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Poderia ter sido só mais um carro avariado. O cenário era muito comum na altura. Em abril de 1945, a poucos dias do final da guerra, as estradas da Alemanha estavam repletas de camiões e carros de combate abandonados nas bermas à medida que as forças alemãs iam retirando. Mas naquele dia, durante uma patrulha na pequena vila de Meisdorf, a cerca de 200 km de Berlim, um tenente americano repara num camião em particular. Está tombado, com um monte enorme de papéis espalhados em redor. Quando o tenente se dirige até à viatura, repara numa folha que está molhada e enrugada, com uma assinatura manchada, mas ainda legível. Joachim von Ribbentrop, o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão. Seria apenas o início. Os americanos começam a investigar, fazem perguntas entre a população. Descobrem que desde 1943, a pacata vila era regularmente perturbada por pesados camiões que transportavam maços de documentos que os habitantes tinham ajudado a descarregar, e que aquela era apenas uma de quatro localizações para onde tinha sido enviada documentação secreta para ser destruída, caso perdessem a guerra. É preciso agir rapidamente. A área onde os documentos foram encontrados vai passar para as mãos dos soviéticos. Os ficheiros são transportados pelos americanos em 237 camiões até ao Castelo de Marburgo, a norte de Frankfurt, zona de influência americana. Ao longo das próximas semanas, as descobertas não vão parar.
"In this headquarters on the 8th of May, the final unconditional surrender has been ratified."
A mais surpreendente é feita a 14 de maio, sete dias depois de a Alemanha se render. Um informador alemão que tinha trabalhado como intérprete de Hitler, conduz os soldados americanos a uma casa de campo, 120 km a sul do local onde o tenente tinha encontrado o camião tombado. Quando chegam a uma zona isolada no fundo de uma ravina íngreme no meio de pinhais, o homem aponta para o chão. Começam a cavar a terra e rapidamente batem em alguma coisa. É uma grande caixa de metal enferrujada embrulhada numa gabardine. Quando a abrem, encontram um microfilme semelhante a um rolo fotográfico. Como se vai perceber em breve, contém informações altamente sensíveis e que comprometem o Duque de Windsor. A primeira reação foi desconfiar. Quem sabe se tudo aquilo não faz parte de um plano elaborado pelos nazis para confundir o inimigo. Mas em pouco tempo, os documentos reproduzidos em microfilme são considerados autênticos. São feitas cópias e enviadas para o Reino Unido, França e Estados Unidos, onde serão estudadas e catalogadas. Em julho de 1945, um jovem historiador está no Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico quando, ao analisar os documentos, percebe o que tem realmente em mãos. Fica chocado e surpreendido com o que encontra. Comunica a descoberta ao governo, que depressa percebe que aquela informação pode ser ruinosa para a família real. O governo britânico começa por sugerir aos aliados que destruam os microfilmes. Quando eles recusam, pede-lhes que ao menos sejam entregues ao cuidado do Reino Unido. E quando isso também não funciona, o primeiro-ministro Winston Churchill tenta que a publicação seja adiada por pelo menos mais 10 ou 20 anos. E até consegue ganhar algum tempo. Mas 12 anos mais tarde, as informações vão mesmo ser reveladas. E no centro de toda a intriga vai estar um local: a mansão cor-de-rosa da Boca do Inferno, em Cascais. Este é "Um Rei na Boca do Inferno", uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Soraia Chaves, com banda sonora original de Cláudio Pascual. Episódio três: segredos enterrados na floresta.
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É um penhasco com uma formação rochosa peculiar. Tem uma abertura para o mar por onde a água entra para um pequeno sistema de cavernas. Chamaram-lhe Boca do Inferno por causa da altura das rochas e da violência das ondas. Ao longo dos anos, muitos morreram ali, por acidente ou por se atirarem voluntariamente para o mar. Junto ao penhasco houve sempre um pinhal, isolado e ventoso, onde as pessoas da vila iam em passeio, mas onde ninguém se tinha lembrado morar. A mansão cor-de-rosa foi a primeira a surgir ali.
O avô foi dos primeiros, na era moderna, estou a falar de rei dom Carlos, a ir para Cascais. Quando fez a casa dele, nem marginal havia. E comprou, naquela época, o que se chama hoje em dia Ogandarinha, que vai desde quase ali da igreja de Cascais. Ao lado da igreja de Cascais tem uns prédios antigos que estão arranjados aqui. E desde aí, as duas estradas, a marginal e outra, até ao bico, lá em cima, caminho da Marinha, todo esse terreno o meu avô comprou a certa altura e foi aí que fez a casa.
José Maria Ricciardi é neto de Ricardo Espírito Santo, o dono do palacete. Na verdade, a casa cor-de-rosa até já existia. Foi construída no final dos anos 20 e comprada pelo banqueiro em 1936 por 120 contos. Mas Ricardo fez profundas obras de remodelação na casa de verão, que a puseram como nova. Mandou fazer instalações modernas de luz, água e esgotos. Fez uma piscina enorme com mármores. Construiu uma vedação em volta da casa. Conta-se que era avisado de quando iam acontecer demolições em Lisboa para poder ficar com os azulejos antigos, e terá sido assim que conseguiu os azulejos do século XVII, que foram usados para decorar os muros interiores. A mansão tinha quatro pisos, contando da cave até ao sótão. Era um palacete de luxo com salões largos. No primeiro andar havia seis quartos e ainda um quarto de vestir. Para além de três casas de banho, uma arrecadação e uma área de serviço. É esse primeiro andar que os duques de Windsor vão ocupar em julho de 1940. A moradia estava impecavelmente mobilada com peças de mobiliário do século XVIII e porcelanas da Companhia das Índias. E no exterior, tinha um enorme jardim virado para o pinhal nas traseiras. José Maria Ricciardi passava as férias de verão na mansão da Boca do Inferno. Ainda se recorda de ser pequeno e de brincar na casa com os primos.
As quatro irmãs tinham quatro filhos mais ou menos com a mesma idade e nós brincávamos os quatro no pinhal da casa da minha avó. Tivemos a fase em que também tínhamos uma casa em Lisboa e no verão íamos para lá, depois a seguir ao 25 de Abril, passámos a só ter a casa de Cascais. Portanto, virei um cascaiense puro.
No verão de 1940, o palacete cor-de-rosa é a localização ideal para receber os duques de Windsor. Fica num sítio isolado, perfeito para manter os hóspedes sob vigilância apertada, explica o investigador Carlos Alberto Damas.
Todo este espaço onde é a casa está cercado, tem muros altos ainda hoje e é absolutamente controlável quer por uma polícia política, quer pelos serviços secretos ingleses. Não havia ali possibilidade de alguém se aproximar, muito menos em julho de 40, sem ser logo visto.
Anos mais tarde, a casa também vai aparecer nos ficheiros alemães encontrados no final da guerra e que os britânicos tanto se esforçaram por esconder. Ficaram conhecidos como os ficheiros Marburgo, por causa do local onde foram inicialmente reunidos e protegidos na Alemanha. Depois de várias pressões para que a publicação fosse adiada, os ficheiros acabam por ser revelados em julho de 1957, 12 anos depois de terem sido descobertos. São milhares de telegramas e comunicações trocados entre o Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão e as embaixadas e elementos dos serviços secretos espalhados pelo mundo, até ao final da guerra. Quando o conteúdo das 60 páginas que referem Eduardo, o Duque de Windsor, é conhecido, o governo britânico apressa-se a emitir um comunicado. Garante que os documentos alemães não são confiáveis e não passam de propaganda nazi. O Palácio de Buckingham também reage. Assegura que o Duque nunca hesitou na sua lealdade e comprometimento com a causa britânica. Mas nada disso consegue apagar as suspeitas, que se mantêm até hoje. Os primeiros documentos que referem o Duque datam de meses antes da chegada a Lisboa. Em janeiro de 1940, quando Eduardo ainda estava em França, o embaixador alemão nos Países Baixos escreve para Berlim. Informa que pode ter uma oportunidade para estabelecer contacto com o Duque. Que o homem, que já foi rei de Inglaterra, não está satisfeito com a sua posição atual e que pode estar disposto a desempenhar um papel mais ativo. Mas a maioria das referências ao Duque de Windsor estão nas comunicações entre Berlim e as embaixadas em Lisboa e Madrid. E essas não revelam só o plano alemão, também põem em causa as intenções do Duque. A mansão da Boca do Inferno está cheia de espiões e informadores, por dentro e por fora. Alguns não estão visíveis, vigiam apenas tudo do exterior, mas outros fazem parte do dia a dia da casa e estão sempre de ouvidos atentos para passar informações à polícia portuguesa, aos britânicos ou aos alemães. Pode ser um cozinheiro, um empregado que serve o jantar ao Duque, pode ser motorista. Na Lisboa de 1940, a informação é uma mercadoria muito valiosa e que todos estão dispostos a vender a qualquer dos lados da guerra. Basta que paguem mais, explica a historiadora Margarida Magalhães Ramalho.
Obviamente que também havia um negócio paralelo, porque Portugal era, sobretudo nessa altura, um país bastante pobre e a maioria da população vivia muitíssimo mal. O que significa que se puder ganhar uns cobres a dar informações aos alemães ou aos aliados, ou aos dois, melhor. E isso era comum, desde os empregados dos hotéis, aos taxistas, aos motoristas, até de lojas, enfim, todas estas pessoas poderiam estar a funcionar ou para lado ou para outro.
Os alemães tinham forte presença em Portugal e estavam infiltrados na Polícia Política, a PVDE. E o diretor, Agostinho Lourenço, sabia disso. Berlim até suspeitava que Lourenço tivesse uma inclinação pessoal para ser mais pró-britânico. Mas num país que tinha declarado neutralidade, o jogo de equilíbrio era sempre delicado. E o diretor da Polícia Política não queria hostilizar nenhum dos lados. Agostinho Lourenço tinha olhos em todos os cantos na Boca do Inferno. E tinha o agente infiltrado que lhe redigia um relatório diário sobre as movimentações e conversas do Duque dentro de casa, e não só. Os duques foram instruídos para saírem do palacete o menos possível. Mas como se percebe pelo relatório final do agente da secreta portuguesa, não foi bem isso que acabou por acontecer ao longo de todo o mês. Há até relatos de uma tarde em que o próprio diretor da PVDE repreendeu Eduardo, nos jardins da casa cor-de-rosa, por se ter escapado para uma caminhada solitária nos pinhais em redor. Foi apanhado por uma patrulha e escoltado de volta para o palacete, advertido para não voltar a fazer o mesmo, sem antes avisar os guardas. O Duque sempre esteve habituado à segurança, desde o tempo em que era o herdeiro ao trono, mas nunca tinha sido tão intensa e apertada como durante aqueles dias em Portugal. Tem perfeita noção de que está constantemente sob vigilância e cada vez mais cercado. Sente-se um prisioneiro. Há uma falha que vai ser fatal para os serviços secretos alemães, e não apenas em Portugal, mas em todos os outros cenários de espionagem. É uma falha que, no limite, os vai levar a perder a guerra nos bastidores e que vem de uma crença inabalável, a de que não era possível virar espiões para o outro lado. Para os nazistas era, sobretudo, uma questão ideológica, explica Marisa Filipe, investigadora a fazer uma tese de doutoramento sobre a espionagem em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial.
E uma das coisas que é muito interessante quando se trabalha o tema da espionagem é o falhanço total da espionagem alemã, porque a espionagem alemã é muito mais centrada numa ideia ideológica. Na verdade, a ideologia era tão forte que o próprio Führer ou Himmler não vão acreditar que seja possível virar espiões. E, portanto, como esta ideia é tão arraigada, eles quase que acreditam que não é muito necessária a guerra secreta e vai ser tão difícil tornar alguém democrata, por assim dizer, porque a ideologia nazista era em si própria tão forte para eles, que a espionagem alemã não vai ter o impacto que se esperava.
Mas o mesmo não vai acontecer com os ingleses, que se apercebem desde cedo das potencialidades da contraespionagem. Logo em 1940, o MI5 cria um departamento que tem como missão virar os agentes alemães capturados. Chama-lhe comitê Double Cross. E a coordenar toda esta rede de espiões duplos vai estar o mesmo homem que em 1936 era o jovem recruta que escutou o telefonema em que o rei Eduardo VIII informou o irmão de que ia abdicar. Agora, quatro anos depois, é já um dos agentes mais respeitados das secretas, Thomas Argyll Robertson. Na rede de espiões duplos havia antigos agentes alemães que depois de serem capturados eram persuadidos a trabalhar para os britânicos, mas também havia agentes alemães ainda no ativo, que simplesmente se ofereciam para ajudar os aliados.
Os ingleses veem a coisa completamente diferente e vão conseguir virar muitos espiões alemães. Aliás, esta é uma das grandes coisas e dos grandes sucessos da espionagem britânica em Portugal e em toda a Europa. É a quantidade de agentes alemães que se vão tornar double cross spies, os famosos double cross spies que nós conhecemos nos filmes de ficção
Era uma atividade de risco elevado, muitas vezes distante do glamour dos filmes de espionagem. Se fossem apanhados, os agentes duplos teriam como destino quase certo a tortura e a morte. O segredo era andar sempre num limbo, conseguir um equilíbrio entre o que era verdade e o que era contrainformação destinada a baralhar o inimigo, como explica José António Barreiros, advogado e autor de vários livros sobre espionagem em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial.
Eles eram orientados para a chamada decepção estratégica, isto é, passagem ao inimigo, ao eixo nazifascista, de informação falsa e estruturou-se toda uma rede que era alimentada com uma dieta, como se diz na altura, de informação entre a versão verdadeira e falsa, porque se alguma da informação que era solicitada fosse toda enganatória, os homens também se aperceberiam de que havia ali qualquer coisa que não estava a funcionar.
Muitos desses agentes duplos passam por Portugal e nenhum deles é tão icónico como o sérvio Dusko Popov, o homem de quem se diz até hoje que inspirou James Bond. Popov está em Lisboa há apenas dois dias. Quando sai do duche, no quarto do Hotel Avis, é surpreendido por uma mulher que entra sem aviso. Já a tinha visto no hotel, mas nada sabe dela para além do nome, que tinha perguntado na receção. Helena. Ela veste apenas roupa interior, uma combinação de seda e nem sequer fala. Dá-lhe logo um beijo. Mas aos poucos começa a fazer-lhe perguntas. De onde é que ele vem e por que motivo está em Lisboa? Popov não precisa de mais para perceber. É uma espia. Inventa que está em Lisboa para visitar um cliente que tinha perdido um quadro valioso. Descontente, ela tenta seduzi-lo. Popov ainda vacila, mas irritado com a ousadia, acaba por expulsá-la do quarto. Estamos em novembro de 1940. Dusko Popov virá a descobrir dias mais tarde que Helena é uma agente ao serviço dos nazis, enviada para o testar. Ele próprio trabalha para os alemães, ou pelo menos é nisso que eles acreditam. Para o resto do mundo, Popov é apenas um advogado de sucesso internacional, conta José António Barreiros.
O Dusko Popov era um advogado comercialista e portanto tinha um álibi pra poder vir a Portugal fazer os seus contatos. E de fato esteve aqui bastante, bastantes vezes, bastantes viagens, bastante iniciativas. Depois, era de facto o indivíduo que se dava, tendo a si próprio, um tratamento de muita luxúria, de muito bem-estar.
Dusko Popov estudou na Alemanha antes de regressar à Jugoslávia. É já um advogado de sucesso em Dubrovnik e fala várias línguas quando, em 1940, é abordado pelos serviços secretos alemães e aceita a proposta de colaboração. Mas Popov já tinha tido problemas com os nazis. Oferece-se de imediato aos aliados e passa a ser um agente duplo. Começa a utilizar Lisboa como ponto de ligação a Londres e é em Portugal que passa aos alemães informações fabricadas pelos serviços secretos britânicos. Popov gosta de duas coisas: do perigo e de mulheres. Tem o nome de código Triciclo e criou-se a lenda, que dura até hoje, de que isso se deve à fama de mulherengo. Mas o motivo será, afinal, bastante mais banal, diz a historiadora Margarida Magalhães Ramalho.
Andar com uma menina bonita de cada lado, aparentemente não tem nada a ver com isso. Tem a ver que a primeira fase da sua rede eram três pessoas e, portanto, tinha dois agentes a trabalhar com ele. Daí o triciclo. Mas os mitos também servem para isso, pra gente ir puxando pela imaginação e contar sempre histórias cada vez mais glamorosas.
Gelatine e Balloon. Assim se chamam os dois agentes duplos, inicialmente na dependência de Triciclo. Um homem, garante a investigadora Marisa Philippe, que não deixava ninguém indiferente.
Dusko Popov é aquele tipo de homens de olhos lindíssimos que entra numa sala e toda a gente olha pra ele. E por isso o Daniel Craig, do James Bond, é o mais parecido com o Dusko Popov. Dusko Popov não é considerado um homem bonito, é considerado um homem carismático, muitíssimo carismático.
Popov é um playboy que gosta de um estilo de vida caro e glamoroso. Depois do encontro não programado com a espia alemã no Hotel Avis, logo à chegada a Portugal, muda-se para o Hotel Palácio, no Estoril, outro verdadeiro ninho de espiões. O sérvio é frequentador assíduo do cassino e é lá que acontece uma das cenas mais célebres da vida de Popov. Nessa noite, carrega uma considerável quantia de dinheiro para uma operação do MI6. Está a ser controlado por um jovem agente dos serviços secretos da Marinha chamado Ian Fleming.
E quando ele entra, nessa noite, no Casino do Estoril, está um bósnio chamado Leblond
E agora aqui é engraçado, porque o bósnio e o sérvio, e a história é sempre fabulosa, porque nós vemos aqui tensões. E esse bósnio terá dito, em voz alta, a toda a gente que estava no casino do Estoril, que cobria qualquer aposta. Só que entra o Dusko Popov com 40 mil £ e coloca esse dinheiro na mesa de bacará. E diz a esse bósnio: "LeBlanc, sim, vamos a isso". O bósnio não tem dinheiro suficiente para cobrir a aposta. Pede ao casino que lhe adiante aquele valor, mas o casino diz que nem pensar, não é assim que as coisas funcionam. E é nessa altura que Dusko Popov se vira para a sala e diz: "O problema deste casino é deixar os amadores jogarem conosco, os profissionais". Enquanto fala, Popov olha diretamente para o jovem agente dos serviços secretos da Marinha Britânica. Está lívido. Aliás, há quem diga que estava de todas as cores e o próprio Ian Fleming há de revelar, anos mais tarde, que ficou paralisado. Era ele o espião do lado dos aliados, responsável por controlar Popov. E naquele momento, chegou mesmo a acreditar que todo o dinheiro do MI6 ia ser perdido à mesa do bacará. Não aconteceu, mas a cena tornou-se célebre, até porque 13 anos mais tarde, terá servido de inspiração a "Casino Royale", o primeiro livro de Fleming sobre o mais famoso espião do mundo, James Bond. O microfilme desenterrado em 1945, numa zona remota da Alemanha, continha a reprodução de vários telegramas comprometedores para o Duque de Windsor. A 10 de julho de 1940, sete dias depois da chegada do Duque a Portugal, o embaixador em Lisboa escreve ao Ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Joachim von Ribbentrop. O diplomata diz que a nomeação para as Bahamas foi apenas uma forma de afastar o Duque de Inglaterra, para não fortalecer os que defendem uma solução negociada para a guerra. Garante que o Duque pretende atrasar a viagem ao máximo, pelo menos até o início de agosto, e esperar por uma decisão que lhe seja mais favorável. Acrescenta que Eduardo está convencido que, se tivesse ficado no trono, a guerra teria sido evitada. Diz que o próprio se descreve como um firme apoiante de um compromisso de paz com a Alemanha. E termina com uma frase que, quando os telegramas forem finalmente publicados, será uma das revelações mais polêmicas. O Duque acredita firmemente que o bombardeamento continuado vai fazer com que a Inglaterra esteja pronta para a paz. Na opinião de Andrew Lownie, autor do livro "O Rei Traidor", essa é uma das provas mais incriminatórias.
Há muitas provas que mostram como o Duque estava contra a guerra, que ele, na verdade, era traiçoeiro. Ele estava preparado para encorajar os alemães a bombardear Londres, como a melhor forma de subjugar os britânicos. E é chocante que um antigo rei de Inglaterra possa estar a dizer ao inimigo, na guerra, que a melhor forma de vencer o seu próprio país é bombardeá-lo até à rendição.
Por esta altura, o relatório do agente da polícia política portuguesa que segue o Duque em Lisboa, dá conta de movimentações intensas entre as embaixadas. No mesmo dia em que o embaixador alemão envia o polêmico telegrama para Berlim, o agente escreve: "Dia 10, o Duque saiu às 11h acompanhado do espanhol Dom Javier, com destino a Lisboa. O Duque ficou na embaixada inglesa e o espanhol dirigiu-se à embaixada alemã. O Duque saiu da embaixada às 13h, seguindo para a embaixada espanhola, onde o aguardava Dom Javier. Dirigiram-se à Rua Primeiro de Dezembro, onde compraram charutos." Dom Javier, que tinha a alcunha de Tiger, era um velho conhecido do Duque e da mulher, Wallis Simpson, desde os tempos em que tinha sido secretário da embaixada espanhola em Londres. É apenas um de vários espanhóis que, nos próximos dias, vão ser enviados a Lisboa. Quando lê o telegrama do embaixador, o ministro Ribbentrop não perde tempo. Vai pôr em marcha a primeira fase do plano para trazer o Duque para o lado dos nazis. É preciso agir rapidamente. Horas depois de receber o telegrama de Lisboa, o ministro alemão envia uma comunicação para Madrid. Espanha é um território mais favorável aos alemães, por isso passa a ser o centro do plano. Ribbentrop escreve que é urgente trazer Eduardo de novo para o país. Sugere que os amigos espanhóis o convidem para uma visita, de forma que todos, especialmente os ingleses, pensem que é uma situação temporária e que o Duque vai depois regressar a Portugal. Mas nesta fase, Eduardo ainda não pode saber que os alemães estão por trás de tudo. Só quando chegar à Espanha devem transmitir-lhe três mensagens: que a Alemanha quer um acordo com o Reino Unido, que só Churchill e a clique dele não aceitam a paz e que deve ficar a aguardar por desenvolvimentos. Ribbentrop vai ainda mais longe. Escreve que a Alemanha está disposta a forçar a Inglaterra à paz por qualquer meio que seja necessário. E depois de isso acontecer, está preparada para acomodar qualquer desejo expresso pelo Duque, mesmo no que diz respeito à coroa britânica. Se ele quiser, os alemães estão preparados para lhe entregarem o trono. Para executar este plano, os alemães precisam apenas de enviar emissários a Portugal. E há dois homens em Espanha que vão estar no centro da estratégia. O barão Eberhard von Stohrer tem uma característica fundamental: não é um nazi. Aos 57 anos, o embaixador alemão em Madri é daqueles diplomatas da velha guarda que desconfiam do ministro Ribbentrop. A mulher, a baronesa Maria Úrsula von Stohrer, é 20 anos mais nova. Chega mesmo a ser uma espécie de Mata Hari durante a guerra, usando charme e persuasão para conseguir tirar várias pessoas da Europa ocupada pelos nazis. Na verdade, mais do que desconfiar de Ribbentrop, o embaixador odeia-o mesmo. Mas não o pode contrariar, pelo menos não de forma declarada. A embaixada está cheia de agentes da Gestapo, que observam todos os movimentos. Quando receber as instruções de Berlim, o embaixador vai contar com dois homens em cargos importantes no governo espanhol para pôr o plano alemão em marcha. Um deles é o ministro dos Negócios Estrangeiros, o coronel Juan Beigbeder. Beigbeder é visto como excêntrico. Antes de ser ministro, foi um militar popular do exército. Serviu em Marrocos e é um apaixonado pela cultura árabe. Tem sempre uma cópia do Corão aberta na secretária e gosta de vestir-se com trajes tradicionais. "Somos todos mouros", é comum ouvi-lo dizer. O outro homem importante para o plano alemão não podia ser mais diferente do primeiro. Ramón Serrano Súñer é cunhado de Francisco Franco e é um dos homens que mais influencia o pensamento do ditador espanhol, recorda a investigadora Marisa Filipe.
Era ainda mais pró-germânico do que o próprio Franco. Aliás, o Hitler acaba por dizer, no encontro que tem com o Franco, que preferia arrancar dentes do que voltar a reunir-se com o Franco, mas o Súñer era, sobretudo, o grande pensador àquela época.
É Súñer quem vai, nos próximos dias, enviar a Lisboa um dos emissários que vão tentar convencer o duque a regressar a Espanha. Nos telegramas encontrados no microfilme, também há referências a um português. É o dono da casa cor-de-rosa na Boca do Inferno, onde os duques de Windsor ficaram em julho de 1940. No mesmo telegrama com a data de 11 de julho, em que dá ordem ao embaixador alemão para que faça tudo para trazer o duque de volta para a Espanha, o ministro Ribbentrop escreve sobre Ricardo Espírito Santo. Explica que, de acordo com as informações que chegam de Lisboa, o duque está instalado em casa de um banqueiro português, que é amigo da Alemanha. Não será a única menção de Ribbentrop a Espírito Santo. Na verdade, os nazis também vão ter planos para ele. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio: em julho de 1940, onde quer que o duque de Windsor esteja, Espírito Santo também vai estar. Não apenas com visita da casa de verão que agora cedeu ao antigo rei, mas também nos vários jantares e eventos que serão dados em honra de Eduardo. Ricardo é o português que mais acesso tem ao duque e é também um dos melhores amigos do embaixador alemão em Lisboa. Com os nazis a porem em marcha um plano para usarem o antigo rei, o banqueiro português vai ser o alvo de todas as intrigas. "Um Rei na Boca do Inferno" é uma série em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Soraia Chaves, e tem banda sonora original de Cláudia Pascoal. O guião e as entrevistas são de João Santos Duarte. A sonoplastia deste episódio é de Beatriz Martelo Garcia. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador é mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.
