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Já é de noite quando um carro branco de matrícula russa para ao pé do número 14 da Rua Novozhilov. Dois homens saem do carro, de modelo típico soviético. Abrem o porta-bagagens e retiram um saco pesado, também branco, que transportam a custo para a cave do prédio. Os vizinhos, alertados pelo ruído, abrem as cortinas. 22 de setembro de 1999. A Rússia está em estado de alerta. Nas últimas semanas, várias explosões em edifícios de diferentes cidades mataram mais de 300 pessoas. Vive-se um clima de medo e desconfiança. Dois estranhos àquela hora, à frente do prédio, não conseguem passar despercebidos. Ao espreitar pela janela, os moradores daquele bloco de apartamentos na cidade de Ryazan veem os dois homens a transportar mais sacos para a cave. Quando terminam, fecham o porta-bagagens, entram no carro e partem apressadamente. Preocupados, alguns dos residentes telefonam para a polícia. Quando os agentes chegam e descem à cave, encontram três sacos de 50 quilos cada um. Mas não só. Há também um detonador e um relógio em contagem decrescente com uma hora programada: 5 e meia da manhã. O prédio é rapidamente evacuado e é chamada a equipa de explosivos para que se impeça o desastre iminente. Ao mesmo tempo, nas estradas nos arredores de Ryazan, começa a caça ao carro branco. Não demorará muito a ser encontrado. Menos de 24 horas depois, os dois homens são apanhados. Mas quando baixam o vidro da janela para mostrar os documentos, aquilo que entregam deixa os polícias surpreendidos. Na mão do agente que os aborda estão agora dois distintivos, onde se vê claramente uma sigla reconhecida por todos os russos: FSB. O condutor e o pendura do carro branco são espiões do antigo KGB. Há uma palavra em russo que traduzida à letra significa "homens fortes": siloviki. Estes dois que acabam de ser apanhados estão muito longe de serem siloviki. Já os chefes deles são outra história. Uma história que hoje todos sabemos como acaba, com a Rússia a invadir a Ucrânia, mas que poucos perceberam como foi construída. Passo a passo, peça a peça, às vezes, nos detalhes, muitas vezes, nos episódios que não chegam às manchetes dos jornais. Esta é uma história de agentes secretos e de um agente secreto em particular. É uma história de ilusões e de mentiras, de como um homem praticamente desconhecido vem das sombras para ganhar um poder quase absoluto. E de como durante anos, muito foi feito às escondidas, mas muito estava já mesmo à frente dos nossos olhos e nós simplesmente não vimos. Este é "Um Espião no Kremlin", uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos podcast plus d'O Observador. É narrada por mim, Marco Delgado, com banda sonora original de Martim Sousa Tavares e Manuel Palha. Episódio um: Moscovo está em silêncio.

Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir. Nesta viagem, os podcast plus d'O Observador têm o apoio da Honda Automóveis.

Esta é a história escondida de como Vladimir Vladimirovich Putin montou uma teia de poder e guerra que começou no KGB e acabou na Ucrânia dos dias de hoje. Qual foi o primeiro passo deste espião no Kremlin? Usar a guerra para se transformar num líder adorado. Nove meses antes de os dois agentes secretos serem apanhados em flagrante a tentar colocar explosivos num prédio, as coisas estão tudo menos calmas no Kremlin. O chefe de gabinete do presidente russo acaba de convocar o procurador-geral ao palácio presidencial. É janeiro de 1999 e Boris Yeltsin comanda os destinos de um país que se ressente ainda do fim da União Soviética. Mas o presidente já não tem o vigor dos primeiros tempos e não vai liderar esta reunião. O procurador-geral chama-se Yuri Skuratov Nos últimos meses, começou a investigar gente muito próxima de Yeltsin por suspeitas de alta corrupção e a tornar-se incômodo para o Kremlin. Quando chega ao palácio, é surpreendido pelo chefe de gabinete de Yeltsin com uma cassete de vídeo VHS. A imagem é pouco nítida, mas não há dúvida do seu conteúdo. Um homem está na cama de um hotel com duas mulheres em práticas sexuais. "Este é você", aponta o chefe de gabinete do presidente e lança-lhe um ultimato: "Demita-se!" Mas o procurador não se demite e começa um braço de ferro com o governo de Yeltsin. O presidente passa grande parte deste período no hospital, aflito com uma úlcera. No meio do caos, um homem ainda meio desconhecido surge para resolver o problema. É o atual diretor do FSB, o Serviço Federal de Segurança, a agência que sucedeu ao KGB, os serviços secretos do tempo da União Soviética. Nos dias seguintes, este homem baixo, louro, mas com o cabelo já a começar a rarear aos 47 anos, telefona a Skuratov, visita-o em casa e passeia com ele nos jardins de Moscovo. Elogia o procurador e propõe-lhe alternativas para uma saída honrosa. "Porque não ser embaixador na Finlândia, por exemplo?" Quando isso não resulta, parte para as ameaças. Nada demove Skuratov. Mas tudo muda na véspera de uma audição parlamentar do procurador-geral, quando o canal de televisão privado RTR exibe um programa especial. Franz Sedelmaier é um empresário alemão e naquele altura vivia na Rússia. Conta-nos que o vídeo deixou o procurador sem saída.

Mostraram nas notícias o procurador-geral alegadamente com duas mulheres da noite num quarto de hotel. A qualidade era tão má que não se conseguia realmente dizer quem era a pessoa, mas isso foi suficiente. Ele estava fora do cargo e a investigação desapareceu.

E há um detalhe importante nesta história. A demissão do procurador só aconteceu depois de uma intervenção pública do diretor do FSB. "A cassete parece genuína", afirmou o responsável máximo das secretas russas numa conferência de imprensa. Ninguém sabe como é que a cassete chegou à televisão. Os rumores em Moscovo dizem que o chefe do canal a recebeu diretamente das mãos de um homem de estatura baixa, que se parece com o diretor do FSB. Esse homem chama-se Vladimir Vladimirovich Putin. De repente, o presidente Yeltsin descobre que tem ali um aliado que lhe pode resolver todo o tipo de problemas, especialmente as suspeitas de corrupção contra ele. Vladimir Milov, que trabalhava no setor da energia e frequentava na altura os corredores do Kremlin em Moscovo, não tem dúvidas.

Penso que foi nesse momento que Yeltsin tomou a decisão de que Putin é o homem que o vai defender quando ele deixar o poder. Garantir que ele não iria ser acusado, que a sua família não iria ser acusada.

E é assim que, no momento em que os dois agentes do FSB são apanhados em flagrante a tentar colocar uma bomba em Ryazan, Putin já não é diretor das secretas russas. Por essa altura, já foi promovido pelo presidente Yeltsin a primeiro-ministro. Esta música marcou toda uma geração de agentes do KGB. Chama-se "Aquilo com que a Pátria Começa" e faz parte do filme "O Escudo e a Espada". É uma épica antiga, com mais de cinco horas. Estreou em 1968 e é baseado num livro de propaganda soviética. Tornou-se de imediato o filme mais popular do ano. Conta a história do major Alexander Belov, agente secreto soviético infiltrado nas SS da Alemanha nazi. Nesse mesmo ano, um adolescente entra pelo seu próprio pé na sede do KGB, em São Petersburgo. Volodya, como lhe chamam os amigos, pergunta o que é preciso para se tornar um agente. Tem 16 anos, viu o filme várias vezes e ficou fascinado com aquele mundo. Volodya é Vladimir Putin. O próprio contou numa biografia oficial por que desejava tanto ser um espião. Os livros e filmes de espiões, como "O Escudo e a Espada", captaram a minha imaginação. O que me impressionava mais era como o esforço de um único homem conseguia alcançar aquilo que exércitos inteiros não conseguiam. Um espião podia decidir o futuro de milhares de pessoas. Pelo menos era assim que eu pensava. Na sede do KGB, dizem-lhe que ali não são aceites voluntários. É preciso ser escolhido e é preciso ter um curso superior. "Qual?", pergunta. Sugerem-lhe que vá para Direito. Nunca abandona o sonho de vir a trabalhar no KGB, mas o convite só surgirá no quarto ano da universidade. Putin leva muito a sério a formação inicial no KGB. Tão a sério que um dos instrutores chega a fazer piadas com o facto de aparecer sempre nas aulas de fato completo, com colete, mesmo em dias de verão. Mas Vladimir não deixa grande marca, apesar de ser um estudante disciplinado. Na avaliação final, um coronel destaca que Putin parece ser pouco comunicativo. Mesmo assim, no verão de 1976, o jovem Volodya começa a trabalhar como agente do KGB. É colocado no departamento de contraespionagem. Dresden, na Alemanha de Leste, foi uma das cidades mais destruídas pelos bombardeamentos na Segunda Guerra Mundial e ficava numa das poucas regiões da Alemanha onde não chegavam canais de televisão ocidentais. Chamavam-lhe, por isso, o Vale dos Ignorantes. É pra aqui que Putin é enviado em 1985. Alexander Harrer conhece bem o passado de Vladimir Putin na Alemanha. Este historiador alemão e consultor da empresa russa Gazprom, escreveu uma das suas biografias. Ainda hoje mantém alguma proximidade com o regime de Moscovo, mas nem por isso exagera o passado de Putin no KGB.

As pessoas que hoje em dia inventam uma série de histórias, e mesmo histórias dele ser um super espião, um James Bond da Alemanha Leste, estão erradas. Ele tinha um trabalho burocrático, não nos verdadeiros serviços centrais do KGB na Alemanha Leste, que era em Berlim, mas na cidade periférica de Dresden, onde, na verdade, nada acontece.

Mas há uma noite, quase no fim da sua missão em Dresden, que vai marcar toda a vida de Putin. A 9 de novembro de 1989, o muro de Berlim cai. Nas semanas seguintes, a cidade de Dresden fervilha com agitação nas ruas. Menos de um mês depois, uma multidão reúne-se em frente aos portões da sede da Stasi, a polícia política da Alemanha de Leste. "Nós somos o povo", gritam. Querem a queda do regime pró-soviético em toda a República Democrática Alemã. Ali perto, na sede do KGB, Putin e os camaradas entram num frenesim. "Queimámos papéis noite e dia", contou o próprio aos seus biógrafos. "Destruímos tudo, todas as nossas comunicações, as nossas listas de contactos e as redes dos nossos agentes. Eu pessoalmente queimei uma enorme quantidade de material. Queimámos tanta coisa que o forno se estragou". O ambiente dentro daquela vivenda de dois andares é de pânico. O jornalista Andrei Soldatov explica como os agentes do KGB provavelmente se sentem naquele momento.

Acho que tem a ver com a forma como pensam. É uma mentalidade. Os oficiais do KGB são ensinados a ver o mundo com base em ameaças. É isso para tudo. Quando surge uma nova tecnologia ou uma crise política, uma nova situação, um novo líder no outro país, o primeiro pensamento é: que tipo de ameaça ou que isto me coloca? Como ameaça a minha estabilidade política? É a maneira como eles pensam e tem origem num sentimento profundo de insegurança, que é partilhado por muitos no KGB.

A certa altura, um pequeno grupo de manifestantes decide ir até à vivenda onde estão os agentes do KGB. Em pânico, o guarda que está no portão foge pra dentro da casa. Pouco depois, um homem baixo sai para vir falar com o grupo. "Não tentem forçar a entrada nesta propriedade. Os meus camaradas estão armados e estão autorizados a usar as armas em caso de emergência". O homem é o major Putin. Consegue conter a situação, mas o grupo não arreda pé. Vladimir telefona então pra a unidade mais próxima do Exército Vermelho para pedir reforços. Do outro lado da linha, um soldado informa-o de que vai pedir instruções a Moscovo. Sem ter obtido resposta, Putin volta a ligar. A voz que lhe chega do outro lado é perentória: "Não podemos fazer nada sem ordens de Moscovo. E Moscovo está em silêncio". Moscovo está em silêncio. Esse momento e essa frase ficarão para sempre cravados na memória de Putin. Aos biógrafos explicaria mais tarde que aquela ideia de "Moscovo está em silêncio", deu-lhe a sensação de que ali o país já não existia, tinha desaparecido. Resumiu tudo numa frase: "Era claro que a União estava moribunda, tinha uma doença terminal sem cura, uma paralisia do poder". Aquela noite em Dresden reúne todos os ingredientes que ajudam a explicar os maiores receios de Vladimir Putin nas décadas seguintes. O fim do império soviético, em primeiro lugar, a falta de comando e ordem, em segundo. E há ainda um terceiro elemento importante para perceber muito do que acabou por vir a acontecer, como explica Jeremy Kinsman, ex-embaixador do Canadá em Moscovo no início dos anos 90, que chegou a conhecer pessoalmente Putin.

Ele tem um medo pessoal muito forte do poder das multidões. Viu isso em Dresden. Ele ficou verdadeiramente aterrorizado e voltou a ver isso na Maidan, em 2014. Aquilo que ele mais temia no caso da Ucrânia era o contágio. Não éramos nazis, não éramos Estados Unidos, era o contágio.

Há uma pergunta que ficou a pairar desde o início deste episódio: afinal, o que estavam a fazer dois agentes secretos em Ryazan quando colocaram o que parece ser uma bomba na cave de um prédio em setembro de 1999? Até ali, mesmo sem provas claras e sem que os atentados tivessem sido reivindicados, o Kremlin tinha culpado os separatistas da região da Chechênia pelos ataques das últimas semanas. Desta vez, a história termina com os dois agentes do FSB a serem detidos e depois libertados após uma chamada direta da sede. Mas essa informação não é logo tornada pública. Oficialmente, as autoridades dizem que foi um atentado terrorista que acabou por ser abortado. E foi essa a versão que vingou durante praticamente 48 horas. Até que o diretor dos serviços secretos, Nikolai Patrushev, fala a um canal de televisão e apresenta uma versão totalmente nova. "Isto não foi uma bomba", garantiu. "Este exercício pode não ter sido bem executado, mas era só um teste. O dito explosivo eram apenas sacos de açúcar". Afinal, nem tudo o que parece é. E tudo não passaria de um simulacro para testar a vigilância dos russos, ou não. As explicações de Patrushev não convencem. As suspeitas de que os serviços secretos russos podem, afinal, ser responsáveis por todos os atentados, surgem de imediato. A 13 de setembro, quando o incidente em Ryazan ainda nem tinha acontecido, um tabloide publica um artigo polémico. O título pergunta: "Andou o Kremlin a fazer bombas?" E cita uma fonte das secretas que responsabiliza o FSB pelos ataques. Depois de Ryazan, as suspeitas crescem ainda mais. Vladimir Milov, que trabalhava para o Estado na área da energia, conta-nos como até dentro do Kremlin se falava abertamente sobre essa possibilidade.

Sabe qual é a grande diferença da perceção pública deste incidente agora e na altura? É que nós adivinhamos. Discutíamos isso dentro do governo, nos nossos locais de trabalho. Quem anda a fazer explodir os nossos apartamentos? São os chechenos ou o FSB?

À medida que o tempo passa, a teoria da conspiração adensa-se. Um advogado que investiga a possível ligação do FSB aos atentados, é preso. Alguns deputados que se debruçam sobre o tema, morrem em circunstâncias estranhas. O jornalista Andrei Soldatov, que tem fontes dentro dos serviços secretos, investigou a fundo o tema e admite que o FSB parecia ter algo a esconder. Mas de acordo com as suas fontes, o incidente em Ryazan foi exatamente como disse Patrushev, o diretor das secretas.

Aquilo foi muito estúpido da parte do FSB, mas na altura falei com as forças especiais que fizeram aqueles exercícios em Ryazan. Parece-me que, às vezes, estas pessoas são realmente estúpidas. Às vezes, são mesmo estúpidas.

Soldatov é cuidadoso com as palavras, mas acaba por revelar o que acha que pode ter acontecido. Não um envolvimento direto do FSB a pôr bombas em caves de prédios, mas outro tipo de implicação nos atentados. A jornalista Katya Bruno falou com Andrei Soldatov.

Às vezes não tem que se fazer tudo. Aproveita-se simplesmente a oportunidade e deixa-se as coisas correr. Este tipo de situação nunca foi investigada a sério.

Portanto, acha que o FSB pode ter tido um papel. Talvez tenha sabido antes que algo ia acontecer e deixou andar?

Isso nunca foi investigado a sério.

Até hoje, não sabemos quem colocou os explosivos naqueles prédios ao longo do mês de setembro de 1999. Sabemos, contudo, que muitos russos acham que pode ter sido o próprio Estado, 40%, segundo uma sondagem da altura, o que diz bastante sobre o clima de desconfiança dos russos no seu próprio sistema. Mas por que razão podia o FSB querer que acontecessem atentados com centenas de mortes de cidadãos do seu país? O que teria a ganhar com isso? Mais uma vez, nesta história, nada é o que parece. Muitos acreditam que o beneficiado não era o FSB, mas sim o primeiro-ministro Vladimir Putin. Ainda não tinham passado 24 horas sobre o incidente em Ryazan, quando aviões militares russos começam a bombardear a cidade de Grozny. Os atentados são a justificação que faltava a Vladimir Putin para avançar para uma nova guerra na Chechênia, depois da primeira derrota russa no início da década de 90. O presidente Yeltsin, doente devido ao alcoolismo, dá a Putin poder absoluto. Os relatos que vão chegando são aterradores. A artilharia do exército russo arrasa todos os edifícios. Os civis vivem fechados nos abrigos e caves dia e noite. Os hospitais são bombardeados como se fossem edifícios militares. E quando os soldados russos ocupam aldeias, o rasto de morte que deixam pelo caminho é visível. Violações, tortura, decapitações. Tal como agora na Ucrânia. Mas aconteceu há já mais de 20 anos, na Chechênia.

Vamos persegui-los e apanhá-los até na retrete.

Putin é duro e inflexível nas palavras, mas também nos atos. Mostra aos russos que tem pulso firme. E isso compensa. Tem, neste momento, 31% de taxa de aprovação. No final do ano, terá chegado aos 80%. Mas não anuncia uma guerra. Oficialmente, a intervenção na Chechênia é uma "operação especial contra os separatistas". Operação especial, tal e qual como na Ucrânia. O antigo chefe da CIA em Moscou explica-nos o que é que liga aquela operação especial à invasão da Ucrânia.

A segunda guerra da Chechênia foi verdadeiramente implacável, mas tornou-se uma espécie de livro de instruções que ele escreveu sobre como lidar com os conflitos, também fora da Rússia, como da Geórgia, da Síria e da Ucrânia. Ele usou este livro de instruções e foi tão bem-sucedido no início que voltaria a usá-lo no futuro.

A ascensão é meteórica. O burocrata desconhecido, que começou em 1999 como diretor do FSB, vai acabar o ano como presidente da Federação Russa. Quando os russos ligam a televisão à hora de almoço do último dia do milénio, têm uma surpresa. Boris Yeltsin anuncia que fala com eles pela última vez como presidente. "Hoje, no último dia do século que acaba agora, demito-me". A sucessão, porém, já estava preparada. Primeiro, seria substituído por um presidente interino e só depois haveria eleições. Todos antecipavam que Yeltsin escolhesse alguém ligado aos serviços secretos.

Yeltsin já estava neste caminho desde 1996. Em 1998, quando Moscovo é abalada por uma crise económica, Yeltsin escolhe consecutivamente três primeiros-ministros que têm todos algo a ver com os serviços de segurança. Tivemos Stepashin, antigo diretor do FSB. Tivemos Primakov, antigo chefe dos Serviços de Informações Externas e, finalmente, ele escolhe Putin, mais uma vez, um ex-diretor do FSB.

A análise do jornalista Soldatov é semelhante à do chefe da CIA em Moscou. Rolf Mowatt-Larssen também andava de olho nos homens do FSB, mas o chefe dos serviços secretos americanos confessa que não se apercebeu de que o primeiro-ministro Putin estava sequer na corrida.

Tenho um pouco de vergonha em admitir isto, mas não reparei nele. Eu conhecia praticamente toda a gente. Estive com o presidente Yeltsin algumas vezes e conhecia outras pessoas influentes como Yevgeny Primakov, Sergei Stepashin e outras não supereminentes nos anos 90, que tiveram hipóteses de se tornar a figura de topo como Putin.

Semanas antes da demissão, Yeltsin tinha chamado Vladimir Putin para acertar a transição. Agora, quando a meia-noite do novo milénio se aproxima, é um jovem Putin que aparece nos televisores dos russos reunidos à mesa e garante-lhes que não haverá um vazio de poder.

"O primeiro presidente da Rússia

O primeiro discurso de Putin como presidente interino é curto. Com a bandeira russa ao lado, uma árvore de Natal atrás, o novo chefe de Estado não sorri quando fala aos russos, mas deixa algumas garantias. "A liberdade de expressão, a liberdade dos media, a propriedade individual e todos os elementos que formam uma sociedade civilizada vão continuar protegidos pelo Estado", assegurou. Vinte e três anos mais tarde, o embaixador Jeremy Kinsman percebe que era tudo teatro.

No seu discurso a aceitar a presidência no Ano Novo de 2000, ele só deixou uma promessa política: continuar a democracia, aperfeiçoar a democracia. Ficamos espantados com as palavras, porque tudo o que ele fez desde então foi o oposto disso.

Putin não perde tempo. O primeiro decreto que assina garante que as investigações abertas contra Yeltsin e a sua família vão cair. Na mesma noite, viaja pra Chechénia, onde visita as tropas russas. Nos meses seguintes, momentos como esse enchem os telejornais todos os dias. Putin a sair de um helicóptero com roupas de estilo militar, Putin no funeral de um soldado, de ar consternado, Putin a brindar com os comandantes no teatro de guerra e discursos, muitos discursos. Putin não participa em nenhum debate presidencial. Não precisa. Todos os dias tem presença assegurada na televisão. Depois do caos dos anos 90 e da presidência Yeltsin, apresenta-se como um homem que tem tudo sob controle, competente e próximo das pessoas. A 26 de março do ano 2000, o ex-presidente Yeltsin junta-se com a sua mulher e a filha Tatiana para assistirem à noite eleitoral pela televisão. O momento é acompanhado pelo cineasta Vitaly Mansky. As primeiras projeções dão a vitória a Putin à primeira volta. "É o meu presidente." " É o meu presidente." "Pai, estás feliz?", pergunta-lhe a filha. "Esta vitória é minha", responde Yeltsin. A filha concorda: "Esta vitória é tua". O cineasta desafia então Yeltsin a telefonar a Putin para lhe dar os parabéns. Do outro lado, alguém lhe diz que Putin foi caminhar e não está na sede da campanha pra atender o telefone. Devolverá a chamada mais tarde. Mas o tempo passa e o telefone não toca. "Está a caminhar há uma hora e meia, não vamos esperar mais", acaba por dizer Yeltsin, irritado. O telefonema nunca chegou. Yeltsin via Putin como um homem leal e Putin cumpriu a sua promessa de proteger o antecessor, mas deixa claro que já não lhe deve nada. O presidente agora é ele. Putin chegou ao poder e quer mostrar quem manda, mas não chegou, nem permaneceu lá, sozinho. Nikolai Patrushev, que se manteve à frente dos serviços secretos durante anos, lidera agora, em 2023, o Conselho de Segurança, o principal órgão responsável por aconselhar Putin. Quando Patrushev saiu do FSB, em 2008, foi substituído pelo seu protegido, Alexander Bortnikov, outro antigo conhecido de Putin do KGB de São Petersburgo. Vladimir Milov, que chegou a ser Ministro da Energia durante o primeiro mandato de Putin, descreve-nos um trio inseparável há décadas.

"Eles são um só, são as três cabeças do dragão, de certa forma. Não acho que faça sentido pensar neles de forma separada. Creio que nos últimos 20 anos passaram mais tempo juntos do que com quaisquer outras pessoas. Imagino-os todas as noites juntos, a beber um conhaque e a felicitarem-se mutuamente por serem os mestres do universo."

Fazem parte do grupo a que os russos chamam "siloviki", os homens das agências de segurança e das forças armadas que influenciam o poder. Nove meses depois de ser eleito presidente, Vladimir Putin organiza um jantar buffet pra um grupo de veteranos do KGB. À luz dos grandes lustres do palácio presidencial, o espião que agora manda no Kremlin celebra o sucesso do plano que só eles conheciam e discursa. "Quero reportar que o grupo de colegas do FSB, a quem foi incumbida a missão de trabalhar de forma clandestina no governo, cumpriu o primeiro estágio da sua missão. A operação especial para assumir o controle dos degraus mais altos do poder foi bem-sucedida." Sim, para Putin, a sua chegada ao poder foi uma operação especial. Não seria a última. A 12 de agosto do ano 2000, um acidente no lançamento de um torpedo provoca duas explosões dentro do submarino nuclear Kursk. A tripulação de 113 homens não sobreviverá ao desastre. O Kursk vai acabar no fundo do mar de Barents, mas as autoridades russas não revelam de imediato os contornos do acidente. As famílias dos marinheiros desesperam por notícias, sem saber se estão vivos ou mortos. Boris Berezovsky, um dos oligarcas que se tornaram milionários sob proteção e amizade do presidente Yeltsin nos anos de crise, tenta avisar Putin do mal-estar que se vive na Rússia. De férias em Sochi, o novo presidente não parece ter vontade de regressar. Depois de uma discussão entre os dois, a cadeia de televisão controlada pelo oligarca começa a criticar abertamente a ausência de Putin. Putin vê isso como uma traição. E para Putin, só há uma coisa pior do que um inimigo: um traidor. Mas essa é uma história para o próximo episódio. "Um Espião no Kremlin" é uma série em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Marco Delgado, e tem banda sonora original de Martim Sousa Tavares e Manuel Palha. O guião e as entrevistas são de Cátia Bruno. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos ainda as vozes de Peter Schliff, Vadim Poliazhovoi, Austin Bush e David Zakharov, agenciado da Sonder People. Ouvimos também sons históricos retirados do YouTube e um excerto do documentário "As Testemunhas de Putin", de Vitaly Mansky. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

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