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Olá, bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Conosco temos a deputada da Iniciativa Liberal, que é responsável do grupo parlamentar pela habitação. Foi também dirigente do partido, aliás vice-presidente da Iniciativa Liberal na anterior direção. Bem-vinda, Angélica Teresa. As manifestações pelo direito à habitação têm marcado os últimos dias. Como é que avalia as palavras de Luís Montenegro, quer antes, quer depois da carga policial no Porto? Foram adequadas?

Antes de mais, muito obrigada pelo convite. Relativamente às palavras de Montenegro, eu acho que foram extremamente desadequadas, eu até ia brincar e dizer extremamente desagradáveis, porque aquilo que fez foi servir como mote para inflamar algo que no início não tinha o volume que depois passou a ter. E portanto, a nível de comunicação foi um desastre. Não é assim que se trata. Independentemente dos movimentos que estejam por trás desta manifestação, Luís Montenegro tem que assumir que há um problema gravíssimo, que é a falta de oferta da habitação, que faz com que os preços sejam muito elevados e portanto não é uma questão dos mais necessitados, nem a classe média já consegue pagar uma casa em Portugal. O problema existe. Independentemente das pessoas que se juntem, as pessoas têm que ser tratadas com respeito e Montenegro esteve pessimamente mal no início, isso só serviu para depois inflamar e tornar a manifestação mais robusta.

O governo tem se rendido com o ataque aos governos do Partido Socialista e até agora não apresentou nenhum pacote de emergência, nem tem propriamente aparecido a dar mais respostas concretas desde que apareceram os protestos. Há aqui um erro de avaliação do governo perante a dimensão das manifestações.

Nesse aspecto, devo dizer que concordo em parte. O Partido Socialista é o grande proprietário, o dono desta crise na habitação, e isto tem que ser dito, porque às vezes ouvimos intervenções por parte do Partido Socialista e dos seus dirigentes que parece que vivem num mundo paralelo, como se não tivessem estado mais de oito anos no poder e não tivessem tomado muitas medidas que levaram a que chegássemos ao que estamos neste momento a viver e portanto, nesse aspecto, Montenegro tem razão. Agora, relativamente a medidas de urgência. Na habitação, as coisas não se constroem e o mercado de arrendamento não começa a funcionar de um dia para o outro. Nós temos que efetivamente fazer reformas, e reformas em várias áreas. Na questão fiscal, na questão da construção e dos temas do licenciamento, e depois também no tema do arrendamento. Eu, se fosse governo, quando a Iniciativa Liberal for governo, e se nós estivéssemos perante este problema da habitação, aquilo que faríamos era logo agarrar no mercado de arrendamento. E por quê? Porque o mercado de arrendamento é aquele que, se for dinamizado, vai trazer oferta muito mais rapidamente. Nós na construção precisamos de alguns anos para que a casa fique pronta. E portanto teria agarrado logo de imediato no mercado de arrendamento, teria reformulado esse mercado de arrendamento para tirar todas as entropias que ele tem hoje e que leva a que, por exemplo, no caso de haver algum incumprimento, um proprietário que depois ponha um processo em tribunal, tenha uma média para recuperação do seu imóvel de quase 293 dias. Isto é inaceitável.

Já vamos mais propriamente à questão das soluções, mas deixe-nos só fechar aqui o ponto dos protestos, porque também queremos ouvir quais é que são, de fato, as soluções que a IL apresentaria. Mas a IL concorda com as acampadas? Esta forma de protesto faz sentido?

Nós não temos que concordar, nem discordar. As pessoas é que decidem da forma como entenderem manifestarem-se. Se querem fazer acampadas, que façam, desde que cumpram as regras e que não se desrespeite ninguém. E já agora, que não vandalizem patrimônio público. Porque isso custa dinheiro aos contribuintes. Eu não sei quem é que vai pagar as limpezas das estátuas que forem vandalizadas. Eu acho que não há necessidade absolutamente nenhuma. Também devo dizer que não gostei de muitas mensagens que li, de fotografias que até me foram chegando a desrespeitar a polícia e a usar termos contra a polícia, um bocadinho numa importação daquilo que aconteceu em França, eu espero que não se vá por aí. E tenho alguma pena que um problema tão sério e tão grave e que afeta tantas pessoas e tantos jovens, mas não só jovens, famílias monoparentais, todos aqueles que procuram uma casa e que muitas vezes até têm dois empregos para poder pagar uma renda, que estão a preços elevadíssimos e que muitos deles até não vão para acampadas nenhumas. Depois estes temas só têm algum destaque na comunicação social porque começam a aparecer os anarquistas e pessoas que querem reclamar de tudo e mais alguma coisa e a habitação parece que está ali no meio. Isso é aquilo que eu realmente tenho pena.

O CDS usou a expressão minoria da Rua Ceires, o Chega chegou a dizer que são pessoas que não tomam banho. Para a IL, quem é que são aquelas pessoas que se manifestam e continuam a manifestar em Lisboa e no Porto?

Temos provavelmente tudo. Eu não vou lá para perguntar às pessoas de onde é que vêm e se pertencem a algum partido ou o que quer que seja. As pessoas juntam-se, naturalmente que há pessoas que eu reconheço de alguns movimentos e que são movimentos instrumentalizados por alguns partidos de esquerda. E se dúvidas houvesse, agora aquele influencer do Livre que anunciou que ia sair do Livre, ele próprio diz isso no seu vídeo, que estão lá camaradas do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista Português, enfim, e de outros movimentos. Agora, para além dessas pessoas, para além desses movimentos e desses partidos, naturalmente que estarão pessoas anônimas e que também se reveem nestes problemas da habitação. Portanto, eu não vou chamar nomes a ninguém, também não vou dizer se as pessoas tomam banho ou não, não sei, não estou lá para ver. Respeito a todos. O que eu condeno é, de facto, todo o tipo de vandalizações que se façam e o desrespeito à polícia, porque qualquer um de nós, um dia que tenha algum problema, faz uma chamada para pedir ajuda e quem aparece é a polícia, portanto, devemos respeitar.

Olhando aqui para a questão das soluções, a IL convidou líderes todos dos partidos para uma reunião que pretende chegar a consensos na habitação. Não era o governo que devia ter esta função?

Mais uma vez, é a iniciativa liberal a mostrar aquilo que o governo deveria fazer. Eu acho que até depois deste convite feito pela presidente da Iniciativa Liberal, o governo depois também vai fazer o mesmo. Deveria ter sido o governo a fazer isso logo na primeira hora, mesmo sabendo que há muitos partidos que estão nos antípodas daquilo que se quer alterar, mas eu acho que é até um respeito institucional por todos os partidos. E, portanto, a resposta é muito clara e muito direta: sim, o governo deveria ter feito isso e depois deixar a resposta a quem de direito.

E o objetivo seria apresentar soluções que seja possível conciliar entre todos os partidos?

Sim, por exemplo, há dois pontos que eu acho que independentemente de termos visões completamente diferentes uns dos outros, eu acho que há dois vetores que nós concordamos. Um deles é o fim da burocracia e a flexibilização dos licenciamentos. Eu acho que se calhar uns são um bocadinho mais conservadores do que, por exemplo, a Iniciativa Liberal, mas eu acho que aí estamos quase todos de acordo. E outra medida que eu acho que também estamos todos de acordo é o aproveitamento dos devolutos do Estado, ou seja, independentemente depois do fim a que se dá a esses devolutos, eu acho que da esquerda à direita não há nenhum partido que não ache imoral um dos maiores proprietários do país, que é o Estado, ter imensas propriedades que nem sequer sabe o que tem, muitas delas eventualmente em ruína e abandonados. Nós desde que chegamos ao Parlamento, temos insistido para que se faça de uma vez por todas a listagem de todos os devolutos que o Estado tem.

O inventário continua por fazer.

O inventário que já foi comunicado por este governo este ano com grande pompa e circunstância pelo ministro Pinto Luz, e que nós agora vimos no Orçamento de Estado que afinal esse inventário não vai estar pronto até o fim de 2026, como tinha sido prometido. Esta novela vai continuar.

Mas sobre esta iniciativa das reuniões, mais do que um partido veio recusar ou veio diminuir a necessidade dessa reunião promovida pela IL. Isso é uma derrota desta iniciativa ou prova que a IL não tem capacidade para agregar as restantes forças políticas?

Não, eu acho que não é um exemplo de derrota. Eu acho que é um exemplo de que as pessoas nem para pontos tão óbvios como estes que eu aqui elenquei estão disponíveis para falar. Estão é disponíveis para aproveitar este drama do acesso à habitação para fazerem política por si. E isto, atenção, a Iniciativa Liberal tem o seu posicionamento extremamente vincado no que toca a esta matéria e nós, ao contrário de outros, não dizemos uma coisa na segunda e não dizemos o seu contrário na terça. Podem nos acusar de tudo, mas nesse aspecto, não podemos ser acusados de estarmos aqui a trocar a casaca. Agora, a verdade é que nem para pontos tão básicos, que nos deveriam unir, até para mostrar às pessoas, a Assembleia da República consegue falar e consegue insistir e fazer força política para que nestas duas matérias, elas de facto avancem o mais rapidamente possível, nem para isso os partidos estão disponíveis. Portanto, isso diz mais sobre esses mesmos partidos que deram essas respostas do que da Iniciativa Liberal.

E tendo em conta então essa disponibilidade, José Luís Carneiro já respondeu a Mariana Leitão, disse que está disponível para a receber na sede do Partido Socialista. A Iniciativa Liberal tem essa disponibilidade para ir ao Rato?

Eu não sei qual vai ser a resposta da Mariana Leitão. Eu até propunha que fôssemos todos ao Rato e que montássemos um acampamento lá à porta da sede do Partido Socialista no Largo do Rato, porque a crise da habitação tem dono e chama-se PS e os seus companheiros de luta. Portanto, eu acharia muito interessante montarmos tendas junto à sede do Partido Socialista e termos lá a reunião.

Olhando para as propostas da Iniciativa Liberal e do Partido Socialista, há alguma oportunidade de consenso entre as propostas dos dois partidos?

Recentemente, o Partido Socialista veio apresentar uma proposta sobre as mais-valias. E as mais-valias, para quem nos ouve, é o quê? As pessoas quando vendem as suas casas, se depois não reinvestirem em habitação, vão pagar uma batelada de impostos. E portanto, para não pagar, aquilo que o Partido Socialista agora nos diz é que seria interessante isentarmos as pessoas até um patamar de € 300 mil. Nós temos uma medida muito melhor do que a do Partido Socialista, que é termos a isenção das mais-valias de forma ilimitada. E para quê? Porque se nós olharmos para a estatística, Portugal é um país de imensos proprietários, mais de 70% dos portugueses são proprietários, e temos uma enorme taxa de segundas habitações. Provavelmente poderá haver até muitas pessoas que não precisem dessas casas ou já não queiram ter essas casas e que poderiam estar a ser vendidas e ir para quem realmente precisa, e termos aqui um choque de oferta, porque isso é a nossa preocupação e era a preocupação que devia estar em cima da mesa de todos os partidos políticos. Para além do mais, a nossa proposta vai mais longe. Por quê? Porque aquilo que dizemos é: as pessoas, ao fazerem essa venda e portanto terem essas mais-valias, terem a possibilidade de, independentemente da idade, terem as mesmas condições daquilo que os nossos mais de 65 anos têm. E o que é que os nossos mais de 65 anos têm? Eles têm hipótese de isenção dessas mais-valias, apostando esse dinheiro que tiram a mais da venda da casa para poupanças. E num país com pouca poupança, em que nós dizemos que os jovens não poupam o suficiente, os jovens e a geração dos entalados, dos 40, dos 50 anos, deveria dar-se essa possibilidade às pessoas, para elas, com o seu dinheiro, porque a casa já foi paga, já levou com imensos impostos em cima, não precisa de levar com mais impostos, pudessem com esse dinheiro ou reinvestir, se quiserem, mas se não o quiserem, porque não querem ter mais uma casa, poderem, por exemplo, aplicar numa poupança. Achávamos que era uma excelente solução, mais uma vez, para injetar oferta no mercado.

Há um consenso bastante generalizado de que o problema da habitação não se resolve de um dia para o outro. Nessa perspectiva, faz sentido falar em pacotes legislativos de emergência, como fez o Chega?

Não, não faz sentido falar de pacotes legislativos de emergência, porque, como disse e muito bem, não vai ser com medidas de emergência que a coisa se vai resolver. Veja bem, mesmo os devolutos do Estado, que poderia ser usado até de forma mais emergente. Nem sequer sabem o que têm, mas isso é um problema. Mas imagine que até se soubessem, dessas casas, o que é que está em condição de ser habitado e o que é que não está em condição de ser habitado. Imagine que metade até não está em condições de ser habitado. Essas casas teriam que ser reabilitadas, isso demora tempo. Agora, o que é importante é tomar medidas corajosas o quanto antes, porque quanto mais cedo as tomarmos, mais cedo elas começam a produzir efeitos. Se nós andarmos neste ramram do aí tem que ser emergente, agora vamos ver o que é emergente, e não se façam reformas estruturais de base, os problemas nunca mais são resolvidos. E atenção, às vezes pensa-se: "Ah, mas nós nunca vamos conseguir resolver isto." Não, Portugal já teve casas acessíveis. Portugal já teve habitação pública a ser produzida. As pessoas da minha geração recordam-se que nos anos 90 nós tivemos imensas casas a serem construídas e as pessoas conseguiam comprá-las. Se calhar não era nos centros das cidades, se calhar eram mais nas periferias, mas isso acontecia. Em 2002, Portugal construía 126 mil casas. Isto no setor privado. Atualmente, em 2025, construíram-se 26 mil casas. Se vocês fizerem este comparativo, isto mostra bem o que isso representa, a loucura em que estamos. Portugal, para quem também se recorda de há 30 e 40 anos, estava com barracas por todo lado em que as pessoas viviam em condições completamente indignas. Nós tivemos o PER, que foi o programa de realojamento, com o acordo do PSD, na altura Cavaco, e PS, eu acho que na altura era Jorge Sampaio, em que houve um programa de realojamento das pessoas para acabar com essas barracas. Foi possível construir casas públicas. E a mesma coisa nas cooperativas. Havia cooperativas, agora está na moda, a esquerda só quer é fazer cooperativas de propriedade coletiva. Mas quando eu era jovem, havia cooperativas de propriedade individual e que a casa depois ficava para a própria pessoa, e era um sucesso. Portugal já fez isto que a Iniciativa Liberal defende. Nós não estamos a inventar a roda. Nós o que estamos a dizer é voltarmos a fazer aquilo que fazíamos, e para isso temos que acelerar.

Deixe-me só voltar ao Chega. Caso as exigências do partido de André Ventura na lei do arrendamento, e por falar em reformas, caso essas exigências de última hora sejam cumpridas pelo governo, a Iniciativa Liberal deixa ou não passar o documento na especialidade?

Na especialidade vai depender muito daquilo que for alterado, porque até pode sair de lá completamente desvirtuado. Há coisas com as quais nós não concordamos e também vamos apresentar as nossas propostas de alteração.

As exigências do Chega desvirtuam a lei?

Eu ainda não percebi muito bem qual é a posição do Chega, porque a posição do Chega começou a dizer que a lei não passava sequer na generalidade. Se não me engano, ele usou até o termo "não passará". Depois passou a dizer que queria negociar e depois absteve-se. Isto é quase um pacote da reforma laboral, é quase parecido. Estamos quase lá. Depois, esta semana, André Ventura dá uma entrevista em que fala do tema das cauções e eu queria aproveitar isto para clarificar o tema das cauções, porque tem havido imensa desinformação, até nos painéis em que tenho participado na comunicação social, e eu queria clarificar isto. Ninguém concorda com não haver cauções. O mercado está desequilibrado, há menos oferta do que procura, apesar de nós defendermos a liberdade contratual e portanto isso era o que deveria existir, mas dado o momento, não faz sentido que assim seja. E da esquerda à direita, há mais um consenso em que deveria haver um limite de cauções. Depois há uns que devem achar que tem que haver menos ou nada, e outros mais. Mas o governo já mostrou essa abertura para alterar. Portanto, uma das medidas que André Ventura diz como: "Se isto não for assim, eu vou rasgar as vestes", é tanga, porque isto está mais que conversado e está mais que esclarecido. Eu essa nem percebo, é mais um espalhafato. Depois, outra medida que André Ventura anunciou na entrevista era de que tinha que haver um limite aos aumentos. Eu acho que foi essa a expressão que ele usou. Então, mas é um limite de quê? Qual vai ser o limite? Vamos outra vez congelar rendas? É isto que se propõe? Eu nem sequer percebi muito bem qual é a proposta do Chega em relação a isto. Agora, limitação e teto às rendas é algo que a Iniciativa Liberal nunca acompanhará, porque não funciona, está mais que provado em vários países europeus que até pode funcionar num curtíssimo espaço de tempo, mas depois a médio e longo prazo não funciona. Por quê? Porque os proprietários depois retiram as casas do mercado e isso é aquilo que nós temos que evitar a todo o custo. E se dúvidas houvesse, e mesmo as pessoas que são de esquerda, por favor, façam uma pesquisa na internet e vejam o que aconteceu há meia dúzia de dias em Espanha. Sánchez queria e apresentou no Parlamento Espanhol uma série de medidas, e uma delas era precisamente o teto às rendas. Em 10 dias foram retiradas do mercado 4200 casas. Isto dá 420 casas por dia. E eu percebo que quando estamos com problema, nós queremos é resolver no imediato e não queremos saber do amanhã, mas aquilo que eu apelo às pessoas é gelo nos pulsos, porque nós não podemos ir por estas promessas fáceis que já foram testadas lá fora e que não funcionam. E temos que ter a coragem de dizer: "Isto nós não vamos aceitar, porque vamos dar cabo das casas em Portugal e, principalmente, vamos dar cabo daqueles que procuram casa e que não têm dinheiro pra pagar", porque aqueles que tiverem dinheiro pra pagar uma renda ou comprar uma casa, esses nunca terão problemas nenhuns.

Deixe-me só aqui mudar de tema, estamos a ficar com pouco tempo. Passos Coelho assumiu-se como protocandidato a primeiro-ministro e acusou o governo de não ter sido capaz de utilizar a maioria de direita no Parlamento numa coligação PSD, CDS, Iniciativa Liberal e Chega. Caso este cenário venha a ser real, o que a Iniciativa Liberal faria?

Isso teria que ser negociado nos órgãos do partido, Paulo, eu não pertenço a nenhum e portanto eu não vou falar pelo partido. É mais um "e se" de Passos Coelho, que continua, de fato, a ter muito peso no panorama político português, até porque sempre que o senhor fala, depois estão vários dias, vários comentadores a escrutinar e a ver o que ele disse ou o que deixou de dizer. Eu acho muito difícil estar-se numa parceria com o Chega, porque é um partido que todos os dias tem um posicionamento diferente. Eu acho que se houvesse um movimento que fosse para as redes do Chega e dissesse coisas que são inclusive contra bandeiras muito conhecidas do Chega, eu acho que o Chega também trocava de camisola.

E aí ele?

E eu acho que é muito difícil poder-se trabalhar com um eventual parceiro que não seja minimamente fiável, porque troca consoante o dia e conforme apetece a André Ventura.

E noutro cenário hipotético, mas em que a Iniciativa Liberal não teria de fazer parte dessa coligação, acha que o partido viabilizaria ou deveria viabilizar um governo do Chega, no caso de André Ventura conseguir o primeiro lugar nas eleições?

São hipóteses, Inês, eu não me vou pronunciar sobre potenciais governos do Chega, se ganharem as eleições, se o que quer que seja. Agora temos um problema muito grave em mãos, que é o problema da habitação, e portanto é nisso que eu estou focada.

Uma posição de princípio, Angélica, uma geringonça de direita em que o PS vencesse as eleições, aí ela estaria disponível, ou é preciso também esperar por essa altura?

Tem que se esperar por essa altura, mas em geringonças de direita tem que haver liberalismo, porque se não houver liberalismo não faz sentido a Iniciativa Liberal lá estar.

E o princípio do mais votado é que tem que governar, isso não é uma condição inultrapassável? Quem fica em primeiro tem que ser governo. Isso pode se ultrapassar.

Não, atenção, eu não disse nada disso. Relativamente a quem ganha as eleições deve ser governo, com certeza que sim. Eu acho que Portugal ficou em choque, que é legal, obviamente, não está nada disso em causa, mas com aquela golpada que António Costa fez. Eu não estou aqui a pronunciar-me sobre quem ganha, tem que ir para o governo e tem que formar governo. Estavam a perguntar relativamente à questão das coligações e numa eventual geringonça de direita. E eu volto a reforçar: uma geringonça de direita tem que ter liberalismo. Caso não haja liberalismo, não vamos conseguir pôr a economia a crescer. Se não pusermos a economia a crescer, as pessoas não vão poder viver melhor. E isso não faz sentido absolutamente nenhum para um partido que é a Iniciativa Liberal.

Só para terminarmos. Em Lisboa, a Iniciativa Liberal votou contra a suspensão das trotinetes elétricas. Em comunicado, reconheceu a existência de problemas, mas no passado esses também nunca foram resolvidos. Qual é a proposta da Iniciativa Liberal para controlar esta situação?

Só uma clarificação também nessa questão das trotinetes. Essa proposta foi à Câmara Municipal de Lisboa e foi chumbada pelos dois vereadores liberais que consideraram que a proposta deveria ser feita de outra forma, ou seja, em vez de ser uma medida totalmente restritiva, deveria ter havido aqui um posicionamento de negociação, tal como por exemplo houve relativamente aos tuk-tuks. Em que o senhor presidente Carlos Moedas também tinha um problema de falta de regulação e de ter espalhado pela cidade e de estacionamento de tuk-tuks um pouco por todo lado, de forma um bocadinho selvagem. E houve aqui uma negociação e hoje em dia eu acho que o problema está resolvido e é uma solução de sucesso. E os vereadores da Iniciativa Liberal, com certeza terão tido as suas reuniões.

Na Assembleia Municipal vai votar igual.

Agora a questão é: vamos ver se a proposta eventualmente poderá vir a ser alterada ou não no seio da vereação, mas eu não posso falar por todos os deputados municipais, pelo grupo municipal da IL, mas eu diria que a manter-se tal como está, com certeza que a IL acompanhará o posicionamento dos seus vereadores.

Só mesmo antes de irmos à carne ao peixe, vai existir uma convenção nacional da Iniciativa Liberal antes de novas legislativas, portanto, vai ter que haver uma votação para a liderança antes ainda de haver eleições no calendário normal. Mariana Leitão deve ter a oportunidade de ir a votos como líder da IL nas próximas legislativas, sejam elas quando forem.

A Mariana primeiro terá que passar pela convenção. Eu ainda não conheço as listas, não sei quantas é que haverá ou se será novamente lista única. Isso desconheço completamente. De qualquer forma, ela tem todas as capacidades para se apresentar às próximas eleições legislativas, disso não tenho dúvidas nenhumas.

Muito bem, vamos agora para a fase do carne ao peixe, em que tem que escolher uma de duas opções. A primeira questão que lhe quero fazer é se preferia ser vice-primeira-ministra de Pedro Passos Coelho ou de Luís Montenegro.

Vocês são tramados. Montenegro jamais, porque Montenegro é quase socialista. Se tivesse que escolher os dois, Montenegro não escolheria de certeza absoluta. Agora, eu devo dizer que eu acredito mais até num governo liberal e portanto liderado pela Iniciativa Liberal do que propriamente por Passos Coelho, porque tem sido o nosso D. Sebastião e nós sabemos o que é que aconteceu a D. Sebastião, ele nunca voltou.

E com quem partilharia uma trotinete em Lisboa? Carlos Moedas ou João Ferreira?

Eu não sei andar de trotinete, porque eu sou muito desengonçada.

Então tem que escolher um bom condutor.

É proibido andar a dois na trotinete, Inês. Isto é banana no chão, que era para ver se os Correios. Mas se fosse legal poder andar de trotinete a dois, eu escolheria Carlos Moedas, porque acho que o João Ferreira ia fazer com que eu me espetasse contra algum sítio qualquer.

Preferia ser ministra num governo liderado por Carla Castro ou estar na oposição enquanto havia um governo liderado por José Luís Carneiro?

Estar na oposição liderada? Não percebi a pergunta, desculpe.

Ou estava na oposição enquanto era José Luís Carneiro que governava ou era ministra num governo liderado por Carla Castro.

Mas a Carla Castro não é da Iniciativa Liberal. Eu estaria onde está a Iniciativa Liberal.

Se estivesse à procura de casa, a quem é que preferia comprar um apartamento? A João Cotrim Figueiredo ou a Mariana Leitão?

Ao João Cotrim Figueiredo.

Vamos agora então para a última parte da nossa refeição, que é a sobremesa. Angélica, queria que nos dissesse que música que nos trouxe e porquê

Vou escolher uma música que é de um dos meus grupos favoritos de sempre, que é os Nirvana. Chama-se "Come As You Are" e fala muito sobre a identidade, contradição, vulnerabilidade humana e as expectativas sociais que às vezes há. É o que acontece hoje na política, em que se troca muitas vezes de posições conforme o vento vira, como se não se acreditasse em nada, só para responder ao problema do momento. E eu continuo a achar que a política se deve fazer por pessoas reais e autênticas. Portanto, "Come As You Are" é uma música do momento e que se calhar mais pessoas que estão na política deveriam ouvir.

Muito bem, Angélique, muito obrigado pela participação. A Vixi e Suave regressa como sempre na próxima semana.

Obrigada.