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Olá, bem-vindos à "Vici e Suave". Contra algumas previsões de muitos, a "Vici e Suave" foi de férias e voltou com o mesmo ministro da Administração Interna, continua a ser o mesmo. André Ventura continua indignado, também não é novidade, e a apresentar moções de censura, que também não é propriamente uma novidade. E o Presidente da República continua a gerir os silêncios e só fala pra dizer o quê? Que ninguém falou por ele.
O Chega deu entrada hoje no Parlamento de uma moção de censura com o objetivo claro: censurar o primeiro-ministro e o governo pela manutenção de Luís Neves no cargo de ministro da Administração Interna.
Comparou-me a um gângster e até já declarou que só falta que ande a vender droga na rua. Não aceito que André Ventura transforme aquilo que assumi naquilo que nunca fiz.
Aquilo que me parece é que a Assembleia da República, como um todo, dará condições ao governo pra continuar a executar o seu programa.
Se continuarmos a ter Luís Neves como ministro, sabemos que a autoridade do primeiro-ministro está irremediavelmente colocada em causa.
Infelizmente, a vida democrática ensina-nos que as oposições nunca ficaram satisfeitas com as explicações dos membros do governo. E, portanto, cabe ao primeiro-ministro depois fazer a avaliação. E eu faço a minha e estou muito tranquilo com todos os membros do governo.
A mim não me intimidam, jamais me intimidarão. Nada disto me impedirá de governar. Nada me vai afastar daquilo que me vou aceitar estipular.
A mim também ninguém me intimida, mas quase que eu me autosilenciava. Acho que fazia falta ali ao ministro: "A mim ninguém me intimida". Percebem? Eu sou o Rui Pedro Antunes, sou editor de política do Observador e tenho comigo a Mariana Lima Cunha, que é jornalista da seção de política do Observador, e o Vasco Maldonado Correia, da Rádio Observador. Vai começar a "Vici e Suave". Então, ia propor uma sopa única, tendo em conta a quase crise política, que não é, que nós enfrentamos, que é uma sopa dos censurados. O que leva uma sopa dos censurados? Leva-nos a refletir um pouco sobre cultura portuguesa, porque nem sempre é o mais imediato. E Censurados era uma banda de punk rock portuguesa que tinha um álbum muito famoso chamado Sopa. E como um dos membros dessa banda era também-
Sempre a aprender
...João Ribas, que é um histórico de Alvalade, que é onde está a redação do Observador, também ele famoso membro do História Perdida. Creio que não preciso dar mais justificações.
O Rui já pensou mais sobre isto do que André Ventura pensou em Luís Neves esta semana.
O que é que são os censurados? Mariana, a tua sopa dos censurados é pra quê?
Não querendo eu fazer de André Ventura, os censurados parece que vai ser o governo. Quer dizer, Luís Neves é o censuradíssimo. É um homem que todos os dias se levanta com alguém a censurá-lo de forma mais veemente do que no dia anterior. Mas enfim, eu acho que nós temos aqui vários ângulos pra explorar, desde logo, porque este é daqueles casos em que uma pessoa tende ser um nem-nem. Ou seja, nem estou a dizer bem de Luís Neves, nem de André Ventura. Não é por uma pessoa criticar uma ação de um que queira dizer que o outro fez tudo bem. Acho que ninguém fez tudo bem neste caso. Do lado de André Ventura, temos mais uma moção de censura que não há de dar em nada, a não ser que José Luís Carneiro respeite muito personalidade e objetivos políticos. Mas, a princípio, o que nós sabemos é que José Luís Carneiro quer pelo menos mais um ano pra consolidar sua proposta política antes de voltar a ir às urnas e a ser avaliado pelos portugueses, e que quer subir mais nas sondagens também até chegar aí, portanto, não se sente pronto. O que condena, evidentemente, a moção do André Ventura. Mas, evidentemente também, André Ventura fez essas contas antes, tal como há ter feito as contas ao momento em que ia apresentar, de fato, a moção de censura. Não me parece que André Ventura fosse ser dissuadido, ou melhor, que precisasse assim tanto convencer o próprio partido e de ouvir António José Seguro, etc., pra se convencer a avançar com a moção de censura. Acho que de fato continua a exibir o excelente controle do espaço midiático que tem.
Eu ia dizer isso, Mariana, que o fato dele adiar um dia colocou toda a gente em suspense.
Toda a gente fala do que ele vai fazer amanhã.
Continua ele a ser a grande figura e eu que estava a ver as televisões, tiveram 25 minutos ou 20 minutos, não sei, muito tempo, o fato de adiar o momento em que dizia a decisão obrigou a estarem lá todos, já não podiam sair e voltar a entrar.
Sim, e entretanto conseguiu dar entrevistas sobre se ou não avançar com a moção de censura. Portanto, conseguiu fazer render esta semana inteira, só deu André Ventura. E André Ventura, mérito lhe seja dado aí, consegue um controle do espaço midiático, acho que mais nenhum político consegue neste momento em Portugal, enfim, bem ou mal. E é o que ele tem vindo a fazer. Ele evidentemente sabe que a moção vai ser chumbada, mas também sabe que isso lhe interessa pouco, porque o que interessa é conseguir este espaço midiático. E sobretudo, eu acho que este caso é um mimo pra André Ventura, no sentido em que nós temos sempre recorrentemente aquelas conversas, ou tínhamos, acho que agora já nos passou um bocadinho essa mania, mas antes tínhamos muito aquelas conversas sobre qual vai ser o teto do André Ventura. Será que o André Ventura só vai moderar? Será que é agora que vai dar a mão ao PSD? E ele vai-nos provando que não e que isso passa.
Que o céu é o limite.
Exatamente. Nós fomos conhecendo o Chega, de facto, inicialmente as dúvidas eram naturais, até porque não conhecíamos o modo de proceder do Chega e percebe-se que André Ventura acredita que a sua verdadeira utilidade não é juntar-se ao PSD, não é ajudar propriamente a direita a governar, é fazer passar, aí sim, e faz algumas cedências, quando são dossiês importantes para o protesto do Chega, no caso a imigração, por exemplo, tem sido muito evidente, mas não para tudo. Não é porque uma governação de direita tem de avançar, é os objetivos específicos do Chega. André Ventura tem mostrado, e a reforma laboral foi um choque para o governo, mas com esta moção de censura voltou a mostrar que quer estar bem afastado do centrão e que o seu caminho é sempre distinguir-se como o partido que é diferente deles, e que PS e PSD são sempre a mesma coisa. Já devem ter visto outdoors, pelo menos aqui em Lisboa, muitos.
É só sair à rua.
Exatamente, que dizem que PS e PSD estão atrelados a Luís Neves. O caso é fantástico para André Ventura, no sentido em que é exatamente o tipo de discurso e de narrativa que ele quer colar o PS e o PSD para continuar a jogar em pista própria. E dito isto tudo e falando sobre mesmo os truques midiáticos que André Ventura utiliza, etc, isso obviamente não isenta o ministro de culpas, não é por aí. E não fazendo eu aqui uma avaliação, porque não sei fazê-la, sobre que inquéritos, crime, o que é que vão dar, o que é que Luís Neves fez melhor ou pior, acho que na avaliação política tem-se mostrado um político, eu acho que é um estilo que Luís Montenegro aprecia, no sentido em que "Si puis, non vive" também foi muito à base de dar as explicações nos termos em que queria e quando deixou de querer lá dizer: "As vossas perguntas nunca vão escutar, portanto, eu não dou mais tempo, seguir em frente." Luís Neves tem aquele modo um bocadinho pistoleiro. Mas acho que às vezes também é preciso ter um bocadinho de calma, responder a perguntas, não dizer que é só quando se decide quando quer e etc. O ministro só está nesta posição porque há algumas dúvidas que é preciso esclarecer. Não é por André Ventura ter uma opção com moções de censura que o ministro fica imediatamente absolvido das trapalhadas em que se tem vindo a meter. Acho que até muitas, sobretudo comunicacionais e políticas.
Eu até achei que ele já tinha chegado a esse ponto de já não dou mais explicações por ter percebido que cada vez que dava só piorava a situação.
Mas eu acho que ele é provocável também. Eu acho que o feitio do ministro parece uma pessoa que não é assim tão difícil provocar e fazê-lo ir a jogo. Porque eu acho que ele tem essa necessidade de se defender e de se impor. Não tem aquele perfil de vamos esconder e ver se isto passa. Isso os eleitores chamarão ser bom ou mau.
Vasco, a tua sopa censurada. Ou estás como o João Ribas numa música do História Perdida, muito famosa, que diz: "O que eu faço aqui?"
Acho muito simpático achares que eu conheço essa música.
"O que eu faço aqui?" é uma excelente música, aproveito para aconselhar.
O Rui claramente ganha uma comissão neste episódio.
O popular de Alvalade, são referências do nosso bairro do Observador.
A sopa censurada. Primeiro, dizer que sempre que alguém diz mais do que uma vez que vai esclarecer tudo, está mal já.
Normalmente. A seguir saem textos que dizem assim: "O que ficou por esclarecer."
E quando se pode comparar. Mas eu acho que é importante também pegar no momento bizarro que foi a escolha da comunicação de Luís Neves naquela cerimónia da PSP, se calhar sou antiquado, mas eu acho que a forma interessa. E acho que mostrou uma confusão muito grande entre papéis. A certa altura, Luís Neves diz que vai ser sempre polícia, mesmo que o censurem, etc. E se calhar por isso mesmo não percebeu a gravidade dessa confusão institucional, mas alguém lhe devia dizer, e eu não acredito que aquela comunicação não tenha passado pelo primeiro-ministro, porque só aí o caso também seria bastante mais grave. Mas além da forma, eu acho que há aqui alguns pecados que eu acho que são imperdoáveis, apesar de acreditar na redenção das almas. Nota-se que Luís Neves está ofendido, ou seja, que se deixa provocar facilmente, mas apareceu esta semana quase a desafiar André Ventura para um mano a mano, do gênero: "Vens resolver isto lá fora."
São dois pistoleiros.
São dois pistoleiros, mas um deles conseguiu o contexto.
O André Ventura até já tinha dado uma de Caixinhas, uma vez que ele disse: "Vais pagar."
Da ameaça.
Sim, ele disse que me ia bater.
Já estamos com José Eduardo Martins a dizer ao Candal: "Vamos lá para fora resolver isto."
Mas eu acho que isto leva também a outro problema, que é as primeiras duas ministras da Administração Interna que foram escolhidas por Luís Montenegro, eram criticadas precisamente pelas falhas de comunicação. E Luís Neves foi vendido ou foi apresentado como alguém que no mínimo nisso não ia falhar.
Parecia, eu lembro-me logo a seguir ao Marrocos. Mas também é alguém que não consegue resistir a falar. Também é um estilo de português que existe na política portuguesa em particular, que é não resistir a falar.
E de cada vez que fala, o caso parece que piora. E eu acho que isso mostra que por muito competente que alguém seja numa determinada área, a comunicação política não é para todos e isso não faz mal. Ou seja, nem todos os que mostram competência na sociedade civil dão necessariamente um bom ministro. Queria falar também de André Ventura, porque eu acho que esta semana se calhar isto tem sido-
Estamos em overdose
...isto tem sido um bocadinho liberal com o uso da palavra estadista. Percebo por que é usado, mas acho que naquela comunicação também houve alguma demagogia. Mas uma coisa é certa, tirando um ou outro ponto, por exemplo O carro apreendido à PJ, que me parece mais ou menos uma coisa normal. E mesmo aí foi o próprio ministro Não achas que o Luís Neves seja um Al Capone? A trazer o carro. Nem o Xuxas.
Eu acho que é pior para ele, e já disse isto, o que foi pior para o Chega, além disso, é de facto o carro ter sido do Xuxas, porque eles acham que, como coloquialmente é chamado às pessoas do Partido Socialista, que Luís Neves esteve sempre do lado dos Xuxas.
Mas quem ouviu André Ventura, acho eu, dificilmente pode dizer que o diagnóstico que apresentou naquela conferência de imprensa está errado. Ou pelo menos parece certo para a maioria das pessoas. Isso leva a outra questão, que é mesmo que o PSD acredite que isto é um caso da bolha. Certo, talvez seja, mas o governo não pode achar que está a sair por cima disto e por isso convém não oferecer estes espaços isolados para a baliza para André Ventura, porque um: André Ventura raramente falha quando tem essa oportunidade, e dois: é um político que quase nunca perde, mesmo que as coisas lhe corram mal, que quando chega às urnas as pessoas tendem a ignorar. Ele tem uma certa resistência, quase Donald Trump. Aquela frase da Quinta Avenida.
Exatamente. Podia dar um tiro na Quinta Avenida, eles continuavam a votar em mim.
E também há um aspecto que já se tem referido várias vezes, que é a tolerância que existe por parte do eleitorado para um partido como o Chega e para André Ventura, relativamente a outros. Ou seja, a mesma pessoa ter um grau de tolerância diferente perante o líder partidário que está a falar. E também ao contrário.
Acho que os partidos vocacionados para o protesto talvez não enfrentem os mesmos estándares do que os que costumam ter a responsabilidade, de facto.
Uma tolerância diferente.
Só que ele tem uma dimensão que os de protesto por norma não costumam ter, que nós nunca vimos.
Por isso é que andávamos sempre falando sobre isso.
Sobre as moções de censura. Até me lembro de uma do CDS que andava a sair umas notícias do Expresso em que o promovido por Basílio Horta, o Paulo Portas andava-se a encontrar com o Sócrates. E depois, de repente, quando havia estas notícias, chega Paulo Portas e apresenta uma moção de censura contra o governo de Sócrates. E também estamos muito habituados, por exemplo, a moções de censura do PCP. Só que esses partidos tinham o seu papel, são partidos de pequena dimensão. Aqui temos perante um grande partido que não tem força suficiente para fazer cair o governo, mas apresenta a moção de censura quase como se fosse um partido unicamente de protesto. Isto depois também pode bater um bocadinho com a ideia e com aquela maturidade que o Chega quer ter para poder ser visto como primeiro-ministro. Mas ó Mariana, ia-te perguntar também era aqui sobre o papel que o Presidente da República deve ou não ter nesta questão. E já agora, se este silêncio faz sentido neste estilo de António José Seguro.
Eu percebo que António José Seguro, Caire sempre disse, não com estas palavras, mas que queria se distanciar do estilo de Marcelo Rebelo de Sousa, que falava com imensa frequência e que ia ao Multibanco levantar dinheiro e dava sinais mais ou menos encriptados sobre como é que se sentia naquele dia e a normalidade do país. Eu acho é que António José Seguro faria bem em distinguir o que é, de facto, um excesso de palavra, há quem goste mais ou menos, mas o que se entendia que era o excesso de palavra de Marcelo Rebelo de Sousa, para o que é uma crise neste momento. Crise, enfim, não estou a falar em crise política, mas na perceção da imagem do governo, de um ministro que não sai das notícias há meses. Ou seja, acho que são situações diferentes e que esse cuidado com a palavra de António José Seguro, nesta situação, acho que é difícil dizer que não justifica alguma palavra do Presidente da República. Ele já deu algumas, mas sempre de forma muito cirúrgica. Mas a partir do momento em que há pessoas muito próximas de António José Seguro e conselheiros a vir falar em público, ou o Presidente da República que esclarece sua posição, é natural que estas sejam entendidas como as suas posições, e isso é o que tem irritado mais o governo e deixado o governo mais nervoso. É não ver António José Seguro a dar esclarecimentos públicos, mas ver muita gente à sua volta, eu ia dizer arrasar o Luís Neves, pode não ser em termos de estilo a expressão correta, mas sempre a fazerem um diagnóstico preocupante sobre Luís Neves.
Vasque, queres acrescentar alguma coisa? Não sei se tens um limpa Neves para ajudar a ocasião.
Mas pegando e concluindo aqui o ponto da Mariana, Marcelo falava muito e era criticado por ter banalizado a palavra do Presidente da República, e Seguro quando foi eleito, parecia que ia fazer o contrário, mas nem tudo é preto e branco. E quando tanta gente acredita, e eu creio que essa foi uma narrativa que já passou para a população, seja ou não verdade, que quando o Presidente da República atual fala, só diz banalidades, aí a palavra dos chefes de Estado também se banaliza.
Muito bem e voltamos já a seguir na segunda parte com um convidado que este, à partida, não vai bater em Luís Neves, que é o líder parlamentar do PSD, Hugo Soares.