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Seja muito bem-vindo ao "Vozes Circulares". É o podcast do Observador em parceria com a Associação Smart Waste Portugal, onde damos voz a quem está a transformar a forma como produzimos, consumimos e gerimos os nossos recursos. Hoje vamos olhar para a cadeia alimentar do pescado, desde a produção em aquacultura até à logística e distribuição, para perceber como é que inovação, digitalização e economia circular podem também ajudar a tornar este setor mais sustentável. Este é um episódio que conta com o apoio da Zore. E conosco estão hoje Manuel Pizarro, CEO da Zore, e também Isidro Blanquet, secretário-geral da Associação Portuguesa de Aquacultores. Muito obrigado aos dois por terem vindo ao Observador. Começaria aqui pelo Isidro. Isidro, quando falamos de aquacultura, sinto sempre que existe ainda alguma desconfiança por parte do público. Que mitos é que continuam a existir e qual é que é, afinal, a realidade da produção moderna de peixe em aquacultura?
Boa tarde. A aquacultura é uma atividade relativamente recente de produção animal e, como tal, não existe muita informação do público sobre esta atividade, daí que alguns mitos prevaleçam. Por exemplo, refere-se sempre a aquacultura como o uso de hormonas e antibióticos nos peixes, o que é absolutamente errado. As hormonas estão proibidas na União Europeia desde 1981 em qualquer produção animal. E mesmo os antibióticos, como qualquer produção animal, sempre que é necessário o uso do antibiótico, ele é feito através de uma prescrição do médico veterinário e apenas durante o período necessário para que se combata uma certa patologia. Outros mitos, como por exemplo, o ômega-3, que é um dos fatores que as pessoas mais procuram no peixe. O peixe de aquacultura tem uma quantidade de ômega-3 superior, normalmente, ao da pesca, porque tem mais gordura. As rações que são utilizadas para alimentar os peixes, hoje em dia já não provêm da pesca de peixe selvagem, ou seja, a quantidade de peixe selvagem necessária para produzir um peixe de aquacultura, neste momento, anda na ordem dos 250 gramas, quer dizer que um quilo de peixe selvagem pode dar origem a quatro quilos de peixe de aquacultura. E depois tem outras questões relacionadas com o bem-estar animal. Hoje em dia, os aquacultores têm muitas preocupações com o bem-estar animal, nomeadamente na forma como tratam os peixes, como abatem os peixes, até para garantirem uma melhor qualidade do produto. Portanto, são mitos dos anos 80, numa altura em que a aquacultura estava a começar e que hoje em dia não fazem sentido na aquacultura moderna.
Manuel, depois da produção, há aqui um fator absolutamente crítico na cadeia do pescado: a cadeia de frio. Por que garantir temperaturas adequadas ao longo de todo o percurso, da produção até ao consumidor, é tão determinante para a qualidade e segurança alimentar?
Primeiro, a título de curiosidade, é importante dizer, Portugal é o país onde mais se consome peixe. Nós consumimos 60 quilos de peixe por ano, cada pessoa, e só por isso acho que já nos devia levar a pensar que temos que tratá-lo bem. Além de termos a costa, que sempre falamos o mar. O peixe é dos alimentos mais sensíveis que existem e degrada-se com muita facilidade. Então, essa cadeia de frio tem que ser gerida com o maior cuidado, tendo como efeito a segurança alimentar, a qualidade do produto e a redução do desperdício. É importante saber que hoje em dia 35% dos peixes são desperdiçados. A cadeia de frio é fundamental e é muito nutriente, como sabe, e ainda por cima tem muito valor. E uma cadeia térmica estável significa proteger melhor o produto, evitar perdas e garantir a confiança do consumidor, que é o que nos levou a novas inovações.
Já vamos se calhar falar de algumas dessas inovações. Isidro, do ponto de vista da produção aquícola, a aquacultura é muitas vezes apontada como uma forma eficiente, de facto, de produzir proteína animal. O que a distingue em termos ambientais e de eficiência de outras formas de produção alimentar?
Sim, na realidade, a aquacultura é a forma mais sustentável de produzir proteína animal. Quando comparada com outras produções terrestres, as diferenças são imensas. Nos fatores que hoje em dia mais consideramos sob o ponto de vista ambiental, podemos dizer que, por exemplo, comparando a produção de peixe com a pecuária, a produção de vacas, a quantidade de alimento necessário para produzir um peixe anda na ordem dos dois quilos, para produzir um quilo de peixe, enquanto na vaca precisamos de 15 quilos de alimento. Já a emissão de dióxido de carbono, no caso dos peixes, anda na ordem de dois quilos por cada quilo de peixe produzido. Nas vacas, temos 27 quilos de emissão de CO₂. A água doce necessária para produzir um quilo de peixe anda na ordem dos dois metros cúbicos, nas vacas, 150 metros cúbicos. E mesmo a área ocupada para produzir os peixes, no caso de um quilo de peixe, necessita de quatro metros quadrados. Para produzir um quilo de carne de vaca, precisamos de 81 metros quadrados. E se estivermos a falar da aquacultura nacional, em que a proximidade local é favorável, então a pegada de carbono daquilo que produzimos é muito baixa.
São bons indicadores para este setor. Manuel, grande parte da distribuição de pescado ainda depende daquelas famosas caixas de esferovite, em EPS. Que desafios ambientais e logísticos é que este modelo ainda cria para o setor?
Bastantes, e o que nos fez exatamente usar é assim. Durante muitos anos, o EPS foi sempre a solução dominante e ainda é muito dominante. É leve, tem bons comportamentos térmicos e funcionou bem durante décadas. Só que hoje percebemos que cria vários problemas, quer a nível da embalagem, que tem que ser descartável, e gera enormes volumes de resíduos Há uma tendência, 60% da população viverá cada vez mais em zonas urbanas. Nas cidades o espaço é limitado. Os resíduos acumulam-se e os ecopontos e os contentores são saturados. Para dar um exemplo, se for a um centro de uma cidade, além dos ecopontos, tem uma série de caixas de EPS no chão. Isto em termos reputacional, para quem distribui peixe, nem é higiênico para nós, nem é higiênico para quem quer levar mais caixas. E depois temos um problema que é, hoje em dia, tudo que é este tipo de coisas temos que medir. Só para ter uma ideia, uma caixa de EPS é 1,15 de CO₂. Se formos incinerá-la, ainda é 1,47. Para ter uma ideia, gastam-se só na Península Ibérica, em caixas pequenas, 16 milhões de caixas de EPS. Se falarmos em 750 mil caixas por mês, estamos a falar de 375 toneladas de EPS. Ou seja, isto significa mais de 1100 toneladas por mês. Isto implica reagir, fazer soluções novas. Paralelamente a isto, nós também gostaríamos de tentar a sustentabilidade. Normalmente, junto com as caixas de EPS, também temos o gelo, que também pode trazer contaminações e pode, às vezes, sendo mal usado, que é empírico, ter excursões positivas ou negativas, ou o peixe vem demasiado gelado ou um bocado queimado. Então temos que olhar para isto de maneira diferente.
Eu queria saber consigo, Manuel Pizarro, porque a Zord, pelo que percebi, tem vindo aqui a desenvolver alguns modelos alternativos, em reutilização, gestão inteligente de ativos. Em que é que consistem soluções, por exemplo, como Ecofish+ ou o Ecocatch? Fiquei curioso com estas duas.
Nós trabalhamos os produtos mais sensíveis. Começamos pelos medicamentos, tivemos uma colaboração na distribuição das vacinas da Covid. Já há muito que estamos ligados à distribuição last mile dos alimentos. Então o peixe, como lhe disse há bocado, é dos mais termossensíveis, tínhamos que olhar para ele. Uma coisa é inovar, outra coisa é fazer novidades. O Ecocatch solução, que é uma smart cycle circular, surge com o PRR, com a embalagem do futuro. É importante saber que estes fundos ajudam-nos a isso, não só a fazer novidades, mas a inovar. E o que é que fizemos? Ao fazer o Ecocatch, estamos a fazer um sistema circular em que podemos usar, em comparativo, uma caixa reutilizável e ao mesmo tempo ter uma outra subcaixa que faz o isolamento, que pode ser usado num carro elétrico, pode ser usado em N transportes. Ao fazermos esse ciclo, estamos a deixar de descartar aquelas toneladas de emissões de CO₂ que eu lhe disse. Mas para fazermos esta mudança e aculturar as pessoas, temos que desenvolver digital. Temos que medir, temos que saber quem fica com as caixas, quantos ciclos fazemos, porque vai haver uma grande transformação. A nossa missão aqui é o uso do nosso ciclo, do nosso smart cycle, ser no mínimo mais barato do que comprar uma caixa. É muito ambicioso, porque senão as pessoas não vão conseguir.
Estamos muito longe disso?
Eu acho que vamos conseguir, até porque há uma ideia até dos mais jovens que nós temos que nos responsabilizar por um mundo melhor. Sabemos que só responsabilizando e aculturando é que podemos melhorar. Por isso é que nós fizemos o Ecotrace, que é o software que vai ver isto. Vamos dar visibilidade às emissões que estamos a poupar, ao valor econômico que já não estamos a gastar com a mesma embalagem e podemos saber quem é que a tem. E isso é fundamental para dar essa mudança.
Isidro, para o setor da aquacultura, que impacto é que podem ter estas soluções, como caixas reutilizáveis? Há maior rastreabilidade também delas, há sistemas digitais na cadeia de distribuição do pescado com estas soluções?
Sim, os produtores acham e têm a noção que o produto que resulta da aquacultura, o peixe da aquacultura, é um produto de excelência. É um produto que é cuidado pelos aquacultores, em muitos casos, desde a nascença do ovo até ao tamanho comercial. E, portanto, para um produto de excelência, nós gostaríamos também de ter uma solução de excelência na questão do transporte ou da logística, de forma que a qualidade que nós inserimos no peixe, até na forma como o abatemos, o cuidado de o manter sempre na cadeia de frio, possa chegar ao consumidor final com essa excelência. Por outro lado, os resíduos não é o trabalho do aquacultor. O aquacultor tem que se preocupar com a produção, portanto, os resíduos, o esferovite, esse tipo de plásticos, tudo isso são fatores que vêm acrescentar trabalho à sua atividade. E portanto, nós ficamos muito satisfeitos que exista uma solução que permita essa circularidade e que diminua o desperdício.
Isso pode ser também importante, Isidro, no que toca à confiança do consumidor no pescado da aquacultura, tendo tecnologia como essa no que toca ao seu armazenamento e transporte?
Claro. Nós, de vez em quando, somos confrontados com relatórios mundiais que têm a ver com a forma como a rastreabilidade não é assegurada ou com a forma como às vezes até existem algumas ilegalidades na forma de rotular o peixe. E nós, o peixe da aquacultura, que temos toda a sua rastreabilidade até ao momento em que o peixe sai para o mercado, também gostaríamos de assegurar essa rastreabilidade para dar a conhecer essa qualidade ao consumidor final. Portanto, nós achamos que uma solução destas é extremamente importante para garantir a origem do produto e para dar a conhecer a qualidade dos produtos da aquacultura.
Manuel Pizarro, olhando aqui um bocadinho para o futuro da cadeia alimentar do pescado, que papel terão a digitalização da logística e também esta economia circular, a redução de desperdício? Isto é importante para a transformação deste setor.
Claro. Aliás, o Reutiliza não é a única coisa, só que pescado. O mundo não está preparado para consumir menos. O mundo está preparado para consumir mais, mas temos que consumir melhor. Ainda por cima, por que a Zords também se lembra do peixe? Peixe é uma coisa que faz bem, não é barato E cada vez queremos consumir mais. E tenho uma logística que, se for uma doca pesca ou isso tudo, nós sentimos que ela tem que ser alterada, esta quantidade a ser descartável. E para se fazer estes processos de descarte mais bem feitos, só com modelos digitais. Esses modelos digitais, como vemos agora, que por acaso estávamos aqui ao lado no supermercado, já recompensam os miúdos por devolver um produto que seja reutilizado. Sabemos que temos que trabalhar esta parte, esta compensação positiva de reutilizar. Nós mesmo, para aculturar e para fazer esta transformação, acreditamos que se calhar temos que ter, porque nós vamos trabalhar também muito o last mile, a parte do HORECA, porque sabemos que é onde vai haver grande saturação de caixas, não vai haver resíduos, como viu na campanha de Lisboa, os resíduos é um problema, vai ser tudo taxado. Então nós temos que resolver isto através das soluções digitais e dar visibilidade a essa digitalização, quem tem as caixas, criar depósitos, haver um commitment, para depois essa transformação ser conseguida, porque só assim é que vamos conseguir. E acho que na parte da aquacultura casam muito bem, porque a gente sabe onde é que está o produtor, conseguimos em toda a cadeia agir em conformidade, porque tudo que é circular, temos que ter umas linhas menos circulares, tem que ter logística inversa. E exportação já vai ser mais difícil. Na aquacultura, sabendo quem são os pontos, nós podemos, através da digitalização, termos uma informação conjunta que nos permita fazer chegar o peixe, menos desperdício e, se possível, numa logística mais higiénica e mais barata.
Isidro Blanquet, para fechar e pegando aqui um pouquinho do que disse o Manuel, se pensarmos nas próximas décadas e numa população global que está em crescimento, que papel é que pode ter esta combinação entre aquacultura sustentável e logística inteligente, que assim garante também a melhor qualidade da proteína?
Acho que será uma combinação perfeita, uma combinação que tem como objetivo preservar o ambiente, garantindo a sustentabilidade na produção e na distribuição.
São desafios que se colocam agora, mas que podem fazer-nos também olhar para um futuro de forma mais risonha, principalmente neste setor de que falamos hoje. Muito obrigado, Manuel Pizarro, Isidro Blanquet, por esta conversa sobre produção sustentável, logística e inovação. Hoje olhamos para a cadeia do pescado. Este é um episódio que mostrou como a economia circular também passa pela forma como transportamos, como armazenamos, como distribuímos alimentos, reduzindo assim desperdício, melhorando eficiência e reforçando a sustentabilidade do sistema alimentar. Este foi o "Vós Circulares", o podcast do Observador em parceria com a Associação Smart Waste Portugal, que neste episódio contou com o apoio da ZOR. Junte-se a nós no próximo programa e continue a descobrir tudo sobre sustentabilidade e economia circular.