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Existem erros que nós erramos. A minha avó, se tivesse rodas, seria um camião.
Era uma figura que se chamava Maria. Estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro. Estava a chorar, não via nada. Eu já disse à minha família: "Eu só vou dia 11 para Portugal. E vou lá e vou ser sócio do Sporting." É friado!
Vocês os três façam um quadrado com o Rui Miguel Tovar. Olá, Rui.
Olá, muito bom dia.
E hoje para arrancar, eu confesso que fiquei um pouco dividido entre começar com, por exemplo, o Concerto para Violino em Ré Maior, Opus 35, de Tchaikovsky. Ou até arrancar com o famosíssimo Capriccio 24, de Niccoló Paganini, somente à altura de grandes violinistas como, por exemplo, Alexander Markov. Mas como o virtuoso que hoje homenageamos se destacou noutra arte, a arte de dar música aos defesas, recordamos aqui a obra imortal de Arthur Duarte, e atenção que este Arthur Duarte é com TH, o não menos famoso Leão da Estrela.
E apesar de carregado pela defesa portuense, passa rapidamente a Canário. Este passa a Travassos, que completamente desmarcado atira para as redes de Mariana. Gol! E hoje marcamos! Viva o Sporting!
A voz é do Arthur Agostinho, o festejo é do António Silva. Isto para nos dar o mote, Rui Miguel Tovar, para falar de um verdadeiro virtuoso do violino, José Travassos.
Verdade. Por muitos considerado o melhor jogador de sempre do Sporting, o Travassos.
O melhor violino.
O melhor violino, sim. É claro que o Peyroteo é o mais conhecido porque marcou tantos golos. E o Jesus Correia também merece um lugar bem alto porque além de ter jogado futebol, foi campeão do mundo em hóquei em patins. Portanto, é também algo de-
Noutra arte
...de extraordinário. Mas o Travassos é um homem que tem muito que se lhe diga e lá está, o 13 de agosto de 55 é uma data memorável no futebol português porque é a primeira vez que um português vai jogar para uma seleção da Europa.
Ou seja, o Travassos é o primeiro português a integrar uma equipa All-Star.
É verdade. E a semana passada tínhamos falado do Futre, em Wembley, no resto do mundo, aqui é o resto da Europa.
Aqui é uma seleção do resto da Europa.
Resto da Europa, a jogar contra a Inglaterra.
Rui, já me vais explicar mais em pormenor esse jogo. Tu contaste-me que o Travassos estava na Costa da Caparica quando recebeu a convocatória. E atenção, estamos a falar de 13 de agosto de 1955. A ponte sobre o Tejo, na altura Ponte Salazar, hoje Ponte 25 de Abril, só foi inaugurada a 6 de agosto de 66, portanto, não havia ponte. O Travassos nesse dia, pelo menos, não apanhou fila para ir para o aeroporto, não é?
Desta vez não, só se for de barco.
Conta-me lá como é que foi essa convocatória e esse jogo.
A convocatória foi surpresa, porque Portugal não era tido nem achado no mapa futebolístico, mas todos os jornalistas ficaram espantados quando o viram jogar, porque tratava-se de um interior direito com uma enorme valia técnica. E não por acaso jogou com o número 10, camisola 10. E essa camisola ainda hoje está no Museu do Sporting, lá está, porque identifica todo um mundo novo para o Travassos, para o Sporting e para Portugal. Porque a chegada do Travassos depois desse jogo, ao Aeroporto da Portela, uma multidão foi vê-lo, porque tinha sido um feito. Claro que na altura, no jornalismo havia muito porreirismo nacional. Portanto, o Travassos, não há imagens desse jogo, não sabemos se tocou muitas vezes na bola ou não, mas os jornais deram ênfase. O Travassos fez uma assistência para golo, acabou 4 x1 para o resto da Europa. O Travassos fez uma assistência para golo do Puskás, o húngaro do Real Madrid.
Só estrelas.
Só estrelas. O guarda-redes era o Buffon. Não este. Este já está há muitos anos, mas não era-
Não é assim tão antigo
...não é assim tão antigo. Mas as crónicas foram bastante favoráveis e o facto de ter jogado, de ter vestido o número 10 e ter feito uma assistência, é claro que fizeram logo dele um herói merecido. E quando chegou a Lisboa foi uma confusão imensa no aeroporto. Tudo por causa de 90 minutos em que ele jogou de forma brilhante. Não confundir com brilhantina, que era aquilo que ele usava no cabelo, porque ele fazia questão de ter o cabelo sempre impecável.
Imaculado.
Imaculado, mesmo.
Imaculadamente penteado.
Um cabeceamento com aquelas bolas cor, não sei como é que era, acho que a bola resvalava.
Se calhar podia desviar a trajetória, podia ajudar ou não. Rui, o José Travassos e outros quatro violinos merecem um programa inteiro só para eles, mas podes explicar-nos por que esta coisa dos cinco violinos? De onde é que isto nasceu?
Sim, isso é uma invenção bem-sucedida do jornalista/selecionador nacional Tavares da Silva, que numa certa crônica chama àquele quinteto avançado, e na altura todo mundo jogava em WM e no WM o M era dois extremos, dois interiores e o avançado centro puro Portanto, era o sete, o oito, o nove, o 10 e o 11. Eram cinco jogadores. E esses cinco do Sporting entendiam-se de olhos fechados, por magia, por competência. E então criou-se essa frase, os cinco violinos.
Uma espécie de quinteto de cordas que tocava bem.
Ainda por cima, o Sporting liderava à escala nacional tudo e todos. Era francamente superior ao Porto e também subjugava o Benfica. Portanto, foi um período áureo do Sporting que encontrou nesses cinco violinos a sua maior expressão. E daí, ainda hoje nós falarmos dos violinos.
Exatamente.
Isso é que é bom. É passar 70 anos e a memória ainda estar intacta e de haver esse registo dos violinos que ao nível da seleção nacional não fizeram nada, tiveram muito poucos jogos, mas que no Sporting fizeram imensos e houve até um dia em que os cinco marcaram no mesmo jogo. Foi numa vitória em fevereiro dos anos 40 contra o Lusitano de Vila Real Santo António. Acabou 12-1 e os cinco, entre eles, marcaram os 12 gols.
Isso é incrível. E o José Travassos fez toda a carreira no Sporting?
One-man club. Eram outros tempos. Peroteu, Travassos. O Travassos fez toda a carreira no Sporting, 122 gols em 322 jogos, a tal camisola no museu e todo um prestígio inabalável. E o curioso, e há pouco estavas a falar do convite que chegou em forma de telegrama à Costa da Caparica. Quem estava nesse dia com o Travassos, por mero acaso, Maestro António Vitrinho de Almeida a fazer uma reportagem sobre o Travassos.
Estás a gozar. A sério?
Estava lá. Tem toda a lógica o início.
Exatamente.
Maestro, de repente. Estava lá. Ainda hoje ele transmite essa ideia. O António Vitrinho de Almeida percebeu que havia ali um rebuliço lá em casa.
Bem ficista ferranho, não é?
Mas não estava bem a perceber: "Mas por quê? Por que isto está assim? Por que o Travassos está mais nervoso que o habitual? Está mais calado". Então era por isso, tinha acabado de receber um telegrama que mudou a vida de um país, no fundo.
Sim, porque estamos a falar de uma altura em que, e como tu já descreveste esse regresso depois como herói lendário à Portela, estamos a falar de uma altura em que não era normal um jogador português sair, sobretudo para jogar contra qualquer terra.
Não tínhamos dimensão nenhuma, então de repente.
Estamos a falar em Portugal em 1955.
1955, portanto faltavam 11 anos para ir a algum lado, para ir a algum mundial, e havia seleções com muito mais força, mesmo europeias, porque isto era a seleção do resto da Europa. Havia seleções que agora já estão datadas, como a Áustria, como a Hungria, mas havia seleções que sempre foram boas. Itália, França, e havia nomes incontornáveis. Puskás é um deles, Boskov, um jugoslavo que depois se tornou um grande treinador de futebol e levou a Sampdoria a grandes cometimentos no final dos anos 80 e início de 90. E lá está, havia o Kopa, um interior esquerdo francês fantástico, que jogou o Mundial 58. Portanto, havia jogadores com muita valia e foi preciso coragem para chamar um português, que se chamou Travassos, que fez a sua história com a tal assistência para o gol do Puskás e que quando chegou a Portugal tinha uma nova alcunha: o Zé da Europa.
O Zé da Europa? Isso é incrível, realmente. Bom, fica prometida outra incursão no mundo dos cinco violinos, são figuras maiores do Sporting e também do futebol português, noutras edições deste "Vocês os Três Façam Quadrado" com Rui Miguel Tovar. Resta dizer que ouvimos na abertura deste hoje ainda mais erudito, "Vocês os Três Façam Quadrado". Ouvimos na abertura um pequeno excerto do concerto para violino em Ré Maior, opus 35, de Tchaikovsky. Também Capricci 24, opus 1, número 24 em Lá Menor, interpretado por Alexander Markov, obra de Paganini. Ainda no futebol, por José Travassos, interpretado por Artur Agostinho e festejado por António Silva no "Leão da Estrela", filme realizado por Artur Duarte em 47. A sonorização é do Bernardo Almeida. Eu sou o Ricardo Conceição. Um abraço, Rui, e não abuse do Paganini, está bem?
Não vou. Prometo.
Existem erros que nós erramos. A minha avó, se tivesse rodas, seria um caminhão. Era uma figura que chamava-se Maria, estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro. Estava a chorar. Eu não via nada. Eu disse à minha família: "Eu só vou dia 11 para Portugal. E vou lá e vou ser feliz." É friado!
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