dizer pode mesmo ser polémico. Acusa os Estados Unidos de estarem a ir longe demais, de criarem um mundo onde só há um mestre, um soberano. E, no entanto, se o mundo estivesse atento aos sinais, teria percebido que este discurso não era de agora. "Em primeiro lugar, temos de reconhecer, e eu já disse isso, que a queda da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século." Em 2005, quando falou aos russos no discurso do Estado da Nação, Putin afirmou que a queda da União Soviética foi o maior desastre geopolítico do século XX. Alexander Rahr é um dos biógrafos de Vladimir Putin e é próximo do Kremlin. Explica-nos que essa viragem contra o Ocidente acontece depois de o presidente ter percebido que nunca o deixariam sentar-se à mesa dos grandes líderes. Os europeus decidiram, sob o auspício dos Estados Unidos, que o futuro da Europa do século XXI devia ser construído sobre dois pilares: a NATO e a União Europeia. E é claro que a Rússia, que não podia ser membro de nenhuma delas, começou a perceber, de forma frustrada e humilhada, que ninguém lhe queria dar um lugar na Europa como grande potência. E Putin começou então um jogo político completamente diferente: restaurar a força, a grandeza da Rússia na Europa. Vladimir Milov, que chegou a fazer parte de um dos primeiros governos de Putin, não tem a mesma visão. Garante que a Rússia nunca se quis aproximar verdadeiramente do Ocidente.

Ele disse bastante abertamente: "Posso ser vosso aliado, só preciso de duas coisas. Não quero nenhuma conversa sobre direitos humanos, porque o meu país é meu e posso reprimir e prender quem eu quiser. E quero ter uma zona exclusiva de influência". E não são questões ideológicas, são interesses muito pragmáticos que o Ocidente rejeitou.

Putin viu o avanço da NATO para leste como uma ameaça à influência de Moscovo na região. A aliança militar ganhava novos membros entre países que tinham feito parte da antiga União Soviética e estava agora às portas da Rússia. Em abril de 2008, Putin encontra-se com o presidente George W. Bush, em Bucareste, à margem de uma cimeira, para discutir o futuro da NATO. Mas agora o tom é muito menos cordial e amigável do que aconteceu na primeira vez em que os dois homens se encontraram. Putin surpreende Bush. Declara que a Ucrânia nem sequer é um país e explica por quê. "Parte da Ucrânia está na Europa de Leste e a outra parte, mais significativa, foi um presente nosso". Há 15 anos, Vladimir Putin já não escondia as intenções sobre aquele território. Na conversa com o homem que em tempos achava ter visto a alma de Putin, o presidente russo deixa ainda uma frase final, uma espécie de profecia ou ameaça: "Se a Ucrânia algum dia se juntar à NATO, vai juntar-se sem a Crimeia e as regiões do leste". Putin e Medvedev estão de férias no Cáucaso. As fotos que aparecem na imprensa russa mostram como passam três dias a pescar tranquilamente e em alegre convívio. Mas aquela viagem é muito mais do que um momento de descanso entre dois amigos. Putin diz a Medvedev que está na hora de lhe devolver a presidência. Estávamos na ressaca da Primavera Árabe de 2011, em que várias revoltas populares no norte de África levaram à queda de ditadores que estavam no poder há anos. Há quem diga que os acontecimentos assustaram Putin ao ponto de decidir retomar de imediato o controle. Naquelas férias no Cáucaso, terá dito a Medvedev que a geopolítica se tinha tornado demasiado complexa, acima das capacidades dele. "O mundo está do avesso, Dima. Segui as regras e passei-te o poder, mas nós fizemos um acordo e estava na altura de cumprir esse acordo". Os protestos começam pouco depois de Putin anunciar que volta a candidatar-se ao Kremlin. Mas isso não o impede que seja eleito para um terceiro mandato em março de 2012. Dmitry Medvedev é nomeado primeiro-ministro, numa troca direta de cadeiras. Nas semanas seguintes, a Rússia vai assistir a imagens que já não se viam desde o fim da União Soviética. Milhares de pessoas saem às ruas para denunciar o que consideram ter sido uma fraude eleitoral. A oposição une-se contra Putin e tem vários rostos. O mais conhecido será Alexei Navalny, o outro é Boris Nemtsov.

Temos de dizer: "Rússia e Ucrânia sem o Putin!"

Nemtsov foi vice-primeiro-ministro de Boris Yeltsin na década de 90. Chegou a ser um dos vários nomes falados para lhe suceder, até Putin ter sido escolhido. Acabou por passar para a oposição e ficar ao lado de quem sonhava com uma mudança na Rússia. Nemtsov foi detido várias vezes durante os protestos, mas não foi o único durante aqueles dias. O economista Sergei Guriev descreve-nos o que aconteceu.

Antes da tomada de posse, há outro protesto na Praça Bolotnaya. A praça é fechada, os manifestantes são espancados e condenados a dois anos de prisão. Hoje em dia, as pessoas são condenadas a 25 anos. Por isso, isto até parece ok, mas naquela altura foi chocante.

É um momento de viragem. Putin tem de mudar de estratégia. Precisa de um desígnio coletivo que una os russos acima de todas as divisões internas, que os remeta para um passado de glória. E a resposta estava mesmo ali ao lado.

A popularidade dele estava a descer. Então ele usou as leis anti-LGBT. Eram chocantes, mas não funcionaram. Os russos não querem muito saber disso. Então ele tentou a aproximação à Igreja Ortodoxa, o conservadorismo, e isso não o tornou muito mais popular. Foi aí que ele percebeu o que importa verdadeiramente para os russos: é o império. E foi assim que tivemos a anexação da Crimeia.

A Ucrânia está em convulsão. Durante meses, a Praça Maidan, em Kiev, é o epicentro da mudança. Milhares de pessoas exigem a demissão do presidente Viktor Yanukovych, um aliado de Putin. Querem o afastamento de Moscovo e a aproximação à União Europeia. Putin acompanhava os acontecimentos em casa, naquela noite de fevereiro de 2014, quando chamou os quatro homens em quem mais confiava. Com a Ucrânia à beira da guerra civil, tinham decidido tirar Yanukovych do país, mas as coisas não podiam ficar por aí. A dissimulação seria a chave do plano. Os homens fardados de verde que entraram na península ucraniana eram, na verdade, elementos das forças especiais russas disfarçados. Enquanto todos os olhos estavam em Kiev, Putin agarrava uma parte do território dos vizinhos ucranianos. E não ia ficar por aí. Terminada a missão na Crimeia, os homens de verde seguiram para o Donbass, no leste da Ucrânia, para combater ao lado de separatistas ucranianos pró-russos. Para Putin, é muito mais do que estratégia. O empresário alemão Franz Sedelmaier, que nos anos 90 se sentava à mesa com o atual presidente russo para discutir economia, em vez de geopolítica, diz à jornalista Katya Bruno que tudo se resume a uma palavra: sobrevivência.

Putin só quer sobreviver. Mais um dia, mais um mês, mais um ano. E não quer saber se para isso tem de morrer uma pessoa ou centenas de milhares. Não pensa nestes termos.

O importante é manter o poder.

Exato. E esse foi o erro dos nossos políticos. Sempre aceitamos coisas vindas da Rússia, de Putin, que não eram compatíveis com os nossos princípios do Estado de direito e dos direitos humanos, etc. Diziam sempre: "É uma democracia jovem, na Rússia as coisas são diferentes". Mas passo a passo, ele impôs-se. Putin impôs Putin.

Boris Nemtsov e a namorada atravessam uma ponte perto do edifício do Kremlin, em Moscovo. É de noite e a rua está deserta. Ali perto só há dois carros. Um deles é uma carrinha do município, que avança lentamente. O outro é um carro branco, estacionado. Quando o casal já vai a meio da ponte, um homem aparece de repente. Dispara seis vezes contra Boris pelas costas. O atirador entra rapidamente no carro branco, que arranca a toda a velocidade. Quando a ambulância chega, Nemtsov, um dos principais opositores de Putin, já está morto. Foi assassinado exatamente um ano depois de os homenzinhos de verde terem entrado na Ucrânia e numa altura em que investigava precisamente essa invasão e a presença russa no Donbass. Anos antes perguntaram-lhe: "Não tens medo de ser assassinado?" Nemtsov garantiu que não. "Putin não me vai parar." Ninguém sabe quem mandou matá-lo, mas quem já foi próximo de Putin diz que o presidente tem uma máxima: se desaparecer a pessoa, desaparece o problema. Mas essa é uma história para o último episódio. "Um Espião no Kremlin" é uma série em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Marco Delgado, e tem banda sonora original de Martim Sousa Tavares e Manuel Palha. O guião e as entrevistas são de Cátia Bruno. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos ainda as vozes de Peter Schlipf, Vadim Polyakovoy, James Frost, Austin Bush e David Zakharov, agenciado da Sonder People. Ouvimos também sons históricos retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador: é mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.