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Seja bem-vindo ao "Vozes Circulares", é o podcast do Observador, em parceria com a associação Smart Waste Portugal, onde exploramos as soluções que estão a transformar a forma como produzimos, consumimos e gerimos recursos. Hoje vamos falar de um tema mais invisível, mas absolutamente decisivo: o papel do financiamento público na transição para uma economia mais sustentável e mais circular. Este é um episódio que conta com o apoio da PNO Innovation Portugal. E conosco estão hoje Mariel Moreno, consultora de inovação da PNO Innovation Portugal, e Ana Rita Antunes, coordenadora executiva da Coopérnico, uma cooperativa de energias renováveis, que também vamos conhecer melhor já de seguida. Muito obrigado às duas por terem vindo à rádio do Observador. Começaria aqui pela Ana Rita Antunes. Ana, o que é a Coopérnico? Que modelo é este? Pelo que percebi, muito assente na participação dos cidadãos. E como é que este tipo de abordagem também contribui para um sistema energético mais sustentável e, no fundo, mais justo?
Obrigada pelo convite. A Coopérnico é uma cooperativa de energias renováveis. Somos a primeira em Portugal, mas somos uma entre mais de duas mil cooperativas em toda a Europa. O que nós fazemos é exatamente o que fazem outras empresas do setor, mas como cooperativa que somos, temos uma base de cidadãos que fazem parte da nossa cooperativa e com quem partilhamos os lucros e as oportunidades dos investimentos em energias renováveis. Para além disso, da parte da produção de energia renovável, em que a Coopérnico pede dinheiro emprestado aos seus membros e não à banca ou a fundos de investimento, e com eles partilha os juros por esse empréstimo, também temos a parte da comercialização de energia renovável. Ou seja, toda a gente que queira ter um contrato numa entidade ou numa empresa social sem fins lucrativos, pode tê-lo na Coopérnico. Isto faz com que as nossas opções também sejam mais justas. Nós podemos ir a uma assembleia-geral, está a imaginar, ir a uma assembleia-geral da sua comercializadora para discutir também o modelo em que fornecemos energia elétrica aos nossos cooperantes lá em casa e às empresas que querem fazer parte da Coopérnico.
Mariel Moreno, de forma resumida, queria tentar perceber também o que faz a PNO Innovation Portugal e porque é que o financiamento público é tão determinante para tirar projetos sustentáveis do papel.
Sim, claro. A PNO Innovation é uma consultora e nós ajudamos organizações a transformar ideias inovadoras em projetos concretos através do financiamento público. Trabalhamos sobretudo com inovação, sustentabilidade e tecnologia, apoiando desde a estratégia até à execução das candidaturas. E o financiamento público é importante porque reduz o risco e acelera o investimento. Muitos projetos sustentáveis exigem custos iniciais elevados e o retorno a longo prazo, e o financiamento público torna-os viáveis e ajuda a levá-los mais rápido ao mercado.
Ana Rita Antunes, no caso concreto das comunidades de energia, qual é que tem sido o papel do financiamento público? Sem este apoio, estes projetos seriam igualmente viáveis?
Nas comunidades de energia, a Coopérnico é uma cooperativa de energia e como cooperativa que é, é considerada também uma comunidade de energia, neste caso, uma comunidade de energia nacional de cidadãos. As comunidades de energia são viáveis sem financiamento público. A questão é que o financiamento público ajuda, tal como a Mariel estava a dizer, ajuda a acelerar o retorno do investimento, principalmente no setor doméstico, onde a partilha da energia é feita, portanto, a produção de energia fotovoltaica durante o dia, e como nós não estamos em casa durante o dia, o retorno do investimento em nossas casas, quando investimos em autoconsumo, seja individual, seja coletivo, é mais longo. Portanto, o financiamento público pode ajudar as famílias a terem este retorno de investimento mais cedo. Ainda por cima, o financiamento público, num país onde os rendimentos das famílias são baixos, não é como na Europa Central ou na Europa do Norte, onde há mais disponibilidade financeira das famílias, o financiamento público para sistemas fotovoltaicos e para apoio à criação de novas comunidades de energia, principalmente onde estão envolvidas muitas famílias, pode potenciar e alavancar o surgimento de mais comunidades de energia.
Mariel, do lado da PNO, trabalham precisamente esta ligação entre as ideias e o seu financiamento. Onde é que estão hoje as maiores dificuldades para as organizações que querem aceder a estes fundos?
As maiores dificuldades estão na complexidade dos programas e também na falta de estas organizações de ter tempo e recursos para fazer estas candidaturas. Muitas vezes é difícil também perceber qual é o financiamento certo e alinhar a ideia com os critérios exigidos. E também é um processo muito burocrático e competitivo, que torna estas candidaturas mais desafiantes.
Ana Rita Antunes, o financiamento público também tem aqui uma dimensão social, diria. De que forma é que ajuda a tornar esta transição energética mais inclusiva e, por isso, também mais acessível a mais pessoas?
O financiamento público é essencial para que todos consigam entrar numa comunidade de energia e estarem todos em pé de igualdade. Se nós olharmos para as famílias em carência económica, nós percebemos que se as famílias da classe média já têm dificuldade, em que sobra dinheiro ao final do mês para investir em energias renováveis, muito mais as famílias em carência económica ou em vulnerabilidade económica. Portanto, o financiamento público aqui deve ser também direcionado e se for direcionado para as famílias em vulnerabilidade económica, vai ajudar que numa comunidade, num prédio, numa rua, numa freguesia, todos possam ter acesso a uma comunidade de energia em pé de igualdade e não em função da sua disponibilidade financeira para entrar numa.
É uma espécie de nivelamento, ajuda a fazer esse nivelamento.
Exatamente.
Mariela, a economia circular implica mudanças profundas nos modelos de produção e de consumo. Temos visto isso noutros episódios deste podcast. O financiamento público, e acho que já disse um pouco isto também na resposta anterior, é de facto um acelerador desta transformação?
Sim, claramente. E isto porque a economia circular exige investimento, exige inovação e uma mudança sistémica. E também tudo isto implica um risco às organizações. Então, o financiamento público funciona como um acelerador, porque reduz esse risco e também é fazer uma experimentação com o dinheiro que se obtém para poder fazer esta implementação. E então, por tudo isto, apoia esta transição para a economia circular.
Ana Rita Antunes, já falamos aqui um pouco destas comunidades, mas queria que me pudesse dar aqui alguns exemplos mais concretos do impacto que estes projetos têm a nível local, não só ambiental, mas também económico e social.
Em Portugal, ainda há poucas comunidades de energia renovável a nível local. Existem quatro, uma delas, a mais conhecida, é a comunidade de energia de Telheiras, aqui em Lisboa, e eles já estão a partilhar energia de painéis fotovoltaicos instalados no edifício da Junta de Freguesia do Lumiar. E neste momento, o que conseguimos ver é que as pessoas estão mesmo a reduzir a sua fatura de energia elétrica e com isso conseguem ter maior estabilidade dos preços e de quanto vão pagar ao longo do tempo. Não só estão a reduzir a sua fatura de energia elétrica, como percebem melhor o que vão pagar ao longo do tempo e durante os próximos anos.
Mais previsível.
Mais previsível. Isso é muito importante, porque como já vimos com a guerra da Ucrânia e agora com a guerra do Irão, estes preços que aumentam e as variações dos preços da energia também impactam as famílias e o que as famílias pagam pela eletricidade. Neste caso, o que nós estamos a falar não é só de reduzir a fatura de energia elétrica, também torná-la mais estável ao longo do tempo.
Mariela, estamos a investir bem os fundos disponíveis, estamos no caminho certo para acelerar esta transição?
Sim, acho que sim. Estamos a dar passos importantes, mas ainda há margem para melhorar. Agora há um foco muito grande na sustentabilidade, sobretudo impulsado pela legislação europeia. Por exemplo, o tema dos plásticos é algo que se está a ver muito financiamento e tudo isto tem sido impulsado pela diretiva dos plásticos de uso único ou a diretiva de ecodesign. E agora há muito financiamento para reduzir os plásticos, para melhorar os sistemas de reciclagem.
Mas há ainda, se calhar, falta de comunicação ou de informação, algum desconhecimento, por exemplo, nesse caso particular que falou agora?
Sim, as empresas que estão metidas no tema sabem destes financiamentos, mas também abusam disso. E também há, pelo contexto político e também pelas questões que estão a passar agora, algum ceticismo também. Então, entre este ceticismo e esta questão política, às vezes isto abranda o ritmo. Aunque as empresas queiram fazer, não sabem se é o momento certo para fazer, porque há outras situações.
Algum receio?
Sim, algum receio. É bom investir isto, investir nisso ou não? É por isso que está a abrandar um pouquinho o ritmo. E acho que também toda esta questão de simplificar os processos, de acelerar as decisões, é importante para que o financiamento chegue a todos, não só às empresas grandes, mas também a pequenas empresas. O rol das pequenas empresas é muito importante e às vezes o financiamento não chega a eles por este receio.
Olhando também para o futuro, estes projetos muitas vezes começam como projetos piloto, mas o que é que é preciso para que se ganhe mais escala e até, se calhar, fazer chegar alguns destes projetos piloto a outras zonas do território ou a todo o território?
É importante que se envolva toda a cadeia de valor, todos os atores que estão envolvidos. Como estava a falar, não é somente uma questão de economia circular, que é uma questão sistémica, o financiamento público também é uma questão sistémica. E nós temos que envolver todos estes parceiros, todos estes atores, para poder colaborar entre eles. Isso é muito importante para poder replicar as boas práticas. E também deve haver um compromisso muito claro e real das empresas. E não somente das grandes empresas, como estava a falar, também das pequenas empresas, também do setor público. É importante também ter parcerias entre o setor público e o setor privado. E tudo isto vai ajudar a escalar e a criar mais impacto.
Ana Rita Antunes, estamos quase a chegar ao final do nosso tempo, mas se tivesse de identificar um fator-chave para acelerar esta transição sustentável e circular em Portugal, qual seria? Fala-se muito, e a Mariela também falou aqui um pouco, do excesso de burocracia, alguma falta de literacia também para o assunto, poderão ser fatores-chave para acelerar esta transformação?
Sim, eu diria que a simplificação é importantíssima. Podemos dizer que é excesso de burocracia, mas também podemos dizer que aquilo tem que ser simplificado. Cada pessoa que vive num prédio tem que conseguir fazer um autoconsumo ou instalar um sistema de autoconsumo para o seu prédio de uma forma tão simples como uma pessoa que viva numa vivenda e queira fazer um autoconsumo individual. Isso é fundamental. E é fundamental também provar que é viável do ponto de vista económico e faz sentido do ponto de vista económico. Portanto, a simplificação e a literacia estão de mãos ligadas uma com a outra. Nós não podemos querer que todos os cidadãos precisem ou percebam de energia elétrica, e todos eles precisam de energia elétrica. E nós queremos que o país também aposte na produção descentralizada e no autoconsumo. Portanto, para trazer os cidadãos para dentro desta transição energética, através das comunidades de energia renovável, é preciso explicar e informá-los sobre as vantagens.
Muito bem, muito obrigado, Mariela Moreno e Ana Rita Antunes, por esta esclarecedora conversa sobre o papel do financiamento público na economia circular. É um episódio que também nos mostra que a transição para esta economia mais circular não depende apenas da tecnologia ou das boas intenções, depende também de investimento, de visão estratégica e de colocar as pessoas no centro das soluções. Este foi o "Vozes Circulares", o podcast do Observador em parceria com a Associação Smart Waste Portugal. Este episódio contou com o apoio da PNO Innovation Portugal. Junte-se a nós no próximo programa. Continue a descobrir tudo sobre sustentabilidade e economia circular.