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Um homem russo de cabelo loiro e intensos olhos azuis acabou de se sentar num voo que tem como destino Moscovo. Estamos a 20 de agosto de 2020. Este homem passou os últimos dias em ações de campanha numa cidade da Sibéria. Está cansado. Para descontrair, abre o computador e começa a ver um episódio da série de animação "Rick e Morty".
"I turned myself into a pickle, Morty! Boom! Big reveal. I'm a pickle. What do you think about that? I turned myself into a pickle."
A certa altura, começa a sentir-se mal. Uma hospedeira que passa no corredor com o carrinho das bebidas pergunta-lhe se quer água. O homem recusa e levanta-se para ir à casa de banho. Molha a cara, mas a sensação de desconforto não passa. Quando tenta sair, sente tantas dores que não consegue agarrar o puxador da porta e começa a gritar. Depois de finalmente conseguir sair da casa de banho, o homem aproxima-se de um comissário de bordo. "Fui envenenado, estou a morrer", diz-lhe. Em poucos segundos, perde os sentidos e cai no corredor do avião. Na Rússia de Putin, irritar o chefe é muito perigoso. Sabemos que o presidente russo não tem problemas em mandar prender opositores e aqueles que considera traidores, mas o preço a pagar por desafiar Putin pode mesmo ser a própria vida. Os que ousaram fazê-lo, morreram, por vezes, em circunstâncias misteriosas. Dois foram assassinados a tiro. Outro bebeu um chá com as companhias erradas. Alguns têm caído de varandas. E este homem que ouvimos gritar ainda há pouco, limitou-se a vestir a própria roupa, sem suspeitar de que tinha sido contaminada com veneno. Na Rússia de Putin, a violência não é uma medida extraordinária, é a regra. E é habitualmente levada a cabo por senhores da guerra ou por espiões. Os antigos colegas do presidente no KGB, os únicos com quem hoje em dia convive, os únicos que souberam do plano dele para aplicar a violência indiscriminadamente numa invasão a outro país e que não ousam criticar o chefe para não terem o mesmo fim. Este é: "Um espião no Kremlin", uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Marco Delgado, com banda sonora original de Martim Sousa Tavares e Manuel Palha. Episódio seis: O Clube de Combate.
Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
Ao longo dos anos, Vladimir Vladimirovich Putin montou uma teia de guerra e poder que partiu do KGB e acabou na invasão da Ucrânia. Mas como é que fez isso sem que ninguém percebesse? No último episódio, ficámos a saber como enganou os interlocutores. Agora, vamos conhecer o último passo que deu nesta escalada: construir um sistema brutal e recorrer à violência para nunca ser contestado.
"The evidence establishes that Mr. Litvinenko ingested the fatal dose whilst drinking tea from a teapot contaminated with polonium-210."
O homem que desmaiou no avião vindo da Sibéria não foi o primeiro a ser envenenado. Uma comissão independente do governo britânico anuncia as conclusões sobre a morte de Alexander Litvinenko, um antigo espião do KGB, que se virou contra o regime russo e acabou por morrer em Londres.
"I am sure that Mr. Lugovoi and Mr. Kovtun placed the polonium-210-
"Tenho a certeza de que o senhor Lugovoi e o senhor Kovtun colocaram polónio-210 no bule de chá no Pine Bar", diz o presidente da comissão. Fizeram-no com a intenção de envenenar Litvinenko. Os dois homens referidos eram, na altura, agentes do FSB, a polícia secreta do Kremlin. A 1 de novembro de 2006, encontraram-se com o antigo colega Litvinenko no bar do hotel Millenium. Ao longo dos 20 minutos que durou o encontro, vão pedindo várias bebidas: três chás, três gins e um cocktail de champanhe. Compram também um charuto cubano A mulher e o filho de um dos agentes aparecem para o ir buscar. Lugovoi apresenta a criança de oito anos a Litvinenko: "Este é o teu Sasha. Aperta a mão dele", ordena o pai, antes de se despedir e sair porta afora. O que Litvinenko não sabe é que antes de ter chegado, os dois homens colocaram no chá uma pequena quantidade de uma substância rara, polônio 210. Alexander Litvinenko passará as duas semanas seguintes no hospital, em sofrimento. Definha perante o olhar da mulher e dos amigos, com o cabelo a cair-lhe aos poucos, até ficar totalmente careca. Dois dias antes de morrer, dita uma mensagem na cama do hospital. "Pode ter sido bem-sucedido em silenciar um homem, mas senhor Putin, um coro de protestos de todo o mundo vai ecoar nos seus ouvidos para o resto da vida". Litvinenko e Putin conheceram-se pessoalmente muitos anos antes, numa altura em que ambos trabalhavam no FSB. Quando Putin chegou a diretor da agência, no verão de 1998, Litvinenko pensou que podia haver uma oportunidade para corrigir os erros do passado. Encontrou-se com o chefe e entregou-lhe um dossiê com todas as acusações de corrupção e ações ilegais dos serviços secretos de que tinha conhecimento. Mas Putin não quis saber. O encontro durou apenas 10 minutos e o diretor do FSB nem sequer ficou com os documentos. Nessa noite, Litvinenko desabafou com a mulher sobre a reunião. "Consegui ver nos olhos dele que me detesta", confessou. O agente decide tomar medidas radicais. Junta-se a cinco colegas para darem uma conferência de imprensa, onde denunciam que o FSB está a ser usado para atividades criminosas em troca de pagamentos. Três dos agentes estão de óculos escuros. Um tem um passa-montanhas a tapar-lhe o rosto. Litvinenko e outro colega estão de cara descoberta. Nos anos seguintes, o agente pede asilo no Reino Unido e endurece as críticas a Vladimir Putin, que entretanto se tornou presidente. Até que no outono de 2006, é envenenado por dois agentes do FSB. Muitos não duvidam que o assassinato aconteceu por ordem direta do presidente. Seria difícil obter uma substância como o polônio 210 sem autorização superior. E para Vladimir Milov, antigo ministro do primeiro governo do presidente russo, era óbvio que Putin tinha um motivo.
"Ele é um traidor. Eles acham que se o matarem, resolvem o problema. Têm todos os instrumentos para isso. Por que não?"
O Kremlin, naturalmente, nega responsabilidades. Vladimir Putin é confrontado logo no dia seguinte à morte do ex-agente do FSB. E responde, mas com ironia: "As pessoas que fizeram isto não são deuses. E o senhor Litvinenko, infelizmente, não é nenhum Lázaro. É uma pena que eventos trágicos como a morte de alguém sejam usados para provocações políticas". Foi preciso esperar 10 anos pra que a Comissão Independente do Reino Unido declarasse publicamente que o homicídio do antigo espião terá sido aprovado pelo diretor do FSB à altura, Nikolai Patrushev, e pelo próprio presidente russo, Vladimir Putin. Apenas um mês antes da morte de Litvinenko, Anna Politkovskaya é seguida por dois homens à saída de um supermercado em Moscovo. A jornalista de 48 anos tem investigado a violência e crimes de guerra na Chechênia, a guerra que Putin lançou em setembro de 1999 e que lhe valeu a popularidade junto dos russos. Quando chega a casa, carregada com as compras, um dos homens já está dentro do prédio à espera. Seria uma vizinha a encontrar o corpo da jornalista pouco depois, dentro do elevador. Tinha uma bala na cabeça e outras três no corpo. Aos pés, estava a pistola usada pra matar. Uma mensagem habitualmente deixada pelos assassinos da Seoul, na Rússia. Quando Politkovskaya foi morta, estava a preparar um artigo sobre violações de direitos humanos por um homem chamado Ramzan Kadyrov, primeiro-ministro da Chechênia. Apenas dois dias antes de ser baleada, a jornalista deu uma entrevista onde descreveu Kadyrov como alguém que sabe lamber a mão do grande czar. Politkovskaya conhecia o líder checheno pessoalmente. Depois de o entrevistar em 2004, foi ameaçada por um dos guarda-costas. "Devias levar um tiro nas costas no meio da rua, como se faz em Moscovo". O próprio Kadyrov reforçou a ameaça: "Tu és uma inimiga. Devias levar um tiro Por isso, quando Anna Politkovskaya levou de facto um tiro, as cabeças viraram-se todas para Ramzan Kadyrov. E há ainda um pormenor importante: foi morta no dia 7 de outubro, o dia de aniversário de Vladimir Putin. Andrei Soldatov, que trabalhou no mesmo jornal de Politkovskaya, não tem dúvidas de que a jornalista era um empecilho que o Kremlin queria tirar do caminho.
Sabemos que, antes de ser morta a tiro por assassinos, Anna Politkovskaya foi envenenada em 2004. Sobreviveu, mas a saúde dela ficou muito afetada. Parece que o FSB estava constantemente a envenenar pessoas.
A pergunta é inevitável: depois de uma primeira tentativa falhada, poderia ter sido Kadyrov a resolver aquilo que os serviços secretos não conseguiram? Teria o líder checheno decidido oferecer a cabeça da jornalista ao presidente russo como presente? Só há uma certeza: três meses depois da morte de Politkovskaya, Vladimir Putin nomeou um novo presidente da Chechénia. O escolhido foi Ramzan Kadyrov. O mesmo método, a mesma ligação à Chechénia, mas agora um inimigo diferente. Em fevereiro de 2015, um homem ia caminhar com a namorada perto do Kremlin, em Moscovo, quando foi atingido por seis disparos à queima-roupa. Quando a polícia chega ao local, percebe que se trata de Boris Nemtsov, um dos opositores de Vladimir Putin, que investigava o envolvimento da Rússia na guerra do Donbass, no leste da Ucrânia. Tanto no caso de Anna Politkovskaya, como de Boris Nemtsov, cidadãos da Chechénia foram condenados pelos homicídios, mas nunca se conseguiu provar quem ordenou as mortes. Mesmo assim, Vladimir Milov nunca teve dúvidas do envolvimento do Kremlin no caso da morte de Boris Nemtsov.
Acho que foi uma operação conjunta. As pessoas que foram condenadas não são apenas tipos do Kadyrov. Fazem também parte da guarda nacional. Já para não falar do sítio onde ele foi assassinado. É um lugar cheio de segurança. Há ali sempre, pelo menos, um carro da polícia. Quando me dizem que um carro cheio de chechenos armados ficou ali durante, pelo menos, meia hora à espera de Nemtsov, não é possível. É proibido estacionar ali, ao pé do muro do Kremlin. Kadyrov foi apenas escolhido para executar isto.
Quando o crime aconteceu, a classe política em Moscovo ficou em choque. Apesar de fazer parte da oposição, Boris Nemtsov sempre fora um membro da elite do Kremlin. Foi vice-primeiro-ministro do país e chegou mesmo a ser equacionado para suceder a Boris Yeltsin na presidência. Era, para os políticos russos, um deles. E agora, eles percebiam que isso não os impedia de serem mortos a tiro na rua. Anos antes da morte de Nemtsov, um jovem chegou cabisbaixo ao gabinete do presidente russo. O pai, o presidente da Chechénia, que colaborava com o Kremlin, tinha morrido há apenas algumas horas, após a explosão de uma bomba colocada por separatistas. Vladimir Putin chamou de imediato o filho, Ramzan Kadyrov, para um encontro à frente das câmaras de televisão. O jovem de 27 anos vem vestido com um fato de treino azul-claro e está visivelmente emocionado. O presidente russo aperta-lhe a mão durante alguns segundos, como se quisesse tranquilizá-lo. Aquele foi o momento em que se percebeu que Putin tinha planos para Kadyrov, que vai acabar por agarrar o poder na Chechénia e vai instaurar um regime brutal, apoiado numa milícia privada, suspeita de raptar, torturar e matar opositores, jornalistas e advogados. Como presidente de uma região de maioria muçulmana, defende a aplicação das versões mais radicais da lei islâmica, incluindo a morte de mulheres que desonrem a família. Kadyrov transformou-se no senhor da guerra, que jura publicamente lealdade ao padrinho, Vladimir Putin. Ganhou maior destaque após a anexação da Crimeia. E quando a invasão de 2022 começou, ele e os seus homens estavam prontos para combater na Ucrânia, executando as missões mais violentas, como a tomada de Mariupol. Na Rússia de 2023, onde a violência é a principal ferramenta do poder São os homens como Kadyrov que vinham, leais e sem escrúpulos. O homem que está deitado no corredor de um avião depois de ter dito que foi envenenado, chama-se Alexei Navalny. Nos últimos anos, tornou-se o principal rosto da oposição política a Vladimir Putin. É agora candidato à presidência do país e anda em campanha por toda a Rússia. Navalny é transportado em coma para um hospital na Alemanha. Em menos de duas semanas, dois laboratórios europeus confirmam que foi envenenado com Novichok, uma substância que ataca o sistema nervoso. Mas não é uma substância qualquer. Foi desenvolvida como arma química pela União Soviética na década de 70 e só o governo tem acesso a ela. A chanceler alemã, Angela Merkel, é taxativa. "Alexei Navalny foi vítima de um crime", afirma. E pede explicações ao governo russo. O Kremlin reage com desdém. "Não podemos levar essas acusações a sério", comenta o porta-voz Dmitry Peskov. Navalny acaba por conseguir recuperar. E meses depois do ataque, as acusações ganham força quando o site Bellingcat revela uma investigação feita em conjunto com o próprio Navalny. O político estava a ser seguido por uma unidade do FSB desde 2017 e entre os agentes que o monitorizavam, estava um que também tinha seguido Boris Nemtsov, antes de o opositor russo ser assassinado. A investigação divulga também um telefonema em que Navalny consegue enganar um dos homens que o tentaram matar. Faz-se passar por um superior do agente nos serviços secretos e consegue mesmo uma confissão. O agente admite que a operação em que esteve envolvido não correu bem. "Talvez se eles tivessem ficado mais tempo no ar", justifica-se. E revela tudo o que fizeram naquele dia. Entraram no hotel onde Navalny estava hospedado e puseram Novichok na roupa interior do opositor russo, para garantir que quando a vestisse entraria em contacto com a pele, sem deixar rasto. A Alemanha ameaça reagir com sanções à Rússia. O Conselho Europeu fala em tentativa de assassinato. A NATO diz que é uma violação da lei internacional. Do lado ocidental, não parece haver dúvidas sobre quem recai a responsabilidade. Rolf Mowatt-Larssen, antigo espião da CIA em Moscovo, explica-nos porquê.
Os venenos utilizados só pertencem ao Estado. Desde que Putin chegou ao poder, que se tornou evidente esta determinação firme e absoluta de afastar as pessoas consideradas traidoras com métodos extremos.
Dentro da Rússia, a investigação é rapidamente arquivada por falta de provas. Mas os jornalistas com fontes no FSB, como Andrei Soldatov, não têm dúvidas.
É impossível negar que Navalny foi envenenado pela FSB. O envenenamento demora algum tempo e assiste-se ao sofrimento da vítima em tempo real. Normalmente, ela está rodeada de amigos, colegas e familiares. Ou seja, serve para enviar um sinal, porque afeta muito mais gente para além da vítima.
E poderiam fazê-lo sem o conhecimento e acordo do presidente russo? Vladimir Milov, que foi ministro de Putin, acha que não.
Conseguimos ver como ele adora os mecanismos extrajudiciais. Para quê recorrer à chatice dos tribunais? Se desaparecer a pessoa, desaparece o problema. Uma fórmula clássica.
E se a fórmula falhar, é sempre possível voltar aos métodos antigos. Depois de cinco meses a recuperar de envenenamento, Alexei Navalny surpreende o mundo com um ato de coragem. Decide regressar à Rússia e enfrentar o sistema de Putin. O que aconteceu a seguir não foi uma surpresa para ninguém. Assim que atravessa o controlo de passaportes, é imediatamente confrontado pela polícia. Explicam-lhe que vai ser detido por ter falhado uma apresentação obrigatória na esquadra relativa a uma pena suspensa quando estava em coma na Alemanha. Navalny e a advogada ainda tentam argumentar com os guardas, mas acabam por desistir. O opositor de Putin despede-se da mulher com um beijo rápido e segue com os polícias. Está desde então numa das prisões de maior segurança da Rússia, como relata Vladimir Ashurkov, diretor da ONG de Navalny.
É triste dizer isto, mas não esperamos que ele saia da prisão enquanto Putin estiver no poder. As condições na prisão são duras e as autoridades russas usam vários métodos para o torturar
Não lhe dá comida, coloca-o numa solitária, não faz o acompanhamento médico adequado.
Alexei Navalny já estava a cumprir uma pena de 11 anos e meio de prisão, acusado de fraude e outros crimes. Mas no início de agosto de 2023, foi condenado a mais 19 anos, acusado de extremismo no âmbito das atividades da sua fundação anticorrupção, que entretanto foi extinta pelas autoridades russas. Com 47 anos, Navalny diz ter consciência de que só vai sair da prisão de duas formas: no dia em que morrer ou no dia em que o regime de Putin chegar ao fim. Com os principais inimigos fora do caminho, seria de esperar que Vladimir Putin se limitasse a governar tranquilamente. Mas no início de 2021, quando Navalny é preso, o presidente russo está a viver uma transformação. A pandemia de Covid-19 levou-o a isolar-se como nunca. As principais medidas de combate ao vírus na Rússia não são sequer anunciadas por Putin, mas sim pelos responsáveis locais. O líder russo afasta-se do Kremlin, constrói uma fortaleza numa das residências oficiais perto do Lago Valdai, a meio caminho entre Moscovo e São Petersburgo, e a equipa com quem trabalha passa a ter de fazer quarentena para se poder aproximar dele. Não são os únicos. Até os aliados mais próximos, como Igor Sechin, o antigo espião em Angola e Moçambique, que aprendeu a falar português, têm de se fechar num quarto durante duas semanas antes de se encontrarem com o presidente. Os serões noturnos com amigos, recheados de música, já não acontecem. Apenas um dos amigos é autorizado a passar longos períodos com Putin. Yuri Kovalchuk, o banqueiro, que conhecemos no terceiro episódio, em que falámos do gangue do dinheiro. Vladimir Ashurkov explica como o isolamento tem reflexos na personalidade do presidente.
Nos últimos anos, o número de pessoas com acesso a Putin diminuiu. Basta vermos as fotos dele a uma longa mesa, com as pessoas sentadas a metros de distância. Foi-se tornando mais paranoico ao longo do tempo e o grupo de pessoas em quem confia foi diminuindo.
É neste período que Vladimir Putin amadurece a ideia de invadir a Ucrânia. A princípio, poucos acreditam que possa mesmo acontecer. Os avisos chegam primeiro por fontes não identificadas dos serviços secretos norte-americanos. Muitos acham que se trata de contrainformação e alguma estria. Depois, surgem as imagens de satélite que comprovam que a Rússia está a deslocar tropas para a fronteira com a Ucrânia. E por fim, a acusação direta por parte dos Estados Unidos. "Temos razões para acreditar que as forças russas estão a planear um ataque à Ucrânia nos próximos dias", afirma o presidente norte-americano Joe Biden. Os líderes mundiais reforçam os contactos com Moscovo. Putin nunca confirma a intenção de invadir o país vizinho, mas vai aproveitando para mostrar o desagrado com o Ocidente. Queixa-se do avanço da NATO a leste e exige que a Ucrânia nunca entre na aliança. O presidente francês é um dos chefes de Estado que tentam negociar com o líder russo até ao último momento. Apenas quatro dias antes do início da guerra, Emmanuel Macron fala com Putin ao telefone e pede-lhe que assine um compromisso conjunto de diálogo. O presidente russo responde e deixa a possibilidade em aberto, mas não se compromete. "Não lhe vou esconder nada. Vou agora fazer um jogo de hóquei no gelo e depois falo consigo. Garanto-lhe que depois do meu exercício físico, ligo aos meus conselheiros". Macron agradece. Putin responde-lhe em francês. "Eu é que agradeço, senhor presidente". Até ao último momento, ninguém sabe se os esforços diplomáticos vão resultar. Nem o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, é informado da decisão final até à véspera da invasão. Ninguém sabe ao certo o que vai na cabeça do presidente. O encontro é transmitido na televisão. Vladimir Putin está reunido com o Conselho Nacional de Segurança, principal órgão de aconselhamento do presidente. A guerra da Ucrânia vai começar dali a três dias, mas Putin ainda pergunta aos conselheiros o que deve ser feito. Enquanto o chefe dos serviços secretos exteriores, Sergei Naryshkin, fala, Putin tamborila com os dedos na mesa, aborrecido Depois interrompe-o bruscamente. Naryshkin não sabe o que há de dizer. Começa a gaguejar. Putin ordena-lhe que seja claro. As imagens correram o mundo. Eram a prova de que ninguém no Kremlin podia dizer a Putin algo que lhe desagradasse. Como nos explica o antigo consultor do governo russo, Sergei Guriev.
À medida que o regime se tornou mais repressivo, as pessoas deixaram de ter coragem de apontar erros, porque isso é perigoso. Por isso ele isolou-se mais e tem consigo mais pessoas que são apenas "yes men". Foi por isso que a guerra começou, porque ele estava demasiado otimista em relação ao próprio exército. Achava que os ucranianos o adoravam e que o Ocidente não estava unido.
São 6:00 em Moscovo, madrugada de 24 de fevereiro de 2022, e a imagem do presidente russo aparece nas televisões de todo o país. Vladimir Putin anuncia que vai começar uma operação militar especial na Ucrânia. Declara que o objetivo é desmilitarizar e desnazificar o país. Minutos depois, os primeiros mísseis russos atingem as cidades de Kiev, Kharkiv e Dnipro. O anúncio provoca manifestações mesmo dentro da Rússia, mas os protestos acabam por desaparecer nas semanas seguintes, sobretudo depois de o Parlamento criminalizar a divulgação de mensagens consideradas falsas sobre o conflito. Até a palavra guerra passa a ser proibida. Os mais próximos de Putin e com acesso direto ao presidente, quase não falam em público. Os que o fazem, não terão neste momento qualquer influência, como o ex-presidente Dmitri Medvedev, que veio chamar os ucranianos de drogados nazis e ameaçou o Ocidente com o apocalipse nuclear. Nikolai Patrushev, presidente do Conselho de Segurança, e Alexandra Bortnikov, diretor dos serviços secretos, são os dois homens mais próximos de Putin. São os mesmos que foram fundamentais na operação especial de chegada ao poder há mais de 20 anos e que o presidente conhece desde os tempos do KGB. Mas o jornalista Andrei Soldatov garante que mesmo esses já perceberam que no Kremlin só há um chefe.
Os serviços secretos ainda são importantes, mas Putin trata-os como servos dele. Aos poucos, percebeu que estes tipos são extremamente leais, brutais, podem reprimir e matar, mas não são muito espertos. Em muitos casos, quando houve uma crise política real, foi ele que arranjou uma solução. Foi assim com a Maidan, na Ucrânia. Foi ele que pensou em anexar a Crimeia, não foi o FSB. Agora aconteceu o mesmo.
Certo é que Vladimir Putin criou um sistema brutal que assenta na lealdade inquestionável. Vladimir Milov chegou a sentar-se à mesa com Putin no Conselho de Ministros e a discordar abertamente do presidente, garante que hoje esse é um cenário impensável.
As pessoas que apresentavam a mínima possibilidade de lhe dizer não ou de discutir com ele, foram afastadas. Essa é a regra número um do clube de combate. Não se questiona o líder.
Em 2010, a comitiva do presidente está de visita a uma fábrica num subúrbio de São Petersburgo. Vladimir Putin vai inspecionar os produtos da linha culinária Concord. O dono da empresa segue ao lado, explicando cada detalhe. "Aquilo ali é sopa, as outras embalagens são de massa. Quer provar, senhor presidente?", pergunta-lhe. "Mais tarde", responde Putin. A Concord é a nova fornecedora de cantinas escolares em vários pontos da Rússia. O dono é um velho conhecido do presidente, que já o serviu à mesa várias vezes nos restaurantes bem-sucedidos que possui. É por isso que lhe chamam o chef de Putin. Yevgeny Prigozhin vem de um mundo que o líder russo conhece bem, o de São Petersburgo, sem lei, da década de 90. Os dois partilham o gosto por um humor cru e direto. Com o passar do tempo, tornou-se um dos protegidos do Kremlin, apesar de não ser um típico burocrata do aparelho. É, na verdade, um criminoso com cadastro que enriqueceu inexplicavelmente com uma banca de cachorros-quentes e que se aproximou de Putin através do guarda-costas do presidente. E Prigozhin não se ficou pelos restaurantes. Descobriu que havia muito mais dinheiro a fazer num outro ramo de negócio: a guerra. A milícia privada que fundou, a Wagner, rapidamente passou a ser usada pelo Kremlin como moeda de troca para ganhar influência junto de governos africanos. Naturalmente, quando a guerra na Ucrânia começou, Prigozhin e a Wagner foram usados para fazer o trabalho mais sujo, até surgirem as primeiras fissuras. Os vídeos publicados por Prigozhin, a partir do campo de batalha, foram se tornando cada vez mais violentos. Neste que estamos a ouvir, o mercenário mostra os cadáveres de soldados da Wagner e culpa diretamente o Ministério da Defesa russo pelas mortes, dizendo que não está a receber munições suficientes. "Vocês que estão sentados nos vossos clubes caros, vocês cujo os filhos fazem vídeos para o YouTube, vocês acham que são mestres desta vida e que têm direito a dispor da vida dos outros". Na altura, o antigo ministro Vladimir Milov apontava-nos que este era um sinal de que Prigozhin tinha cada vez menos poder.
"Quanto mais alguém fala em público, menos influência tem dentro do sistema. Não há nenhum sinal de que Kadyrov e Prigozhin participam em decisões a nível federal. Zero. Foram apenas usados como selvagens que executam tarefas que o exército hesita em executar. É interessante, Kadyrov tem estado mais discreto em público nos últimos meses, muito mais calado do que há um ano, quando a invasão começou. Prigozhin, não. E isso cria-lhe muitos problemas. O facto de ele andar a falar tanto só mostra que ele foi afastado".
Tão afastado que semanas depois o chefe de Putin tentava tornar-se o carrasco do presidente. Anuncia uma rebelião e coloca-se a caminho de Moscovo com os seus homens e tanques. Putin conseguiu conter a ameaça. O Kremlin chegou a acordo com Yevgeny Prigozhin. Os tanques recuaram e os soldados da Wagner foram amnistiados. Podia parecer que, ao contrário do que costuma acontecer aos traidores que desafiam Putin, Prigozhin não seria silenciado, mas essa estranheza acabou exatamente dois meses depois da rebelião. A 23 de agosto, o avião onde o líder da Wagner seguia, caiu nos arredores de Moscovo. Um acidente? Um atentado? Quando finalmente falou, dias depois, Putin não respondeu a estas perguntas. Putin começou por dizer que a queda do avião foi uma tragédia e enviou as sentidas condolências às famílias. Confirmou que levava a bordo vários elementos do grupo Wagner e garantiu que não se vai esquecer da contribuição que deram para os esforços na Ucrânia. Lembrou que conhecia Prigozhin há mais de 40 anos. Recordou-o como um homem muito talentoso, mas com um destino difícil. E que teve um problema, afirma Putin: cometeu erros sérios durante a vida. O plano tinha sido executado passo a passo, peça a peça. Vladimir Vladimirovich Putin recorreu à guerra para aumentar a popularidade. Afastou traidores, criou uma teia para guardar o dinheiro, escondeu a vida privada, enganou meio mundo e, por fim, criou um sistema implacável, baseado nos métodos que conhece do passado como espião. O objetivo é manter-se no poder, sempre. E a invasão da Ucrânia foi apenas mais um passo nessa direção. É certo que o plano inicial de uma tomada rápida e eficaz de Kiev falhou completamente. Também é certo que a NATO, o grande inimigo, se reforçou ainda mais. Mas Putin, que via a Rússia ignorada e humilhada por um Ocidente pouco interessado no que vinha de Moscovo, voltou a ser alguém a quem todos estão atentos e muitos temem. Além disso, internamente, a oposição foi esmagada. Os maiores inimigos foram mortos, presos ou fugiram do país. Quem ficou, ou concorda com a guerra, ou simplesmente não pode discordar. O espião no Kremlin executou um plano ao longo de mais de 20 anos e a estratégia, acredita Franz Hellmeier, resultou.
Ele não vai afastar-se. Não o vejo a ir a lado nenhum e isso deve-se ao sistema que ele construiu.
O empresário alemão que recebia Putin em casa pra jantar, tem uma previsão: Vladimir Putin só vai sair do Kremlin deitado. Não vai ser baleado, não vai ser esfaqueado, não vai ser envenenado. Vai morrer de velho. "Um Espião no Kremlin" é uma série em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Marco Delgado, e tem banda sonora original de Martim Sousa Tavares e Manuel Palha. O guião e as entrevistas são de Cátia Bruno. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos ainda as vozes de Peter Schliff, Vadim Poliszczuk, Austin Bush e David Zakharov, agenciado da Sounder People. Ouvimos também sons históricos retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador: é mais do que um podcast.
Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
