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Bem-vindo ao novo episódio de "Visões Criativas", um programa com o apoio da Alberto Oculista, onde a visão é a verdadeira obra-prima, a mais precisa pincelada e a moldura que dá forma às ideias mais abstratas. Eu sou a Maria Ribeiro Nunes e neste episódio cheio de nuances e muita visão artística, vamos entender como é que este sentido é fundamental nas artes plásticas com a ajuda da Joana Vasconcelos. Bem-vinda, Joana.
Olá, boa tarde.
A Joana Vasconcelos é artista plástica conhecida pelo impacto visual e conceptual das suas obras. Foi a primeira mulher e a mais jovem artista contemporânea a expor no Palácio de Versalhes, exposição que teve o maior número de visitantes dos últimos 50 anos até à data. Com mistura de bordados e cerâmicas, cria uma fusão entre o passado e o presente. Tem exposto o seu trabalho nas mais importantes galerias e museus ao redor do mundo e é detentora de vários prémios. Destaca-se o The Winner Takes It All, da Fundação Berardo, a distinção Mulheres Criadoras de Cultura, atribuída pelo governo português, e a Comenda da Ordem do Infante Dom Henrique. Joana, o que é que estas premiações dizem do seu trabalho?
Estas premiações são sempre bem-vindas, normalmente inesperadas, e mostram que há um reconhecimento do meu trabalho, o que é ótimo, porque as pessoas gostam de ser reconhecidas por aquilo que fazem. E no meu caso, sendo uma carreira tão inesperada, fico sempre espantada com estes reconhecimentos e sempre agradecida e ao mesmo tempo a pensar quão importante é sermos reconhecidos pelo nosso país e pelos outros e ter público e de alguma maneira ver que todos os esforços que são feitos são válidos e que valeu a pena todo o esforço.
Por que considera a sua carreira inesperada?
Porque eu costumo dizer que sou mais exótica que qualquer artista chinês, porque de alguma maneira é mais inesperado ser-se artista a partir de Portugal do que é, hoje em dia, no meio da arte contemporânea, ser-se artista chinês, porque há imensos artistas ótimos vindos da China e as pessoas estão à espera de grandes artistas vindos da China, e existem, efetivamente, mas não é assim tão esperado que de Portugal aconteça a mesma coisa. E então eu costumo dizer que é mais exótico no panorama europeu a minha existência do que os meus colegas realmente do Oriente.
E a Joana é a prova de que isso pode efetivamente acontecer na Europa e mais concretamente em Portugal.
Sim, sem dúvida. Aliás, tenho alguns colegas da minha idade e com quem eu me costumo cruzar nos museus, e são realmente também todos eles vindos de sítios inesperados. E é sempre engraçado perceber que às vezes se espera das grandes cidades e dos grandes centros da cultura os grandes artistas e muitas vezes eles provêm de sítios menos preparados ou de sítios com menos estrutura cultural.
Vamos começar com um desafio para a conhecermos melhor. É um desafio de isto ou aquilo, onde lhe vou dar duas opções e escolhe aquela com que mais se identifica. Vamos a isso, Joana?
Muito bem, vamos embora.
Joana, prefere visualizar a obra pronta antes de começar a executá-la ou deixá-la surgir aos poucos enquanto a cria?
Eu visualizo sempre a obra pronta, portanto para mim nem é uma questão. Eu vejo as peças totalmente como elas vão existir na realidade. O meu único desafio a seguir é conseguir executar aquilo que vejo.
E quando está a criar uma obra, prefere utilizar diversos tipos de materiais ou focar-se apenas na estrutura de um ou dois?
Eu normalmente quando penso numa peça, tem a ver com uma ideia, tem a ver com um projeto que tenho em mente e vou à procura dos materiais que me servem para traduzir essa ideia para a realidade. Portanto, não parto a partir dos materiais, mas sim a partir de uma ideia. E vou ao encontro dos materiais e das técnicas para poder executar a minha ideia. Só para dar um exemplo com os sapatos, eu queria falar sobre a mulher contemporânea e a dicotomia entre a mulher na versão tradicional em casa, a cozinhar no papel da mãe, da família, da cuidadora, e da mulher contemporânea que tem um papel público, que sai, que tem toda uma presença no espaço público. E, portanto, cruzei os tachos para representar a mulher mais tradicional e o sapato de salto alto para a mulher contemporânea. Eu não sabia nada de rebitar panelas, mas desde o princípio que expliquei à minha equipa, aos engenheiros, que aquilo iria ser possível. E toda a gente: "Não, porque o sapato vai cair, porque não tem estrutura". E eu disse: "Não vai, não. Isto vai ser feito exatamente como um sapato de salto alto". E foi feito, só que era um sapato feito de panelas.
E a sua equipa ainda se surpreende com as ideias da Joana?
Sim. Às vezes pensam: "Foi desta que ela perdeu a cabeça", mas depois a seguir lá acreditam e lá vamos nós.
E começam a compreender a linha de raciocínio da Joana, que consegue olhar para um material e ver além daquilo que ele é no próprio momento.
Exato.
Por fim, para terminarmos este desafio, Joana, prefere retratar a realidade fielmente ou distorcê-la com o seu próprio olhar criativo?
As duas Ou seja, eu retrato a realidade exatamente, mas distorcendo-a. Eu pego em muitos objetos da realidade e não transformo os objetos. As panelas são panelas, os tampões são tampões. O que eu faço é descontextualizá-los do seu uso normal e recontextualizá-los noutra dimensão.
Foi fácil escolher as opções deste desafio?
Sim, foi fácil.
Agora que já conhecemos algumas das suas preferências enquanto artista, vamos falar um bocadinho da sua carreira e dos seus processos. Joana estudou na Escola Artística António Arroio, que é uma grande referência no meio artístico e é também uma escola artística especializada de ensino secundário. Portanto, era muito jovem quando fez esta escolha. Foi sempre assim tão óbvio que a arte seria o caminho?
Desde pequenina que eu fazia muitas coisas com as minhas mãos e gostava muito das manualidades e fui fazendo muitas esculturas, desenhos. Também sou de uma família artística e isso era normal. A minha avó era pintora, a minha mãe também desenhava, ainda hoje desenha e pinta. O meu pai é fotógrafo, era um ambiente normal em minha casa fazer-se coisas.
Uma família de artistas.
Uma família de artistas, exato. E a seguir, andava no liceu em Linda-a-Velha, onde moro, e pensei que talvez fosse interessante ir para uma escola mais especializada. E assim fui para António Arroio, que era bastante longe de Linda-a-Velha, mas era fundamental eu começar a entrar no mundo onde havia outros jovens como eu à procura desse caminho artístico. E quando cheguei à António Arroio, foi para mim uma grande felicidade, porque já não me sentia tão sozinha e diferente dos meus colegas de Linda-a-Velha, mas sim muito mais incluída e à volta de uma série de pessoas que queriam também ser artistas como eu.
Tantos anos e obras depois, a Joana consegue perceber em que medida é que a sua perceção visual evoluiu ao longo dos anos?
Desde que eu comecei a fazer um trabalho artístico, por volta dos meus 17, 18 anos, mantém-se bastante próxima disso. Ou seja, as pessoas muitas vezes perguntam: "Aquilo que você fazia quando era nova, era mais autêntico ou mais original?" Ou agora aquilo que eu faço hoje é mais evoluído, porque tenho a experiência do tempo. Eu não vejo isso assim. Eu vejo de uma forma em que desde que eu comecei a ter um discurso próprio e a querer trabalhar, aquilo que me tem movido são as minhas ideias. Há peças que eu fiz com 17 anos que podia fazê-las amanhã, da mesma maneira.
Então deixe-me colocar-lhe aqui uma questão. A perceção, por exemplo, das cores, muda de pessoa para pessoa e de artista para artista. Há quem prefira trabalhar com uma paleta de cores colorida e há quem goste de brincar com as nuances das paletas mais neutras e monocromáticas. As suas obras são sempre impactantes a nível de conceito, mas também a nível de cor. Foi sempre assim?
Há pessoas que são coloristas e há pessoas que não são coloristas. Ou seja, ser colorista são os artistas cuja cor é uma parte intrínseca da sua obra. E alguns que usam a cor de uma forma ocasional. Há outros que não, usam a cor como matéria, e que é o meu caso. Eu uso a cor como matéria e uso a cor segundo os propósitos que estou a trabalhar. Às vezes os propósitos requerem cores mais intensas, outras vezes os propósitos requerem cores mais tenres, mas não tem a ver com evolução ou desevolução, tem a ver com as necessidades do próprio projeto.
E a própria identidade também da artista, no fundo.
Sim, se eu quiser fazer uma peça que está a falar do deserto, não vou usar vermelho, vou usar o tipo de cores que tem a ver com o meu projeto.
E que ajudem a contar a história, não é?
Exato. É isso mesmo.
E como há pouco referíamos, nas suas obras costuma utilizar materiais do dia a dia e dar-lhes precisamente uma nova história, a partir do momento em que passam a fazer parte de uma peça. De que forma é que a visão é essencial para garantir uma harmonia entre as várias texturas, as várias formas e materiais que costuma utilizar?
Eu trabalho as ideias e não o olhar, porque quando se olha para um sapato feito de panelas, uma pessoa pensa: "Mas por que de repente umas panelas fazem um sapato? O que isto quer dizer?" E aí entramos num discurso conceptual. E é muito engraçado, por exemplo, com o sapato, que as pessoas dizem: "Este sapato é supersensual, faz-me pensar em saídas à noite na discoteca". E há pessoas que dizem assim: "Eu já sei o que eu vou fazer. Eu andei a cozinhar e agora já sei o que é que vou fazer com as panelas lá de casa".
Cada pessoa vê na-
É isso que é muito interessante. Cada pessoa observa e vai ver à luz da sua educação, da sua idade, da sua perceção, entre a forma mais tradicional de ver a vida ou uma forma mais contemporânea. Por exemplo, o Van Gogh era completamente daltónico. Não via uma série de cores e a obra de Van Gogh é extraordinária por causa disso, porque não tem a ver com a visão, tem a ver com o lado conceptual e aquilo que está a transmitir através da obra. E aquilo que nós percecionamos é que é aquilo que importa. Há um lado que é a perceção da obra de arte, aquilo que nós adquirimos e aquilo que nós ao olharmos para uma obra de arte, transformamos na nossa maneira de ser.
E pegando na perceção visual que referes, a beleza da arte plástica está na capacidade de transformar o que se vê. Nós, apreciadores, também podemos aprender a ver além?
Claro, essa é a função da obra de arte, é quando o público e as pessoas que olham para as obras de arte transformam o seu próprio mundo. Mas não é o artista que transforma, é a própria pessoa que ao olhar para a obra de arte vai transformar a sua perceção.
A observação atenta do mundo ao seu redor influencia as suas obras?
Claro que sim. Eu faço parte do mundo e através dessa minha percepção, dessa minha avaliação e até o meu sentido crítico, é que faz com que eu possa fazer as obras. E depois, às vezes as pessoas estão de acordo, às vezes não estão, às vezes têm uma percepção diferente da minha. Depois há uma série de nuances, mas é esse conjunto de fatores que faz com que as pessoas mudem a sua percepção, a sua identidade, o seu olhar sobre o mundo.
E não basta ter boas ideias, é preciso que estas passem pelos olhos e cheguem efetivamente às mãos. E a visão é o primeiro passo de qualquer obra que se crie. Para a Joana, existe aqui um paralelo entre o ver e o imaginar? A visão real e a visão criativa são complementares uma da outra?
Eu diria que é um conjunto de percepções dos nossos sentidos, que juntos vão dar a nossa apreciação e a relação que nós estabelecemos com a obra de arte.
Para terminar, Joana Vasconcelos, que conselho daria a quem se está a iniciar nas artes plásticas?
Trabalhar muito, acreditarem sempre no seu trabalho e nunca deixarem que ninguém diga como é que hão de fazer as suas obras de arte. Acho que ser artista é um desígnio, e aqueles que sentem que têm que ser artistas é porque sentem que têm alguma coisa para dizer. E portanto, se têm alguma coisa para dizer, vão ter que o fazer independentemente daquilo que as pessoas possam pensar.
Vamos a mais um desafio?
Vamos.
Para terminarmos este programa, trago-lhe mais um dilema. Vou dar-lhe duas frases, uma delas é um facto sobre visão, outra é um mito. A Joana terá de tentar identificar qual delas é a afirmação verdadeira e qual delas é a falsa. Vamos a isso?
Vamos lá. Vamos agora.
As frases são: "Os olhos habituam-se à graduação dos óculos" e "A visão é muito influenciada pelo cérebro". Qual delas é a verdadeira e qual delas é a falsa?
Eu acho que a visão é muito influenciada pelo cérebro.
E acha muito bem. A visão é altamente influenciada pelo cérebro. Se os olhos forem expostos a uma realidade distorcida, como aqueles óculos especiais que invertem tudo, o cérebro eventualmente reaprende a ver o mundo. Claro que depois de remover os óculos, o cérebro volta a corrigir a visão para o normal. Isto revela o quanto a nossa visão é uma construção tanto dos olhos como do cérebro.
Como da mente.
Exatamente.
Era isso que eu estava a dizer.
Já este mito de que os olhos habituam-se à graduação dos óculos, ouvimos dizer muito por aí. Os olhos habituam-se, efetivamente, à graduação dos óculos, mas não no sentido de ficarem dependentes deles ou mais fracos. À medida que o tempo passa, a visão muda naturalmente devido ao envelhecimento ou outros fatores, o que pode levar à necessidade de uma nova graduação, e é por isso que temos de trocar de óculos. A Joana usa óculos?
Uso.
Para ver ao perto ou para ver ao longe?
Só para desenhar, para ver ao perto.
Já sabia mais ou menos as respostas?
Não, é interessante, mas como uma pessoa que usa óculos, uma pessoa sabe que os olhos é ao contrário. Os olhos têm um limite e depois vão envelhecendo e vão perdendo qualidades, mas não é uma adaptação, é uma coisa que vai acontecendo.
Naturalmente.
Que efetivamente o cérebro determina como nós olhamos para as coisas, sim, eu tenho comprovado isso na forma como as pessoas olham exatamente para as minhas obras.
É verdade, é uma grande parte do seu trabalho.
É, e não é isso? E a gente observa que as pessoas, consoante a sua educação, consoante a maneira de pensar, também vão interpretar as obras de uma certa maneira. Isso tem muito a ver com o trabalho cerebral e com a maneira de pensar.
Precisamente. Joana Vasconcelos, muito obrigada por nos ter ensinado tanto sobre a sua profissão enquanto artista plástica. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Obrigada.
E assim terminamos mais um episódio de "Visões Criativas", um programa com o apoio da Alberto Oculista. Hoje ouvimos um testemunho da importância da visão na carreira de artista plástica. Lembre-se, sem a visão, a criatividade seria apenas uma ideia sem forma, um esboço inacabado. A visão é o pincel da alma e a arte não é apenas o que vemos com os nossos olhos, é também o que sentimos e imaginamos. Para a semana há novo episódio de "Visões Criativas". Até lá.