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Seja bem-vindo ao "Vozes Circulares". É o podcast do Observador feito em parceria com a associação Smart Waste Portugal. É um espaço onde falamos dos desafios da sustentabilidade e de como podemos acelerar a transição para uma economia cada vez mais circular. Estamos em plena quadra natalícia, um período particularmente sensível no que toca ao desperdício alimentar e é por isso que dedicamos precisamente este episódio a examinar como é que podemos reduzir esse desperdício, desde as políticas públicas ao papel das empresas de distribuição, passando pelo envolvimento dos consumidores. Este é um episódio que conta com o apoio da APED, Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição. Comigo estão hoje Cristina Câmara, diretora de sustentabilidade da APED, e também Francisco Caldeira, diretor de serviços de competitividade do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral do Ministério da Agricultura e do Mar. Muito obrigado pela vossa presença, por estarem aqui no Observador. Cristina, começaria por si para tentarmos analisar um bocadinho a base. Que panorama é que temos hoje em Portugal sobre desperdício alimentar, especialmente aquele que é desperdício doméstico, e se temos dados recentes sobre isto. Por que é importante este debate agora, sendo que já se fala disso há muitos anos, não é?
É verdade. Olá e obrigada. De facto, quer se fale do panorama europeu, quer se fale do panorama nacional, nós verificamos ao longo dos anos que a tendência se vai mantendo e se vai percebendo onde é que está o foco do desperdício alimentar. Efetivamente, o foco está no consumidor, está nas famílias, está nas nossas casas. Efetivamente, olhando para dados mais recentes que estão disponíveis, o Eurostat, em dados de 2023, vem confirmar exatamente essa tendência dos anos anteriores, de que mais de 50% do desperdício alimentar está em casa dos consumidores. E obviamente que este é um tema que nos diz particularmente respeito, não só pela dimensão ética e social que está incutida, porque de um lado do mundo ou em grandes partes do planeta, há fome e há insegurança alimentar, e também, obviamente, por causa da questão toda económica, dos recursos que se perdem, mas também por causa da questão ambiental, porque no final do dia, mais desperdício alimentar implica mais biorresíduos para gerir e mais impacto nos ecossistemas. Mas, efetivamente, e apesar de o foco do desperdício alimentar estar em casa, em nossas casas, isso não retira a nossa responsabilidade, enquanto elo da cadeia, que dialoga diariamente e que impacta diariamente a vida dos consumidores, em querer, no fundo, fazer o seu papel dentro da sua esfera de atuação, naturalmente, procurando não só sensibilizar o consumidor, mas promover uma abordagem alargada a toda a cadeia de valor. E nesta altura, parece-nos que, apesar do tema, como disse, é importante todos os dias e já o é há muito tempo, parece-nos que agora, no momento em que vai ser lançada uma nova estratégia nacional de combate ao desperdício alimentar, que é a altura para voltar a provocar uma discussão e uma reflexão conjunta sobre o tema e com o objetivo de contribuir para esta redução do desperdício.
Francisco, a Cristina já aqui fez referência a isto, do ponto de vista das políticas públicas, há, de facto, uma estratégia nacional para combater o desperdício alimentar. Quais são as metas que estão definidas, quais os instrumentos ou mecanismos previstos também para monitorizar e tentar a redução deste desperdício?
Bom dia, boa tarde, muito obrigado pelo convite. Eu começava por dizer por que o Gabinete de Planeamento do Ministério da Agricultura está aqui a ser, de alguma forma, convidado. O Gabinete de Planeamento faz parte da Comissão Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar, que foi fundada, criada em 2016. O GPP é o coordenador desta comissão e, em 2016, esta temática não estava assim tão falada e houve esta necessidade de colocar esta temática nos meios midiáticos, na sociedade civil, despertar esta consciencialização e nada melhor do que, primeiro, organizar-se a administração pública nesse sentido. Portanto, foi criada esta comissão, que agrega vários organismos públicos, as regiões autónomas da Madeira e dos Açores, e ainda duas associações autárquicas e a Federação do Banco Português Contra a Fome. Em 2018, avançou-se com uma estratégia no âmbito desta comissão e que, essencialmente, o que se pretendia era um bocado criar a base, porque não havia nada. Por exemplo, a questão da medição do desperdício era algo que não existia e teríamos que trabalhar numa metodologia juntamente com o INE, que também foi convidado.
Para ter dados, não é?
Para ter dados. Sem dados, não há políticas. Nesse sentido, um dos grandes eixos de atuação foi, de facto, termos dados e também a própria articulação das entidades, porque isto é multidisciplinar e temos aqui desde áreas da Segurança Social, como áreas da Educação, como da Saúde, e era necessário criar esta rede, este fórum de discussão e que originou uma estratégia que começou em 2018. Atualmente, é evidente que as coisas mudam. Entretanto, o assunto está De facto, muito mais discutido.
As metas também mudaram?
As metas não mudaram assim tanto. Nós vamos agora alterar um pouquinho a estratégia, porque entretanto chegamos à conclusão, através dos dados, que de facto é no consumidor, que era algo que nós já sabíamos, mas que precisávamos ter os nossos dados. E chegamos à conclusão que, de facto, 67% do desperdício é nos lares e, portanto, decidimos fazer uma nova estratégia que fosse agora de encontro à nova realidade e àquilo que nós sabemos atualmente, e é nisso que estamos agora a trabalhar.
Cristina, o setor da distribuição e do retalho tem aqui um papel também central no combate ao desperdício. Que práticas e que medidas é que as empresas associadas à APED têm implementado para reduzir este desperdício, quer em loja, quer se calhar também na própria cadeia de abastecimento?
Certo. Enquanto representante de empresas de distribuição e do retalho alimentar, nós sabemos que estas lojas diariamente disponibilizam produtos perecíveis, que são sensíveis à temperatura, que exigem controle rigoroso das validades, que têm métodos específicos de manuseamento, de acondicionamento. E nesse sentido, parece-nos que todas as medidas que visem combater este desperdício devem abranger todos os elos que interagem com estes produtos. Quem os produz, quem os transporta, quem os recebe, acondiciona, vende, quem os compra e no final do dia, quem os recebe com doações. Portanto, esta intervenção deverá ser geral. E eu diria que posso identificar aqui alguns exemplos que resultam de parcerias de sucesso, por exemplo, nesta interação a montante na cadeia de abastecimento, por exemplo, parcerias que visam aproveitar produtos com pequenas imperfeições que em nada prejudicam a sua qualidade ou sabor, mas sabemos que eles sendo disponibilizados ao consumidor, ele quando os compra, sabe que também tem ali incutida uma mensagem de prevenção do desperdício e efetivamente ele está a ajudar a combater esse desperdício. Mas existem também caixas com frutas e legumes que estão perto de ultrapassar o seu ponto ótimo de consumo, mas que estão em ótimas condições, obviamente, de serem consumidas naquela altura e que podem ser disponibilizadas ao consumidor a preços mais baixos. E todas estas iniciativas, quer sejam também, por exemplo, a incorporação de frutas na produção de bolos ou a incorporação de legumes não calibrados, por exemplo, na produção de sopas, são tudo exemplos que resultam de parcerias de sucesso com fornecedores e que permitem disponibilizar ao consumidor produtos em ótimas condições, mas que têm incutida esta mensagem de prevenção do desperdício alimentar. Isto a montante da cadeia, mas há também, naturalmente, um conjunto de ações que, dentro de casa, se podemos dizer assim, também têm diariamente que ser desenvolvidas, quer seja uma aposta na eficiência dos processos, na gestão de estoques, no controle da cadeia de frio, a formação às equipas, e nós sabemos que a formação tem que ser contínua para que possam diariamente, na sua operação em loja, aplicar boas práticas de prevenção do desperdício. E não podia deixar de falar também de uma iniciativa que para nós tem ganho cada vez mais relevo, que é o escoamento de produtos que estão perto de atingir a sua data de validade, que estão sinalizados em loja com etiquetas específicas nesses próprios produtos. Portanto, há uma mensagem ao consumidor que esses produtos estão perto de atingir a sua data de validade.
Com preço mais reduzido.
Com preço mais reduzido. E, na verdade, o consumidor, o cliente que queira comprar para consumir nesse dia ou no dia a seguir, tem ali uma ótima solução que ao mesmo tempo permite prevenir uma grande fatia do desperdício. E posso lhe dizer que em 2024 foi evitado o desperdício de mais de 26 mil toneladas com este mecanismo.
Só com essa medida.
Só com esta medida. E depois, quando todas estas medidas já foram executadas e mesmo assim há excedentes, porque isso também acontece, por muita tentativa que se faça para garantir esta eficiência, no final do dia, há também a possibilidade de fazer a doação de excedentes alimentares, sempre, obviamente, em perfeitas condições de segurança alimentar, para um conjunto de instituições que fazem parte das comunidades locais onde estão inseridas estas lojas e que podem também beneficiar destes produtos para este regime social.
Cristina, durante este período festivo, o desperdício aumenta ou o consumo aumenta, imagino eu. As empresas preparam-se de alguma forma para este cenário mais de temporada?
Eu posso dizer que a resposta é muito simples. A preparação que é feita nesta altura acontece todo o ano, quer seja no Natal, na Páscoa, no Carnaval, no verão, enfim, a formação e a atuação das empresas tem que ser contínua, porque isto não pode parar. Obviamente que nós sabemos que na altura do Natal há maior consumo e, portanto, a parte da sensibilização e da formação às equipas tem que ser eventualmente reforçada nesta altura. E porque nós sabemos que do lado do consumidor também há um aumento do consumo nesta altura, também obviamente que há aqui uma oportunidade para veicular dicas e mensagens de boas práticas, quando mais não seja, para aproveitarem os restos que têm em casa para produzir novas receitas.
É uma boa ideia. Francisco, falamos um pouquinho aqui da circularidade, porque o desperdício alimentar não é só desperdício, de alguma forma, pode ser um recurso. Já falamos disto noutros episódios aqui de Votos Circulares. Há algum tipo de incentivo para os setores de atividade encontrarem uma forma de valorizar estes excedentes, reduzir perdas e contribuir também para a sustentabilidade?
Eu acho que o incentivo é o próprio modelo de negócio, ou seja, eu acho que quando há desperdício, há uma ineficiência sistémica Por assim dizer. As próprias empresas têm que ver isto como uma oportunidade. Nesse sentido, e a Cristina falou ainda agora um bom exemplo disso, que são aquelas ilhas dos tais produtos que estão perto da validade, que eram produtos que tinham valor nulo, neste caso para o retalho, e que com esta estratégia permitiram, além de reduzir todos os custos associados à logística de desperdiçar alimentos, concretizaram num ganho, que é uma venda a um preço um pouco mais barato, mas que ainda assim é uma venda e acaba por fazer parte do negócio. Mas tem outro tipo de exemplos neste ramo, relativamente a produtos que muitas vezes não conseguem estar ao nível de visualização que o consumidor gosta e que há aqui alguma relutância em colocar à venda, a chamada fruta feia ou hortícolas feios, e que foram, por exemplo, aproveitados para quarta gama, em que são aproveitados desde já arranjados, lavados e dentro de embalagens para, desta forma, contornar essa visualização que às vezes era menos apelativa ao consumidor, mas seja também incorporando em sopas, que hoje em dia o retalho faz muito. E temos esses exemplos também ao nível da indústria, que aproveitam subprodutos dos seus fabricos para cosmética, para biogás, para compostagem, para fertilizante. Isto tem que ser visto como um recurso económico que traz mais-valia e que traz valor ao negócio de uma outra forma, através de um subproduto. Nesse aspecto, eu acho que o incentivo é a própria empresa e é nós trabalharmos com eles nesta inovação e nestas hipóteses e divulgação de boas práticas que vemos noutros lados para poder, desta forma, massificar esta valorização de subprodutos.
Francisco, já aqui falámos da importância do consumidor para a redução desse desperdício alimentar. Ainda há um caminho a fazer no que toca à literacia para este assunto e o GPP, o Gabinete de Planeamento de Políticas e Administração Central, olha também para isso como uma área de atuação, a da própria formação dos consumidores e sensibilização para este problema?
Sim, é uma área que não foi muito trabalhada, como disse, na primeira estratégia, porque queríamos criar as bases para a temática do desperdício alimentar, mas é algo que nós, com a nova estratégia, queremos que seja o foco. É o consumidor, porque percebemos que é onde há maior desperdício e nesse aspecto, também é o mais difícil de chegar, porque é o mais desagregado. Nós temos o retalho, a restauração, a indústria está concentrada, o consumidor somos 10 milhões e as próprias indústrias também são consumidoras. É muito mais difícil de chegar. Nós temos público-alvos completamente diferentes. Nós não podemos trabalhar da mesma forma com os jovens e com a população em idade escolar, como trabalhamos com o idoso ou com o trabalhador normal, como classes sociais também, que é completamente diferente a maneira, a abordagem ao fator comida e é um desafio que temos, mas que queremos abraçar e pretendemos trabalhá-lo.
Cristina, muito rapidamente, estamos aqui a ficar sem tempo, mas queria pedir-lhe se tinha alguma sugestão, uma ação simples e concreta que cada consumidor, que cada família pode fazer neste Natal para evitar este indesejado desperdício.
Há várias ações, mas eu vou enumerar então: confeccionar pratos a partir das sobras da ceia de Natal, por exemplo.
Está a falar da roupa velha, não é?
Estou a falar da roupa velha, sim. E temos por hábito, nesta altura, visitar a família e jantar ou almoçar fora de casa e nada melhor do que levar a nossa caixa reutilizável para aproveitar algumas sobras do jantar ou do almoço para podermos levar para a nossa casa e aproveitar para novas refeições.
É uma ótima ideia. Eu tenho por hábito pedir sempre as sobras nos restaurantes, mas tenho que mudar, se calhar, o chip ainda para levar a embalagem para trazer. Essa é uma boa ideia. Cristina Câmara, Francisco Caldeira, muito obrigado por terem vindo aqui ao "Vozes Circulares", numa conversa que abordou hoje o desperdício alimentar, através da distribuição, mas também dos consumidores, as políticas públicas e o papel de todos no combate a esse desperdício. O "Vozes Circulares" é o podcast do Observador, em parceria com a Associação Smart Waste Portugal. Este episódio contou com o apoio da APED. Junte-se a nós no próximo programa e continue a acompanhar este debate sobre sustentabilidade e economia circular.