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Olá, bem-vindos à Vichy Soares. Esta semana, António Costa ofereceu, qual Mister Miyagi, um bonsai a Marcelo Rebelo de Sousa, em nome da amizade atual e da amizade futura.

Welcome.

I really appreciate that.

Just trust the picture. If come from inside you, always right one.

Queria deixar aqui ao senhor Presidente da República, depositar nas mãos do senhor Presidente da República, em forma de bonsai, um exemplo de uma querqus nacional já centenária e que é exemplo daquilo que nós temos que ter. É uma floresta que dure para além das nossas próprias existências, quer nas funções políticas que exercemos, quer na nossa-

Na própria vida.

Na própria vida.

O contrário de bonsai é mal fica. Não sei se era uma indireta de António Costa para Marcelo Rebelo de Sousa, que fica para um segundo mandato. Rui Rio também apresentou esta semana 100 candidatos, que afinal não eram bem 100 candidatos. Ou será que eram?

Agora vamos apresentar 100. Ainda ficam a faltar 200 e tal, como sabemos. Vamos apresentar agora os 100 candidatos.

Acho que isto é um amadorismo puro. Isto é contar o gato na gaiola sem pôr lá o isco.

Salvador Malheiro, presidente da Câmara de Ovar.

Essa decisão de candidatura não se coloca agora. Coloca-se mais tarde, no tempo em que eu entender por bem.

São 23 candidatos novos e serão 77 numa segunda parte, que são presidentes de câmara recandidatos.

Não tivemos qualquer reunião. Eu não gostei que o meu nome tivesse aparecido sem ninguém ter falado comigo.

Eu decidirei e outro momento em que farei a apresentação da candidatura.

100 candidatos.

E assim 100 candidatos. Eu sou o Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Comigo tenho o João Alexandre, editor da rádio, a grande repórter Rita Tavares e também uma estreia, Mariana Lima Cunha, que dispensa apresentações, mas eu diria que é o ingrediente que faltava à nossa sopa. Vai começar a Vichy Soares. Ora muito bem. Só para dizer que não tinha aqui nada escrito na minha intro sobre o bonsai e o mal fica. Foi tudo improvisado.

Ri muito. Confirmo.

Pronto, é esta capacidade. Mas ia começar aqui por sugerir uma sopa de entulho. Não vou dizer já o que me sugere, porque aqui em forma de praxe à Mariana Lima Cunha, eu vou já passar a Mariana a palavra para perguntar o que é que te sugere uma sopa de entulho.

Olha, eu em primeiro lugar, queria só manifestar aqui a minha indignação por não ter sido recebida com um bonsai já oferta no Observador. Acho que era uma prenda de boas-vindas. Não sei se querias.

Aqui é a cerveja.

Já lá vamos. Depende do que o bonsai quiser dizer. Exato. Eu vou ter de concluir que o entulho, não sei se estou sugestionada pelo que nós conversámos esta semana aqui na relação, mas tenho de falar da situação que provavelmente mais me divertiu esta semana aqui na política, que foi as autárquicas e os mais ou menos candidatos do PSD. A mim, isto sinceramente, parece-me um bocadinho uma situação que é um desperdício. Rui Rio, com as dúvidas que havia sobre a gestão dele do processo autárquico, eu fiquei com algumas quando ouvi aqui a entrevista dele ao Observador, questões como as críticas a um autarca dele, Carlos Carreiras, que vai de facto ser recandidato. Eu tinha ficado com dúvidas sobre a maneira como Rui Rio estaria a gerir isso, estaria a gerir bem o processo. Teve um trunfo como Carlos Moedas e acredito que teria aí algum capital para calar algumas críticas e chamar-lhe um tiro no pé aqui em relação a esta questão do anúncio dos candidatos, que afinal não eram candidatos ou que não sabiam que eram candidatos. Eu tenho muito carinho pela frase do presidente da Câmara de Oleiros que diz: "Sabem mais da minha vida do que eu."

Quantas vezes não nos acontece.

Exatamente. Quer dizer, é uma situação completamente caricata e evitável, não é? E também Salvador Malheiro, não foi? Exatamente, Salvador Malheiro que deu aquele tiro de partida. É um bocadinho bizarro, eu gosto muito de me divertir com política, mas foi um dia muito desconcertante, que acho que era desnecessário e que desviou desnecessariamente as atenções de um anúncio que era bom para o PSD. Sendo que Carlos Moedas talvez até fosse o melhor nome que a direita podia ter arranjado, ou o mais galvanizador neste momento, era desnecessário o PSD ter-se prestado a isto uns dias depois desse anúncio.

Isto foi bom para o PS, Rita Tavares, esta confusão do PSD neste arranque, não sei se a tua sopa de entulho também está relacionada com autárquicas.

Com estas fundações das eleições autárquicas. O entulho das fundações. É isso que estava aqui nas indicações que me deste para falar hoje de manhã. Ah, isto estava combinado? Estou a estragar tudo. Não, estou a brincar. Mas sim, perguntavas se eu acho que isto é bom para o PS. Eu acho que estas coisas contam agora, mas daqui a um mês já ninguém se lembra. Ou daqui a duas semanas, até à próxima do PSD ou até à primeira do PS. É um bocado por aí.

Mas em termos políticos, continua a haver aqui um problema. Aliás, esta semana o Observador escreveu aqui, a Mariana, um texto sobre o Bloco de Esquerda e a Câmara de Lisboa e se a esquerda se une ou não, e depois o PCP também veio falar da sua posição sobre esse assunto, que parece-me um problema que o PS tem que se preocupar mais do que as trapalhadas do PSD neste arranque desta organização de candidaturas, que é uma câmara onde tem um candidato que é mais ou menos óbvio à partida, que é Fernando Medina, um recandidato, que é o atual presidente da câmara, e que soube a semana passada, e nós falámos disso aqui, que tem um candidato bom e forte da direita, do PSD, não só, da direita mesmo, e pensar que a esquerda pode perder se não se juntar. E esta semana, o que Fernando Medina ficou a saber é que ninguém está interessado em juntar-se à esquerda e fortalecer a posição da esquerda nessa corrida à Câmara de Lisboa. Ele já sabe que a direita vai unida, já sabe que vai ter adversários no PCP e no Bloco de Esquerda.

Vida difícil para Fernando Medina.

Não vai ser fácil para o PS, diria eu, para Fernando Medina e para o PS também, porque a Câmara de Lisboa é uma câmara socialista desde 2007 e é uma câmara importante no país, evidentemente, e hão de querer mantê-la e mantê-la com uma boa votação, porque também é bom não esquecer que Fernando Medina, na última eleição, perdeu a maioria absoluta que António Costa tinha na câmara. Portanto, já não tem uma posição de partida fácil, com o candidato forte à direita e com a esquerda toda dividida, isto não se aguarda nada de bom.

Eu lembro-me, nós estávamos aqui a falar na redação no outro dia, se era uma questão de a candidatura de Carlos Moedas não assustar o suficiente a esquerda para se motivar a mobilizar-se. E eu acho que a questão depois também parte um bocadinho da posição em que os partidos à esquerda estão individualmente. Ou seja, acho que mais do que eles terem motivos para sustos, que podem ter aqui na candidatura de Carlos Moedas, e lá está, e mais do que Carlos Moedas poder funcionar como uma cola para a esquerda, como aconteceu com Pedro Passos Coelho, com o jardinismo, com o Chega agora, acho que há várias coisas a provar à esquerda nestas eleições e a esquerda não quer perder por falta de comparência. E portanto, o PCP tem aqui uma prova de vida a fazer nestas autárquicas e tem de tentar inverter a tendência de perda, mesmo que seja outra vez com João Ferreira, que é um homem que já deve estar muito cansado, se fosse a ele estaria, com a quantidade de eleições a que ele tem concorrido. O Bloco de Esquerda tem o trauma de Ricardo Robles, tem aqui a primeira grande experiência governativa autárquica e não quer diluir-se no PS e, portanto, cada partido vai pensar um bocadinho nos seus interesses nesta altura.

João Alexandre.

A verdade é que João Ferreira, apesar de ser um candidato já mais batido do que batido, muito gasto em várias eleições, teve quase 10% nas últimas autárquicas em Lisboa. Ainda que o PCP agora venha numa trajetória descendente e as presidenciais não tenham corrido muito bem, não seria de surpreender, e ontem Jerónimo de Sousa já deixou bem claro que João Ferreira, no entender do PCP, pode ser um bom candidato da CDU, da coligação com os Verdes, que pelo que parece, e pelo que já tínhamos dito também, a Mariana já tinha escrito esta semana, é mesmo o que vai acontecer. Ou seja, não haverá aqui essa aliança de esquerda e Jerónimo de Sousa já deixou bem claro que é cada um pedala a sua bicicleta, como ele costuma dizer. Mas eu queria falar aqui na sopa de entulho, novamente voltar aqui ao PSD muito rapidamente, só para dizer que o PSD acaba por deitar por terra todo o capital que conseguiu ao longo dos últimos dias com Carlos Moedas. Conseguiu colocar praticamente o país inteiro a dizer que era um grande candidato, que Rui Rio afinal sabia o que estava a fazer, tal como tinha dito na entrevista ao Observador há uns dias. "Deixa-me trabalhar que eu sei bem o que estou a fazer. Eu sei bem o que estou a fazer. Ouça, sei bem o que estou a dizer."

Ouça.

Ouça, eu sei bem o que estou a fazer.

Eu percebo mais disto.

Exatamente, era o que dizia Rui Rio, e a verdade é que Rui Rio, de certa forma, tinha razão porque tinha ali um trunfo na manga. Mas utilizando aqui uma palavra que pode não ser muito bonita, mas Rui Rio esbardalhou-se ao comprido logo depois.

Mas é uma boa palavra.

Com aquela apresentação de José Silvano, que recuperamos aqui também no início, porque já não bastava 24 horas antes a confusão entre a direção do PSD e o grupo parlamentar do PSD por causa do aeroporto, a decisão sobre vamos ou não alterar a lei por causa do veto das autarquias em relação à construção de obras deste tipo em determinados territórios do país, em que o grupo parlamentar diz uma coisa, depois Rui Rio vem dar a mão ao governo e dizer outra cerca de uma hora ou duas depois. Entretanto, temos também uma apresentação de candidatos que afinal não o eram. Portanto, o PSD começa a ser pródigo também neste tipo de situações. Ou seja, de repente estamos não sei quantos dias a falar de um PSD que afinal parte na frente, tem um bom candidato a Lisboa, que consegue fazer frente a Fernando Medina, e depois, logo de seguida, está o país inteiro a falar de um PSD que não se sabe organizar, que comete erros de comunicação sucessivos e que mais uma vez acaba por...

É por isso o entulho.

Exatamente. Vamos à outra sopa.

Parece que foi um calhau comunicacional.

Uma sopa da pedra.

Podemos dizer esbardalhar outra vez? Quantas vezes podemos dizer esbardalhar? Vamos então avançar para a segunda sopa. Agora invertia isto, João, e começava por te perguntar a ti que me dissesses o que tu achas que é uma sopa de cantina.

A sopa de cantina, tu queres falar novamente dos almoços entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa, não sei. É isso, Ruidismo?

Eu a esta hora estou sempre com fome. Como é que está essa relação entre, nós tivemos aqui o Mister Miyagi e os nossos Karate Kids, como é que estão os nossos kids na hierarquia do Estado, os maiores?

A tradução do filme para português é o momento da verdade. E este novo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa pode ser o momento da verdade, o momento revelador da fibra dessa relação que existe entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. Ouvimos muito falar em solidariedade e em estratégia e em solidariedade estratégica, até a propósito de árvores e de florestas e de reformas da floresta, mas estes almoços entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa já começam também a ter essa tradição de ficar sempre uma ideia de que aquilo que é dito e a forma como isso já vem desde a Autoeuropa, afinal não é bem assim. Ou seja, as palmadas nas costas, os apoios, as sintonias, tudo aquilo acaba por depois das conferências de imprensa, depois dos almoços, depois das declarações de um e de outro Eu acho que quase todos ficam sempre com a sensação de que há ali qualquer coisa que não é bem aquilo que está a transparecer, mas não sei se vocês partilham da mesma opinião que eu. Eu pelo menos fiquei com essa ideia depois do almoço de ontem.

Rita Tavares, achas que o António Costa também pode aderir ao Fortimel ou é preciso uma coisa mais compostinha? Como é que vês esta relação entre o António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa e o que aí vem, para depois poder ser a Mariana a fechar esta primeira parte do programa, como estreante?

Eu estou completamente ainda levada pelo início deste programa e do Mister Miyagi. Tocaste-me o coração. É uma coisa que eu fico logo maluca.

O show trata destes sons, temos que fazer justiça.

Adorei. Gostei muito dessa remissão para a infância, juventude. Miguel Santos diria juventude. Juventude!

Miguel Santos Carrapatosa, não te esqueças do último apelido.

Pronto. E então, o que eu diria sobre a relação dos dois? É um pequeno bonsai confinado. Não sei, achei muito curiosa aquela plantinha. Achei muito curioso, mas acho que foi aquilo que António Costa disse: "Senhor presidente, toma floresta nas suas mãos." Mas depois se nós olhamos para a relação deles dois, que é cheia de pequenas entrelinhas que por vezes não tão fáceis de interpretar e não tão tranquilas como ambos querem que se pareça. E então eu fui ler as entrelinhas do bonsai e rimo um pouco a ver que António Costa deu uma planta centenária a Marcelo, que cresce confinada, coitadinha, por ser que é pequenina, é anã. E sendo uma planta confinada, é também em alguns momentos um sinal de paz. Portanto, há aqui uma série de interpretações que podem ser feitas a partir desta planta que podem dar para o futuro, porque na semana passada nós percebemos que os dois não estão propriamente alinhados e em paz relativamente ao desconfinamento do país, ou pelo menos ao timing do desconfinamento do país, que ainda não se percebeu se a Páscoa é assim ou não. É confinada ou não.

No protocolo, eu reparei, não sei, no início do vídeo, o Marcelo e António Costa apontam um para o outro. Até mostrei o vídeo à Mariana. "Fala primeiro."

"São todos."

Mas por quê? Quem normalmente fecha é por ordem hierárquica, e é o presidente a fechar, mas António Costa queria que Marcelo falasse primeiro para dar a prenda no fim.

Agora vou-te dizer uma coisa, eu acho que nós devíamos fazer o seguimento, o escrutínio do tratamento do bonsai. Eu já tive um, não é fácil.

O Marcelo vai deixar aquilo morrer.

Achas que vai deixar morrer a plantinha?

Acho que sim. Acho que os afetos não são para plantas.

Mas também isso tem leitura política, atenção.

Vamos ver. Por acaso vamos pedir para fotografar o bonsai daqui a um mês só para ver se está lá ainda.

Pois é.

Mariana, e tu sobre esta relação, o que é que tens a dizer? Ou se a tua sopa de cantina for esta, não sei se tens aí uma alternativa para nos propor.

É sim, senhor, que eu sou muito bem mandada e vou alinhar convosco. Mas eu há bocado dizia que gosto de me divertir com política e gosto sempre de me divertir a ver quando há aparições conjuntas de Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, porque uma pessoa nunca sabe bem o que é que vai sair dali. Ora é um bonsai, ora uma recandidatura inopinada, uma pessoa nunca sabe. É um pouquinho como a Rita estava a dizer, na questão do plano de desconfinamento, por exemplo, foi aqui um dos momentos em que uma pessoa nota uma dessintonia entre os dois, mas até agora parece-me que Marcelo Rebelo de Sousa foi gerindo a coisa de forma que a bolha nunca chega a arrebentar. Quando se fala em portões do Presidente ao Governo, quando se fala de alguma dessintonia entre as decisões, acaba por não haver propriamente um confronto direto. E eu não sei se Marcelo está interessado em endurecer, de facto, a posição. É uma possibilidade num segundo mandato, é uma possibilidade num quadro político que até é mais instável agora do que no primeiro mandato, e em que podia querer assumir mais protagonismo. Há presidentes que se tornam oposição de facto, e poderia querer assumir mais protagonismo, mas também não me parece propriamente o estilo de Marcelo, que é tantas vezes descrito como um homem que não adora confrontos e que não é exatamente o estilo dele.

Eu teria mais cuidado em escolher a próxima planta. É que um bonsai exige muita paciência. Bom, na verdade é que a relação entre eles os dois também exige muita paciência de parte a parte.

Nenhum dos dois é fácil de aturar e vão saturando um ao outro. Vamos ver se o bonsai sobrevive. O nosso tempo desta primeira parte está a chegar ao fim. Regressamos na segunda parte e o convidado é o antigo presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro. Ora, bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Hoje temos um convidado que tem uma grande parecença com Pedro Passos Coelho, porque ficou em primeiro lugar nas eleições, mas não governa. Foi oito anos presidente do Governo Regional dos Açores, a terra de Terce Quental, Teófilo Braga, também de Pedro Paulete, embora suponho que o nosso convidado não consiga dar toques em queijo Terra Nostra. Mas Vasco Cordeiro, não sei se já nos consegue ouvir.

Perfeitamente. Boa tarde a todos.

Muito boa tarde. Nós temos aqui uma curiosidade relativamente a uma questão que estava aqui a falar na introdução, que é que em 2015, quando o PS veio ao poder após o executivo de Pedro Passos Coelho ver chumbado o programa de governo, concordou com a solução.

Renovo o cumprimento a todos. É que eu tive a oportunidade de dizer na noite das eleições, foi que achava que quem ganhava as eleições deveria governar. E depois tive também a oportunidade de concretizar que, não tendo apoio maioritário no Parlamento, deveria procurar esse apoio. E, portanto, foi esta a minha disposição expressa na altura e que mantenho.

Apesar de tudo, considerou a opção legítima, a opção do segundo partido mais votado poder governar

Em 2015 ou agora?

Em 2015 e agora, porque há aqui uma pequena diferença que é: na altura, o partido mais votado teve a possibilidade de primeiro formar governo e de submeter o seu programa de governo à votação no Parlamento.

Exatamente. O que não aconteceu agora.

E preferia que isso tivesse acontecido?

Claramente, acho que era uma forma de dar cumprida àquele que é o papel da Assembleia Legislativa para o lado positivo. Por outro, o facto de achar que o cargo de representante da República, com a configuração que tem e com a legitimidade que tem, não deve fazer o juízo que no caso concreto foi feito.

Vasco Cordeiro, ia-lhe só pedir, estamos mesmo com muitas dificuldades técnicas e há uma grande dificuldade, e nós vamos interromper durante alguns segundos a entrevista para que façamos o contacto por telefone, de forma a que volte em breve e consigamos ouvir melhor, porque de facto não estamos em condições de o ouvir. Já estamos de volta, Vasco Cordeiro, espero que já esteja desse lado e peço desculpa por essas questões técnicas.

Nada, esta está a ser uma refeição atribulada.

É verdade. Às vezes almoça-se assim. Talvez o do primeiro-ministro com o Presidente da República ontem tenha sido um bocadinho menos atribulado.

Talvez.

A Mariana tinha acabado de lhe perguntar se a questão do representante da República, se também vê como uma decisão de Marcelo Rebelo de Sousa e se de facto discordou frontalmente da decisão, como tinha acabado de dizer. Estava a responder a isso.

Eu não sei com quem é que o senhor representante da República falou. De qualquer das formas, o fato de ele ter falado com o senhor presidente da República não invalida o juízo que faço sobre essa decisão. Portanto, acho que coloca-se as questões que referi anteriormente, a configuração do cargo, o seu recorte constitucional, digamos assim, das suas competências e que na minha opinião, não lhe permitiam ter feito aquilo que fez, mas para frente é que há caminho.

Ainda assim, eu insisto na questão de Marcelo Rebelo de Sousa, porque foi aliás noticiado na altura que eles conversaram e o presidente tem, como sabemos, não só as funções que a Constituição lhe atribui, como a sua magistratura de influência e é capaz de influenciar decisões. Conseguiram interpretar, afinal, qual é que era a vontade de Marcelo Rebelo de Sousa? Marcelo Rebelo de Sousa quis uma solução de direita nos Açores?

A única questão que nós temos são as declarações do Presidente da República posteriormente a toda esta situação. Essas declarações são claras, falam por si. Tudo o resto julgo que será especulação sobre se o representante da República falou ou não falou. Eu acho que essa questão está ultrapassada, pelo menos da minha parte. A questão está ultrapassada e acho que o que é preciso é olhar para frente. Há aqui muita coisa que é preciso ter em atenção, não só nos Açores, mas também no país, a situação que vivemos, verbas comunitárias e quadro comunitário que está a chegar e, portanto, o que interessa é andar para frente e não ficar a olhar para o passado nem prender-nos àquilo que já passou.

E como é que andou para frente nos momentos a seguir? Sente que teve acompanhamento suficiente do PS ou foi abandonado por António Costa nesse período pós-eleições regionais e atualmente?

Não, pelo amor de Deus, essas questões não se veem dessa forma. Eu acho que o PS Açores tem o seu papel, tem a sua função, tem um grande ativo que é o fato, que convém nunca esquecê-lo, de ter tido uma vitória eleitoral e terem sido necessários cinco partidos para afastar o PS do poder. E essa confiança maioritária dos açorianos dá uma força muito grande. E portanto, repito, é preciso andar para frente com aquilo que é a nossa responsabilidade de fazer e não estarmos aqui sentados à beira da estrada a lamuriar sobre aquilo que já passou.

Mas já agora, Vasco Cordeiro falava de um grande ativo. O fato é que o PS nos Açores era poder, agora já não é poder. Isso do ponto de vista nacional não faz com que seja um ativo menor agora para o Partido Socialista?

Isso terá de perguntar ao PS nacional.

Mas no seu entender, há aqui uma menor influência até do PS dos Açores no que diz respeito ao diálogo que é feito a nível nacional por parte do Partido Socialista?

Não me tenho apercebido disso, mas de qualquer das formas, não é essa a questão que me compete responder e muito sinceramente, se quer que diga, eu acho que a questão nem se quer se coloca. Eu acho que aquilo que o PS tem feito no Governo da República e enquanto partido, também na Assembleia da República, está muito acima e vai muito para além desta questão de agora não são governo. Eu acho que a questão não se vê dessa forma. Há aqui um trabalho que é necessário fazer. O momento é de exceção, há muitos desafios e o que é preciso é estar comprometido a vencer estes desafios da melhor forma possível. Pelo menos é esta a minha visão.

Vasco Cordeiro, circulava isto nas hostes do PS de que tinha uma relação um pouco deteriorada com António Costa já antes das eleições regionais e que as relações não eram as melhores. Eu sei que é o líder do partido, é o primeiro-ministro, é difícil dizê-lo aqui, mas conseguirá admitir que não tem a melhor relação ou pelo menos a relação que já tiveram no passado?

Esta conversa das hostes do PS é conversa de alcoviteira.

Mais ou menos. O que não falta num partido político são fontes em off, como sabe, aliás.

Não, eu acho que a forma como as coisas devem ser feitas e devem ser encaradas, pelo menos da minha parte, é que cada um deve cumprir o seu papel com sentido de responsabilidade, de lealdade Desde logo institucional e não só. E eu peço desculpa de me repetir, mas é aí que me coloco, para frente é que é caminho.

Andando para frente, que balanço é que faz destes primeiros 100 dias de governo que marcaram esta semana?

Um bocadinho preocupantes. Por quê? Em primeiro lugar, porque acho que o governo se caracteriza, pelo menos nestes 100 dias, por uma falta de palavra. O que eu quero dizer com isso? Desde a constituição do governo, o PSD disse que nunca faria uma aliança com o Chega e atirou-se para os braços do Chega. O Chega disse que nunca aceitaria acolher no seu seio ou nos seus braços o PSD e ainda hoje estão abraçados. Nós temos dois deputados do PPM na Assembleia Regional. O PPM, que nem mau mé disse do todinho do líder do PSD, apoia esta situação. Isso é uma primeira nota de falta de palavra ou de contradição. E há outras situações que são mais graves.

Mas essa contradição tem-se notado no exercício da ação governativa? Em quê?

Também. Os partidos que agora formam o governo disseram que queriam desgovernamentalizar, reduzir o peso da administração. Nós hoje temos o maior governo da história de sempre da autonomia e o mais caro. Os partidos também disseram que primavam pela transparência. É recente a notícia de que o governo decidiu acabar com conferências de imprensa a seguir aos conselhos do governo. A forma de conhecer as decisões do Conselho do Governo passa a ser só pela leitura do Jornal Oficial, o que é muito bom para o Jornal Oficial, mas talvez não seja propriamente muito bom para a transparência e no fundo o escrutínio.

Acho que é um governo que não quer ser escrutinado.

Eu acho que é um governo pouco transparente.

Certo. Estava a criticar o tamanho deste governo e desta administração. Na verdade, não sei se aplica isso em todos os casos, mas o governo nacional neste momento, por exemplo, também não é propriamente um governo pequeno. Isso diz alguma coisa sobre a ação do governo?

Eu estou a falar do governo dos Açores. Acho que a questão é do governo.

A questão aqui é de princípio, não é? Não tem bem a ver com o governo, se é nos Açores ou se é nacional.

Exatamente. A questão é de princípio.

Mas qual é o seu princípio, afinal?

O meu princípio é que não se pode dizer que se é contra e que se vai reduzir o governo e depois fazer exatamente o contrário. Que o governo tenha que ter 10, 11, 12 secretarias, muito bem. A questão de falta de coerência que me parece que é preocupante, é falta de palavra, porque se pura e simplesmente este governo não tivesse tido a conversa que tiveram antes das eleições e quisessem constituir o governo desse tamanho, é o direito que lhes assiste, naturalmente, e o que é importante é que o governo seja eficaz. O problema é a falta de coerência e falta de palavra.

É dizer o contrário, é isso?

É dizer uma coisa e fazer o contrário.

Este governo de direita nos Açores já tem 100 dias e é suportado também por um acordo com o Chega, como aliás estava aqui a referir que o PSD acabou por procurar, apesar de ter dito que não durante a campanha. Há alguma medida que tenha sido tomada que considere de extrema-direita?

Vamos ver aqui uma coisa. Eu acho que o grande problema que se coloca aqui, além das questões das medidas, é o fato do Chega dos Açores e por virtude da dependência que o Governo Regional dos Açores tem em relação ao Chega dos Açores, também o Governo Regional ser um brinquedo nas mãos do doutor André Ventura. É o que me parece. Aliás, e a história recente demonstra isso. O doutor André Ventura aborrece-se em Lisboa e vem para os Açores tirar satisfações e depois achar que é aqui que resolve as suas incongruências. Isso é um fenómeno negativo.

Mas no governo e na ação governativa não houve propriamente uma diferença grande relativamente à direita ter ido mais para a extrema-direita e o fato de ser apoiado no Chega não tem influência a nível da ação governativa, é isso?

Há alguns comportamentos e algumas prestações, sobretudo parlamentares, conforme sabem, o Chega não faz parte do governo, dá sustentação parlamentar ao governo, que se aproximam bastante. Insultos a outros partidos, nomeadamente ao Bloco de Esquerda e um conjunto de outras situações que eu acho que não dignificam nem o Parlamento.

Mais de forma do que de conteúdo, é isso?

Não, também de conteúdo.

O Observador, na quarta-feira, José Manuel Boulier, também no artigo que fizemos aqui sobre os 100 dias, disse que o atual governo regional teve de lidar com a emergência de situações herdadas graves e não tratadas, isto no contexto da pandemia. O que deixou de tão grave que leva o presidente do governo regional a dizer isto? O que deixou por tratar?

Pois é, não sei. Terá que lhe perguntar a ele, se é ele que acha que recebeu uma herança tão pesada, deve-se perguntar a ele. O que eu sei é que num conjunto de indicadores, desde indicadores sociais até indicadores económicos, os Açores durante oito anos, durante mais anos, mas vamos falar desses oito anos, fizeram um percurso e uma caminhada bastante interessante para colocar a questão desta forma. Se quer um exemplo concreto, por exemplo, em relação à questão da taxa de pobreza, um tema tão caro nas eleições E que os últimos dados divulgados pelo INE demonstram que os Açores foram capazes de reduzir mais a taxa de pobreza no tempo referido por essa estatística do que outras regiões do país, deixaram de ser a região com a taxa de pobreza mais elevada do país, deixaram de ser a região com o risco de privação severa mais elevada do país. Em relação ao resto, eu não sei o que é que propriamente quem concorre a um governo acha que vai encontrar, mas as coisas são assim, a vida é dinâmica. Agora, se há efetivamente essa pesada herança, eu não ouvi a entrevista ou a nota do doutor Jamail Belmiro, mas se acha que há essa pesada herança, se calhar convinha dizer.

Na última Comissão Nacional do PS, Carlos César disse algumas coisas. Eu sei que me vai dizer que foi à porta fechada, mas não sei se isto é de Albuquerque, mas tenho a certeza que ele disse isto. Disse que este governo não pode ser confinado a uma estrutura de políticas de saúde, portanto dando a entender que o Governo da República estava demasiado preocupado com a Covid, esquecendo outros temas. E disse ainda que o governo até devia, de alguma maneira, ajudar os próprios autarcas a preparar isto do ponto de vista de sendo um governo PS, a preparar o que aí vinha. O governo tem falhado noutras áreas que não a pandemia? Concorda com Carlos César neste aspecto?

Concordo na perspectiva em que a vida da nossa sociedade não se resume apenas à questão da pandemia. Isso absolutamente de acordo. E acho que à medida que o tempo passa, cada vez se nota mais também essa necessidade de acudir e de atender a outras áreas. Portanto, desse ponto de vista, concordo. Acho que aquilo que é a luta positiva e meritória que este Governo da República tem travado em relação à pandemia, não deve fazer esquecer o conjunto de outras áreas. E eu acredito que independentemente da relevância mediática, da exposição mediática que esse outro trabalho tenha, efetivamente esse trabalho está a ser desenvolvido.

Vasco Cordeiro, tem-se falado muito a propósito da pandemia de uma coordenação e solidariedade institucional entre São Bento e Belém. Olhando aqui para 2026, vai mudar o ciclo em Belém, a presidência. Considera que Carlos César pode ser um bom candidato presidencial, até porque não temos tido aqui candidatos oficiais por parte do Partido Socialista?

Eu acho que Carlos César tem as condições para ser aquilo que quiser e aquilo que entender que tem a vontade e, no fundo, a determinação de conseguir. E portanto, a minha resposta a essa pergunta é tão clara quanto isso.

Enquadra-se mais em secretário-geral do PS ou como secretário-geral do PS ou como presidente da República? Ou o cargo de presidente da República enquadrar-se-ia mais?

Eu não quero colocar o meu camarada Carlos César na posição dos candidatos PSD, que são candidatos a coisas e nem sabem que são candidatos. E portanto, se calhar convinha, para situações dessas, já bastantes na semana. De qualquer das formas, o que eu gostava de dizer é isso. Efetivamente, acho que ele tem as condições políticas, pessoais, as qualificações também políticas e pessoais para poder ambicionar qualquer cargo.

Voltando à região autónoma dos Açores, continua a defender a extinção do cargo de representante da República e queria ter feito mais nesse sentido nos oito anos em que esteve no governo?

Eu continuo a defender e acho que já foi feito muito. Eu recordo que na última legislatura houve, ao nível do Parlamento, a constituição de uma comissão que consensualizou um conjunto de matérias, que julgo que nesta legislatura terão agora expressão prática com a apresentação de propostas concretas. A minha posição é em relação ao cargo de representante da República, então não tem nada a ver, obviamente, com o titular do cargo, penso que isso é evidente, mas tem a ver com o cargo em si. Acho que já não se justifica e acho que também em termos comparados, um conjunto de países que fizeram um percurso semelhante ao nosso em termos de regiões autónomas, firma a Espanha, firma a Itália, já há muito tempo que deixaram cair esse tipo de figura.

Deixe-me só encerrar esta parte da entrevista com uma pergunta que eu acho que é inevitável, até porque já perguntámos pelo futuro de Carlos César, mas não lhe perguntámos ainda pelo seu. Onde é que se vê nos próximos quatro anos? O que é que se vê a fazer? Exatamente onde está?

Estou a ver deputado na Assembleia Legislativa da região, porque foi para isso que me candidatei.

E portanto, é isso que se vê a fazer nos próximos quatro anos. Não se vê voltar a concorrer, sei lá, numas regionais antecipadas ou nas próximas regionais?

Pode acontecer muita coisa. Agora, vejo-me a trabalhar pela minha região, se quer uma resposta que lhe permita enquadrar.

Essa é politicamente correta.

Não é a questão de ser politicamente correta. Politicamente correta seria, vão me perdoar a expressão, mas ela é brasileira e penso que resulta bem nessa situação: conversa pra boi dormir. Não é isso que eu quero. E portanto, o que eu quero dizer é claramente, vejo-me aqui nos Açores, a trabalhar nos Açores, fazendo o meu melhor, assumindo as responsabilidades às quais eu me candidatei e se houver eleições antecipadas, pois cá estaremos.

O continente está fora dos planos, pelo que percebi.

Neste momento está, porque obviamente não fazia sentido candidatar-me a uma coisa e depois ir para outro sítio.

E deu-lhe jeito aquilo que criticava há pouco Pedro Catarino não lhe ter dado posse, porque se a seguir o seu governo fosse travado na Assembleia Legislativa, já não se poderia recandidatar a presidente do governo regional e agora pode. Houve essa quebra. Isso até lhe deu jeito nesse sentido, não é?

Enfim, eu não diria propriamente de momento. Efetivamente que não me colocou na situação de esgotar as possibilidades de ser candidato a presidente do governo. O que, salvo o devido respeito, a melhor opinião e sem falsas modéstias, não diminui o valor da minha oposição a essa decisão, bem pelo contrário.

Muito bem. Vasco Cordeiro, vamos agora avançar aqui na nossa refeição para um segmento que nós chamamos Carne ou Peixe. E não queremos que passe fome, claro que tem sempre a hipótese de passar fome, mas nós queremos é que escolha entre carne ou peixe.

O bacalhau onde é que fica? Carne ou peixe?

Boa pergunta.

Todos os restaurantes estão abertos, pode não passar a fome. A alcatra pode ser sempre carne e peixe.

É lançar a trilha. Vamos a isto.

Vamos a isto.

Vasco Cordeiro, preferia ser secretário regional num governo de Francisco César ou ministro a nível nacional num governo liderado por Carlos César?

Preferia estar nos Açores.

Quem é que gostaria de levar a dar uma volta de bicicleta? Pedro Nuno Santos ou Fernando Medina?

Há bicicletas que levam os três.

Escolha lá um, senão fica com fome.

Não me diga que já almoçou. Lá está, a alcatra pode ser sempre de carne e de peixe, não é? Deve ser isso.

Exatamente. Não, levava os três. Íamos os três em passeio.

Ora bem, então vamos avançar. Quem mais facilmente convidava para um almoço na Covoada? José Manuel Bolieiro ou Robert Schuman?

José Manuel Bolieiro, sem sombra de dúvida.

No seu currículo profissional, tem o cargo de professor de Filosofia no secundário, em regime de substituição. A quem é que preferia dar umas aulas de Filosofia? Sócrates, não o filósofo, ou Ana Gomes, que costuma filosofar no Twitter?

Esperem lá, a opção José Manuel Bolieiro era da pergunta anterior, não é? Bem, então pode ser a doutora Ana Gomes.

Muito bem, chegou ao fim este segmento e avançando na nossa refeição, pedimos que trouxesse uma sobremesa. Creio que será a Chamateia, mas saberá melhor do que eu explicar o porquê desta escolha. E é isso que queremos saber. Por que escolheu esta música, Vasco Cordeiro?

Porque acho que essa música, como poucas, diz quase tudo sobre ser açoriano. A letra é de António Melo Sousa, a música é do Luís Alberto Bettencourt e a música diz tudo.

Vasco Cordeiro, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite.

Eu é que agradeço.

Tivemos aqui alguns problemas técnicos.

Se não fosse assim não tinha piada.

Não tinha piada, exatamente. Foi a bruma açoriana que prejudicou aqui a ligação. Não, a partir dos Açores e nós aqui continuamos. Recusramos na próxima semana com o Vichi Suas. Para já ficamos a ouvir Chamateia.

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