Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Seja bem-vindo ao "Vozes Circulares", é o podcast do Observador, em parceria com a Associação Smart Waste Portugal, onde damos voz às pessoas e projetos que estão a acelerar a transição nacional para uma economia cada vez mais circular. Neste episódio, vamos falar de construção sustentável, reutilização de materiais e regeneração urbana. Afinal, é possível construir edifícios mais eficientes, preservando recursos, reduzindo desperdícios e valorizando aquilo que já existe? A resposta passa por projetos inovadores que mostram que a economia circular também se constrói em betão, em madeira, com patrimônio e com comunidade. Este é um episódio que conta com o apoio da Mota-Engil SGPS. E conosco estão hoje Margarida Barbosa, a gestora de projeto da Emerge, Mota-Engil Real Estate Developers, e também Jorge Sobrado, vereador da Cultura da Câmara Municipal do Porto. Muito obrigado aos dois por terem vindo à rádio Observador. Começaria pela Margarida Barbosa.
Obrigada.
Margarida, este projeto, o Modo, tem sido apontado como um exemplo de construção circular em Portugal. O que é o Modo? Para quem nos ouve, o que o distingue de um projeto de construção mais convencional?
Olá, boa tarde. Antes de mais, agradeço o convite à Smart Waste e ao Observador e ao seu vereador por estar aqui presentes conosco. O Modo, eu acho que eu passava também já por explicar que é o matadouro ou destino urbano e, portanto, este é um projeto bastante emblemático da cidade e que nós temos uma responsabilidade nesse sentido, porque achamos que temos que mostrar as melhores práticas do grupo e dar também a conhecer o nosso trabalho. E de fato, é um projeto que eu tenho tido o privilégio de acompanhar ao longo destes quatro anos e permitiu-me perceber exatamente o que é economia circular, não apenas na reutilização dos materiais, mas na forma como decidimos preservar o patrimônio, a identidade e o valor deste lugar para o futuro. Portanto, eu diria que não é um projeto convencional, porque não se mede apenas nos metros quadrados, prazo e custo, mas sim mede-se pelo impacto que tem na cidade, na regeneração, na preservação do patrimônio. E estes projetos levam-nos a pensar de início o que temos mesmo de demolir ou o que conseguimos transformar daquilo que já existe. E foi um pouquinho esta a diferença deste projeto, de pensar o que será demolir, regenerar, apagar a história ou continuá-la, e que pretendemos que fosse um recurso para o futuro, e que deixasse um legado, portanto, alterasse a sua função passada e tivesse um novo futuro. Portanto, a circularidade aqui é mesmo este novo futuro daquilo que já existe e também de prolongar a vida dos edifícios com uma nova forma.
Está estampado neste projeto, essa reutilização. Já vamos conhecê-lo um pouquinho melhor. Jorge Sobrado, do ponto de vista da cidade, por que faz sentido apostar cada vez mais na reabilitação, na reutilização de edifícios existentes, em vez dessa ideia de construir sempre de raiz?
Sim, eu acredito que as cidades são cada vez mais partidárias de um reencontro com a sua memória urbana, que é também uma memória simbólica e é também uma memória afetiva. Eu não vivi na zona de Campanhã, mas frequentava muito a zona de Campanhã, porque alguns dos meus melhores amigos eram de Campanhã e vai ser comovente voltar a entrar no edifício do matadouro, que fazia parte, e que faz parte da paisagem urbana do Porto e que foi amputado pela sua decadência, pelo seu encerramento da cidade. E portanto, é a preservação da memória, como se a cidade fosse um palimpsesto, um texto que está escrito e que nós vamos raspando, vamos reescrevendo, mas as marcas ainda permanecem, as marcas do tempo ainda permanecem. E permanecem não apenas na paisagem, permanecem numa memória coletiva. Há muitas famílias no Porto que tiveram os seus antecedentes a trabalhar naquele matadouro. Há muitos portuenses que viveram nas imediações do matadouro. Há memória viva em carne e osso. E, portanto, essa dimensão é aquilo que nós chamamos de patrimônio. Por outro lado, há uma inteligência construtiva em muitas indústrias da cidade do Porto e em muitas indústrias do país. Ou seja, eu acredito que a Mota-Engil, os nossos parceiros, os arquitetos, os projetistas, encontraram também no matadouro motivos de preservação que têm a ver com a inteligência construtiva. Na verdade, aquilo que nós podemos chamar de inovação não se baseia numa espécie de niilismo, tábua rasa e de fazer novo, mas em encontrar na tradição e no patrimônio a inteligência que, no fundo, responde às expectativas do nosso tempo, que é o bem-estar, a identidade, o sentido de pertença ou a comodidade.
Muito bem. Margarida Barbosa, um dos aspectos que me pareceu mais interessante deste projeto foi a recuperação de materiais existentes, nomeadamente da madeira de riga e de 1000 toneladas de pedra que foram reutilizadas. Que importância teve esta decisão, quer do ponto de vista ambiental, quer também do ponto de vista econômico, imagino?
Sim, nós sentimos que além de preservar, também queríamos manter os materiais no lugar e que tudo se transforma e que eles poderiam continuar a fazer parte da nova vida do edifício. E, portanto, isto desde logo começou com uma inspeção diagnóstica ao edifício, que é talvez o pilar base de qualquer projeto de reabilitação, que permite conhecer o estado dos materiais, saber o que existe E ver de que forma é que vai ser conduzido o projeto e aquilo que pode aproveitar ou não. Obviamente que tem este estudo todo por trás, tem que começar até antes da fase de projeto e, portanto, muitas vezes isto não é permitido, porque muitas vezes os arquitetos só chegam ao lugar mais à frente. E, portanto, neste caso, teve aqui uma relação de proximidade entre a Emerge e, portanto, real estate como dono da obra e a Mota-Engil, que permitiu ver aquilo que se poderia preservar, ver qual era a importância dos materiais e definir esta estratégia de preservação. Houve aqui alguns exemplos.
Tiveram sorte, encontraram muito material que foi reutilizado.
Encontrámos muito material em muito bom estado, e que também permitiu adotar as metodologias de projeto, se preservava o interior, o exterior, o que era, no fundo, um grau de hierarquia de valor. Mas houve aqui um conjunto de materiais, dou o exemplo da telha, que a equipa projetista pretendia reintegrá-la no novo pavimento e até dar uma tonalidade da cor da telha e depois com ensaios de resistência verificou-se que isso não seria possível. Portanto, há aqui uma tentativa e erro de algumas coisas que é preciso ir afinando. E também aquele respeito dos materiais que o Kengo Kuma e a equipa trouxe da cultura japonesa, que sentimos que também nisso se traduzia este respeito.
Tinha uma questão mais à frente, precisamente sobre isso. Jorge Sobrado, a Câmara Municipal do Porto colaborou através do Banco de Materiais. Gostava de saber que banco é este. Como é que surgiu esta parceria e que mensagem também transmite à forma como devemos olhar para os materiais de construção?
O Banco de Materiais é um serviço, é um projeto do Museu do Porto e do Departamento de Patrimônio Cultural da Câmara do Porto. Ele já tem algumas décadas e é um serviço que é uma espécie de guardião da memória da pele da cidade. Na verdade, as cidades têm pele como qualquer ser vivo e vão mudando a sua pele, as suas fachadas, aquilo que nós chamamos o patrimônio integrado, que são os azulejos, os ferros forjados.
Isto fica no banco de materiais?
Exatamente. Quando ele não é reintegrado numa determinada obra, por não ser possível, por não ser recomendável ou porque os novos usos não o permitem, e isto tem a ver também com o lugar, com a legislação, evidentemente, em sítios classificados, nós levamos até ao limite, digamos assim, as exigências sobre os promotores no sentido de integrar e de preservar os elementos que fazem parte daquilo que é família do patrimônio integrado, estes elementos que fazem a pele dos edifícios e a imagem dos edifícios. Quando isso não é possível, a Câmara Municipal serve de guardião, ou seja, recolhe, inventaria, cuida, preserva e depois devolve a promotores privados ou a promotores públicos, no sentido de eles serem reintegrados em contextos adequados. Por exemplo, no caso do Matadouro, é interessante, o Banco de Materiais trabalhou em relação com o nosso parceiro, com a Mota-Engil, no projeto, recolheu um conjunto de mosaicos, mosaicos de parede, mosaicos de pavimento, mosaicos de friso, os mosaicos hidráulicos, recolheu ferros de varandins, de proteções de grade.
Que vão estar neste projeto.
Aqueles que não forem reintegrados no projeto, e há muitos que não vão ser reintegrados, as telhas, por exemplo, que há pouco a Margarida, quero saudá-la também, Margarida Barbosa, aqui referia, vão ser recolhidos no banco e depois vão ser devolvidos a alguns projetos. Por exemplo, eu aqui posso anunciar que alguns desses elementos, ao nível dos gradimentos ou dos mosaicos, serão reintegrados em dois parques da cidade. O parque ali mesmo vizinho, que é o Parque de São Roque, ou o Parque das Virtudes. Claro que isto exige um olhar cuidado. Estas reintegrações têm que fazer sentido no contexto patrimonial arquitetônico. Todavia, é um princípio sagrado da chamada política da economia circular, que é a reutilização. E, portanto, o Banco de Materiais é esse grande guardião, faz este serviço há muitos anos. Aliás, abrimos muito recentemente, há semanas, as novas exposições permanentes do Banco de Materiais e é uma viagem pelo tempo das cidades.
Tem os neons da cidade? Gostava muito de ver isso.
Tem os neons da cidade, como tem os azuis, como tem obras de arte pública que desapareceram por algum motivo e que estão ali reapresentados e que um dia vão ser devolvidos num bom contexto.
Posso visitar isso?
Claro.
Onde é que é?
No Palacete Viscondes de Balsemão, na grande Praça de Carlos Alberto, uma das grandes figuras da cidade do Porto, um rei italiano, um herói romântico da cidade do Porto. Portanto, na Praça Carlos Alberto é possível contactar o Banco de Materiais e duas belíssimas exposições dessa pele da cidade do Porto.
Belo susto e bela ideia. Queria avançar aqui um bocadinho, Margarida Barbosa, e ir a esse conceito japonês komorebi, é assim que se diz, espero que esteja a pronunciá-lo da melhor forma. Significa, no fundo, a luz que atravessa as árvores. Como é que uma ideia que aparentemente é tão conceptual acaba por influenciar decisões muito concretas da arquitetura e da própria construção?
Sim, é muito interessante esta metodologia que o arquiteto Kengo Kuma utiliza nos seus projetos, de perseguir uma ideia conceito de início e depois como é que ela se transforma. E aqui a cobertura acaba por ser não só um elemento emblemático que unifica todo o conjunto do Matadouro, porque nós efetivamente tínhamos edifícios de reabilitação, construção nova, uma ponte, e tudo isto é preciso unir e tornar coerente e dar uma coesão. Portanto, esta cobertura vem dar este elemento que também é impactante e acaba por ser o ícone do projeto. Portanto, é muito bonito. Isto ainda não está aberto ao público, apesar de todos os eventos que já temos feito, que já acaba por ser um bocadinho conhecido Mas é muito bonito estar nas praças sob efeito da cobertura, que tem o efeito de filtrar a luz como se fosse uma floresta, que filtra a luz que vem da copa das árvores, e sentir esse espaço de recolhimento. E sentimos hoje em dia que, dadas as alterações climáticas que estamos a sentir, traz um sombreamento que torna o espaço muito agradável e aprazível, que era a ideia inicial de trazer as pessoas para umas praças no exterior, não terem que ir a shoppings e estarem, no fundo, num espaço público com qualidade, onde se possam sentir bem e que se apropriem deste espaço.
Jorge Sobrado, Portugal tem condições para multiplicar projetos deste gênero? O que é que falta para que a construção circular deixe de ser a exceção e passe a fazer parte da regra?
Tem condições e tem o dever. Na verdade, o futuro terá memória. O futuro tem que ter memória. Eu diria que talvez um dos pressupostos ou um dos pilares de uma política de economia circular, que é mais eficiente, é mais inteligente, tem a ver com a consciência histórica. Ou seja, termos a consciência que os lugares não são meros instrumentos, eles inscrevem tempo, inscrevem usos, inscrevem hábitos e, portanto, na base de uma política de cidade, na base de uma política de regeneração urbana, na base de uma política urbana, tem que estar o sentido da memória. É isso que cola as pessoas a um território. É isso que dá um sentido ao território e que dá também aquilo que nós designamos por identidade, que é essa cola. E eu julgo que no caso do Matadouro, poderemos cumprir e ter um bom exemplo dessa política, sem negar aquilo que é o rasgo da arquitetura contemporânea e novos usos. Por exemplo, o Matadouro, a Margarida já falou do hub empresarial. Eu julgo que é muito interessante, é quase utópico, que no hub empresarial exista um centro cultural. São os dois pulmões a viver no Matadouro, a sua memória de empresas, já com outros usos, já não estamos no matadouro tradicional, com novos usos, porventura mais inovadores, mais tecnológicos, mas conviver num centro empresarial, um centro cultural, com valências de criação artística, de livro e de leitura, de arte contemporânea, de arte urbana. E isso é também conferir essa consciência histórica, essa consciência humana aos lugares, essa ética a uma política de regeneração urbana.
30 segundos, Margarida, não sei se consegue dizer-nos, se olharmos aqui para os próximos anos, qual é que gostaria que fosse a maior transformação na forma como concebemos, construímos e recuperamos estes edifícios em Portugal?
Eu gostava de sentir que deixamos de perguntar ou de questionar este tema da circularidade e fosse algo que já estivesse intrínseco em todos os projetos e que já tivesse, portanto, uma construção, já fizesse parte.
Já fosse assimilada.
Já fosse assimilado, sim, já fosse o novo normal.
O modo este matadouro da cidade do Porto é um exemplo disso mesmo. Queria agradecer aqui à Margarida Barbosa e a Jorge Sobrado por esta conversa. No "Vozes Circulares" a construção é, de facto, um dos setores com maior impacto na utilização de recursos, mas também um dos que oferece maiores oportunidades para inovação, reutilizar materiais, prolongar a vida dos edifícios, envolver as comunidades. São passos fundamentais para construir cidades mais sustentáveis, mais resilientes. Este foi o "Vozes Circulares", podcast do Observador em parceria com a Associação Smart Ways de Portugal, num episódio que contou com o apoio da Mota-Engil SGPS. Junte-se a nós no próximo programa. Continue a descobrir tudo sobre sustentabilidade e economia circular.